
OBRAS PRIMAS CONTEMPORANEAS  PUBLICADAS: 
A aventura em Budapestel por Ferenc Kormendi.
Eu sou a sua mulher, por Hellen Grace Carlisle.
Incio de Loyola, ditador das almas, por Ludwig Marcuse.
O Doutor Serocold, por Hellen Asthon .
Carne da minha carne, por Hellen Grace Carlisle.
A vida inteira, por Sally Salminen.
Dois vivos e um morto, por Sigurd Christiansen .

FERENC KORMENDI
A AVENTURA EM BUDAPESTE  
Traduo de CSAR DE FRIAS  
Livruia Editor&  GUIMAR&ES & C . ' &, R. da Miseric&rdia, 70 LIS&OA.
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O ttulo deste romance o original hngaro &: &3udapesff &1& n Todos os direitos sbre esta obra para Portugal e Brasil pertencem  Livraria GUIMARAES & C.&, Rua da Misericrdia, 68 - LISBoA  
Composto e impresso na Imprensa LUCAS & C.
sg, Rua do l)i&rio de Notlcia&, 61--LISBOA  

PREFACIO

Inaugurando a nossa coleco de "Obras primas contemporneas", obteve ste romance um dos mais decisivos xitos do mercado livreiro portugus, registados nestes ltimos anos. No s com singular brevidade se esgotoa a sua primeira edio como ainda depois persistiram os pedidos do livro, e isto em tal afluncia que tivemos de olhar o caso como imperativa intimao do pblico para que o pusssemos de novo ao seu alcance: eis por que &e, aps reviso do tradufor, hoje se reimprime.
Ficou dito na nota preambular da anterior tiragem de AAVENTURA EM BUDAPESTE tem uma istria a sublinhar-lhe o mrito. Mantm-se a oportunidade de referi-la, ainda que sumariamente.
Associados, em 1932, os principais editores inglses e americanos na fundao de um Prmio Internacional do Romance ("International Novel Competition&)l c entre nada menos que dois mil e quinhentos manuscritos, redigidos em muitos idiomas, que concorreram ao certame, foi ste, o da A AVENTURA EM BUDAPESTE, que orespectivo e exigente Jri elegeu o digno do cobivel Prmio. O seu autor--como tardou em saber-se--era um jovem hngaro, ie data na precria situao de desempregado.


bancrio, at ento desconhecido no mundo das letras e qui ignorante le prprio da pujana do seu talento. De sbito viu-se, assim, elevado aos cumes da fama e convertida a sua penria em fortuna: bastar dizer-se que imediatamente A A VENTURA EM BUDAPESTE foi traduzida pera quinze lnguas europeias e americanas, Aberta diante de si to auspiciosa carreira, outras obras F. Cormendi se apressou a escrever, sem trair as responsabilidades impostas pela estreia, contando-se entre elas o curiosssimo romance O EQUIVOCO, tambm j traduzido para portugus e editado pela nossa Casa.
Encarando especialmente A AVENTURA EM BUDAPESTE  lcito preguntar: qual a razo do seu "fulminante" triunfo? A resposta  fcil: o haver neste romance "a pintura fiel duma poca", a do autor e a nossa, aquela que a Grande Guerra de 1914-1918 deixou juncada de escombros e de idiologias antagnicas, de costumes livres e de desenfreadas ambies. Arguto observador, psiclogo que consegue ver os homens e os facos como les so e que no hesita em descrev-los com verdade crua, o romancista elaborou um documentrio estupendamente fidedigno sbre a sociedade contempornea.
E achan- & do-se esta retratada com flagrancia nas suas pginas Fcomo em poucos mais romances dos &timos anos-- orque se a Hungria, pais natal de &ormendi, conhe- u ma&s cedo e com maior intensidade tda a gama s modernas convulsoes sociais, o certo  que todos restantes povos, mais ou menos vieram a sentir (e ntinuam sentindo) os seus efeitos, dos quais o mais r&vel  a incerteza do futuro para as gera&oes no- , em cuJos espiritos se fz como que um "vcuo de leranca",--o xito do livro e&a fatal. Dste modo e assim o assinalou por tda a parte a critica-- aparece no s como o mais palpitante romance &lungr&a em dramtica convalescen&a como tam- ! um dos mais vigorosos e de mais amplo signifi- 7 humano que as diversas literaturas de hoje tm duzido.
 eeditando-o, orgulha-nos verif icar que o nosso p- to apto como os alheios a apreciar as obras- as, de pronto Ihe pulseou o valor e Ihe concedeu nsagraco.
 A A V E N T U R A E M B U D A P E S T E  _  PRIMEIRA PARTE  CAPITULO I  Os "companheiros" reniam-se no caf pelas dez horas noite.
 Os "companheiros& eram rapazes de Budapeste,& de nta e dois a trinta e cinco anos, antigos condiscpulos liceu; o nico lao que os prendia agora era, por as- n dizer, apenns essa denominao de &companheiros&, la qual se designavam entre si. Noutro tempo, na es- ,la, haviam formado um grupo; pelo menos, a maior ,rte dos freqentadores destas renioes do caf pertenceu mesmo rancho. A promiscudade dos assentos escola- 3, a uniformidade de seus interssesl a semelhana de as aptidoes e, at certo ponto, a classe e a situao &nmica das respectivas famlias, tinham agrupado os &panheiros.
 uanto eram diferentes uns dos outros, ou quanto as- se haviam tornado, no o compreenderam seno no em que o banco da escola foi substitudo pela mesa nda de mrmore do caf, o tinteiro pela chvena, e Ido s dres de barriga perante as preguntas-de-al&i-.
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 10 A AVENTURA EM BUDAPESTE  beira suceaeu o mdo das responsabilidades. Pouco a pouco, alguns desertsram do grupo, enquanto outros, que a princpio se tinham mantido de lado, se Ihe juntaram.
 Nenhum dles se apercebeu, provvelmente, de que o tempo tinha quebrado, h muito, os laos outrora exis- tentes entre les, de que a sua unio assentava, afinal, no hbito cotidiano e no possua sombra de intimidade.


 Inicialmente, haviam sido dois ou trs a renirem-se por acaso, durante os dias turvos e inconscientes e as noi- tes de panico; mais tarde surgiram outros rostos conhe- cidos: a sociedade ampliara se. Havia os que " chucha calada& pediam umas coroas emprestadas ao vizinho; mas havia tambm quem, uma dada noite, chegava ao cafe num automvel novinho em flha. Um negociante de rno- veis que casara cedo trouxera a mulher junto dos compa- nheiros. Todos esquadrinharam, da cabea os ps, mas disfaradamente, a casadinha de fresco; trocaram entre Si olhares furtivos, dando estalos com a lngua como faria um gastrnomo perante iguaria delicada; depois, aproxi- mando as cabeas, mas sem mais cerimnias, puseran.-se a pormenorizar os encantos da senhorita. E:la a principio ficara embaraada, achando-se constrangida em tal com- panhia; mas, pouco a pouco, fra-se afszendo quilo, pu- sera-se a rir das faccias e das anedotas de liceu, e tinha acabado por se mover com naturalidade junto do lorpa do marido e sob os fogos cruzados dos olhares avidos ds- ses caloiros de vinte anos atrs. Um proferira a frase pe- rigosa "noite de npcias&, e, a partir do momento, era de temer a crepitao de inequvocos atrevimentos; o nego- ciante de mveis tinha-se erguido ento e o &uvenil casal despedira-se. Unanimernente, os "companheiros& haviam sentenciado: uma mu&her assombrosa ! Depois, o assunto ficara arrumado: o negociante de mveis no tornara a trazer a mulher e, passados tempos, le mesmo deixara de vir. Em eompensao, viera outro: Suhajda. Usava o bar- rete de pala dos estudantes, o seu porte era correcto; fa- cil era, todavia, notar que no gostava de dirigir a pala- vra a certos membros da sociedade. As vezes o nome A AVENTURA EM BUDAPESTE  dle andava em realce nos jornais, relacionado com as- suntos un&versitrios; murmuravam-se at, a seu respeito, certas historias; pretendia algum t-lo visto, de mistura com oficiais, num automvel que rodava pela estrada de Vacs . Mas, em suma, tudo aquilo no passava do "diz- -se&; e como Suhajda no aparecera ali, no primeiro ano mais do que uma ou duas vezes e como, alis, no inco- modara ningum, os outros no se inquietavam muito -com le. Depois, alguns dles no voltaram mais  mas em seu lugar surgiram outras caras conhecidas: Krschner regressado do cativeiro na Rssia; Tiszay, que apresen- tava a perna direita postia; Schwarz, com uma ligadura negra sbre o lho direito. Efectivamente, na sua maioria haviam sido chamados s fileiras logo aps o bacharelado- muitos serviram no me&mo regimento, mas a maior p2rte comeara a dispersar-se no dia imediato ao do banquete de fim de curso e no voltara a encontrar-se, salvo nessa poca, em redor da mesa do caf. Es&es seroes eram agra- aveis; por vezes,  certo, uma fala, uma palavra sofriam esvio ao ponto de evocarem as granadas da Flandres, as nncheiras piolhosas de Volhynia, as defesas de arame arpado de Krasnojarsk, a infecta cevada cozida e os tu- ultos das ruas, de triste memris;--porm imediata- ente a voz importuna era expulsa por uma nota de pre-.
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 editado bom-humor: &OIha l, Jos Polgr, lembras-te ,e uma vez, no corredor...& Durou isto trs ou quatro anos. Havia seroes vazios e eroes em cheio; numa dada ocasio, durante seis meses, numero dos "companheiros& elevou-se a vinte e cinco - &;ram, ento, no caf uma sala especial para as suas  &Quando, depois, alguns comearam a deixar de vir &ve necessidade de espaar as renioes. Passaram a -&tar-se &o de quinze em quinze dias e, aps o banquete decimo aniversrio do bacharelado, combinaram re-   &te em VacY urna priso clebre, onde depois da queda doi9mona Hungria eram encerrados os presos pol&ticos.
 12 A AVENTURA EM BUDAPESTE  nir-se apenas na quinta-feira ltima de cada ms. O seu nmero j no ia alm de quinze.

 Esse banquete do dcimo aniversrio fra muito con- corrido. Tinham faltado smente os que se encontravam no estrangeiro: Cseh, que era chefe de engenheiros numa fbrica de produtos qumicos de Francfort; Bortk, expe- dido para a Rssia em 1920, quando duma troca de pri- sioneiros; Kdr, que em 1919 desaparecera de Buda- peste e em que ningum mais tornara a pr a vista em cima; Szalay, secretrio na legao de Paris; Bamberger, que vivia em Hollywood com um tio, rei do cinema.
 Na noite do banquete haviam-se renido em massa pela ltima vez: quarenta e sete. Examinaram-se reciproca- mente quanto  indumentria; inquiriram-se mutuamente da sua sade, da sua situao; acolheram o relato das lamentaoes ostensivamente francas de uns e as gabaro- lices generosamente atenuadas de outros; pronunciaram brindes, gracejaram, riram, formularam amistosos votos a-despeito de se sentirem, por natureza, estranhos de todo entre si; e, dada a meia-noite, mais de um se levantou da mesa com o sentimento tranqilizador de que por cinco anos, at  renio seguinte, nada mais teria a tratar com aquelas criaturas.
 A-pesar disso, sses dez ou quinze rapazes continua- ram a encontrar-se, apegados uns os outros  fra de hbito e por causa do sero mensal, que  sua imagina- o aparecia como isento de cuidados.
 Viviam uns com desafgo; outros eram pobres; ha- via entre les casados e celibatrios, cristos e judeus, gracejadores e homens de-veras sisudos.
 Nenhum dstes rapazes de Budapeste conseguira uma carreira, e todos o sabiam perfeitamente sem que nunca falassem em tal.
 Nas fontes duns j brilhavam cabelos brancos; o alto da cabea doutros comeava discretamente a desplumar- -se; passavam-lhes por cima os anos e les no repara- vam seno numa coisa nica, ou seja que os &compa- nheiros& se divertiam, em volta de uma mesa redonda.
  A AVENTURA EM BuDAPEsrE  CAPf'rULO 11  No como de novembro, na sala de espera dum den- ista, sucedeu cair nas mos de Kelemen um jornal ilus- rado, em que determinada gravura Ihe provocou especial leno. Notava-se nela, ao fundo, um belo portal vedado &r arames, que tinha diant& uma espcie de tldo Um omem ainda novo trsjando de escuro encontrava-se na rente dsse toldo; defronte dle, uma multido de pessoas Igumas das quais com uniformes brilhantes. Por baixo da 3to havia a seguinte legenda: "Prto-Isabel, Cabo -- sr. A T. Cadar (n.? 1), o clebre arquitecto de origem &ngara, recebe as autoridades no acto da inaugurao da nova cidade-Jardiln, que abrange oitocantos pavilhoes cidade-jardim, cujo encanto se torna impossvel ima r e que sem parceira na superfcie do globo, est si- a setecentos quilmetros da antiga povoao,  beira- . Grande nmero de notabilidades da Africa do Sul _ saram-se a adquirir ou a alugar vivendas nesse s- para passarem as frias ou o &eek-end 1. Esta cidade m, com as suas edificaoes do mais moderno estilo eus magnQcos campos desportivos, o seu Casino e o , cinema, constitui verdadeiro ornamento e jia nica.
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 do o Imprio Britanico. Em virtude do sr. Cadar ter &nstruido e oferecido ao Estado um amplo sanatrio criancas e bem assim uma quantidade doutros edif- de utilidade pblica, o govrno consentiu que  nova a e fosse dado o nome da espasa do sr. Cadar ro Helena", e fez-se representar na inaugurao. Os ; a Com&ss&o Oficial so o general L. I. Baldwin ), Sir Robert Hall (n.? 3), governador civil de Parto- l, e Mrs. Elisa Beitner-Dirk, directora da Repartio  firn-de-semana&D, perodo de descanso, hoje generalizado a o o mundo, que vai do meio-dia de sabado  manha de.
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 14A AVENTURA EM BUDAPESTE  de Higiene do distrito (n.? 4). A seu lado, est Mrs. Helena Cadar (n.? S).& Kelemen olhou a fotografia, correu a vista pelo texto, e como no compreendia o ingls continuou a folhear dis- traidamente a revista; depois, como o olhar se Ihe deIi; vera involuntriamente na palavra "Hngaro", voltou a aludida pgina e releu tdas as palavras do texto que era capaz de entender: "Mr. A. T. Cadar, the famous archi- tect of Hungarian origin&. Aproximou dos olhos a revista, observou o homem que estava na frente do tldo, e em seguida rep-la em seu lugar.
 "Aposto que aqule idiota, com a flha de papel na mo,  o Tony l Kdr." Novamente examinou o texto e experimentou decifr-lo, sem o conseguir. Todavia, teimou em seguir at s pala- vras: &A seu lado, est Mrs. Helena Cadar (n.? 5).& &Isto aqui quere dizer a Senhora de Kdr; le deve-se ter casadou Voltou a fixar a imagem, tentou distinguir a figura da mulher, mas na pgina um tanto amarrotada nada mais apercebeu de que uma mulher de estatura me- diana, vestida de prto; no se Ihe podiaM apreciar as feioes. &Quem  que pde casar-se com um idiota da- queles ?& pensou, enquanto voltava a colocar a revista s- bre a mesa.
 Na sala de espera do dentista, uma mulher idosa estava sentada em frente dle, numa poltrona baixa; mantinha um leno de encontro  face direita e, de quando em quando, gen&ia doloridamente. Kelemen olhou a velha, a sua blusa preta com rendas, a sua saia de mau corte, as suas altas botas de couro enrugado, com os tacoes meio gastos. Seguidamente passou a vista pels parede do apo- sento, com uma coleco de retratos de famlia entre dois prstos de faiana.

 "Aqui est um que tambm no deve fazer grande coisa no negcio&, disse de si para si; e voltou a pegar na re- AVENTURA E& BUDAPESTE  &ta. Imediaamente a abriu na pgina da foto e, firmando olhar no rosto do "famous ar'chitect&, esforou-se em &onhe-lo pelas feioes. Estas no se apresentavam &is nitidas que as da senhora; porm, ao examinar o Ito com maior ateno, descobriu de repente que o ho- otografado apertava o brao esquerdo conra o busto, do o pelo cotovelo, e deixava pender a mo a&iante  com certeza o Kdr; reconheo a maneira como o bra&o"; e tornou a ver Antnio Kdr no cor- u do iceu, no vo duma janela, segurando n mo ai a um livro em que afocinhava mesrno du&ante o re- e deixando pender a mo esquerda exactamente da como se via ali, na gravura, enquanto os "compa- os" cantavam em volt&, em cro: "Pingin. ! Pingim" &' e, de facto, o jeito de Kdr colocar o brao lem- )astane os cotos das asas dstes pssaros le, sem dvida. Mas porque diabo aparece fotogrs- uma revista inglsa? Parece ter-se convertido em Tercondagem, pois at o nome est transformado  sobretudo ste "A. T." que se impunha a Kelemen o um tudo nada. aA. T.", que idiota ! Como nos de Edison: &T A. Edison" ou "G. B. ShauJ&.
 porque no sel que tenha outro nome prprio de &ntnio. Est-se a ver! Parte Fara o estran- az la fortuna, e ei-lo dotado de um segundo pre-.
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 l Que nulidade que era na escola !" ItOU com mpeto e rudo a revista em cima da mesa e a olhar agressivamente a velha. Esta precedia-o ula; eram quatro horas menos um quarto, ia che- lsado ao escritrio. A velha soltou um suspiro e ?ara le os olhos. Kelemen interceptou-lhe o olhar, teto, soltou por seu turno um proful&do suspiro e as passadas largas pela sala. "Kdar tornou-sP um figuro, de contrrio a revista no se ocupari  m& nAn I L& macada ! H vinte minutos que es l dentro.
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 16 A AVENTURA EM BUDAPESTE  algum, ao passo que comigo no gasta mais de dois mi- nutos ! Ainda se a paga fsse por visita. . . Mas as obu- raoes so a preo fixo !P ao passar junto da jardineira retomou bruscamente A revista e olhou-lhe o ttulo: "World's Sund&y Pictures.
 Colonial Edition, 5h &lay, i928.& Como viera ali parar ste &laga&ine ? Segurava-o na mo, dava-lhe voltas, olhando sempre para trs, por cima do prprio ombro. A velha continuava sentada, a cabea oculta nas mos. En- to Kelemen tossiu suavemente, acercou-se da ]anela e, num movimento rpido, arrancou a pgina que continha o retrato de Kdr, aps o que tossiu novamente, desta vez com bastante fra mais. Com prudncia dobrou entre os dedos a pgina arrancada, fe-la deslizar na algibeira e voltou a colocar definitivamente o 7na&a&tne sbre a mesa.
 Passava das quatro horas e meia quando chegou ao escritrio. Em primeiro lugar, pediu desculpa da demora ao chefe da seco--o sr. Czilek acolheu essa desculpa com um aceno de mo pouco amigvel--e em seguida sentou-se  secretria e extrau da gaveta B relao das cobranas do ms que l havia metido ao meio-dia.
 Examinou-a de m cara. As coisas caminhavam mal; neste ms, no entrariam em caixa nem sequer sessenta por cento das amortizaoes das letras; o velho ia fic&r furioso ! Encostou-se ao espaldar da cadeira, acendeu um cigarro e tirou da algibeira a fotogravura.
 Na sua frente estava sentado um rapaz baixo, de culos e com o rosto coberto de sardas.
 --Dize-me, Kramer, sabes ingls ? --Eu?--preguntou o outro, levantando os olhos.-- No, porqu ? --Ento, quem  que sabe ingl8s, c no escritrio ? --Quem ? A Nnzinha, da correspondncia.
 Efectivamente, a Nnzinha, da seco de correspon dancia, sabia bem ingls. &le descansou o cigarro, tiro da gaveta mais umas flhas de papel, introduziu no mei delas a gravura e ergueu-se.
  . AVENTURA EM BUDAPESTE17  --Que queres tu em ingls ?--preguntou Kramer por tras da outra secretria.

 le pigarreou, embaraado: - Um amigo meu enviou-me um artigo em ingls, que everam a respeito dle. Gostaria. . .--disse isto e sau Nenezinha, da correspondncia, era uma solteirona culos, histrica e suando por todos os poros. Encon- va-se sentada  mquina de escrever, os dedos a cor- [n-lhe o teclado com uma crepitao de metralhadora - Que e que voc quere ? Que  que quere ? l--excla u ela quando Kelemen Ihe parou 80 p.--De que se ? No me incomode; tenho carga bastante para uma oa endoidecer.
 elemen contemplou um instante, com desgsto silen- , os cabelos oleosos da solteirona, o seu dorso cur- & sbre a mquina.
  Vamos, Nnzinha--disse por fim--tenha calma n pequeno favor que venho pedir-lhe. Quere traduzir- esta meia dzia de linhas ?--c extraiu a gravura do das flhas de papel.
 Que  ?--e ela arrebatou-lhe da mo o escrito im- o.--Por amor de Deus, vocs vm-me maar com s dste gnero precisamente quando endoideo com.
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  Vejamos, minha Nnzinha, isto exige-lhe apenas um ,o, no mais... Entretanto, posso oferecer-lhe um  l pegou num cigarro, acendeu-o e expeliu o fumo em rente, numa coluna espssa e recta Devo ler smente, ou quere que escreva ?--pregun- mas, sem aguardar a resposta, ela traava j linhas numa flha de papel.
 sr. A. T. Cadar, o clebre arquitecto de origem hn- recebe as autoridades ..& Tome l; e agora deixe-me tranqila Obrigada pelo &o--proferiu ela sem tomar flego, e imediatamente &no4 de novo sbre o seu monto de notas esteno- .
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 18 A AVENTURA EM BUDAPESTE  --Muito agradecido, voc  um anjo--disse Ke!emen,que sea&astou um pouco da mesa da dactilgraa e se ps a ler a traduo do texto ingls.
 &Ah, ah, por conseguinte: ste &A. T. Cadar", ste clebre arquitecto de origem hngara, e Kdr. &o est m a coisa ! Uma cidade-jardin&, abran&endo oitocentos pavilhoes. Que quere isto dizer? A ci&ade-jardim  per- tena dle ! Oitocentos pavilhoes, u& sanatrio para crian- as, edifcios de intersse pblico oferecidos ao Estado ? !
 Em resumo, sim todo sse terreno  propriedade sua assim como os tais pavilhoes.. . e le baptizou a coisa com o nome da mulher ? Que grande animal ! Mas o ponto  que deve ter muito pso !& --Que est voc para a a murmurar ?--preguntou-lh a Nnzinha, voltando-se para le num movilTJento desen graado.--E porque est ainda a ? Porque  tanta estu pidez ? --Estupidez, isto ? O pequena, feliz de voc se se tor na&se secretria dle. Sabe do que se trata? Um amigo meu enviou-me esta foto, um antigo camarada de turma, Antnio Kdr, um tipo de &este, ol: le possui uma cidade inteira. . . em. . . onde diabo  ?--e procurou o norne d& cidade--em Prto-Isabel.
 - --Sim, sim, li isso, mas onde fica Prto-Isabel? --&as Indias, na Austrlia, sei l onde 7... Alis, olh- est designado aqui em cima,  na Africa do Sul.

 --Que diabo de expedidor  voc, que nem seque sabe uma coisa dessas & --Um expedidor, diz voc bem ! Como se a lista do vencimentos de letras de cambio tivesse a menor relaa com o Prto-Isabel ou Prto no sei qu l Mas onde supo voc que , em Prto-Mnurcio ou em Peste, que os Sc wartz ou os Weisz no pagam ? No  o prto que te importancia, minha filha. O que tem importancia,  farta bagalhoa do companheiro. Adeus, minha querid mais uma vez obrigado !
 ...e, assoprando o fumo do cigarro para cima da d ctilgrafa, voltou costas.
  VENTURA EM BUDAPESTE  a seco das tarifas preguntou por Kalmar, o chefe, ual porm no estava no seu gabinete.
 Voc tem um planisfrio ou um atlas ?--pediu a )s colegas daquele Procuraram e acabaram por des-  '& &r um atlas alemo na gaveta de Kalmar. Kelemenu-o nondice. Prto... Prto... Prto-Artur, PIto- Paz, Prto-de-Salau, Prto-Isabel; ste ltimo encon- 3e sob a cota K. 66. Buscou o mapa n.? 66. "Olha, &n Afr!ca, na Africa do Sul... C 2, c no extremo de P o ! E compreensvel: Kap-Kolonie, ou seja o Cabo, & inglsa. . . segundo creio. Em todo o caso, o tom de rosa, o que quere dizer ingls&.
 seguiu que Ihe emprestassem o atlas at o dia ime- IILt e regressou  sua mesa de trabalho.
 ando, depois das oito hor&s, deixou o e&critrio, ha o seu intimo certa inquietao. Estava um sujo de outono, chuvoso; le tiritava debaixo do seu -chuva de armao desconjuntada, cuja sda dei- passar a gua em muitos sitios. &Raios o partam !
 imbecil daqueles constri uma cidade na Africa do --l ao passo que eu sou obrigado a dobrar o espinhao . dsse asqueroso Czilek por trezentos e trinta pet&- Que o leve o diabo, a ste mundo rto e podre !& &antar do restaurantezinho econmico em tque era.
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 ista no Ihe agradava decididamente, naquela noite &u uns instantes na comida, aps o que afastou os com desagrado, e de novo lanou mo do atlas Isabel... E na Africa do Sul. A direita, isto  na riental. L,  certo, deve fazer calor. Mas isto no nta ainda muito&.
 ultou o texto relativo ao mapa.
 &o sul-africana... deve ser isto. Boers, Inglsec, E, Holandeses . . . capital Pretria -- diamantes, curo &rodutos agricolas; portos principais, Cidade do 8rto-lsabel. . . Em suma, deve ser uma bela toca-   & h1&ngara, cujo valor actual deve equival&r apro&ima-.
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 20 A AVENTURA EM BUDAPESTE  zinha; sessenta mil habitantes ! No h seno surprsaS, nesta vida. Um Tony Kdr possuir ali 800 moradias ! E se so apenas cubatas de pretos 7 Como sou &diota ! Por causa de simples cubatas no fariam tanto barulho como no-lo d a entender a gravura ! Pois bem, aqui esta, sei presentemente que Prto-lsabel  na Africa do Sul e que A T. Cadar  um arquitecto clebre e milionrio. Que pro- veito me pode dar isto, no fim de contas ? . . ." No dia seguinte restituiu o atlas ao sr. Kalmar. Todavia aquela histria de Kdr perturbara-o. Durante uns dias no pensou em tal, at voltar a achar numa algibeira do seu fato azul a pgina arrancada ao maga&ine ingles.
 Olhou a, voltou-a e tornou a volt la entre-as mos; & Ihe sabia o texto de cor. Que sorte extrordinaria, a da- quele animal ! Na escola tinha sido o ltimo dos imbecis.
 Mas so sempre sses que completam uma carreira...

 Devia ter milhoes. Oitocentas vivendas... Kelemen no compreendia. . . Alugava-as ou vendia-as? A cidade-&ar- dim era propriedade sua, ou tinha simplesmente construdo as casas ? E le, Kelemen, com os seus trezentos e trinta pengaes por ms !.. . Este contraste no cessava de per- segui-lo e, durante aqules dias, sentiu-se de muito mau -humor. Andr Kelemen, rapaz de Budapeste, de cabelo escorridos penteados para a nuca, faces plidas de que vive entre as quatro paredes dum escritrio, de boa altur e largo de ombros, porte um tanto indolente e fatigad atitude que se reflectia nos dois vincos serenos e amargo dos cantos dos lbios, Andr Kelemen, de trinta e do anos de idade, achava-se perplexo e confuso perant aquela carreira cuja noticia Ihe chegara por acaso. I&ss Tony Kdr emigrara certamente, logo que saiu da escol para o estranjeiro. Entretanto, Andr Kelemen... Lan ra-se na vida ai por 1916, quando a Junta de Reviso reformara devido a fraqueza geral, e dste modo o melh que tivera a fazer, obtido o bacharelado, fra por-se a aj dar o pai no seu comrcio de coiros em bruto. Os neg cios marchavam ento o melhor possivel. Depois, vie o comunismo. Quem podia pensar, nessa poca, em e : VENTURA EM BUDAPESTE &1  &r um emprego ? i&em valia a pena, dado o pouco que dena aurar o regime. Aps a ditadura do pro- do, o aspecto do mundo mudara de sbito. Havia io para uma pequena casa bancria de especulao ue os negcios caminhavam novamente muito bem ganhar dinheiro no msio de destroos, no se neces de experincia ou qualquer preparao; quando , de faro. E era isso que possua, justamente Os s lcitos no tinham importancia alguma; o essencial . oder manejar, por encomenda, certos papis e valo- tran&eiros. Durara isto alguns anos, at que o pe- o banco fraudulento, conforme as normas, abrira fa- , e a maior sorte de Kelemen no fra sequer a de er prso com o Conselho de Administrao, mas sim t ter podido salvar algum do seu dinheiro.
 dada altura, o velho morrera. A mae, e bem assim d as irmas, Carlota e Yoli, ficavam a seu cargo Mui nadamente, Carlota no prolongara as suas hesita- l em casar com um negociantezito de gneros alimen- dum bairro excntrico. Yoli era ainda, nesse tempo arta que no dava cuidados alm do bocado de po &mia e dos seus livros escolares.
 uanto durara o dinheiro a existncia tinha-lhe cor- 1& Ul facil e agrsdvemente, a vadiar em volta da.
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 a freqentar as corridas de cavalos, os cafs, e a car alguns negcios um tudo nada equvocos, ino- &s se realizados por outra via; numa palavra, no ido qualquer ocupao regular. Decorrendo os dias e-repente achara-se sem dinheiro, sem profisso e perana de encontrar onde se empregasse Como  , loucas diligncias se seguiram. Havia sempre e oeamente uma dezena de situa8es em vista; mas &va resultado. Era de admirar, em tempos to dif- Acabava de trocar a sua ltima nota de cem mil emprestada pelo cunhado, quando, finalmente, um migo do pai Ihe conseguiu colocao numa em- transportes. Contava vinte e seis anos, era pau ..a a obra sem ter vocao para nada, sentia a nos- .
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 2?A AVENTURA EM BUDAPESTE  talgia da vida bem ordenada e rica; no fundo, ficara enor- memente desgostoso por ser coagido a fazer de novo uma estreia profissional, a trabalhar com horrio fixo, a gara- tujar papel num escritrio com a perspectiva nica do ga- nho de dois milhoes de coroas por mes.
 Tudo isto de si horrvel e, sem dvida, a causa prima- cial do permanente descontentamento que surdamente o corroa havia anos e gue Ihe no concedia um so minuto de trguas. Seis anos, Senhor ! Que adquirira em seis anos ? Trezentos e trinta pen&s por mes, um chefe de seco rispido, descontente, coca-bichinhos, um trabalho aborrecido e sem horizonte !
 Os cabelos comearam de cair-lhe assustadoramente.
 Usava, desde a poca em que fra banqueiro, oculos com aros de tartaruga; j nada esperava dos homens e as coi- sas no Ihe despertavam maior intersse; via o futuro sob uma claridade tal que j nem achava proveitoso sonhar com o que havia de seguir-se.
 Andr Kelemen contava trinta e dois anos de idade; mas, sob a sua aparncia de rapaz de vinte e cinco, ha- viam-se acumulado cinqenta anos de fadiga e de tedio.
 Por isso mesmo, quando, oito ou dez dias mais tarde, a aludida fotogravura Ihe caiu de novo debaixo de mo, con- templou o Pingim diante do seu portal ricamente orna- mentado e pensou: "Meu Deus, como me tornei uma nu-  ade !&  Era a vinte e seis a ltima quinta-feira do ms: ness noite devia efectuar-se no caf a renio habitual dos c&,m panheiros. Do &Restaurante Burgus& Kelemen dirigiu-s a casa; despiu o vesturio que levava ao escritrio, m dou &e colarinho e envergou o seu belo fato azul. Em bo isto contrariava a norma de no haver cerim os fundilhos das calas do fato cinzento estava lustrosos e o casaco tinha os cotovelos no fio Hunka, sua hospedeira, trouxe-lhe uma esc  VENTURA EM BUDAPESI`I&:&3  alado; le serviu-se dela para tirar a lama dos sapa- apos o que procurou dar-lhes lustro esfregando COM o da velha cobertura do diva.
 teram.
 Entre--disse ela, e levantou-se. A criada da senho- unka transps a porta.
 &enhor--proferiu ela--o sr. Weisz est l em bai- gritou que no estavs para subir trs andares. Vendo qui no quarto, preguntou se o Senhor se encontrava sa e se ia ao caf.
 Est bem, menina. Diga-lhe que j vou jovem provinciana saiu, deixando a porta aberta. Ke- desprendeu do cabide o jaqueto e vestiu-o, en- to se dirigia para a antecamsra. O quarto dava para rredor sombrio e estreito; ao chegar  extlemidade, u-se de qualquer coisa, voltou atrs s apalpadelas u a electricidade. Procurou a gravura pesquizando, Iramente, nas algibeiras, depois em cima da estante os livros. Deba&de, porm. No era capaz de recor- e do sitio onde a tinha colocado. Forte arrelia & As lS constituam s lenga-ienga, ao passo que a gra- representava uma prova. Deixara-a, talvez, no escri-  .
.
 tou ao corredor; a porta da cozinha estava aberta ea, sentadano banco, preparava-se para moer caf ua, Julieta--disse le, ao mesmo tempo que me have na fechadura da porta da antecamara--no acaso uma fotografla no meu quarto ? &ooila interrompeu o trabalho e deu uns passos  ue espcie de fotografia, diga, se faz favor &--pre- ela com certo tremor na voz 8 fotografia em que se viam diversas pessoas.

 m, senhor, mas supus que a no queria j &to Deus ! ao menos, no a deitou fora, no?..
 que Ihe fez ?--encolerizou-se le.
 guei-a na parede do meu quarto. .. Eu no sa-  o senhor ainda precisava dela...
 24 A AVENTURA EM BUDAPESTE  --Est bem Ento no houve mal de maior. Vamosarranc-la del; depressa. Seguramente, tenho muita ne- cessidade dela--e um risinho Ihe cocegou na garganta.
 "O sr. A. T. Cadar, com as suas oitocentas vivendas, pre- gado na parede do quarto duma criada..." Seguiu a rapariga; a imagem encontrava-se pregada por cima da cama de ferro.
 --Ser precisa uma faca para tirar os preguinhos & disse a criada c&eia de zlo e pronta a correr  cozinha.
 --Que a leve o diabo,  faca !--e, sustendo a respira- o para no sentir o odor acre do cubiculo, arrancou  presso do prego a imagem.
 --No fique zangado comigo--insistiu a rapariga; le porem interrompeu-a: --No, no fico zangado, descanse... faz-me falta esta gravura, mas dar-lhe-ei outra... um postal ilus- trado . . .
 E sau J se encontravam renidos muitos companheiros  roda da grande mesa do primeiro andar.--Boa-noite, boa-noite !.. .
 O famoso Weisz ocupava-se nesse momento em nar- rar a histria do seu encontro com Flander, um dos ve- lhos camaradas da escola, oficial de carreira, que, os trinta e dois anos, ainda era tenente.; concluq que, por aqule andar, o homem seria promovido a general a pe- los cento e quarenta e seis anos. Kelemen mexeu o seu caf. Avistando em cima da bandeja de Szende um qua- drado de acar, estendeu a mo e preguntou: "Ds li- cena ? . . . & Depois, balouando o corpo na cadeira, atirou a frase: --Ouam, meninos, vocs lembram-se do Kdr ? --Kdar ? --Toni Kdr ? --O pingim ? --Ainda o dizes ? !. . . Se a gente se lembra dle ! . . .
 --Que Ihe aconteceu & Ningum mais Ihe ps a vista om cima.
  &VENTURA EM BUDAPESTE25  &_ Pois bem, escutem--prosseguiu Kelemen destilando palavras, com ar importante, atravs dos lbios;-- b pensariam vocs se eu lhes dissesse que, de ns to- foi le quem conseguiu a mais bela carreira ?. . .
 m curto silncio seguiu esta declarao.
 - Como foi o maior imbecil de todos ns, o caso no admiraris por ai alm--disse sentenciosamente o es-  Weisz.
 - V l--pediu Rna--conta-nos a histria de Kdr.
 elemen achou que a curiosidade geral no estava suficientemente excitada.
 Que diriam vocs de oitocentas moradias  beira-   Uma praia dsse tamanho nem sequer existe--de- u Szende.--Garfon ! Traze-me um Palatino e uma Iha para charuto.
 Em primeiro lugar, como sabes tu isso?--pregun- Krh fixando-o desconfiadamente atravs dos seus 9 de aros de metal branco.
 Sei-o... Olhem, aqui est...
 lemen tirou da algibeira a pgina do maga&ine, p-la l a mesa, passou sbre ela os dedos para desenrug-la.
.
 entou-lhe depois em cima o punho cerrado.
 Olhem bem isto !

 &stou o punho de s8bre o papel, inclinou-se um pouco 8 frente, tomou aqu]e na mo e p8s-se a ler em voz &: "Porto-lsabel, Cabo: A. T. Cadar, o clebre ar- :to, de origem hngara..." Conheces to bem o ingls que o possas traduzir rupto ?--interrogou Ztony.
 im--respondell le hesitante--sei uns pedacitos.
  Y&O _ & _ ,7 ,.. .
 Yes--disse Ztony, num tom distante e frio.--No, velho, no sei, no tenhas mdo, que no te farei ntas-de-algibeira . . . Mas deixa l ver isso !
 tendeu a mo para o papel. Este andou  volta da Todos Ihe pegaram, todos reconheceram Kdr pela &a como !e colocava o bra,co, cada qual tendo a sua.
.
 26 A AVENTURA E& BUDAPESTE  observao a fazer; todavia, todos estiveram de acrdo em declarar que se tratava de uma coisa sria e que, por conseguinte, Kdr havia sido enormemente favorecido pela Fortuna.
 --Eh l !--exclamou Simon inesperadamente--deixe- -me ver outra vez sse papel !
 Segurou-o na mo, voltou-o e tornou a volt-lo, apro- ximou-o dos olhos.
 A&inal, isto  um artigo publicitrio, pago a tanto a linha; mas no importa. . . Smente, no vejo data alguma na pgina. Quando foi publicada? Subitamente, em pensamento, Kelemen, reconstituiu a primeira pgina da revista, com o rclamo duma marca de pomada para calado e o ttulo.
 --Se bem me recordo, em maio de 1928. . . isto , h qusi ano e meio.
 --Oh, ento, o caso muda muito de figura--disse o pernalta &1Veisz, desconfiado e desdenhoso: dessa data para c, houve tempo de sobra para le abrir falncia.
 --Idiota--replicou-lhe Mrton.--Julgas que em tda a parte as coisas se passam como entre ns ? As condioes de fortuna, nesses pases, no so precrias ao ponto de carem ao menor spro.
 --Quais condioes ?--interrompeu l&na, que havia herdado do pai um estabelecimento de porcelanas, antigo e bem conceituado.--Tens apenas na idia as enormes fortunas que l existem ? Pois fica sabendo gue um indus- trial, um empreiteiro como aqule de que se trata, nada  comparado com um... plantador de arroz, por exemplo !...
 --Em Prto-Isabel--interrompeu severamente Krh-- no h plantaoes de arroz.
 --Sim, h;--replicou Rna imperturbvelmente--e, se as no h, h plantadores de caf ou de slgodo...
 --Mas, por favor, no compreendo onde queres tu chegar--disse Kelemen, j nervoso e como que of endido por conta de &dr--com o teu caf e o teu algodo ! No podes, a pesar de tudo, duvidar de que le tenha muito dinheiro ? !
  &AVENTURA EM BUDAPESTE27  K--Muito dinheiro... muito dinheiro... trala-se de saber que se entende por muito dinheiro.  relativo...
 r--Relativo. que iMbecilidade !--berrou um dles.-- dmitindo que cada uma dessas vivendas valha apenas dez pengces, isso perfaz j oito milhoes !. .. --Contanto &, bem entendido, tudo Ihe pertena.

 - O qu ? Dez mil pen&s ?--Compro-ta por quinze --exclamou outro, e um alarido de vozes ergueu-se lo por cima da mesa.
 --Eu s queria as contribuioes dle, nada mais do as contribuoes que paga, meu amigo !--ambicionou, lsiasta, Ammsn (ordinriamente duma distinco to fria lo calma), pontuando as suas palavras corn um sco mesa.
 tumulto apaziguou-se a pouco e pouco. Prevaleceu a &o geral de que, a admitir a autenticidade da infor- &o, isto , da gravura, era evidente os negcios de &r caminharem muito bem, embora o caso no fsse modo algum extrordinrio, em proporo com os nor- nesses distantes psses. Todavia, era notvel que um e rapaz de E&udapeste, antigo condiscpulo dles, tivesse gido uma situao relativamente to bela... Evidente- nte, bastava emigrar desta cidade miservel para triun-.
.
 por mais pobre que um homem fsse...
 --No final de contas, eu no sei mesmo se era assim &re como se dizia . . . andava sempre to bem vestido !
 --Lembro-me eu muito bem que le era da Transilva- e &ue habitava com os pais, pessoas muito correctas...
 - E possvel, meu velho; mas o que  certo tambm e recebia da biblioteca da escola os livros de estudo e tinha dispensa de propinas.
 Agora a propsito de livros escolares--interrompeu &de, voces lembram-se duma ocasio em que ..
 ) ste o lamir dum interminvel rosrio de snedotas ddas da sua comum passagem pelos liceus, histrias , no decurso de treze anos, tinhhm sido muitssimas evocad&s; no obstante, isso era ainda o que nunca f adava.
 2& A AVENTURA EM BUDAPESTE  Kelemen cor,servava o rosto alegre, mas uma espcie de insatisfao trabalhava-lhe o ntimo. Sentia que a his- tria de Kdr no provocara a sensao que e&perava.
 Aqules imbecis no tinham compreendido.
 Que  que les no tinham compreendido ? Sacou da algibeira das calas um encolhidinho cigarro, acendeu-o e, aspirando profundamente uma fumaa, olhou fixo na sua frente e soube ver com clareza e segurana o que aqules imbecis no tinham compreendido.
 No caso de Kdr havia um filo a explorar.
 Fechou os olhos, reclinou a cadeira para trs e deixou sair lentamente o fumo pelas narinas. Afinal, no impor- tavs nada que os outros no tivessem compreendido.
 O essencial era que le, Kelemen, soubesse ver na his- tria de Kdr um filo de que poderia...
 Abriu os olhos, observou um instante o grupo de com- panheiros, que riam de gsto, e logo fz reinir uma ban- deja com algumas pancadas do seu anel de oiro, oferta paterna quando atingira o grau de bacharel.

 --Rapazes--disse ale com certa preguia na voz-- dar-lhes-ia prazer, se estivessem no serto, receber, quando menos o esperassem, noticias da mae-ptria? -- conforme--respondeu Amman; mas j Krh interrompia com brusquido: --Em poucas palavras, queres escrever a Kdr ? -- isso mesmo--confirmou serenamente--porque no ? --Porque no ?--replicou o outro--eras assim to seu amigo ? --Eu? no. . . & prosseguiu Kelemen, olhando para Krh com a vista carregada de severidade.--Nem tu to- -pouco. . .--acreccentou de sbito, e um purpurino calor o invadiu interiormente porque esteve a ponto de declarar: &Mas posso ainda vir a s-lo." --Eu com certeza que no, isso  verdade--assentiu Krh;--e tu, Szende ? --Eu, tanto como vocs...
 --E tu, Amman&?  AVENTVRA EM RUDAPESTE'&  --No muito.
 --E tu, Mrton ? --I)esagradou-me sempre. . .
 --E vocs, Simon, Kempner, Rna, Ztony ? Todos os quatro interpelados disseram &no" com a ca- &c,a, e Weisz acrescentou espontaneamente: --O Pingim ?.. . era um pedao-de-asno.
 --Ora, ainda bem !--concluiu Krh com satisfao e &Idade.--Visto que nenhum de ns se deu bem com &,  lgico enviarmos-lhe uma sadao para Prto-   l&lgum sibilou um "Idiota !:& Mas todos os assistentes deram razo a Krh.
 --Escuta, Krh--comeou Kelemen, pensativo;--euo tecompreendo. Se Ihe enviarem umas palavras neste &r: aSalv, Kdr, como ests ? Lembramo-nos ainda de At  vista&, no achas que o caso agradaria at a um imal selvagem ? Como sabes, o que menos me importa D sentimentalismos, mas quando penso que a nossa rta poderia chegar-lhe s mos precisamente pelo Na- ... Alis, desde que fazes cenas por tudo, a primeira r que te encontrar na rua no te sadarei, porque po- ai vir-te  idia que um dia, no nosso terceiro ano, te.
.
 uma bofetada e que, de ento para c, nunca mais nos &mos bem juntos um do outro. Tenho ou no tenho  litidissimamente, ale tinha razo. Este discurso calmo, p!es e resoluto colocara t8da a tertlia do seu lado.
 ona sacou da sua grossa caneta de tinta permanente e &u com e]a na mesa.
 - Gar&on, papel de carta !
 &m instante depois, o criado do caf trouxe uma flha &pel com o respectivo sobrescrito. Rna desenroscou neta.
 Antes de mais nada... escrevemos-lhe em estilo .oso, ou a srio ? Antes de mais nada... quem escrever no sers &s sim Kelemen--disse Amman, tirando a pena da.
.
 -&0 A AVENTURA EM BUDAPESTE  mo de Rna e passando-a a Kelemen, sem deixar porm de esperar que ste ltimo, por cortesia, Ihe cedesse por seu turno o cargo.
 Entretanto, Kelemen, depois de ter, um instante, olhado em sua frente, pensativo, ester.deu a mo para o lado de Amman.
 --Bem.. . passa para c a pena.
 Quando Amman, um tanto desapontado, Ihe fz entrega dela, Kelemen relanceou a vista em redor.
 --Ento, que  que se escreve ? --Basta de etiquetas--decidiu Mrton--escreve o que disseste h pouco, isso mesmo ou com um pouco mais de estilo. Escreve assim: "Prezado Kdr, soubemos que. . .
 --. . . deves ter muito pso--ironizou Krh . . .--ma logo outro arremessou em voz baixa um "Imbecil !& e nin gum mais Ihe deu ateno.
 --Eis o que se vai escrever--disse Kelemen: "Prezad Kdr, estamos renidos num caf de Peste, no te esque cemos e tivemos notcia de que os teus negcios cami nham bem . . " --"No te esquecemos !&; a frase no me agrada interrompeu Ztony;--escreve, em vez disso. ..

 Minutos decorridos, Kelemen copiava, numa flha &.
 papel, j a terceira, o texto definitivo, que era o seguinte aprezado Kdr, um pequeno grupo de sntigos condis cpulos teus envia-te uma amigvel sadao por ocasia do Natal. Por mero acaso, soubemos, com o maior prazer que fizeste uma bela carreira, que casaste e que te tor naste rico e clebre. Todos recordamos com simpatia o dias que, juntos e alegremente, passmos nos bancos d escola e desejamos-te, para o futuro, tdas as prosper dades."  _ T&t' t _ r..Q& -nll K& mf3n sln findar.--Assinem ! - --Uf !--respirou Kelemen, ao findar.
 e passou a pena ao vizinho.
 --Tu, primeiro--disse Rna, mas estendendo Ja mo para a caneta.
 Kelemen aps o seu nome e transferiu a carta assi como a pena para o que estava a seu lado.
  AVENTIJRA EM BUDAPES&E: 31  De modo legvel, faam favor--chasqueou Krh; s ningum Ihe prestou ouvidos.
 Optimo !--exclamou Kelemen, quando o escrito Ihe tou  mo.--Dois, quatro, catorze.. . Vamos, Krh, a de brincadeiras, assina aqui, tu tambm.
 - No--respondeu Krh, repelindo obstinadamente a a...--Quero tanto saber do Kdr e das suas moradias o da primeira camisa que vesti ! Deixem-me em paz. . .
 Como quiseres--redarguiu Kelemen, aps o que ou Krh fixamente.--Sabes o que tu s ? Um idiota- ho e um desmancha-prazeres.
 - E possvel--respondeu, brusco, Krh.--Tu, Kele- , s, de todos, aqule que menos me poderia ofen- . . mas o que eu no quero  pr-me de gatas diante mnguem . . .
 - Basta, basta !--interveio Rna, nervoso.
 esde a entrada na escola, Rna detestara sempre Krh, do ao mesmo tempo medo dle; e, a-resar-de passa- tantos anos, sentia-se incapaz de vencer sse temor ril. O que acrescia ainda mais a sua antipatia por h era o facto de ste ser redactor de um jornal socia-.
.
 e no ocultar que era pobre, no sentindo seguer ver- ba alguma disso, e ainda a circunstancia de, regular- te e a propsito de todos os assuntos, exteriorizar uma i&o diferente da dos outros.
 - Deixem l ! Poe a direco, Kelemen.
 elemen escreveu no envelope: r. A. T. Cadar, arquitecto, Prto lsabel, Africa.& cutiram ainda o pormenor de saber quem figuraria o remetente, no verso do sobrescrito. Teria sido me- escrever: "Os companheiros de quinta-feira& e o nome fe, mas acabaram por concordar ir em nome de Ke  te ltimo meteu a carta na algibeira.
 Amanha f-la&ei seguir do escrilrio; ns l expedi- a correspondncia pela estao central.
 &o se falou mais na carta. As conversas, os gracejos &am o curso normal. De quando em quando, escapa- .
.
 3'& A AVENTURA &M BUDAPESTE  va-se duns gorgomilos um som gemebundo; outras vezes, uma gargalhada de criana percutia o ar. Prximo da meia-noite, disseram-se adeus.

 ao chegar a casa Kelemen acendeu, bocejando, a elec- tricidade no seu quarto. "Est frio... Esta maldita velha avarenta no deita lenha no fogo,  noite.>& Ps a carta sbre a jardineira e encerrou a gra&ura na estante, escondendo-a debaixo da caixa dos colarinhos, numa das prateleiras superiores.
 "Que estupidez !& Feita daquela forma, a coisa qusi no tinha ponta de senso. Eram frases ocas, um cumpri- mento de Natal, zero. "Nem sequer responder, pensou.
 Eu, no seu caso, tambm no responderia. Era como se me encontrasse na Lua e me escrevessem do planeta Marte. . . & Fitou o teto.
 "Se se pudesse acrescentar ali uma nota pessoal ou alguma coisa que especialmente o interessasse !" Tirou o jaqueto, o colete e o colarinho e arremessou tudo para cima duma cadeira.
 &Se eu soubesse haver algum, c, ou se qualquer coisa Ihe pudesse...& Ocorreu-lhe ento uma idia. Extrau a carta do env lope, releu-a. Em seguida procurou na escrivaninha um velha pena e um tinteiro; depois, tal como estava, de calo, em mangas de camisa, sentou-se  mesa e desd& brou a carta na sua frente.
 "Meu prezado Kdr: escrevo-te duss linhas -part porque fui eu quem descobriu no "Wold's Sunday Pictu .
 res& a tua fotografia e a tua direco. Digo-to com tda franqueza, senti vivssimo prazer em ter notcias tuas p catorze anos sem te pr a vista em cima. Alm de que..
 (Kelemen refletiu uns instantes no que convinha dizer e seguida) podes estar certo de que a sorb dum dos meu antigos condiscpulos, ido para to longe de Budapest no me  indiferente, a-pesar de ns no termos sido, n colgio, amigos ntimos. Os companheiros que assinara comieo esta carta ficaram extremamente surpreendidos  ,VE&TURA EM BUDAPESTE33  regozijaram-se como eu, outros mostraram um &chito de inveja, mas todos ns, no fundo, experi- &mos admirao pelo teu xito na vida. Como  na- l, no conseguimos fazer idia do que te sucedeu at &ares a Prto-Isabel. Considerar-me-ia muito feliz se &sse saber directamente--isto , por ti prprio-- uns pormenores a sse respeito e mais particularmente me sentiria se pudssemos ainda voltar-nos a ver e mundo. De resto, quem sabe ?. . . & eflectiu se convinha acrescentar ali mais alguma coisa, contentou-se em terminar assim: &: IA ti e  Senhora tua esp8sa, envio as minhas mais iais sadaoes. Teu sinceramente dedicado...,t assinou: "Andr Kelemen&.
 Icrou a carta e meteu-a na carteira. No poderia con- o, expedi-la juntamente com o correio do escritorio, ue aqule Cailek. ..
 espiu o resto da roupa e enfiou a camisa de noite, arrotada, de contacto frio. Deitou-se e apagou a luz.
 O ESTR&GEIRO  CAPITULO I  &05 fins de Novembro, regressara a Budapeste, andra- joso, esfalfado, faminto.

 No sector da frente de batalha onde se encontrava Ulti- mamente, entre Checos, homens da Bosnia e Hngaros regressados do cativeiro russo, as coisas comearam& de caminhar mal desde o meado de Outubro. Sucintamente, dizia-se: "As coisas vo mal&; queria isto dizer que, numa dada ocasio, faltaram os vveres durante cinco dias. Verdade seja que se tinha comido chocolate, isto , aqules que o possuam e at acabarem com le. Tam- bm j doutras vezes acontecera ficar para trs a cozinha, mas nunca durante cinco dias ! Depois, apareceram os avioes italianos Anteriormente tambm, acontecera que em vez de bombas e de torpedos, os avioes haviam lan- ado, os milhares, prospectos, redigidos em alemo im- pecavel e em idioma hngaro bastante correcto. Um dia, o avio de d&Annnzio honrara o sector com uma visita de propaganda dsse gnero, e, por tal sinal, o alferes Szab estivera a ponto de abat-lo. Porm, desta vez, cho-   AVENTURA EM BUDAPESTE 35  m do cu escritos doutro gnero: "Deponham as armssvoltem paracasa ! O vosso aliado blgaro j renunciou uma luta sem esperana e o exrcito vitorioso das Po- &ias alia&as avana para as fronteiras da vossa ptria !" is o que, pouco mais ou menos, se encontrava escrito quelas mensagens. Outra chegava a dizer: &A revoluo bentou no vosso pas: regressai s vossas casas, recu- -vos a obedecer queles que vos conduziram ao aougue." ; m factos, esses, j extremamente perturbadores. A in- eza e a inquietao haviam j aumentado devido  . unstancia de ter aparecido, de surprsa, na segunda ha, o general de brigada Bssch--o "carniceiru&--e o alferes Kauser ter mandado fuzilar, sem processo nado, o cabo checo, Tricka, em poder do qual haviam o&encontrados quatro ou cinco dos tais papis Finalmente, nos dias ltimos de Outubro, tda aquela ngona desabara de um dia para o outro. Tambm le ara, de regresso a casa.
 eriam talvez uns setenta ou oitenta os que, no seu Dr, tinham decidido a partida em grupo e, como entre si binaram, o mais possvel em ordem disciplinada; em- em todo o caso com pressa, porque as hordas des- izadas que afluam do sector situado um pouco mais .,ul contavam que as tropas italianas que iam avanando am aprisionado corpos inteiros do exrcito--e cair cativeiro, agora que tudo acabara, passaria as raias da pidez.
 lo havia tempo para hesitaoes: "Demos s de vila- go !& &'elizmente, nos campos da Tauerntal encontra- de longe em longe algumas abboras esquecidas-- &-as grossas como tonizinhos e boas para cozer mas mesmo cruas, tambm no eram ms. ao chegarem siach, j eram apenas dezassete. Na estrada principal, ram  pancada dois camponeses recalcitrantes; duran- &um tempo prosseguiram ento a viagem como gran- enhores, numa carriola de madeira puxada por quatro los. Gbor, Altmann e Hczefalvy ficaram em Villach milagre foi que tivessem podido arrastar-se at ali:.
.
 &6A AVENTURA EM BUDAPESTE  as abboras cruas provocaram-lhes uma disenteria medo- nha.

 Fazia um frio de seiscentos mil diabos. Em Villach, nem sequer um co se ocupou dles: tda a gente estava atenta  invaso dos iugo-eslavos. Depois, sem mesmo saberem corr.o, conseguiram subir para um combio que ia partir e rodaram durante nove ou dez dias. Uma noite--no formavam a menor idia do local onde podiam estar ento --crepitaram tiros no talude da via frrea; algumas ba- las penetraram na sua carruagem e, se bem que  pri- meira detonao o automatismo engendrado pelo hbito os tivesse feito &ugir para os recantos mais abrigados, o pobre Feledy, com o rosto plido, desatou a praguejar contra o criador dste mundo infame; no lugar da dois dedos na mo esquerda, tinha agora dois ctos ensangentados. A ferida jorrava sangue furiosamente e le ps-se mais amarelo do que a cidra. Um dos companheiros obrigou-se a proezas gimnslicas para percorrer todo o coinbio,  procura de um mdico; igualmente os outros se lanaram em t&as as direcoes... facto ste que deixara de reprepresentar um reflexo adquirido nas trincheiras, para ser antes a perple- xidade devida  sua f no mundo da gente civil, no mun- do da paz, na ordem e no sistema dstes dois mundos.
 Mdico, no se encontrou; e, passada a primeira atra- palhao, ligou-se a ferida com tda a espcie de trapos sujos e restos de pegas desbotadas. Comprimindo-se ainda mais, de modo a ficarem em posi8es qusi impos- sveis, alcanaram espao para deitar o pequeno Feledy num dos bancos cornpridos do compartimento. Na tarde do terceiro dia, o pobre rapaz linha j a cara completa- mente negra; no dia seguinte o combio parou numa al- deia onde, pela janela desembarcaram o seu cadver, em- brulhado no capote. Zoltn Szilasi tomou conta do rel- gio, do canivete, da carteira e da chapa de identidade do defunto. () estado de espirito no compartimento era su- blime. "Teve pressa de recolher a casa, o desgraado !& comentou um dos viajantes, quando o combio voltou a pr-se em marcha. Chovia ento.
  AVENT&RA EM BUDAPESTE37  ; Dias depois, um d81es olhou atravs da janela e excla- nou: "Olhem, uma bandeira hngara !& Efectivamente, no &po dum edificio, diante do qual parara a carruagem, tre- nulava a bandeira tricolor hngara, e na fachada do mes- no edificio lia-se o nome da estao, "Kotor&. No sal- t&ram abaixo da carruagem seno depois de Ihe ser dito ue o combio no ia mais longe ! Mas quando todo o upo renido diante da estao, os gendarmes envolve- m-nos e conduziram-nos  sede do comando. Encontra- &va-se a instalada uma espcie de contit, Fizeram-nos sguardar um bom meio-dia at que algum se dignasse por fim, dirigir-lhes a palavra; depois ao termo dalgun&s ninutos, foi-lhes permitido dispersarem. Olharam  sua volh: que iam fazer ? Permaneceram uns na aldeia, ou- ros voltaram  estao de caminho de ferro, na esperana de que, mais tarde ou mais cedo, partiria um combio.
 &om outros ainda, Kdr vagueou pela aldeia e entre a al- &eia e a estao, ansiando por algum que desse um bom :onselho, dissesse qualquer coisa til, o informasse !. . .
 Ele conservava ainda consigo a moeda de ouro que em `1916, em Dva, a mae Ihe suspendera do pescoo, cosida um saquinho. Agora, essa moeda vinha muito a propsito.
 &t &urakeresztr, a caminhada foi extremamente longa e.
.

 penosa na lama dos charcos formados pelas chuvas de &u- tono; mas, ao menos, acolheram-no ali pessoas mais de- &entes.. Trocou na estao de caminho de ferro a sua moeda de ouro. No povoado bebeu grande quantidade de leite e, ao voltar para a estao, apertava debaixo do brao ois paes inteiros e uma libra & de queijo de ovelha. Em l&lurakeresztr, os soldados vindos da "frente& sentiam-se a como que na prpria casa: um campon8s, que esperava regresso de dois filhos, consentiu-lhe que dormisse no &eu celeiro. Isto ia melhor. Aps dois ou trs dias de va- gabundagem, o alferes da polcia, comandante do posto, enca&xou-o num compartimento ferrovirio e meteu-lhe na  I Libra ou arrtel, medida de pe&o cquivalente a 459 l&rama-.
 38 A AVENTURA EM BUDAPESTE  mo um boletim verde, no qual escrevera, a lpis-tinta e sbre linhas impressas, as palavras: "Budapeste, estao do Sul&. O combio rodou, rodou; o Balaton ' apresentava um aspecto clortico. Chovia impiedosamente.
 Em Szkesfehrvr, esperava-o uma grande surpr8sa, na estao; com a assistncia dos gendarmes, e sem que se soubesse porqu, foram evacuadas tdas as carruagens e todos os que usavam uniforme foram convidados a sen- tar-se  volta de compridas mesas em que se Ihes serviu uma sopa bastante saborosa, um pedao de carne de vaca bem cozida e caf, enquanto no extremo do cais uma or questra de zngaros tocava, ininterruptamente, a Marse- lhesa. No espao branco dum grande pano pintado com as cres nacionais, lia-se: aVjva a Repblica do Povo Hngaro !& E cinco ou seis cartazes mais pequenos inti- mavam: &Soldados vindos da "frente&, apresentai-vos ime- diatamente ao Conselho dos Soldados local !& Ele nada compreendia daquilo mas no interrogou ningum e, alias ningum se ocupou dle; assim era melhor, porque um nevoeiro Ihe invadia j o crebro e uma fadiga de chumbo pesava sbre todos os seus membros. Caa j a tarde, su- biu para a carruagem dum combio em formao e sen- tou-se n&m compartimento sem luz acesa, atapetado a ve- ludo vermelho. O queijo de ovelha que ainda trazia con- sigo comeava de exalar Ism cheiro activo; lanou-o pels janela fora e ps-se a comer um bocado do po endure- cido. Veio um empregado ferrovirio e quis faz-lo sair do compartimento. "Daqui  que eu no saio !& teimou le.
 "Ora o. . . ! Daqui no saio eu !" O outro retirou-se ento, encolhendo os ombros, e dei&ou-o szinho. A composi o foi conduzida ao cais e, em poucos instantes, encheu- -se de passageiros. Um cavalheiro de sobretudo prto acercou-se do compartimento, acompanhado do ferrovirio de h pouco. Ouviu um rudo sco na fechadura e s en- to compreendeu que o tinham fechado. "Senhor Inspec-   1 Lsgo da Hungri&, rodeado de va&to& p&otanos.
  AVENTURA EM BUDAPESTE39  A' tor, disse o ferrovirio, este soldado no queredescer;no sei como conseguiu meter-se no compartimento & Em , seguida, voltado-se para Kdr: "Oia, meu amigo&, bus- cava convenc-lo; mas o homem de sobretudo mandou-o calar. "No tem importancia, iremos os dois juntos...
 Nos tempos que correm . . . i& Kdr levou um dedo  pala do bon e alapardou-se num canto. Esta atitude tranqila & e modesta agradou ao cavalheiro de sobretudo. Quando O o combio se p8s em marcha, ste ltimo acendeu um 9` cigarro e ofereceu-lhe outro. Kdr fumou o cigarro,trocou algumas palavras com o cavalheiro e depois adormeceu.
 Estava muito escuro quando despertou. Os viajantes precipitaram-se para o corredor. Tinha-se chegado a Peste.
 Na verdade, seria Peste ? Com efeito, no havia dvida que era o cais da estao do Sul; imerso em penumbra, teve de incio dificuldade em reconhec-lo. A multido abandonou o combio. Impunha-se a impresso de a gare estar vazia e de no haver vivalma em parte alguma.

 os grupinhos, os viajantes ficaram uns momentos a tagsrelar, no meio da rua, aps o que se dispersaram. Ele ainda conservava nos olhos a imagem das esta8es dou- trora, com uma turba buliosa diante de tdas elas, em todos os stios carregadores, carrinhos de bagagens, carros elctricos, trens. . . Que era aquilo ? Que escurido friaera.
.
 aquela, em que pequenos ajuntamentos de pessoas disper- savam lentamente como que aterrorizadas, ou em que as pessoas avanavam como vagabundos tmidos ? Engan- lo-ia a memria? Durante algum tempo seguiu um pequeno grupo e de- pois quedou-se.
 &Eis-me em Peste ! Para onde ir ? Que extravagante egunta ! onde ir ? O quartel  em Gyulafehrvr. . . os eus pais esto em Dva. Em Peste. . . em Peste?&-- epetia estas palavras "em Peste ?" uma boa dezena de & ezes, em tom interrogativo e de si para si, e muitas ve- t es tambm em voz alta como se esperasse o eco duma esposta na sua cabea. Todavia, a cabea soava-lhe a oco, Prltia apenas uma surda presso nas fontes. No silncio.
.
 40A AVENTUR& EM BUDAPESTE  que de sbito cara sbre le parou e apercebeu-se logo de que se encontrava completamente szinho no meio da rua. "Dar-se- o caso de eu no estar em Peste ?& pre- guntou a si prprio, ao passo que apalpava a cabea por- que uma dor viva Iha atravessava, vinda da nuca. "Se e Budapeste, o combio para Kolozsvr parte da estao de Leste . . . & Inesperadamente, viu defronte uma tabuleta: "Caf Pozsony&. Pozsony l. . . Pozsony. . . um caf. . .
 Podia l ir. As vidraas do caf no tinham luz e, quanto a bicos de gs, entre trs ou quatro smente um pesta- nejava na rua. Em compensao, por cima da entrada das casas uma lampada elctrica,  sernelhana de um lho de Ciclope ensonado, tremeluzia na rua nevoenta, mida e sombria. "Aquilo era esquisito ! Noutros tempos, no havia luz sbre os portais das habitaoes !& Depois reparou que no havia na rua nem um gato sequer. Deu mais uns passos e parou novamente. Tentou recordar-se, se nos ltimos dias, havia falado com algum e a respeito de qu. Mas s se recordava de coisas confusas: revolu- o, derrota, repblica, conselho nacional, conselho dos soldados, linha de demarcao, fome... Mas tudo isto no passava de palavras vazias de sentido, a que no sa- bia que fazer e que se deixavam, alis, dominar pela m- sica da Mat selhesa que ouvira em Szkesfehrvr, tocada pelos zngaros...
 Continuava, szinho, diante do caf Pozsony... De- pois, subitamente, viu a meio da rua quatro guardas da polcia armados de sabres e carabinas e com o revlver a tiracolo, que se dirigiam para o seu lado. Ele foi ao seu encontro; mas a patrulha, desconfiada, parou imediata- mente, cerrando fileira. "No  assim&, reflectiu Kdr, "les deviam ter-se afastado uns dos outros pelo menos dez passos...& --Que h ? preguntou-lhe ento um dos polcias, que  O nome da cidade de Pre&burgo em idioma hngaro,  &AVEN&URA EM BUDAPESTE41  tentava grande bigode. Porque  que voc anda a va- r assim pelas ruas ? --Desculpe, senhor guarda, acabo de chegar e. . .
 --E far bem se se puser ao fresco, interrompeu o &rda;--os Russos j saram do campu de Kenyr-   patrulha prosseguiu no seu caminho.

 "R agora ? Os Russos esto perto ?)& Refez-se o siln- . &Santo nome de Deus. . . trataram-me como se fsse i escarro !& Involuntriamente, ergueu a vista para a tabuleta do f, por cima das escuras vidraas.
 &Caf Pozsony. . . olha !  evidente,  pela avenida sony que irei ao sitio onde mora a tia Ana. No me de querer mal por chegar to tarde. ..)& &a praa de Foin encontrou outra patrulha, a qual con- ou a ronda sem o deter. As portas das casas estavam adas; a custo, aqui e ali, se descobria luz numa ja- . O rudo dos seus tacoes batendo na calada produ- eco. ao voltar a esquina da avenida central, uma pa- ha de ps)lcia; a mesma coisa na extremidade da ponte luda. No flm da ponte de Peste, uma patrulha de sol-  .
.
 ao lhe prestaram ateno, e os sete ou oito transeun- ue cruzaram com le evitaram-no de longe. Um rel- electrico, do lado de Peste, indicava nove horas, ou ia le parado ? Tda a rua, at  eslao de Oeste va deserta. "Tanto pior, vamos para diante; sejam horas ou... Eis a grande casa da Avenida de Poz- ; olha... outra novidade... ste ralo na pesada no existia dantes !& &cou a campanha, tornou a tocar, bateu, deu murros  [eu Deus ! tem o sono pesado, o porteiro h& Por fim D descerrou-se: "Que  l ? Que quere voc ? Volte ha de manha.& pois de longa parlenda, entre-abriu-se a porta. J era o anti&o porteiro; agora um homen&arro, gue se.
.
 12A AVE&TURA EM BUDAPE&TE  aprumava sob a abbada, encarava-o com desconfiana.
 Vendo que Kdr no trazia armas, o homem acabou por dizer-lhe: "Pois bem, queira subir; o elevador no anda." Por cima da entrada da pequena moradia do quarto an- dar, eshva colado um papel: " favor bater; a campai& nha elctrica no funciona.
 Bateu, bateu.
 Uma cabea assustada e esguedelhada de criada de ser- vir apareceu um instante a uma janela, a qual voltou a cerrar-se imediatamente. Silncio. Passos arrastados.
 --Quem est a ? --1& vossemec, tio Radi ? --Quem est a ? --Sou eu,  o Toni, abra !
 Como movida por electricidade, a porta abriu-se brus- camente e le enxergou o tio Rudi em ceroulas e com capote por cima.
 Viva, meu &io  Es tu ! Santo Deus ! Que cara que tu trazes !
 A lampada espalhava com parcimnia a luz amarela vestbulo, frio e mal cheiroso a gas.
 O tio Rudi recuou, espantado.
 "O tio est na mesma", pensou Kdr; "mas que que rem dizer as palavras: Que cara que tu trazes ?& Deu dois passos em direco ao espelhinho redond suspenso por cima do banco estofado da antecamara. M rou-se nle e um estranho riso, slto e spero, jorrou d sua bca.

 avenho de Assiago... em viagem desde 26 de Out bro" disse olhando ainda para o espelho, e em seguil voltou-se. A porta do quarto estava aberta e o tio Rodol desaparecera. Passados instantes, sentiu no pescoo u bafo morno, com odor a sono e choroso: &Toni, meu t Iho, Toni, s tu, meu rapaz, meu Tonizinho !& Era a tia Ana. A mo pouco limpa de Kdr sen atravs da camisa de noite amarrotada, o calor das cos da velha; no rosto hirsuto d81e choviam beijos e l&rim  VENTURA EM BUDAPES&:  cabelos desgrenhados da criatura faziam-lhe ccegas olhos.
 to, uma espcie de mugido, longo, ofegante, sacu- gemebundo, subiu-lhe os lbios e o pranto brotou iXO das suas plpebras pesadas. Tempos depois, re- va-se de ter ouvido ahlda um bater de portas e de . visto a rapariga despenteada, que era a nova criada r lenha e papel de jornal.
 ncontrava-se sentado no banco de estfo e os dois ve- em roupas brancas, mantinham-se de p na sua e.
 pois, aparecera gua quente na banheira e sabonete em. Oh, como Ihe parecia extravagante... deitar-se na agua quente !... Deram-lhe em seguida uma a de noite e umas ceroulas do tio Rudi e agasalha- no num capote de meia estao, castanho claro, que va a naftalina; depois ainda, sentara-se, tiritando pouco,  mesa da casa de jantar, cujo ambiente se a frio, a beber caf e a comer bolinhos fritos de de batata, que sabiam ligeiramente a queimado. Os velhotes--o tio e a tia--permaneciam junto da e viam-no devorar o alirnento. Engulido o ltimo bo- foi um dilvio de preguntas. Donde vinha ? Onde.
.
 ejtado ? Quando ? O qu ? Com quem ? De que ma-  -? Ate quando?., . Tentou responder, mas n& mo- em que abria a bca para repetir: "Venho de As- Desde o...", empalideceu de sbito e teve a sen- de que o caf e os bolinhos fritos Ihe voltavam  - convertidos numa massa azeda... Ainda percebeu da tia Ana, "vs tu, le no pode j falar, de tal est fatigado. Betty ! prepara a cama de ferro; olha, qui os lenis, uma fronha de almofada, toma l o Dr escuro, vais deitar-te, meu rapaz, na cama de ,& &Im que dormias noutro tempo...& OU-se sem demora na cama de ferro, instalada num da casa de jantar, perto da janela. Fixou a vista no . e ento a cama desatou a mover-se no rtmo ca- do do combio. . . Ps-se a rodar sem paragem, en- 42A AVE&TURA EM BUDAPE&TE  aprumava sob a abbada, encarava-o com desconfiana Vendo que Kdr no trazia armas, o homem acabou por dizer-lhe: "Pois bem, queira subir; o elevador no anda." Por cima da en&rada da pequena moradia do quarto an- dar, estava colado um papel: " favor bater; a campai- nha elctrica no funciona." Bateu, bateu.
 Uma cabea assustada e esguedelhada de criada de ser- vir apareceu um instante a uma janela, a qual voltou a cerrar-se imediatamente. Silncio. Passos arrastados.
 --Quem est a ? --1& vossemec, tio Rudi ? --Quem est a ? --Sou eu,  o Toni, abra !
 Como movida por electricidade, a porta abriu-se brus.
 camente e ele enxergou o tio Rudi em ceroulaj e com o capote por cima.
 --Viva, meu tio !
 --s tu ! Santo Deus ! Que cara que tu trazes !
 A lampada espalhava com parcimnia a luz amarela no vestbulo, frio e mal cheiroso a gs.
 O tio Rudi recuou, espantado.

 "O tio est na mesma", pensou Kdr; "mas que que- rem dizer as palavras: Que cara que tu trazes ?& Deu dois passos em direco ao espelhinho redondo suspenso por cima do banco estofado da antecamara. Mi- rou-se nle e um estranho riso, slto e spero, jorrou da sua bca &Venho de Assiago... em viagem desde 26 de Outu- bro" disse olhando ainda para o espelho, e em seguida voltou-se. A porta do quarto estava aberta e o tio Rodolfo desaparecera. Passados instantes, sentiu no pescoo um bafo morno, com odor a sono e choroso: "Toni, meu fi Iho, Toni, s tu, meu rapaz, meu Tonizinho !&-  Era a tia Ana. A mo pouco limpa de Kdr sentia,atravs dacamisa de noite amarrotada, o calor das costa& da velha; no rosto hirsuto dle choviam beijos e lgrimas,  &TURA EM BUDAPESTE43  eos desgrenhados da criatura faziam-lhe ccegas  o, uma espcie de mugido, longo, ofe&ante, sacu- gemebundo, subiu-lhe os lbios e o pranto brotou so das suas plpebras pesadas. Tempos depois, re- &va-se de ter ouvido ainda um bater de portas e de Isto a rapariga despenteada, que era a nova criada, lenha e papel de jornal.
 contrava-se sentado no banco de estfo e os dois ve- em roupas brancas, mantinham-se de p na sua  :pois, aparecera gua quente na banheira e sabonete &m. Oh, como Ihe parecia extravagante... deitar-se & na gua quente !... Deram-lhe em seguida uma ;a de noite e umas ceroulas do tio Rudi e agasalha- no num capote de meia estao, castanho claro, que va a naftalina; depois ainda, sentara-se, liritando pouco,  mesa da casa de jantar, cujo ambiente se a frio, a beber caf e a comer bolinhos fritos de a de batata, que sabiam ligeiramente a queimado. Os i velhotes--o tio e a tia--permaneciam junto da e viam-no devorar o alirnento. Engulido o ltimo bo- foi um dilvio de preguntas. Donde vinha ? Onde.
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 e&tado ? Quando ? O qu ? Com quem ? De que ma- -? At quando?. . . Tentcu responder, mas no mo- em que abria a bca para repetir: "Venho de As- Desde o. . . ", empalideceu de sbito e teve a sen- de que o caf e os bolinhos fritos Ihe voltavam  convertidos numa massa azda... Ainda percebeu da tia Ana, &vs tu, le no pode j falar, de tat est fatigado. Betty ! prepara a cama de ferro; olha, qui os lenis, uma fronha de almofada, toma l o or escuro, vais deitar-te, meu rapaz, na cama de m que dormias noutro tempo...& tou-se sem demora na cams de ferro, instalada num da casa de jantar, perto da janela. Fixou a vista no . e ento a cama desatou a mover-se no rtmo ca- do do combio. . . Ps-se a rodar sem paragem, en- .
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 44 A AVENTURA EM BUDAPESTE  quanto Ihe retumbava surdamente dentro da cabe&a qual- quer coisa que, com freqncia, estrondosos clares inter- rompiam. Em seguida, ouviu de sbito o estertor do pobre Feledy: "Dize l, Szilasy, aqule quere mais alguma coisa ? Tu no comprendes, sim tu, Szilasy, o que le diz 7 A res- peito do relgio?...& Depois pareceu-lhe sentir um bater de asas perto dos ouvidos; escutou atentamente, fz um esfro: era uma coisa diferente do silvo das granadas. .
 Pareceu-lhe que as asss que assobiavam andavam  su volta circularmente... crculos trmulos sbre a superf- cie lisa da gua quando se Ihe arremessa uma pedra...
 Por fim, tda a cama se ps a andar  roda e o universo desmoronou-se por inteiro, numa espcie de cos ardente.

  CAPITULO 11  Dez ou doze dias Ihe durou a doena. O que tinha tido nunca se soube exactamente; provvel  que fsse fadig geral agravada por um ataque de gripe. No dia imediat ao da chegada, encontraram-no de bca aberta, os ronco e com estertor. A custo o despertaram. Ele bebeu out vez caf e tornou a descair a cabea sbre a almofada no era capaz de levantar-se. "Deixem-no& disse o ti Rodolfo, "est cansado&. Para a tarde, pusera-se-lhe rosto arroxeado A tia Ana, assustada, foi buscar o te- mmetro--tinha trinta e nove graus e seis ! &E do esg& tamento" confirmou o tio, "que durmaatfartar-se".N dia seguinte, o pescoo, os braos, o peito apareceram-lh cheios de borbulhinhas vermelhas. Os velhos ficaram ate rados: seguramente, o que le tinba era tifo exantemtic Atrapalhado, o Dr. Webler, um velho amigo do tio, ci culava senilmente  volta do leito. Tornaram a verifica -Ihe a temperatura: a coluna de mercrio no subhl al dos trinta e sete graus. &No pode ser tifo& disse o mdic- "qusi que no tem febre&. Nessa noite dormiu tranqU mente e no dia imediato as borbulhas haviam desaparecid &Clom certeza que era urticria&, opinou o &r. Weblc  AVENTURA EM BUDAPESTE 45  &vvelmente, nestes ltimos tempos, no teve uma ali- ,tao regular e foi agora a mudana de regime que vocou ist(3&.
 Continuava a dormir dezasseis a dezito horas por dia mesmo desperto, permanecia nas trevas duma sono- &ia. Alimentava-se qusi exclusivamente de caf, depois rou de tossir e novamente a sua temperatura subiu ito; obteve-se ento a certeza de que se tratava de "e espanhola.
 L Salvo qualquer complicao, no ser coisa de cuidado&, se o mdico tranqilizando os velhotes &a segunda semana, aqule organismo de vinte anos nfou, enfim, da doena. Nos meados de dezembro pde sair  rua, fresco e bem disposto, completamente curado.
 via diante de si caras conhecidas. Encontrou um capi- que Ihe ordenou que fsse  administrao regularizar ua situao militar. Foi desmobilizado, entregaram-lhe documento justificativo disso e mandaram-no embora esentou-se tambm em vrios quartis assim como ao Iselho dos Soldados, onde Ihe deviam dar dinheiro, con- ne Ihe haviam dito, mas onde nem sequer viu sinal dle.
 Que fazer agora ? Que ir acontecer ?& preguntou a si priO.
 r- prazo que fixara para se orientar passou-lhe por cima,.
.
 & e cego: a acumulao dos acontecimentos era tal se sentia incapaz de Ihes atribuir uma ordem e de bor-los prviamente. O que sucedia naquela poca, em te, le no fra preparado para compreend-lo, nem bancos das escolas, nem nas trincheiras.
 cidade encontrava-se muito movimentada: desfiles perrios, manifestaoes de soldados desmobilizados e, &venida Estefania, militares franceses e tropas coloniais cutando manobras.
 urante o dia as ruas estavam continuamente apinhadas gente, havia bichas diante das lojas; os elctricos rrotavam at os estribos No se podia ter de forma uma a impresso de ser isto a paz ! Ou seria isto, na ade, a paz ?.
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 44 A AVENTURA EM BUDAPESTE  quanto Ihe retumbava surdamente dentro da cabe&a qual- quer coisa que, com freqncia, estrondosos claroes inter- rompiam. Em seguida, ouviu de sbito o estertor do pobre Feledy: aDize l, Szilasy, aqu81e quere mais alguma coisa ? Tu no comprendes, sim tu, Szilasy, o que le diz ? A res- peito do relgio ? . . . & Depois pareceu-lhe sentir um bater de asas perto dos ouvidos; escutou atentamente, fz um esfro: era uma coisa diferente do silvo das granadas. . .
 Pareceu-lhe que as asas que assobiavam andavam  sua volta circularmente... crculos trmulos sbre a superf- cie lisa da gua quando se Ihe arremessa uma pedra...
 Por fim, tda a cama se ps a andar  roda e o universo desmoronou-se por inteiro, numa espcie de cos ardente.
  CAPITULO II  Dez ou doze dias Ihe durou a doena. O que tinha tid nunca se soube exactamente; provvel  que fsse fadi geral agravada por um ataque de gripe. No dia imedia ao da chegada, encontraram-no de bca aberta, os ron e com estertor. A custo o despertaram. Ele bebeu ou vez caf e tornou a descair a cabea sbre a almofad no era capaz de levantar-se. "Deixem-no& disse o t Rodolfo, "est cansado&. Para a tsrde, pusera-se-lhe rosto arroxeado. A tia Ana, assustada, foi buscar o t mmetro--tinha trinta e nove graus e seis ! &E do es tamento" confirmou o tio, "que durmaatfartar-se".
 dia seguinte, o pescoo, os braos, o peito apareceram- cheios de borbulhinhas vermelhas. Os velhos ficaram at .
 rados: seguramente, o que le tinba era tifo exantemti _ Atrapalhado, o Dr. Webler, um velho amigo do tio, c culava senilmente  volta do leito. Tornaram a verific -Ihe a temperatura: a coluna de mercrio no subiu al dos trinta e sete graus. &No pode ser tifo" disse o mdi "qusi que no tem febre&. Nessa noite dormiu tranq mente e no dia imediato as borbulhas haviam desaparec &'Com certeza que era urticria&, opinou o &r. Webl  &VENTURA EM BUDAPESTE 45  vvelmente, n&stes ltimos tempos, no teve uma ali- tao regular e foi agora a mudana de regime que ocou isto&.
 &ntinuava a dormir dezasseis a dezito horas por dia _ esmo desperto, permanecia nas trevas duma sono- . Alimentava-se qusi exclusivamente de caf, depois u de tossir e novamen&e a sua temperatura subiu ; obteve-se ento a certeza de que se tratava de espanhola.
 alvo qualquer complicao, no ser coisa de cuidado", o rndico tranqilizando os velhotes.
 segunda semana, aqule organismo de vinte anos fou, enfim, da doena Nos meados de dezembro pde  rua, fresco e bem disposto, completamente curado.
 _ v1a diante de si caras conhecidas. Encontrou um capi- que Ihe ordenou que fsse  administrao regularizar Q situao militar. Foi desmobilizado, entregaram-lhe ocumento justificativo disso e mandaram-no embora sentou-se tambm em vrios quartis assim como ao elho dos Soldados, onde Ihe deviam dar dinheiro, con- e Ihe haviam dito, mas onde nem sequer viu sinal dle.
 &ue fazer agora? Que ir acontecer?" preguntou a si  prazo que fixara para se orientar passou-lhe por cima,.
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 e cego: a acumulao dos acontecimentos era tal se sentia incapaz de Ihes atribuir uma ordem e de ra-los prviamente. O que sucedia naquela poca, em le no fora preparado para compreend-lo, nem ancos das escolas, nem nas trincheiras cidade encontrava-se muito movimentada: desfiles rarios, manifestaoes de soldados desmobilizados e, venida Estefania, militares franceses e tropas coloniais tando manobras.
 rante o dia as ruas estavam continuamente apinhadas nte, havia bichas diante das lojas; os elctricos Dtavam at os estribos. N&o se podia ter de forma a a impresso de ser isto a paz ! Ou seria isto, na e, a paz.
 46 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Todavia, o que maior importancia tinha para le era que estava sem vintm. . . Se bem que pudesse viver tranqi- lamente em casa do tio, no deixava de dirigir a si prprio todos os dias esta pregunta: &Que vou eu ser ? Que  pre- ciso fazer ?& Porque, fatalmente, era necessrio fazer alguma coisa. A tia Ana dava-lhe,  verdade, de vez em quando, umas coroas e o tio presente&ra-o com um velho fraque, que le usava conjuntamente com as suas botas altas, amarelas, de oficial.
 "Que  preciso fazer ?> interrogava-se por vezes, ao vagabundear nas ruas batidas pelo inverno, retardando a entrada em casa com receio de que os velhos, que quasi nunca saam, Ihe preguntassem um dia: "Que tencionas tu fazer?& Era-lhe penoso reflectir nisso--mas responder a essa interrogao, ou antes, no poder responder a ela, tornar-se-ia horrvel, cruel !
 "Que  que devo fazer7" interrogou-se uma vez mais " j demasiado tarde para matricular-me na Universi dade; alis, tenho eu meios para isso ? . . . mas ento qu vou fazer ? Sou bacharel, cumpri dois anos de servio n Jiente, possuo trs medalhas . . . Que vida posso eu ence tar ?" Metia-se nas bichas da padaria, do merceeiro. Levava para casa as raoes de carne e de acar e o tabaco d tio Rudi. Esforava-se, dste modo, por se tornar til ao velhotes.
 Um dia, viu no passeio da avenida central dois homens com uniformes de oficiais, mas sem galoes: sentados e banquinhos de encontro  parede, entre duas alas de pa- palvos, engraxavam o calado dos transeuntes. Perante ste espectculo, sentiu um baque no corao e afastou-se apressadamente.

 Os semblantes conhecidos surgiam de cada vez co mais freqncia, e todos Ihe davam algum conselho. U mandava-o dirigir-se ao ministrio da Guerra; outro, Comisso dos Soldndos; outro ainda,  redaco dum jo nal comunista. Ele ia a todos sses lados e voltava n mesma. Quando Ihe preguntavam o que queria no sabi  VENTI)RA EM BUDAPESTE 47  ponder. Servia-se de longas perfrases para chegar s avras "dinheiro, situao, ocupao. . .& Mas que prs- o podiam ter expressoes como as seguintes, &propa- da para manter a Repblica", "misso na provncia&, gresso de propaganda", "organizao da provncia", ucao dos espritos" ? A quem servia&m ? De que ma- a7 E onde? tio Rudi franzia as sobrancelhas com ar sombrio, n ndo le Ihe contava estas coisas: "Hoje falei com &no e Cicrano, mas no percebo muito bem...& "Tu s nada esperto&, respondia-lhe o velho, &os outros zes conseguem situaoes de primeira ordem ou fazem na nos tempos que vo correndo !& Depois, a meia- , acrescentou, pensativo: "Alis, isto no me admira ;o a teu respeito. No so coisas da nossa conta.& r no insistia nestas conversas com o tio, pois nem uer as compreendia. "No so coisas da conta de quem 7 Hngaros ? Dos Pestenses ? Mais particularmente, dos ionistas dos caminhos de ferro do Estado ? Ou, mais cularmente ainda, no seriam da conta de Rodolfo er e de Antnio Kdr ?. .& corriam os dias. O inverno mostrava-se rigoroso. O &rso comprimia-se e tornava-se cinzento, mas no se.
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 dar urn nico passo em frente.
 'recisava de ganhar dinheiro. . . como ? Em negcios ? isso,  preciso dinheiro, algum capital por pouco que . ." Foi o que Ihe disse um rapaz chamado Roberto, ncontrara na antecamara do ministrio e que levava dos figuroes de l cigarros estrangeiros. " preciso r dinheiro, ocupar-se a gente nalguma coisa . . . " um lugar de vendedor, foi 8 dois ou trs armazns.
 ram-no com uma s palavra. Fz, por escrito, as ofertas de servio a casas bancrias e a fbricas e ou-as pessoalmente a cavalheiros muito delicados he prometeram uma resposta tambm por escrito; um nico banco respondeu, usando da frmula: entamos, etc.".
 ecisava de ganhar dinheiro !" E se fsse trabalhar.
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 48 A AVENTURA EM BUDAPESTE  como simples operrio ? Ofereceu-se a uma fbrica de caixas de papelo. No era, de todo em todo, mester que no soubesse desempenhar !. . . O proprietrio, um gordo Judeu com cara de espantado, pre&untou-lhe, no meio dum constante pestanejo, o que sabia fazer e quais as suas condioes.
 "Desculpe-me, senhor Herz", observou um homem novo baixo, de lunetas, "visto termos contratos de trabalho colectivo e tabela de salrios fixada pelo Sindicato, no  necessrio preguntar-lhe quanto quere ganhar.& Dizendo isto, tirou as lunetas e voltou-se para Kdr& ) senhor  operrio classiflcado?& --No, sou alferes desmobilizado.
 --E scio dalgum Sindicato ? --No !
 --Membro do partido social-democrtico ? --No !
 --Muito obrigado !--disse ento o mesmo homem, acen- tuando muito estas palavras.
 --Lamento--concluiu o senhor Herz, pondo os olhos no cho.
 Prosseguindo caminho, olhou as tabuletas e as placa& das casas. Fulano, advogado; Cicrano, mdico; Beltrano engenheiro. Aqules tm uma ocupao; e as pessoas qu Ihe passam ao lado, essas tambm no vivem do ar...

 Era preciso ganhar dinheiro. Numa dada rua, viu afi xado um cartaz: uma mulher desgrenhada, de rosto ate rorizado, erguia os braos e bradava: "Trabalhai comea a faltar o po !& &Bem& disse de si para si, diante do cartaz. "Intimam -nos a trabalhar. Si,n, mas trabalhar em qu? Trabalha onde?... A tia Ana poder dar-me ainda umas coroa Estou a necessitar dalguns pares de pegas e deseja\" tambm ir uma vez ao music-&tall...& Uma rapariga, alta de quadris, de cssaco azul marinh cruzou com le. Fixou-a um instante e a rapariga corre pondeu ao olhar. Voltou-se para a seguir com a vist& observou que a rapariga parara diante de uma vitrina  AVENTURA EM BUDAPEST'E  &e, fingindo mirar esta, Ihe lanava olhadelas e Ihe diri- a um sorriso promissor.
 "Agrado-lheP, pensou ele; "mas pode tambm ser que B se ria de ver que as abas do fraque me saem por ixo do sobretudo e que uso botas altas amarelas.& A rapariga, provvelmente farta de contemplar o mos- dor da loja, baixou suavemente a cabea e abalou Ele &ectiu um instante em se devia segui-la, aps o que, in- I CiSO, atravessou a rua.
 "Precisava de ganhar dinheiro !&  CAPfTULO II&  Estava-se em Janeiro e le nem sempre tinha recebido tcias dos p8iS. A ltima carta de Dva chegara-lhe s oS em fins de Julho ou comeos de Agsto. De ponta ponta, no passava de uma longa lamentao prudente- ente expressa. Ningum comprava livros. O papel pouco aior venda tinha do que les; o estabelecimento j qusi Lo fazia negcio nenhum. Dos seus trs compartimentos, Iviam alugado um, com penso completa, a um advo- &do estagirio chamado Kormos. O pai no passava uito bem. Desde o incio do vero apoquentava-o mais.
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 &tra vez, o reumtico.
 A carta, como tdas as anteriores, terminava assim- ue Deus te abene e te proteja." Dessa data para c, mais nenhuma notcia, salvo o que &da a gente sabia: a ocupao romena, a suspenso das &municaoes postais (nenhuma resposta recebera s duas rtas que tinha escrito para casa; quem sabe onde elas &freram extravio ?), a interrupo do servio de caminhos ferro.
 As vezes, durante dias, deixava de pensar nos pais.
 &pois, subitamente, sob o efeito de um boato qualquer de um artigo de jornal alarmante, a inquietao esbra- va-o e da por diante no tinha seno pesadelos.
 Uma noite declarou os velhos: "Vou-me embora pars.
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 50 A AVENTURA EM BUDAPESTE  a minha casa, em Dva". Eles assustaram-se e lamenta- r&m: "Por amor de Deus, meu filho, mas nem sequer h meios de transporte para l !&.
 --Custe o que custar, l chegarei, duma maneira ou doutra.
 --Mas tu nem tens passaporte I --Passarei a fronleira clandestinamente.
 --Mas ns no podemos tam-pouco dar-te dinheiro para a viagem.
 Ele tirou da algibeira quatro notas de dez coroas.
 --Onde arranjaste tu sse dinheiro ? --Vendi o relgio; de que me servia ? Foi impossvel dissuadi-lo do projecto: a tia Ana chorou, o velho queria mostrar-se enrgico mas conseguiu apenas manifestar o seu enfado. No houve argumento que o contivesse; foroso foi encafuar-lhe alguma roupa branca j usada numa maleta de fole: enf&ou o capote militar por cima do fraque e partiu.
 O combio ia s at Gyula. Em Gyula, durante doi dias passeou sem destino, procurando pr-se na intimidade de diversas pessoas a-fim de se informar sbre os meios de comunicao ao longo da fronteira. Essas pessoas mostravam-se desconfiadas e de nada queriam saber.

 Passou duas noites na sala dum botequim, deitado junt da mesa, em cima de um banco. O locandeiro estava fL memente convencido de que le viera fazer qualquer cois suspeita. &Toma-me por um ladro, ou por um desertor pensou; declarou ento ao campons, o qual nunca o e carava e cujas orelhas, o bigode e o nariz, ste dum ta avinagrado, pareciam eternamente atrados para a terr que desejava passar a fronteira. O locandeiro tirou o chimbo da bca, olhou-o ffto, cuspiu e no disse palav Nessa mesma tarde, comprou um po de centeio, gran& e um bocado de toucinho assado; e quando a noie b xou ps-se a caminho. Caa uma chuva misturada cc neve. As suas botifarras amarelas patinhavam na lama os tornozelos. &Meti-me em boa!...P, pensou. Avan& na escurido, atravs da nudez dos campos inverna  AVENTURA EM BUDAPESTE51  essa frouxa e prudente marcha que permite a qualquer anar-se em terra de um instante para o outro, e os seus Ihos--aprendera a ver na escurido--no cessavam e observar a estrada nacional, de que no queria afas- r-se mais de vinte passos. Pela madrugada, viu-se de bito em frente dum grupo de soldados com uniforme trangeiro. Entalou o po entre os joelhos e levantou os raos no ar. A patrulha romena prendeu-o, dois soldados scoltaram-no, de baioneta armada, durante perto de duas oras, pela estrada cheia de neve e lama. Chegaram por m a uma espcie de curral, para onde o empurraram o interior encontravam-se crca de vinte pessoas, deita as na palha, as quais dormiam, murmuravam, choravam heiravam mal. Ele estendeu-se sbre a palha, meio sufo- do pelo detestvel odor, os olhos perdidos na penumbra.
 Para que me hei-de ralar ?& A patrulha tinha-lhe apreen- ido o canivee, os papis, o naco de po, a maleta de fole as vinte coroas. De quando em quando entreabria-se a orta e, momentaneamente, uma luz cinzenta perfurava a curido: chegava outro. O recmvindo parava junto da &rede, tateando as trevas, diligenciando orientar-se...
 O sol brilhava no cu dum azul retinto quando o fize- &m sar do curral. Seguiram ao longo da via-frrea. Con-.
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 uziram-no, com mais uma dezena de pessoas, para uma sa branquinha de cal, e achou-se ento num quarto zio. Por quanto tempo? Uma hora, duas horas, trs ras ?. . . Depois viu-se diante de uma comprida mesa rregada de papis, tinteiros e penas. A essa mesa esta- m sentados oficiais romenos fumando charutos e cigar- s. Notava-se, entre les, um homem novo, o qual enver- a uniforme diferente. Aqule no era romeno, devia um oficial estrangeiro. Depois, um dos oficiais disse- e qualquer coisa em romeno, que le no compreendeu- m, repentinamente, passou-lhe uma idia pela cabea.
 ;anou e parou diante da mesa, em frente do oficial ;rangeiro. Viu-se face a face com um rosto jvem, de belos louros e sedosos, em risca ao lado, e olhos dum ll claro muito puro. Um oficial ingls. "No deve ter.
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 52A AVENTURA EM BUDAPE'  mais idade do que eu& pensou dle; em seguida, apc do-se no rebordo da mesa, disse: Mister... Kame Ich bin ein armer Student.& Fz esforos para enconl palavras estrangeiras teis na emergncia... "ich m zu den Eltern... Eltern, parents& Vater, Mutter..

 Naqueles olhos szues surgiu urn sorriso, iMediatalr& oculto numa fina ruga da testa. "Ah ! you want to &our parents 7&--"Ya,--Yes ! Yes !&--"And y parents are living in Romania ?& prosseguiu o ingles.
 respondeu, ao acaso: "Yes, Romania, Dva?&--Ah Dva, and you wanted to get t&ere?P No compreer4 a ltima pregunta, mas depositou confiana em quem dirigia. &Yes, yes&, respondeu. Os oficiais interrompel ste dilogo, fazendo observaoes em romeno, em inl e em francs; estabeleceu-se uma conversao rpids, voz alta, da qual no percebia nem uma nica pala& Todavia, simpatizava j COlll O o&icial ingls e sentia& -lhe reconhecido, quanto mais no fsse porque sto esforava por falar lentamente e por se fazer compreon por le, quer por gestos quer pela entoao da voz. No mente o ingls se lhe dirigiu: "You were Officer in Army of the Monarchy, were n't you ?" interrogou e, !
 o lpis, apontou a gola do seu capote de oficial. < Oficial ! Tenente !" mentiu Kdr. Travou-se outra uma conversao em alta voz; foram proferidas f veementes.
 No compreendia o debate, mas adivinhava que o L queria mand-lo para a Hungria e que os romenos se nham a isso. A discusso durou longos minutos; um pulento oficial romeno bateu Co14 o punho na mes& ingles deu, por seu turno, um murro em cima da m& J sabia, doravante, que no conseguiria renir-se os e que por muito feliz se poderia dar se regressasse salvo  Hungria. Nova discusso, novos murros na nem sequer procurava j perceber as palavras que cavam. A voz do oficialzinho ingls elevou-se, estri "I want it ! I insist on it !& Depois, reconduziram-no  granja, onde perman&  &RA EM BUDAPESTE3&03  &inte de manha. Era-lhe j indiferente o que viria er. &Pode ser que me soltem: depois, a a uns s, pelas costas.. .& ha imediata, trs soldados, de baioneta armada, no a sair da granja, simultaneamen&e com ou- ou seis. Fizeram-nos subir para uma carroca, a llnoou a rodar pela estrada que le, em sentido caminhara a p, escoltado de soldados. A sua t msis pertences, tinham ficado l. Mais tarde, tive- &escer do carro. Um dos soldados indicou-lhes a a seguir. "Em frente, marche !&, exclamou e, de- &ndo se puseram a caminho, disparou para o ar iegar a Gyula, Kdr dirigiu-se logo  hospedaria reconheceu-o e preguntou-lhe imediatamente se heiro. "No&, respondeu. "Nesse caso pode sen- &a a, se quiser, mas sem dinheiro no Ihe darei Encaminhou-se ento para o padeiro onde po de centeio, alguns dias antes. Pediu-lhe ergasse, sem deixar de declarar-lhe logo que no heiro. O padeiro mandou-o passear. Fez outras semelhantes nas casas dos camponeses, nos da cidade, mas em tada a parte foi repelido.
 Ihe os ouvidos, a fome produzia-lhe vertigens.
 :ima que havia comido fra depois do seu inter- pelos romenos, em gamela poeirenta, uma sopa ssa pegajosa que sabia a papas de milho.

 a principal sentou-se num banco; ao menos, cair redondamente no meio da rua ! Ficou ali ante quanto tempo ? . . . No vasto cu cinzento r&m-se e ondulavam inmeros crculos coloridos; m frente do nariz erguia-se uma casa de dois &nde uma janela, no segundo pavimento, se en- aberta de par em par e cheia, at  altura da de vidro, de &drelons e de travesseiros. "Um vermelho como aquele alm, eis o que me dava agora&, pensou. "Se forrasse a cabea com le, &le sentir o zumbido nos ouvidos&. Sbre a porta &uma enorme tabuleta oval em que se podia muito.
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 54 A AVENTURA EM BUDAPESTE:  bem decifrar: "Brbara Kovik, parteira diplomada.P-- &Valia bem a pena nascer ! ou, por outra, no valia a pena nascer homem !& --Olha, s tu, Kdr !--ouviu de repente alguem di- zer.
 Ergueu a vista, piscou os olhos e viu ao p de si um homem vestido de cinzento azulado, com caloes de des- porto, polain&s altas de couro de primeira qualidade e um emblema vermelho no bon. Reconheceu-o imediatamente: era Lechner. Haviam estado juntos, algum tempo, na "frente&, na Albania.
 --Que fazes tu aqui? --E tu? Revezaram-se as preguntas e respostas. Recordaoes comuns e coisas correlativas os seus estranhos destinos lograram ensejo de exprimir-se ali, naquele banco, em Eace dos ed1'edO?2S e da tabuleta da parteira.
 Lechner era oriundo de C,yula, regressara  sua terra e no tinha que queixar-se disso. Presentemente, era Presi- dente do Conselho local dos Soldados.
 "Sabes tu?" explicava le, "tanto os socialistas como os burgueses depositam confiana em mim. O meu pai  salsicheiro, ganha, graas a Deus, muiio bem a sua vida, e quando voltei disse-lhe que me deixasse fazer o que eu quisesse. Desatei a abrir a goela  valentona ! Gorjeei arengas, Maria vai com as outras. Em resumo, sai-me admirvelmente da comdia." Lechner levou-o, depois, & casa do pai; a, deram-lhe morcela e salsicha de ffgado. No se ocuparam, alis, dle de qualquer outra maneira; prepararam-lhe uma cama numa antiga cozinha onde pde dormir at fartar-se. No impor- tunava ningum, raramente se deixava ver. Passados dois dias, Lechner conseguiu que Ihe dessem, na Camara Mu- nicipal, cinqenta coroas. A boa Senhora Lechner encheu de chourios e de carne fumada um saco, metendo tam- bm l dentro um boio de banha de porco. Partia naquele dia um combio para Budapeste --Ento, at  vista, disse Lechner;--quando eu fr  AVENTURA EM BUDAPESTE55  a Peste, faremos a pandega juntos numa boa adgazinha  Quando se apresentou diante dos velhotes, estes nem ueriam dar crdito os prprios olhos.
 --Ento, a-pesar de tudo, pudeste voltar7 No mor- ste? Estiveste em Dva? Santo Deus! Onde  que dei- ste a mo a estas salsichas tdas ? E ainda a ste boio e banha ? O tio Rudi cheirou a banha de porco e declarou: " de imeira ordem !" Depois disto, novamente em Peste, o tempo foi pas- do, e at de maneira bastante rpida. Permanecia sen- o dias inteiros, a olhar atravs da janela. Mas tudo ra tinha, para le, qusi nula importancia. Gozava sos- o e as poucas coroas com que flcara bastaram-lhe rante slgum tempo. O que importava acima de tudo, era ranqilidade. Lechner era uma jia de homem e o moo cial ingls, sse, tambm era uma jia. Duma maneira al, os homens eram todos bons... desde que se no pedisse nada. . . Gozava-se scssgo, fazia bom tempo ra agradvel viver. "No fim de contas, eu podia l ter do para sempre, em 9 de outubro de 1917, por exem- , quando os italianos atacaram onze vezes a seguir. . . ".
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 sofav& le, "ou ainda agora, na linha fronteiria, se me ssem slto, por exemplo... uma dezena de passos IS longe... E tudo questo de sorte. Dentro em pouco inverno estar acabado... e, em suma,  a paz. No ono, matricular-me-ei na Politcnica; pedirei dispensa propinas. Posso instalar-me aqui, em casa do tio Rudi antes, no ver&o, darei uma saltada a Dvaa&  CAPfTULO IV  'erta noite, o tio Rudi entrou em casa manifestando osamente a sua alegria. "Bem, bem, meu rapaz", disse tando-se para Kdr, "creio que resolvi a tua situa- !.,. tenho um velho ami&o, Max Huber, que  chefe.
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 56 A AVENTURA EM BUDAPESTE  do pessoal na Repartio Central dos Metais. Encontrei-o outro dia no &::af Central; tve bruscamente a idia de di- zer-lhe: &Oia, Max, tenho um sobrinho, oficial desmobi- lizado, que  bacharel e rapaz distinto e honesto...& No 1.? de Maro entregaram-lbe, em troca de um bole- tim azul claro, oitenta coroas na Caixa principal da Repar- tio Central dos Metais e fizeram-no sentar-se a uma se- cretria As quatro noas de vinte coroas de que tomou posse produziram nle estranha metamorfose. &Este di- nheiro, ganhei-o honradamente; ou antes, ganh-lo-ei honradamente&, pensou; e sentiu que se tratava de uma espcie de dinheiro diferente do que recebia outrora de Dva no dia primeiro de todos os meses, com a obrigao exclusiva de fazer uma coisa: prosseguir nos estudos. Era tambm diferente daquele que se chamava pr e mediante o qual tivera de cobrir-se de piolhos, dormir nas trinchei- ras, disparar numa direco em que sabia existirem ho- mens vivos, e mediante o qual, sobretudo, se estava a- torizado a estoirar a pele. Desta vez, tratava-se de dinheiro pelo qual era preciso trabalhar honradamente, aprendendo um mester, exercendo uma profisso... "Espero de si, meu amigo, um trabalho honesto e produtivo&, dissera-lhe o senhor Huber, designando a mesa que Ihe competia.
 Nessa primeira tarde, ao regressar do escritrio a casa, de- clarara ao tio Rudi: "Creio que naquele lugar terei ensejo de fazer trabalho honesto e produtivo..." No escritrio, encetou conhecimento com os colegas e, pouco a pouco, suavemente, comeou de compreender e de falar a linguagem da poca e da sua gente. Passava os dias curvado sbre fichas de cres diversas, flhas de pa- pel com cabealhos impressos, colunas de algarismos; e, se tinha a impresso de estar colocado de certo modo no meio de coisas de que se na&o avistavam nem o princpio nem o fim, sentia tambm que todos sses algarismos, tdas essas rubricas, possuam smente um significado, expresso por um nmero inscrito sob a rubrica: "Lucro lquido." Dentro de poucos dias conseguiu formular, ex- primir em palavras, o sentimento r&le produzido pelo pri-   AVENTURA EM BUDAPESTE S7  meiro dinheiro regularmente ganho, ou seja, que  preciso ganhar muito dinheiro, ser rico, viver muito bem. O caso, naturalmente, estava em saber se... naquele escritrio, haveria possibilidade de... Observou os colegas. Um d- les usava um jaqueto de alpaca cinzento escuro, muio gasto nos cotovelos; era o sr. Demjn, que podia ter entre cinqenta a cinqenta e cinco anos. Alm, estava o sr.

 Hegyi plido e coxo, com o seu jaqueto de trabalho, castanho, de mangas curtssimas. Tambm sse j no era nada novo ! Os cabelos meio-grisalhos do sr. Zoller caam em caracis sbre a sua testa enorme. A b&ca exalava-lhe sempre cheiro a cerveja.. . Por ltimo, via-se o sr. Huber, seu protector, o chefe do escritrio, que tra- zia numa das botas um remendo cosido  mquina. Aqules cavalheiros. . . no tinham conseguido enriquecer por meio do seu trabalho honesto e produtivo. Ou no seria, na verdade, o trabalho dles, nem honesto nem produtivo ? Em 12 de ,&aro as bandeiras vermelhas apareceram i subitamente nas janelas e nos mastros dos edifcios. Numas horas apenas, modificou-se o aspecto das coisas e dos ho- mens. Mil terrores pairarm sbre a cidade. Sentia-se que &ia comear uma era completamente nova. Algum disse.
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 no escritrio: "No dia 1.? dste ms, Kdr veio para aqui &em misso&. Ele calou-se e ningum teve motivo para du- &vidar do caso. Um dia, elegeram-no por unanimidade dele- &ado poltico da seco;--no tinha a menor idia do lue poderia ser com exactido aquilo, mas no protestou.
 rodavia, a autoridade central no aceitou essa eleio por- ue ningum ali o conhecia e porque no se sabia se era &munista convicto. Resignou-se perante essa destituio & to boa mente quanto  certo que, durante os dois dias n que assumiu as suas novas funoes, esteve continua- ente receoso de que Ihe requeressem um servio ou di- gissem uma pregunta a que no soubesse responder. Ia &mparecendo no escritrio como os outros. No trabalhava rque no havia em qu O novo delegado poltico, vindo fora, e o novo chefe de escritrio, que substitura Huber, ganizavam renioes, proferiam discursos; mas, quanto.
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 58 A AVENTURA EM BUDAPESTE  a trabalho, aguardavam instruoes. Estas, porm, no che- gavam. Ele escutava atentamente os discursos assim como as conversas que inundavam o escritrio,  semelhana das cheias primaveris. Ouvia e aprendia coisas sbre as quais at  data no tivera idia alguma e que Ihe soa- vam como expresses duma lngua estranha da qual Ihe fsse familiar unicamente a fontica. Ideologia, mentali- dade proletria, regime de classe, marxismo ortodoxo, re- pblica dos Sovietes, o camsrada Lenine, o camarada Boucharine, espartaquismo amarelo, capitalismo explora- dor, trabalho productivo, produo social, produ&o espi- ritual, tribunal revolucionrio, Estado comunista ideal, con- tra-revoluo, proletrio consciente, traidor  ditadura ..
 e outras que tais, que nem chegavam a tomar conscin- cia no seu esprito Muitas vezes, ao escutar um discurso, dizia de si para si: "Se eu pedisse ao camarada Berger ou ao camarada Lehotay que me explicassem, a mim s, sem nenhuma responsabilidade para les, o que entendem por "produo social&, o camarada Berger ou o camarada Lehotay ficariam to embaraados como se algum os in- terrogasse a respeito das tangentes da hiprbole. . . &Esfor- ava-se por no lomar parte em coisa alguma. Era tal- vez o nico a esquivar-se s discussoes do escritrio e a no ter opinio prpria sbre qualquer problema. Tudo aquilo no passava de palavras, muito longe da realidade, daquela poro de realidade que se chamava "riqueza& ou "exisncia confortvel& ! Passava os seus cios na com- panhia dos dois velhos. Narrava-lhes histrias do emprgo, repetia-lhes as vas discusses e, com gracejos, tentava distrair as pobres e desesperadas criaturas.

 Em Abril recebeu j duzentas coroas, em Maio qui- nhentas; porm em "notas brflncas&, & com as quais nada se podia comprar. A partir dsse momento compreendeu que as coisas se no manteriam naquele p, porque a vida  & A& anotay broca&" (a&qsim denominadas porque eram comp1e tamente brancaY no verqo), foram emitidas na Hungria, pelo go verno comuni&ta de Bla-Ku&.
  AVENTURA EM BUDAPESTE59  deixava assim de ter qualquer sentido. "Hei-de preguntar um dia a um operrio se a sua existncia se tornou me- lhor&, projectou le; mas, naturalmente, no deu execu- o ao projecto. "&enho de fazer agora como fiz no in- verno passado, quando me pus  janela, na avenida Poz- sony:  preciso esperar; reflectir, no".
 Pelos fins de Maio--estava um dia esplendoroso de como do estio--encontrou, ao entrar em casa, o tio& Rudi sentado  mesa, com o rosto grave e triste. Os olhos do tio apresentavam-se todos vermelhos, de lgrimas Aco- lheu-o um silncio.
 --Aconteceu alguma desgraa ?--interrogou.
 --Sim, Tony, meu filho, uma grande desgraa.
 --Que foi, por amor de Deus ? --Tony, meu pequeno, Maria (;szda, de Dva, veio esta rl&anha visitar-nos. Ela est casada com um oficial italiano; vieram a Budapeste por causa de um assunto oficial a resolver na Misso...
 & Maria Gazda, de Dva ?--preguntou le e sentiu logo na garganta um mdo glido a estrangul-lo. . .--e que desgraa  essa? O pap, a mama. . . morreram, rematou em tom afirmativo sem interrogar sequer.
 --Sim, j em Novembro ltimo, de gripe espanhola.
 Primeiro, teu pai; dois dias depois, tua mae...
 A tia Ana, apoiada  janela, chorava. O tio Rudi, incli.
 nando um pouco a cabea para o lado, roa as unhas.
 Tony mantinha-se no meio do quarto.
 "O pap e a mama esto mortos..." De sbito, um &oluo agudo e fraco de criana atravessou-lhe a garganta; rrando os lbios, a muito custo o reprimiu. Os seus olhos ermelhos tinham a sensao de queimaduras. No arredara do mesmo stio. Repentinamente, deu meio volta e sau.
 a ante-camara, deixou-se car no banco estofado que avia por baixo do espelho e assentou a &abea nos punhos.
 qule fraco soluo de criana soltou-se-lhe ento, final-  ente, do peito. As lgrimas jorraram, os soluos sufoca- m-no. Os velhotes no tardaram em segui-lo, vieram nsol-lo chorando sempre. Voltaram todos para a casa.
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 A AVENTURA EM BUDAPESTE  de jantar, puseram-se  mesa e calaram-se. De quando em quando, a tia exalava um suspiro, no meio das suas lgrimas. O tio Rudi, piscando os olhos, contemplava-o de soslaio. Dexara de chorar, Mantinha-se  mesa, a bca cerrada. Depois, desatou a falar. Interrogou: "Como  que se deu ento aquilo?& e apercebeu-se neste instante de que se encontrava szinho no aposento.

 Cada a noite, Betty ps-se a preparar a cama. Mal a rapariga acabou de faz-la, le deitou-se. Imagens confusas Ihe agitaram o sono; despertou coberto de suores e o corpo num continuo tremor. No foi ao escritrio, ficou sentado na sala de jantar, fechados os olhGs, o rosto en- covado. Havia sol, na rua; um grande bar.do de estudan- tes desfilava, a cantar, pela avenida Pozsony fora.
 Pelo meio-dia, Maria Gazda repetiu a visita. Sentou-se ao p dle. Os velhos, que tinham ficado quando e&a entrou na casa de jantar, retiraram-se para o seu quarto. Maria contou o que se havia passado. A gripe espanhola gras- sara terrivelmente em Dva desde o principio de Agsto, mas os velhotes conservavam-se, graas a Deus, inclu- mes; simplesmente, lamentavam-se a-mide da falta de noticias do filho. De todos os lados, no vinham seno novas inquietadoras; na cidade havia tambm numerosos desertores. Depois sobreviera a invaso romena. Que horror ! Tinha havido probio absoluta de sair  rua; foroso fra ficar encerrado, cada um em sua casa, dias inteiros. "Se tu visses os que se prestaram a servir de guias os romenos, como, por exemplo, Simiu, o farma- cutico? !" Um dia, uma patrulha entrou na casa dos teus a requisitar mapas do pais; teu pai no queria d-los, disse que os no tinha. L em baixo, paCsaram busca em tda a loja e ac&baram, como se calcula, por encontrar- muitos mapas assim como atlas escolares. Ento, levaram teu pai, bateram-lhe e conservaram-no prso cinco dias na caserna.
 Tua pobre mae, durante sses cinco dias, desde a aurora at noite fechada, conservou-se defronte da caserna. No a deixaram l entrar, mas tam-pouco puderam afast-la.
 Por mais que Os oficiais a escorrac,assem, voltava sempre,  A AVENTURA EM BUDAPESTE 61  a-pesar de tudo. Por fim, puseram em liberdade teu pai porque ele estava j com muita febre e apanhara um res- friamento na caserna. Fiquei l, em casa dos teus, de dia e de noite, com o Dr. Moskovitz, at que, no terceiro dia o teu pobre pai morreu. Quando o Delegado de Sade chegou--tambm le ia acompanhado de um oflcial ro- meno,--mandou imediatamente levar tua mae para o hospital da Misericrdia, onde... dois dias depois Maria ps-se a chorar e pegou-lhe na mo: --Tony, meu pequeno, tu sabes que na loja no havia &a quasi nada, e com respeito os mveis...
 --Sim, sei--respondeu le;--ns ramos pobres Olhou, de olhos enxutos, a mulher que chorava, aps o que desviou a vista, atravs da janela, para a rua. O 901 br&lhava, dois pesados camioes passavam lentamente rangendo as rodas. Maria foi para junto dle: "Tony meu pequeno..." voltou ela a dizer, suspirando, "ste mundo  terrvel !& "Terrvel, ste mundo  terrvel&, confirmou Kdr, &os romenos maltrataram meu pai e deixaram-me partir so e  Ps-se a examinar Maria: ela vestia um fato cinzento claro, muito elegante, e botinas castanhas, de atacadores.
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  --E tu, Maria--preguntou--como tens passado? Soube que casaste com um italiano. Porque no veio o teu marido contigo ? Maria olhou a rua --O&h ! Scopelli tem muito que fazer na Misso e par- timos &a amanha para Viena.
 Subitamente, voltou-se e disse, baixando tnnto qusnto possivel a voz: --Escuta, Tony, os velhotes eu no disse isto- mas a ti, digo-to; escuta, Tony, eu no sou mulher de Jlio- por enquanto, ns . . . & Tda corada, procurou uma expresso decente.
 "Vivo &unta com le, simplesmente. Sabes que nos con- fiscaram a farmcia, porque tdas as farmcias foram pos.

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 62A AVENTURA EM BUDAPESTE  tas sob a tutela das autoridades e Simiu declarara que ns ramos suspeitos... Ento, abalmos para Kolozs- vr...& Uma a uma, as suas pslavas caam no silncio.
 "Kolozsvr, j no  assim que se chama,  Cluj... Era o momento do grande panico, ningum achava onde abri- gar-se, Q hotel Nova-York estava ocupado por oficiais romenos. Intentmos um processo contra o Tesouro Pu- blico, por perdas e danos; o nosso advogado era rome- ro. . ma&, antes mesmo do julgamento--quanto tempo seria preciso esperar pelo julgamento 7--fomos obrigados a aceitar  boa paz uma transaco, uma indemnizao- zita insignificante... O dinheiro evaporava-se. Tdas as semanas tinhamos de apresentar-nos a "Siguranta& (Poli- cia de Segurana). Que balbrdia de vida ! Era de uma pessoa endoidecer! Uma Misso intemacional chegou a Kolozsvr. Como eu sabia bem romeno, alemo e francs, que vergonha teria de trabalhar 7 O capito Scopelli, que belo homem e que belo corao ! Conseguiu-me um lugar de dactilgrafa na Comisso. Simpatizmos um com o ou- tro e, acredita, at os meus pais estimam Jlio como a um filho... le tem diante de si uma brilhante, esplndida carreira. Agora, leva-me para Viena, para onde acaba de ser nomeado... e, logo que alcance licena partiremos para Liorne, para casa dos pais dle, onde nos casare- mos. . .
 --Que idade tem ? --Trinta anos. . . um homem de sociedade, muito gen- til, muito chique. A familia possui uma fbrica de tintas em Liorne.
 --E tu. . . tens quantos ? --Eu ? Qu, j no sabes ? Tenho vinte e quatro anos.
 --E  certo. . . que le te desposar? --Meus Deus ! Mas evidentemente que  certo ! . . .
 Na sua voz podia-se notar que ficara magoada da vil pregunta suspeitosa. Mudou depressa de assunto.
 --E tu, Tony, como vais ? A tia Ana contou-me que tinhas um bom emprgo !
 --Eu ?--disse le, com um vago gesto de mo, aquilo  A AVENTURA EM BUDAPESTE 63  nada . Estou na seco de socializao da Repartio Central dos Metais. No fao nada.
 Os velhos entraram. Maria voltou-se para les-  --Meu querido tio Rudi e minha querida tia Ana, omeu maridomanda preguntar-lhes se no poderia ser-lhes util nalguma coisa. No tm necessidade dum certificado ou de qualquer documento. . . ou talvez dalgum dinheiro ? --Minha queridinha, respondeu a tia, de que poderamos ns necessitar? Estamos na misria, mas na misria est tda a gente. Aquilo de que teramos necessidade, seria dum mundo melhor; mas isso, no  o teu marido,  Deus o nico que no-lo pode dar.
 Kdr aproximou-se ento bruscamente da janela e de- teve!se em frente da rapariga.
 --Escuta, Maria. Levem-me com vocs para Viena Maria fitou-o com os seus grandes olhos, cheios de sur  --Tony, meu pequeno, eu posso falar nisso ao Jlio...
 siMplesmente, no creio que... porque a Misso --Est bem, est bem--interrompeu le--eu sei que no e possvel. No falemos mais nisso. Pode ser que noutra ocasio, duma maneira ou doutra...

 Conversaram ainda algum tempo. Maria lamentou-se do.
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 aspecto medonho que oferecia a cidade reduzida  misria e depois despediu-se. No dia seguinte de manha ayr&sen- taram-se ali dois agentes da polcia. Preguntaram o que  que a gente da casa tivera que tratar, nos dias anteriores, com a "dama da Misso". A tia Ana, morta de mdo ps-se a chorar: 4Mas, tratava-se de uma parenta da Transilvania- en- to, at isto  probido ?& Os agentes da polcia mostraram-se pouco faladores.
 Relancearam a vista pela habitao, anotaram qualquer coisa e foram-se embora.
 A tia Ana e, secretamente, tambm o tio Rodolfo no se sentiram tranqilos seno decorrida uma semana sem que o caso tivesse conseqencias Os dias rolavam vazios sbre a cidade. Kdr conser- .
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 64 A&A&tENTlJRA EM BUDAPESTE  meditar cnt`muamente nos pais. O pesadelo da agresso  eso&t r& A& l&u_ escoavam-se lentamente,  semelhana  pessoa. No tomava parte nas discussoes: no o Interes- savam, sentia a sua completa esterilidade...
 Um dia, espalhou-se a notcia de que rebentara a con- tra revoluo, de que vriOOss cmOmissrios do Povo tinham fugid? NalgunS minut?S aPHeanvai9a' de facto, alguma coilsa  orque os elctricos no circulavam. Via-se, aqui e aco a, um carro abandonado. S passavam alguns poucos tran- seuntes retardatrios, agora apressados em recolher. s camioes dos terroristas percorriam as ruas a tda a ve o- cidade, fazendo soar as sereias.
 Ele caminhava vagarosamente na rua deserta, so o cu esplendorOS? dIa tardecasa dos velhoteS& perman&Cer sentado  janela, na sala jdrneenton de' fraseS incompreeAns  veis, na inanidade dum trabalho incoerente e sem interesse, no desespro de no ter encontrado o seu lugar... & es- pera sempre de que suceda alguma coisa ! Esperar 7. . .
 C,om as suas idias ou com aquela gera&o7. . . Esperar, o qu 7. . . Que os farrapos de papel sejam substituidos por dinheiro bom7 Que as abboras, prato obrigado de  "Tenho vinte anos& soprava-lhe uma voz, n,o dle mesmo. "No sou ainda na&a, nem mnguem. N&o existe um ente humano, nem um objecto, nem uma recor-   AVENTURA EM BUDAPESTE65  --s & r l--&-t--rugou uma voz abafad  -L& --Que  que h ento7 --Dir-to-ei l em cima ' Os velhos olharam, aflitos, o rscm vindo; mas Kdr  O i& Estvo Vavrinec, meu antigo camarada de turma.
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 66A AVENTURA EM BUDAPESTE  --Olha !--exclamou Kdr;--em resumo, tu s contra- -revolucionrio ? E porque  que te no encontras no teu.. .
 psto. . . no teu grupo 7 --Eu ia justamente proceder a uma piedosa dilign- cia... em casa de quem, desculpars que te no diga, quando vi q&le o extremo da ponte estava ocupado por um peloto de tropas de assalto e que um automvel blindado chegava do lado do Parlamento.

 --Num abrir e fechar de olhos, enfiaste ento por um portal dentro e agora estas na rica teno de no te mos- trares l fora seno quando a tua gente obtiver a vitria, no  assim ? O outro quis replicar, mas de sbito corou at  raz dos csbelos, aps o que, a respirao suspensa, se fz plido como o linho --Santo Deus !--deixou le por fim sair qusi gague-  adamente, da sua bca;--tu no s, pois no, com- nista 7 Kdr fixou-o e sentiu vontade de rir.
 --Comunista--disse espaadamente, no tenhas medo, que no sou comunista. &as acreditas que me  muito simptico um contra-revolucionrio que deseJa aguardar em abrigo seguro que. . . dize-me c,--a Sl proprio se interrompeu repentinamente--foste combatente 7 Vavrinec continuava lvido.
 --No--respondeu numa voz a custo perceptivel; fui licenciado, no te lembras j 7 --E em que te aplicas desde essa data7 --Eu 7 estou no segundo ano da Politcnica, na sec&v de mecanica.
 --Bem. Vou pedir a meu tio que te deixe aqul ficarl esta noite.--Disse isto e saiu. Z A &ia Ana lembrou-se dos agentes da polcia. Tanto mais Z que aqule nem sequer era parente: ela no queria alber- &g-lo. O tio Rudi soltava "hum& "hum&, esforando-s porZ parecer neutro, mas tambm le preferiria ver pelas costa&Z aqule jovem estranho, porque, sabia-se l7... Todavia& Kdr convenceu-os merc de rpidas palavras: no era&  AVENTURA EM BUDAPESTE67 .
  & ito recusar, o pobre mal se podia ter nas pernas; prepa- f r-se-lhe-ia um poiso em cima de trs cadeiras juntas ratava-se, no fim de contas, dum camarada de turma; --Mas se sucede alguma coisa 7 --No--respondeu ]e nada suceder;--e abste- e-se de revelar que Vavrinec trazia um emblema consigo oltou para a sala de jantar.
 --Podes ficar--anunciou ao outro, que balbuciou uma pcie de agradecimento. Depois o silncio caiu entte les.
 Desde que fra mobilizado, no tornara a ver Vavrinec conversa entabulou-se dificilmente e em palavras pru entes e neutras. Vsvrinec voltou a contar que estudava Politecnica, mas no se podia falar de estudos a valer meio dsses patifes dos vermelhos ! Felizmente, os ver- lhos verdadeiros que havia na Politcnica eram pouqus- os; mas todos tinham de proceder como se Habi-  vd na parte antiga de Buda, com os pais; estes possuamantes,haviam possudo, uma casa com um jardinzinho.
 --Imagina tu que a mama faz criao de frangos no nos- quarto; quanto ao meu pai, o velhote felizmente retirou- dos negcios em 1917. Tudo iria bem se no existisse.
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 e infame regime. . . Mas no durar muito tempo !.
 Vavrinec aquecia pouco a pouco.
 --E uma centena de judeus que dirige tda a mano- , aqui como na Rssia; felizmente, tambm na Rssia eam a perder terreno... vai ser uma revolta como ca se viu; entre ns, porm, a coisa no h-de ser fcil como isso !
 Depois, como se tivesse retomado contacto com a rea- de, conteve-se e preferiu in.errogar Kdr-  --E tu ? Que fazes ? - Eu ?--Kdr reflectiu. Devia contar-lhe que, em se- la  sua mobilizao, fra mandado para a Albania, no o, e depois para a "frente& italiana; que em 1917 ti- sido ferido no ombro por um estilhao de granada, e depois, ainda mal restabelecido, o haviam mandado vez para as trincheiras, onde estivera coberto de os e matara como os outros; que, em seguida, aba.
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 68 & AVENTURA EM BUDAPESTE  lara como sses mesmos; que o pequeno Feledy ex?irara no combio; que le, Kdr, passara inutilmente o seu tempo em Peste; que tinha tentado voltar para casa dos pais em Dva, e que, por ltimo, Maria Gazda viera a Peste e trouxera a notcia de que... ? Guardou silncio durante segundos, findos os quais res- pondeu: --Nada. Estou num escritrio.
 --Que espcie de escritorio?--preguntou Vavrinec.
 Contou ento como conseguira, dias antes da proclama- o da ditadura do proletariado, obter emprgo.
 Vavrinec mexia-se e remexia-se, nervoso, no seu as- sento, no desejo de preguntar alguma coisa.
 --E, a respeito doutros assuntos, como vais tu ? --Vegeto--respondeu--Isto no  trabalho, no  vida. Espero que as coisas mudem de feio.
 Pela vez primeira, desde o como da conversa, Vavri- nec respirou, consolado.
 --Ah, tu esperas que isto acabe ?--interrogou.
 -- modo de dizer.. . que isto acabe, ou ento que alguma coisa nova suceda. Que eu possa estudar ou ga- nhar a minha vida, compreendes ? Vavrinec sorriu maliciosamente.
 --Escuta, Tony--disse le--juro-te . . . fizeste-me apanhar um susto. . . Persuadi-me de que eras comunista e de que eu, feito idiota, tinha desembuchado tudo ca para fora, logo  primeira. Podia ter ido directamente daqui para a enxovia.
 Como Kdr no respondesse, Vavrinec perdeu de novo a sua segurana.
 --Suponho que  para me &azeres zangar que guardas ` silncio, meu velho ? --Escuta--respondeu Kdr--eu no sou comunista, j mas tam-pouco sou contra-revolucionrio. Eu... apanhei-i a minha conta na "frente". . . tu, porm, no podes com- &preender isto. Mas que razo tenho eu para supor que& aquilo que espero vir do vosso lado, desde que, at agora,& tda a gente mentiu &. . .
  AVENTURA EM BUDAPESTE69  Vavrinec, hostil, guardou silncio.
 - Ouve--prosseguiu Kdr--eu creio que, hoje, todo ,,b mllndo est doente, ns assim como a Rssia, como o unuo inteiro. Esta coisa.. . a guerra.. . no poder ser Imente sniquilada nos seus terrveis efeitos. . . salvo se . dos con&ugarem os seus esforos, os comunistas e os -b ncos e. . . todo o mundo, ora a est !
 - m sorriso irnico adejou nos lbios de Vavrinec --Vejo que conservas ainda os olhos muito fechados-- . sse ele--Antes de mais nada, julgo que posso ter con- la na nossa velha amizade e que no terei a recear 3 e. . .--Reatou o fio do discurso franzindo duramente sobrancelhas: Ouve, Kdr, tu no s comunista, isso mcontestvel; mas tamb,n no escutas a voz do nosso mpo. Acreditas que uma vez acabada esta chinfrineira rmelha, o radicalismo judico internacional, e bem assim franco-maonaria, tda esta scia de derrotistas judeus causa de quem perdemos a guerra, ou os seus tteres, socialistas, continuaro a ter voz activa neste pas ? io & Acreditas tu que as fras destrudoras internacio- & ousaro vir ainda envenenar-nos ? Acreditas nisso ?. . .
 A lia Ana entrou para pr a mesa. Durante a refeio, ucas palavras trocaram. Findo o jantar, a tia trouxe a col-.
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 oaria e mais acessrios e juntaraM-se algumas cadeiras, a o leito de Vavrinec )e manha cedo, Vavrinec encontrava-se, j completa- te vestido,  janela, a olhar a rua.
 --Esperava que despertasses--disse a Kdr--h a hora que vejo que os elctricos circulam j. Vou-me a andar &dr vestiu-se tambm. Os velhotes ainda no davam al de si. A serva trouxe duas chvenas de ch e dois aos de po.
 --No sei se  preciso esperar que os teus parentes se tem, rers a amabilidade de Ihes transmitir os meus adecimentos.
 --Entendido--disse Kdr--cumprirei o teu encargo vrinec dirigiu-se novamente para a janela.
 70 A AVENTURA EM BUDAPEST&  --Peo-te. .. mais uma coisa. Vejo que as patrulhas vermelhas aparecem ainda com bastante freqncia e que a guarda se mantm na extremidade da ponte. No  im- possvel que sigam os transeuntes e que Ihes preguntem pelos seus papis, pelo menos a alguns dles. Em suma, poderia algum reconhecer-me... tda a cautela  pouca.
 Eu no pode&ia deixar isto c... apenas por um ou dois dias, voltaria a busc-lo. . . talvez hoje mesmo 7 E estendia a mo, na qual segurava o emblema verde.
 --No--respondeu Kdr em voz firme--no podes deixar isso aqui. No fim de contas, esta casa no  minha, e eu no devo atrair-lhe aborrecimentos. Se te no atre- ves a lev-la, podes atir-la para o ptio ou para as retre- tes.
 --Obrigado ---proferiu Vavrinec, em voz glscial--isso no !
 Em seguida, aps curto silncio: --Alis, tenho mais duas em casa, escondidas no jar- dim. Deix-la-ei, de facto, cair no meio do ptio. Desceram juntos a escada e separaram-se na rua.
 Os dias foram correndo. Pelos meados de Julho, Kdr recebeu uma convocao: tal dia, tal hora, devia apresen- tar-se para ser mobilizado. As coisas caminhavam mal: os romenos, em Tisza, incomodavam fortemente o exrcito proletrio. Na manha do mesmo dia, apresentou-se ao de- legado poltico e pediu uma guia para consulta mdica.
 "Slnto vertigens, di-me a cabea, tenho vmitos; es- tou com febre; no sei bem o que isto possa ser.& Como  natural, no se tinha referido, no escritrio,  convocao. A tia Ana disse: tRecebi uma convocao, mas no me apanham l." "J me basta. Vou-me deitar e ficarei na cama at que me venham procurar ou que haja alguma novidade. Diz-se que os romenos esto j em Szolnok. I &ie tem mdo, mi-   & Localidade a uma hora, pouco mais ou menoa, de Budapesteemcaminho de ferro  AVENTURA EM BUDAPESTE71  tia, irei para um hospital; se l me no admitirem, ar-me-ei cair no meio da rua; mas ser mobilizado, , isso no !& tia conservou-se um instante em silncio, atnita. De- , , incitou-o a deitar-se: a verdade era que ela e o tio _ eram mdicos ! .
 uanto ao velho Dr. Webler, ste diagnosticaria tudo o u se quisesse.
 eteu-se na cama. No dia seguinte, estirando-se ao com- &ri o no leito, bem disposto, radiante e em plena luz do i , p8s-se, no ntimo, a rir: J isto  uma boa coisa; agora espero, deitado, que a alguma novidade&.
 tia Ana tratava-o com muito zlo e, por intermdio criada, fazia constar em todo o prdio que le tinha B febre muito alta, os pulmoes atacados...

 ra necessrio precaver-se para o caso de virem tirar rmaoes. Decorridos cinco ou seis dias, IIM dos cole- veio visit-lo: o delegado poltico mandara-o l para o que havia. Recebeu-o mesmo metido na cama, co- to at o pescoo, num calor sufocante. A tia Ana no xou o homem penetrar na sala de jantar e acercar-se t cabeceira do doente seno depois de muitas precau- ;, preguntando-lhe se le se no receava apanhar al-.
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 i & coisa, visto o sobrinho ter acessos de tosse sca to gosos. O visitante acabou por sentir realmente receio as ordens so ordens e entrou.
 uhnert, um jovem suabo, & louro e de elevada esta- , mantinha-se junto da porta do aposento e observava r, que se encontrava estendido de costas, os olhos dos, transpirando medonhamente debaixo da pesada  ?a.
  - Bom dia, camarada Kdr--sadou--Ento, isso vai melhor?  Driundo da Subia, regio e antigo ducado do imp&rio S&er- ico, entre a Turingia, a Baviera e a Suca.
 72A AVENTURA EM BUDAPESTE  Kdr no respondeu, mas executou um prolongado acesso de tosse sca, aps o que, como s no instante voltasse a si, se soergueu na cama.
 --Bom dia, camarada Kuhnert, vamos, que h de novo l no escritrio ? --Oh I no  isso que tem importancia, isso  secun- drio !--afirmou o outro;--voc, o que  que voc tem ?  o que unicamente importa.
 Kdr fz um gesto vago, tossiu.
 --Oh !--disse Kuhnert, assustado a valer--o menos isso no  grave, no ? --Grave ? . . . Oh, hei-de levantar-me daqui . . . talvez . .
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 isto so restos da guerra--proferiu com semblante carre- gado enquanto alguma coisa comeava de cocegar-lhe na garganta, de modo que teve de fazer grandes esforos para reprimir uma gargalhada.
 Kuhnert olhou-o, o rosto inquieto; depois, sentou-se e contou que corriam ms novas, tanto no escritrio como na cidade: sbre o fim prximo da ditadura do proleta- riado, sbre o ataque conjugado dos checos e dos rome- nos... "mas, acrescentou  laia de consolao, a cons- cincia dos proletrios acabar por despertar, e depois o exrcito russo libertador chegar talvez ainda a tempo, no encalo dos romenos..." Por flm retirpu-se, convencido de que aqule pobre K- dr passaria mal a noite.
 Logo apos a su parti&a, entraram a tia e o lio e, os trs juntos, entregaram-se muito  socapa a tal acesso de hilariedade que a tia acabou por achar indecente brinca- rem com coisas to srias, "sobretudo em poca to terr- vel como aquela&.
 Depois d8ste incidente, ningum mais o veio incomo- dar. Teria podido tranqilamente levantar-se e, a-pesar disso, permaneceu deitado.

 "Representemos a comdia at ao fim"--disse de si para si; mas num relance, acudiu-lhe ao esprito que se conser- vava deitado ainda por mais outra razo, por no ter nada que fazer, para deixar passar o tempo dormindo e, durante `  AVENTURA EM BUDAPESTE73  s horas de viglia, poder contemplar, atravs da janela, o edacito de cu azul. A contemplao do cu recordava- Ihe qualquer coisa j conhecida: uma sensao estra- ha... o combio sanitrio avanava vagarosamente, su- ia, arque&ante, uma encosta. No leito inferior, estava 81e eitado; por cima, algum respirava dificultosamente, numa ieira surda, entrecortada; sse tinha uma ferida no ven- re; nos outros dois leitos, mais dois homens se encontra- am deitados de ventre para baixo, tendo, coisa singular !
 ma ferida exactamente semelhante no traseiro; de bru- os e amarrados s camas, les lamuriavam e, pela janela, vistava-se um recanto do cu frio dos Alpes... Desta ez, porm, era muito melhor... permanecer deitado, de xcelente sade,  espera !. . . presentemente, pelo menos, ra provvel o caso no degenerar em. . . infeco geral !
  CAPfrULO V  Dias depois a ditadura do proletariado esava por terra.
 le levantou-se logo que soube a notcia. Sentia-se um ouco fraco devido a ter permanecido quinze dias deitado; ontudo, nesse mesmo dia se dirigiu ao escritrio.
 As ruas negrejavam de gente; guardas a cavalo, em.
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 niforme de gala, percorriam a cidade; fardas de oficiais Irgiam aqui e ali, brilhando com todo o esplendor das uas estrlas na gola '; as bandeiras vermelhas, feitas em rrapos, apodreciam sob montoes de porcaria e arranca-  m-se das paredes os cartazes comunistas. Imediatamen- , porem, colavam-se outros cartazes no seu lugar- os zeres eram diferentes, mas o sentido era o mesmo. Em z da retrica vermelha era a retrica branca a soltar ros de morte a cada canto da rua. Em vez de punho rrpelho, era o punho branco que, ameaador, reprimia  E&tas estrelas designavam as patentes do exrcito hungaro,.
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 74A AVE&TURA EM BUDAPE&TE  a respirao no peito do homem do povo, ao Icngo das fileiras de prdios.
 Vendedores de chocolate e de cigarros apareceram sem demora nas avenidas; e, vinda do lado dos arrabaldes, gente semi-desfalecida, esgueirava-se na bocarra dos lar- gos portoes, em seguida a sangrentos tumultos. Espalha- va-se na atmosfera um cheiro a linchagem &; a cidade inteira sussurrava e, todavia, mal se ouvia em qualquer parte uma frase em tom mais alto logo tda a gente de- satava a correr. Cada qual olhava com desconfiana o vi- zinho e, no obstante, desde que parassem na rua trs pessoas juntas, imediatamente mais trinta se poriam  volta delas. Diversos jornais, cujo texto se limitava a uma nica pgina, enrubeciam a clamar vingana, e nas fron- tarias dos Bancos aparecia de sbito uma singular novi- dade: a cota30 da cora hngara em Zurique.
 A noite ouvia-se novamente a fuzilaria. Depois, ao som de clarins estridentes, bruscos, arrogantes, um tanto bar- I)aros, desfilavam tropas romenas pela avenida Andrassy.
 O inqurito r.o escritrio corr&u depressa os seus tra- mites. Quando se apresntou diante da comprida mesa da sala das sessoes, o sr. Huber, membro da Comisso de Sindicancia, bichanou qualquer coisa ao ouvido do presi- dente- "J me vi na frente duma mesa assim, com a d,- ferena que esta es& forrada de pano verde"--racioci-   --O sr no aceitou o cargo de delegado poltico, no verdade?--preguntou o presidente.
 --No aceitei !--respondeu Kdr.

 --O sr. deu parte de doente no escritrio, em 31 de julho, e conservou-se de cama, unicamente para no cum- prir a ordem de mobilizao dos vermelhos, no  assim7 --Sim, sr. presidente.
  1 Da c&lebre "lei de Lyncho, espcie de proce&so sum&rio, u&a- do nos E. U da Amrica do Norte, em que a multid&o Ye arro- gava o direito de prender, condenar e execlltar oscri&ino30&.
  A AVENTURA EM BUDAPESTE75  f Dias depois comeou o pretenso "trabalho de reorgani- zao&, o qual consistia principalmente em arrumar num armario espec&al a correspondncia e outros papis acumu- lados desde 21 de maro. Em redor das mesas voltavam a formar-se grupos; mas em vez de discutirem os acon- tecimentos sob o ponto de vista do marxismo ortodoxo ou da moralidade proletria, trataVAm da "guerra perdida&, da "renascena do capitalismo& e da "regenerao noional& No 1. de setembro, de fonte limpa, surdiu a nova de que o govrno ia liquidar a Repartio Central dos Me- tais... Efectivamente, a maior parte dos empregados, le includo nesse nmero, receberam pouco depois a notfi- caco de que ficavam dispensados do servio a partir do 1. de outubro. Kdr observou a sua carta, no fim da qua! leu que, para leceber a indemnizao legal por des pedlmento, poderia comparecer no dia tal, s tantas horas em determin&da secretaria. Experimentou qualquer coisa semelhante a uma impresso de alvio.
 ao regressar a casa contou os velhotes que estava despedido, que ia receber uma indemnizao e que ten- cionava inscrever-se na Politcnica, no curso de arquitec- tura. Tendo todos os seus documentos em regra, adicio- nou-lhes o certificado da sua conduta patritica e moral i urante a ditadura do proletariado e, uma bela manha.
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 controu-se diante da porta da Politcnica. Viu imediata- ente passar-se fsse o que fsse de flnormal.
 Disseminados pela praa, defronte da Escola, grupos de pazes discutiam acaloradamente. Nas margens do Da-  bio, havia dois ou trs grupos mais importantes. Des- &rtinou tambm uma ambulancia municipal com bandeira crde, assim como um numeroso destacamento de solda-  s romenos. Tinha ouvido falar em conflitos universit- &s, em motins, mas nada disso o interessava A entrada recebido por dois rapazes de bina. Eles rnediram-no alto a baixo, com a vista, e preguntaram: --E para efeito de matrcula ? --Sim, .
 --Passe !.
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 76A AVENTURA EM BUDAPESTE  No trio, no stio onde a escada desemboca no corre- dor, foi de sbito cercado por grande magote.
 --A sua carta de membro da Associao dos Estu- dantes Patriotas? --Ainda a no tenho; venho matricular-me,--escla- receu Kdr.
 --E para o primeiro ano 7 --Sim.
 --A sua certido de idade7 Meteu a mo na algibeira para tirar a papelada.
 " Kdr&, proferiu neste momento uma voz conhe- cida.

 Ergueu os olhos, viu Vavrinec a trs passos dle. Os olhares de ambos cruzaram-se, num relampago, aps o que Vavrinec estendeu o brao na sua direco e gritou: 4Comunista indecente !& ao mesmo tempo, recebeu duas tremendas bofetadas que s por um triz Ihe no rebentaram os olhos. Sentiu no ombro uma impresso igual quela que Ihe produzira, outrora, um estilhao de granada, e logo rolou pela es- cada, no extremo da qual sentiu ainda que algum Ihe dava um pontap nas ilhargas...
 Durante uns poucos de dias, foi perseguido pela viso de Vavrinec apontando-o de brao estendido e berrando: &Comunista indecente !" Por fim, voltou  posse de si prprio, o seu estado adquiriu melhoras: a pancada com a moca de cauch havia-lhe fracturado a clavcula, mas o sso ressoldava-se sem complica8es, e do pontap que apanhara, no trmo da escadaria, no restava j seno uma mancha violacea, do tamanho duma palmilha, na ilharga.
 Xncontrava-se tranqilamente estendido no leito do hos- pital, quando os tios o foram visitar. Ele nem sequer alu- diu ao assunto; mas veio uma tarde em que a tia,  sua cabeceira, desatou a lamuriar: --Vs, meu pequeno,  o castigo de Deus por outro dia te teres metido na cama, de perfeita sade.
 li;le encolerizou-se:  A AVENTURA EM BUDAPESTE &7  -- possvel, minha tia, que seja castigo de Deus, mas se-ia ento unicamente por ter sido...
 No pde acabar a frase. ao rudo das vozes, acorrera imediatamente a enfermeira. Ela pediu  senhora que no enervasse o doente. Ento, todos se calaram.
 Vavrinec fizera com que le fsse zurzido. Tinha-lhe dado roda de "comunista indecente&. Tudo isso, sem sombra de dvida, por causa do emblema verde atirado fora, para o ptio.
 Uma das enfermeiras, uma morena bastante alta, vinha freqentemente v-lo durante o dia. Parava ao p do leito e trocava com le algumas palavras. Mas quando Agata --era ste o seu nome--ficava de servio nocturno, permanecia horas seguidas sentada junto da cama dle, a conversar em voz baixa,  luz branda da lampada azul.
 "E agora, durma!& dizia-lhe ela s vezes; mas nem por isso se erguia dali e ambos prosseguiam na conversa.
 Havia ocasioes em que j despontava a madrugada quando le adormecia. A-pesar-disso, no se sentia fatigado, por- que no fim de conhs podia dormir de dia, se assim qui- sesse.
 &0 rosto dela  belo&, devaneava. ''E tem tambm bo- nitas mos, de dedos esguios. Custa a acreditar que toque.
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 nesses pobres doentes em estado horroroso. Belos so igualmente os cabelos; ve-se que, por debaixo da touca, os traz enrolados em forma de concha sbre as orelhas Mas  mais baixa do que eu.& Certa noite, pegou no brao de Agata, de maneira a roar-lhe com os dedos no seio. Ela consentiu e apertou &esmo, com o prprio brao, a mo de Kdr de encon- ro ao busto. A partir daquela noite, deixou de sentar-se la outra extremidade da cama para se sentar mais perto, le modo a poderem tocar-se  vontade; Kdr conservava, ssim, a mo dela na sua durante uma boa parte da noite.
 ,negou ao ponto de atrever-se a tactear-lhe os seios sem &ue a rapariga se defendesse. Todavia, ali, no leito hos- &italar, nada ousou empreender; mas quando, no princpio oUtubro, sau curado, pediu a &gata, ao despedir-se dela:.

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 78 A AVENTURA EM E3UDAPESTE  --Diga-me, no querer vir, um dia. . . dar um pas- seio. . . comigo ? Um domingo, depois do almao, ioi procur-la ao hos- pital. Ela trazia um vestido castanho e chapu da mesma cr. Brilhava o sol, o ar era tpido e delicioso.
 --Deseja ir ao Teatro Nacional 7--interrogou le-- Vai  cena, em matin&e, a pea "As meninas Gyurkovitch." --Ah, no ! Ir ao teatro com um tempo to lindo como est hoje? Antes a g&nte passear, lanchar numa pastela- ria e, se voc quiser, ir depois ao cinema, respondeu ela e, a rir, acrescentou de repente: 4Eu tenho dinheiro." Ele corou. Que idia seria a dela 7 --Eu tambm tenho--replicou, enquanto reflectia que fra uma verdadeira sorte o tio Rudi ter conseguido trocar o dinheiro branco dos comunistas pelo dinheiro dos Cor- reios, graas  interveno dum dos seus amigos, tesou- reiro nos caminhos de ferro.
 Meteram pela avenida Rkczi at  Estao de Leste, depois do que seguiram at ao Bosque. Como era bela essa tarde de outono ! As alamedas formigavam de gente, brincavam em volla dales bastantes crianas. Uma corpu- lenta mulher achava-se sentada num banco, dando de ma- mar a um bb de cabelos negros como azeviche.
 --Santo Deus, se eu pudesse ter um filho !--suspirou a rapariga tomando-lhe o brao.--Infelizmente,  impos- svel.
 "Como ela tem o brao a arder !&--observou Kdr de sipara si. E preguntou: & Porque  que  impossvel ?--a pregunta era tla e indiscreta, mas a rapariga no experimentou constrangi- mento algum.
 &  impossvel--disse ela--porque  impossvel, meu grande idiota ! Uma vez estive vai-no-vai a ter um... e por isso mesmo  que me  impossvel vir a t-los Urna onda de calor repassou o corpo de Kdr: ela esteve qusi a ter um... isto queria ento dizer que...
 Sentaram-se num banco. Ele meditava incessantement&  AVENTt)RA EM BUDAPESTE 79  na confisso da rapariga. Depois enlaou-a, atrau-a a si e, como o din principiava a declinar, abraou-a pelo pes- coo e beijou-a na bca. A rapariga encheu-se de alegria, acolheu a bca dle com uns lbios que se ofereciam e que aceitavam.
 4A sua bca tem um gsto puro e fresco& pensou le.
 Inesperadamente, a rapariga ergueu-se.
 --Contraria-me isto; so figuras de patetas, aqui, no bosque, sentados num banco Vamos para casa? --Para casa ?--preguntou Kdr, com voz de assus- tado.
 --Claro est, meu grande estpido--ria a rapariga, motejando dle--mas no para a sua casa: sei que habita com um tio;  na minha casa que nos vamos recolher. Ou voc no quere ? Ele tomou o brao de Agata e no retorquiu palavra.
 Puseram-se a caminho. Uma sensao benfica Ihe dila- tava o peito. "Vamos para casa" repetiu le. Decorridos uns minutos, chegaram diante de um prdio, muito alto; era ali que habitava a rapariga. No terceiro andar pene- traram numa antecamara minscula que dava logo para um grande quarto asseado e bonito. Continha muitos m- eis; uma mesa de jantar, dois armrios, cadeiras e, alm.
.

 &disso, um diva Kdr apontou para ste ltimo-  --Voc no mora szinha ?--preguntou.
 --Est visto que no, meu pequeno, moro com a mi- ha irma; mas ela obteve trs dias de licena e abalou ara Palota, para casa do noivo !
 Agata estava de bom-humor; ria, saltitava pelo quarto.
 snfiou um vestido caseiro e depois, duma cozinha de bo- eca, trouxe um jantar frio que serviu -par de um resto e thum numa garrafinha.
 --Desculpar-me-s, mas no tenho outra bebida...
 sim mesmo, marchar, no  verdade ? --Vamos a ver. ..
 &:le sentou-se  mesa. Neste momento a rapariga pou- &u-lhe a mo no ombro.
 80 A AVENTURA EM BUDAPESTE  --Sabes, no te poders ir embora se no amanha de manha.  probido andar de noite na rua. Meu Deus, como me sinto feliz por saber que ficars at amanha de ma- nha !
 l&le despertou pela Inadrugada. Estava ainda escuro; durante minutos ouviu rangerem as rodas dum pesado veculo, aps o que de novo tudo sau no silncio. A seu lado Agata dormia, a cabea deitada sbre o brao direito dle, os lbios completamente cerrados. Subitamente, uma grande tristeza Ihe invadiu o peito, sem ser porm a cls- sica tristeza que segue o coito Olhou de perfil a mulher adormecida, os seus longos e negros cabelos esparsos, o belo rosto oval que irradiava uma luz mate na meia-pe- numbra.
 "Meu Deus, como pude conquistar esta mulher, esta mulher encantadora! Esbofetearam-me, quebraram-me a clavcula, puseram-me fora a pontaps. Poderei l ir outra vez a-iim de Ihes explicar: "Meus senhores, deve haver equvoco; eu sou Antnio Kdr, antigo alferes comba- tente, ferido no ombro, titular da pequena e da grande me- dalha de prata& da Cruz de Guerra. Tenho vinte anos, sou da vossa religio e nunca, fui comunista--posso prov-lo com documentos e tambm com o testemunho de quem se chama Estevo Vavrinec, meu antigo condiscpulo do liceu. Desejo ser admitido entre vs, desejo estudar, que- ria ser arquitecto. . . a bem da ptria hngara e tambm...
 para ganhar dinheiro... Sinto vocao para sse mester e estou certo de que no tereis de envergonhar-vos da mi- nha pessoa. . . & O seu brao fz um movimento, que des- pertou Agata em sobressalto. Ela soergueu-se na cama e fitou-o um instante com os seus olhos grandes, um pouco assustados, um &anto eslranhos, aps o que soltou um risinho abafado e tornou a deitar-se, enroscando-se nle.
 As sete horas e meia, abalaram juntos.
 Durante a noite toldara-se o cu e agora caa uma chuva midinha. Dirigiram-se a p para o hospital. Ela dava-lhe o brao e ia-lhe dizendo tolicezinhas gentis e carinhosas.
  AVENTURA EM B[ tDAPESl E  --Na quinta-feira estou outra vez livre. Virs esperar- -me ao meio-dia e iremos logo direitos  nossa casa; meu lobinho, no temos necessidade de ir antes a parte nenhu- ma, no e verdade, meu l`onyzinho ? Vou pedir a Marta que aceite, nesse dia, servio nocturno. F-lo- de bom grado. Tambm eu tenho feito sempre o mesmo por ela.

 Tudo correr s mil maravilhas, no  verdade, meu anjo? Eram oito horas quando le regressou a casa. Os ve- Ihotes encontravam-s& sentados  mesa na sala de jantar e os olhos da tia apresentav&m-se com uma orla negra sinal de se ter afligido e de ter estado de vig]ia.
 --Meu Tonyzinho, no te aconteceu nenhuma desgraa pois no ? Nem pre&uei lho esta noite, de tal modo estive apoquentada por tua causa, tanto mais que ainda ests r&;al restabelecido.
 Ele esforou-se por assumir uma ati&ude desembaraada  --J no tenho nada, minha tia. Simplesmente. . .-- qui, calou-se e baixou os olhos.--Tenho a comunicar- ibes uma grande notcia, tio Rudi e tia Ana. Esta noi-  ... passei-a a falar, a discutir essa coisa. Vou partir !ra Viena, a-fim-de matricular-me na IJniversidade de l.
 omo sabem, aqui no alcano lugar. Na Universidade o me querem admitir, e ninda que assim no fosse li ni- r-se-iam a oferecer-me mundos e fundos ! . . . Tenho &te anos, e  foroso que faa alguma coisa.
 &0 tio Rudi escutou o discurso com ar desconfiado.
 &,qui ha historia... le prepara-se, certamente, para fa- &r outra loucura", disse com os seus botoes. Quanto  k foi logo uma completa orquestra de protestos que soou sua boca: --Deus te abene, meu filho, mas como poes na tua &ia que poders viver numa cidade estrangeira ? Onde ran&ars dinheiro ? Onde morars & De que maneira vi-  t8S entre pessoas estranhas ? le retorquiu servindo-se de frases curtas, ponderadas  --Que tenho que fazer aqui ? Como posso eu aqui vi-  6.
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 82 A AVENTURA EM BUDAPESTE  ver e durante quanto tempo ainda poderei viver  vossa custa ? Sabem bem que tentei colocar-me, e conhecem tambm a maneira como o consegui. Fui despedido da Repartico Central dos Metais. Podem arran&ar-me outra situao ? Ah bem, j vem. . .
 Os argumen&os e as palavras que deviam dissuadi-lo do seu projecto tornaram-se de sbito frouxos --No estrangeiro, o mundo est feito exactamente da mesma maneira, sempre a&sim esteve--observou o tio Rudi --1& certo que, na tropa, l te soubeste livrar de apu- ros; mas imaginas que te sucede o mesmo, numa cidade estrangeira ?--insistiu a tia Ana.
 --Que faa o que entender; a verdade  que & tem idade para saber o que faz--concluu o tio.
 Nesse mesmo dia compareceu no antigo escritrio, onde a reSpeito dle se sabia apenas, pelo tio Rudl, que fra v- tima de um acidente na rua. O antigo protector viu-se obrigado a intervir, uma vez mais, em seu favor, visto que Ihe pagaram quatro meses de indemnizao em vez de trs. Recebeu, conta redonda, duas mil coroas, em no- tas postais. & No regresso, exibiu o seu dinheiro.
 --Permitir-me- isto viver longo tempo em Viena. A viagem, os papis e certas pequenas compras custar-me-o ainda umas centenas de coroas. Quanto os velhotes, les de-certo nada me aceitaro pela sua hospedagem. Este di- nheiro permitir-me- viver longo tempo em Viena !--re- flectiu.
 No dia seguinte coligiu os seus papis e requisitou um passaporte na Polcia. Bom pressagio: o uncionrio da Repartio dos Passaportes, ao pegar nos documentos, deitou uma mirada para a certido de idade e bradou, ime- diatamente:  1 Notas emitidas pelos Correios hungaros e que, entre o povo, gozavam de preferncia em relao s notas do Estado,al&ifica das em nmero ilimitado pelos comunistas.

  AVENPURA EM BUDAPESTE  --Olha ! tu sers filho do velho Tony Kdr & Tratava-se de um antigo conhecimento da famlia Uma hola depois Kdr tinha o passaporte na mo. Continh urna rubrica: "O passaporte  vlido para os seguintes p ises . . ." Preenchendo esta rubrica, o funcionrio es-   ropa parPto& piE&Uroapavidam!urmurou Kdr, parto para a Eu- camin&r-se sbre a pllrtida dos com- sPetreahOVranad seno um combio por dia, o qual partla   pensou e, no mesmo instante, invadiu-o a emoo da via  gchmOU Vaaguetouf nh enorme vestibu!o, quis ir  ga& e mas  &tercelra classe e mirou, atravs das vidraas as carrua-  Vou part&r para Viena panrtaraaVaEm na via rnals prxima , dceomprou quatrO camisas, quatro ceroulas quat m casaco de inverno, cinzento. Prosseguiu lentamente o ao entrar err& casa, viu que o embrulho das compras j rio da ante-camara tda a suUaa batgagem' tirou do ar-  .
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 om os olhO's viAd tida Ana viu-o  --No posso acreditar que seja verdade ires-te embora u Tony--suspirou; depois foi procurar ao cubculo das  tanho, e entregou-a a Kdr. g m& de coiro Sabes, Tony,  a mala que o tio Rudi levava quand ava nas suas excursoes de servio... damos-ta, ser- e dela E manteve-se a v8-lo mexer e remexer nas TU no arranjas ainda, no  verdade, a bagagem ?.
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 84 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Quando queres partir ? Primeiramente preciso de mandar lavar a tua roupa branca e preparar os fatos l Ele respondeu que partria logo que estivesse tudo pronto. No dia seguinte compraria j o bilhete. Outrora, os dias que precediam os exames, tinha-os vivido em ver- tigem semelhnnte.
 Como  que, bruscamente, Ihe acudira ao esprito a idia de abalar para Viena 7 Na outra noite, quando deitado junto de Agata adormecida, dissera de si para si que em Peste no podia ficar, ou antes, que ali no podelia come- ar a vida... Desde aqule momento, ficara sabendo que t&nha de deixar Peste. Em Dva, j nada mais havia que o interessasse; iria portanto para Viena ! No ficava longe e era uma grande cidade; admiti-lo-iam l, seguramente, na Politcnica.
 Na quinta-feira, aps o almao, no momento em que o tio se retirava para o quarto, a fim de fazer a sua sesta, Kdr dirigiu-se-lhe: --Meu tio, esta noite no fico em casa.
 O tio olhou para le dilatando os olhos.
 --E que .. tenho.. . uma rapariga, e como vou par- tir .
 --Est entendido--interrompeu o tio, contrafeito-- est bem, darei o recado a tua tia...
 Com a alma radiante, Kdr dirigiu-se, pela tarde inun- dada de sol, ao hospital.
 "Ela tem belos cabelos negros--murmurou--cabelos que cheiram bem". De sbito, foi-se-lhe a boa disposio.
 &Deverei dizer-lhe que vou partir dentro em breve e que, provvelmente, nunca mais ?. . ." Deteve o pensamento, uma dorzinhs aguda a picar-lhe o peito.

 "Mal consigo a amizade dalgum.. " meditou. "Santo Deus, o pap e a mama, perdi-os; Maria Gazda, tambm essa abalou, logo aps a sua vinda; e ao pobre Feledy, que estava ao meu cuidado, sucedeu o mesmo; vou agora abandonar o tio e a tia; e vou igualmente abandonar Agata !. . . " No pde prosseguir a caminhada e teve de &arar uns minutos, como paralizado,  beira do passeio  A AVENTURA EM BUDAPESTE 85  Perseguia-o, torturava-o uma idia fixa: &Mal consigo a amizade duma pessoa, logo tenho de deix-la !. . ." Fresca, a juvenil criatura transps o largo porto do hospital. Trazia o mesmo vestido castanho da outra vez.
 Enfiou imediatamente o brao no de Kdr, risonha, ta- garela.
 --Dize-me, Tony, amas-me verdadeiramente, ou  .7 De sbito, disparou-lhe  queima-roupa nova pregunta: --Dize-me, porque  que ests mal disposto ? Ele improvisou, de modo brusco, um trejeito folgazo.
 --No estou nada mal disposto.
 --Escusas de contar o que , sabes ? Basta dizeres sim ou no.
 --Mas, meu amorzinho, afiano-te !. . .
 --No  preciso tratares-me por "meu amorzinho& desde que no queres dizer-me o que h.
 Atormentou-o, irritou-o, maou-o. Ele receava deixar escapar a confisso: "Porque vou afastar-me de ti !& Po- rm, como se esforava por se subtrair a essa frmula malfica, pouco a pGUCO,  semelhana do lquido dum vi- dro fendido, as frases comearam de filtrar-se-lhe da gar- ganta; elas tornavam-se csda vez mais rpidas  medida que a resistncia se ia quebrando, caindo em pedaos.
 Todo o contedo da sua alma extravasou. Principiou p&,la partida de Gyulafehrvr.
 A poeira suspensa no ar danava, batida pelos raios plidos do sol de outono; perante les, na Rua Rkczi btilhavam no meio d&ssa cintilao as frases, as imagens, ,s recorda8es dos anos decorridos.
 Narrou tudo, a partida ao som de canticos, depois a Al- &bania, a paragem primeira na sus marcha, a malria, o &primeiro dos agressores. Em seguida, a sua transferncia &e a viagem interminvel para a &frente" italiana, atravs &e regioes duma inolvidvel beleza, o baptismo de fogo, a omoo dos nervos produzida polo rudo contnuo e hor- lvel do bombardeamento, o terror dos primeiros cadve- --, a apatia e os piolhos da trincheira, o seu ferimento espdua, a estada no hospital de Innsbruck, a volta86 A AVENTURA EM BUDAPESTE  para a "frente&, a derrota; o regresso  ptria, a caminho da paz atravs de pases estrangeiros, os aldeos que os do seu grupo tinham modo de pancada, a alimentao constituda por abborazinhas pilhadas nos campos; os camaradas que haviam apanhado uma medonha disente ria, o pobre Feledy, em cujo capote ficou amortalhado o seu corpo, o po e o queijo branco comprados na primeira aldeia hngara, a chegada a Budapeste, cidade deserta, a frustrada tentativa de ida para Dva, o escritrio em que estivera empregado, o comunismo, a sua desventura na Universidade . . .
 Havia j longos minutos que estavam em frente da casa de Agata quando le enfim se calou. Dois olhos estupe- factos e ardentes fixavam-se no seu rosto. A mo da ra- pariga estava mida e o brao tremta-lhe.
 --Querido. . . tudo isso j l vai. . . Agora, vem para minha casa;  preciso que esqueas tudo !--cochichou ela.

 Encontrava-se deitado, sob o torpor dum sono velado e ligeiro. Em cima da mesa, uma lamparina de cabeceira, coberta por um leno, espargia branda claridade. Mesmo a dormitar sentia-se observado. Despertou, abriu os olhos: a rapariga, sentada no leito, mirava-o com os olhos em chama.
 --Que h, querida, porque no dormes ? Ela parecia no ouvir e continuava a olh-lo com fixi- dez; por fim, aps um prolongado silncio, disse em voz doce: --Tony, meu querido. . . tu queres partir ? De clido rubor, avermelhou-se o rosto dle, na penum- bra. Ainda Ihe no havia soprado uma palavra sequer do seu projecto relativo a Viena. Nem nisso pensara mais desde que estavam juntos. Subitamente, sentiu no rosto a mo fria de Agata e, logo a seguir, ouviu uma voz alita e molhada de pranto: --Eu tinha a certeza ! Tens a cara quente, coraste!
 Tu queres ir-te embora !
 Perturbado, le buscava as palavras sem todavia poder  AVENTURA EM BUDAPESTE87  er coisa diferente da de olhar no vago, o aspecto em- Ntecido, o crebro vazio... No conseguia atingir ste istrio: "Como  que ela o sabia ?& Depois, com o rude tinto de macho, recorreu  soluo mais simples: levou sua mo ardente ao corpo da rapariga, atrau-a a si e, raas ao xtase do amplexo, varreu-lhe a angstia fre- ente e presssga. Conludo, foi incapaz de readormecer, to Ihe trabalhava no esptito esta srie de interroga- es: "Como  que ela sabe, se eu nada Ihe disse ?  certo seguro, doravante, que tenho de ir-me embora, visto que a j o sabe. Devo dizer-lho agora ? Devo confessar-lho ? u limitar-me a fugir, a desaparecer como um vadio ? No aleria mais sair da sua vida docemente, sem rudo, e de- is, quando as minhas coisas caminhassem bem l em iena. . . Oh ! a& sse dia, no me doa a mim a cabea; 8, ter-me- talvez esquecido ! Mas no se poder dar o Iso de fazer qualquer asneira quando eu a deixar ? Ela Dsta de mim, e eu...& Num movimento brusco, voltou-se de bruos; a mu- ler gemeu ao seu lado, mantendo-se, porm, adormecida, nquanto le enterrava a cabea na almofada: "&ambm u a amo&, concluiu. "Meu divino Jesus, como eu a amo !
 unca assim amei aingum, nem a mama, nem mesmo o.
.
 o Rudi, ningum ! Nunca senti pessoa alguma to perto, o unida a mim !& Sufocava de encontro  almofada, ao scobrir, na vspera da partida, que estsva apaixonado r aquela mulher, que se apaixonara sem mesmo dar por o; apaixonado pela sua doce voz escutada nas noites hospital, apaixonado pela sua nlegria infantil e pelo seu despreocupado, pelas suas carcias maternais, pelo seu rpo alto, forte, apetecvel. No, no era amor sbito, scido do contacto das epidermes; era um sentimento ue havia amadurecido silenciosamente desde o dia em que uela rapariga parara pela primeira vez junto do leito dle com a mo fresca, Ihe afagara pela vez primeira o brao.
 Sufocava de encontro  almofada, sentindo-se enga- &do e enganador, pois sabia que, a-pesar de tudo, parti- e que negaria, talvez, a teno de partir.
 88 A AVENTURA EM BUDAPESTE  "Mal consigo a amizade de algum...&, repetia de si para si.

 Estava ainda sem dormir, quando, pela madrugada& Agata por sua vez acordou e, incendiada de desejo, se uniu a le com mpeto. Depois ficaram enroscados um no outro. Ento, de sbito, a rapariga pediu: --Tony, jura-me que mo dirs quando quiseres aba- lar. Sei bem que no ficars em Peste; lembras-te de j no hospital me dizeres que desejavas estudar para arqui- tecto ? Maltrataram-te na Universidade, tinhas,  claro, de partir. No havia razo alguma para ficares em Peste...
 Tanto pior. No sei bem porqu, mas creio que tu irs longe. Eu sei que partirs, mas jura-me que me preveni- rs disso... Alis, no vais partir j, porque, eu ainda nem sequer to disse... pedi trs dias de licena, de do- mingo a tera-feira, e Marta prometeu-me ficar no hospi- tal todo ste tempo. Durante trs dias viveremos juntos como marido e mulher. . . Nunca gostei tanto de ningum como de ti... Tony, no te irs embora antes de estares comigo estes trs dias, no  verdade ? Depois partirs, e eu no tornarei a ver-te, talvez, nunca mais Todavia, fui eu que te tratei ! No  verdade que gostas tambm de mim 7 No sbado  tarde, le comprou um fiozinho de ouro com um trevo de quatro flhas como berloque. Contem- plou o trevo pensando: "Dou-te ste trevo psra le te dar sorte. . . para que me no esqueas.. . para que... porque gostsste de mim !
 Meu Deus, como vai ser custoso h& A noite, despediu-se dos velhotes, por no querer fsz- -los levantar, de madrugads, no dia seguinte. A tia Ana chorou e cobriu-o de beijos; o tio, perturbado, proferiu, a espaos, algumas frases de encorajamento, procurando re- primir a comoo. Cem vezes j a tia fra verificar se a mala estava em ordem, se a fechadura funcionava bem, cem vezes ela Ihe recomendara que metesse o dinheiro num saquinho de tela e o pendurasse ao pescoo. O tio entregou-lhe um pacote de cem cigarros, dizendo-lhe:  A AVENTURA EM BUDAPESrE 89  -- do velho Max Huber, que te manda isto; tambm le se habituou a estimar-te, meu filho. . .
 Quando, na manha imediata, se levantou s cinco ho- ras, f-lo contra vontade, mas esta comdia era necess- ria porque no podia, de forma algums, dizer-lhes que saa de casa para ir passar trs dias com uma amiguinha !
 Os velhotes estavam j a p e a criada tambm. Houve caf e paezinhos doces quentes, e grandes beijos de ter- nura, e a grave e insistente voz do tio que murmurava: --Coragem, meu filho, coragem !
 --Tony, escreve-nos . . . escreve-nos sempre--implo- rou a tia; depois a sua voz flectiu num soluo e ela nada mais acrescentou do que estas palavras: --Rodolfo. . . estamos j to velhos !. . .
 Seis horas: partiu no primeiro elctrico, completamente vazio aquela hora. A rua estava escura, deserta e fria.
 Meia hora depois, chegou  estao de caminho de ferro.
 A sua mala de visgem no pesava por a alm. Na esta- o notava-se um agitsdo vai-vem, uma baforada do odor dos combios veio bater-lhe no rosto e a comoo compri- miu-lhe ora o estmago, ora o peito. Foi direito ao dep- sito de bagagens, a-&lrn de l deixar a mala; em seguida, embrulhado no seu sobretudo novo e segurando na mo.
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 embrulho de vitualhas entregue pela tia como vitico, ncaminhou-se para a avenida das Arenas, onde Agata &residia. Sete horas menos um quarto, era ainda demasia- amente cedo. Entrou num Caf, mandou vir um ch.

 te horas e meia: a passo lento, dirigiu-se para casa  "06 velhotes supoem que parti h j bastante tempo; a chora, com certeza." Andou c e l, l e c, diante do prdio, e por fim en- u. No primeiro andar, cruzou com uma morena alta: parecia-se com Agata como se parecem duas gotas de ua, salvo na circunstancia desta dar a impresso de ser pouco mais robusta. ao passar-lhe pela frente, a ju- il criatura sorriu-se entremostrando os dentes, duma ncura deslumbrante Era Marta. Ele bateu no tercei.
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 90 A AVENTURA EM BUDAPESTE  ro. . . Agata, de grande avental azul, leno na cabea e as mos enfiadas numas luvas brancas j esburacadas, abriu a porta: --Desculpe--meu senho&, disse ela a rir--no estar ainda arranjada, mas entrei h apenas dez minutos. Tenha a bondade de descer a escada e de me trazer um litro de l- cool para queimar; a mercearia  mesmo ali defronte. Eu, entretanto, acabarei de arrumar a casa. Essa excomun- gada Marta acordou hoje tardssimo e abalou precipitada- mente, deixando a cama por fazer.
 Tambm le se ps a rir. Desceu, trouxe o lcool. Ves- tindo apenas uma combinao azul, ela permanecia  porta da antecamara e abriu antes mesmo de le ter tempo de tocar a campainha. Quando o rapaz entrou, mediu-o dos ps  cabea: --Olha.. . como tu vens chiqu& !. . . Tens um sobre- tudo novo ? --Sim.
 --E que embrulho  este ? --Isto ? So comestveis.
 --Da tua casa ? --No, duma loja.
 Ela fitou-o, aps G que, se&n dizer palavra, levou o em- brulho para a cozinha. Quando voltou, vinha de novo tda sorridente.
 --Esquecia-me de preguntar-te se, quando subias, n&o encontraste Marta; ela acabava de sair.
 --Sim--respondeu le-- uma r&pariga bem bo- nita.
 --Agrada-te 7 Mas eu sou mais bela do que ela, no  verdade ?--interrogou numa voz em que se mesclavam um pouco de galantaria e um pouco de cime.
 Ela tomou-lhe a cabea e atrau-o a si.
 Na quarta-feira, l&dr despertou s cinco horas da ma- nha. Deslizou, com precauo, para fora da cama No se quis lavar para no fazer rudo, e ps-se a vestlr na es- curido. "L na estao, lavarei as mos e a cara&, pensou.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 91  Pegou no saquinho de tela que continha o seu dinheiro, &locou-o ao pescoo e prendeu-o  camisa, com um al- &ete. Ja pronto, a rapariga preguntou-lhe de chofre, numa ,z estranha e fria: --E esta manha que tu partes ? Aquela voz novamente o transtornou. Sentou-se na borda leito, procurando a mo de Agata.
 --Querida !. . .
 --Dize-me se partes esta manha ?--e a sua voz recupe- o tom habitual--Tony, meu amorzinho, dize-rne a ver- de, visto eu ter-te encontrado na algibeira o passaporte sim como o fiozinho que queres dar-me de presente.
 Oh ! nesse caso... tornava-se mesmo, dste modo, muito ais fcil no ser obrigado a mentir, a negar, a iludi-la !
 No a enganarei; nem a ela, nem a mim prprio; no rocederei como um tunante"--meditou le.
 E respondeu, baixinho: --Parto agora, de manha.

 A estas palavras, Agata levantou-se, vestiu o roupo, nrreu para a cozinha e dentro em breve voltou com um ande jarro de gua quente.
 --Lava-te, querido, tira o casaco, tens ainda muito &po. A tua mala est depositada na estao, no  ver-.
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   &icou-se a v-lo nas lavagens e estendeu-lhe a toalha: --Ainda deixaste sabo nas orelhas. ..
 Isto acabado, le achou-se outra vez completamente ves- lo no meio do quarto e sentiu que a meia hora que tinha passar ainda junto da rapariga poderia provocar con- rsas perigosas, conversas que varreriam adiante de si isas do porvir ou que deturpariam o sentido de coisas ssadas. Resolveu calar-se. A- gata, sentada na cama, 3se-lhe com a maior tranqilidade possvel: --Sabes, Tony, o rapaz de quem estive em riscos de um filho... tinha de voltar para a "frente&, onde j ivera durante dois anos... Ento, quando recebeu or- n de partida, disparou um tiro de revlver na mo.
 perfurar a palma da mo, mas foi o pulso que Ihe.
.
 92A AVENTURA EM BUDAPESTE  ficou despedaado... Naquela altura eu andava grvida, e a le tiveram de ampular-lhe o brao. Nessa poca j eu trabalhava no hospital e, no obstante, ia visit-lo todos os dias. Ele estava cheio de mdo, porque Ihe instauraram um inqurito por mutilao voluntria ! Quando pde le- vantar-se sau a um corredor e atirou-se do alto do se- gundo andar para a.. .
 Subitamente, empalideceu e calou-se. Aps um longo silncio, prosseguiu: --Sabes, Tony, supus de principio que no poderia so- breviver-lhe... depois, a pouco e pouco, fui serenando e recorri a um mdico, porque no queria ter um defunto por pai do meu &ilho...
 Calou-se novamente; em seguida ergueu-se e colocou- -se-lhe face a face: & A ti, amei-te mais ainda... mas, d por onde der, com a ajuda de Deus, hei-de refazer-me tambm disto. . .
 Tony, meu querido, d-me agora o fio. . . no, prende-mo tu mesmo ao pescoo. Isso, assim est bem... E agora, vai-te gentilmen&e, querido, almoa no bufete da estao, porque se me acabou o caf em casa. No te esqueceste de nada ? Levas o teu dinheiro ? Um dia, l em Viena. . .
 Ele reclinou-se para ela, procurou-lhe a bca: --Agata, querida, eu nunca, nunca, te. . .
 Vivamente, ela interrompeu-o: --No digas nada ! "nunca&  palavra que se no deve dizer !--exclamou num tom qusi severo--Sabe tu, porventura, o que j amanha te pode acontecer ?. . .
 Tinham vindo para a ante-camara Ela tomou do cabid !
 um leno de agasalho, de la, passou-lho  volta do pes coo, ajeitou-lho debaixo da gola do sobretudo: --Podias sentir frio no combio--explicou.
 E, docemente, impeliu-o para a porta.
 --Tony, meu querido, vai-te embora por amor de Deus, eu no quero chorar !.. .

  I&:ncontrava-se no corredor atravancado duma carru gem de terceira classe, um p assente na mala; o co  VENTURA EM BUDAPESTE 93  i deslizava suavemente sob o alpendre, altssimo e todo idraado, da estao. "Partimos" disse de si para si. A agem decomps-se em pormenores estranhos; o enorme bmetro com o seu bizarro contador era-lhe desconhe-  , assim como os muros brancos dos depsitos; des- hecida a rde emmaranhada das traves de ferro da ponte, gnorada tambm essa montanha singular que, lenta- nte, se afastava. Daquela estranha cidade no era cusloso rtir. No era custoso & E os trs ltimos dias ? Tinham ,i o vividos qusi exclusivamente no quarto de cama. A o em tacera em volta de ambos um vu estranho exci- te e apaziguador ao mesmo tempo, cruzados nesse vu os dum desejo desenfreado e os da nostalgih da ma- nidade inacessvel. Ferira-o e, simultaneamente, aplicara- e todos os blsamos. Com uma palavra, ela procurara pulsar-lhe do crebro o espectro das recordaoes; merc utra, fizera brotar uma centelha na sua imaginao; e mo aconteceu falar de Viena superficialmente e por ro acaso e visse ento o olhar dle animar-se, pregun- a-lhe se ia partir para l.
 Sim, um dia, mais tarde ou mais cedo", tinha le res- ndido. Mas como logo depois, remexendo-lhe nas algi-.
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 ras, ela descobrira o passaporte munido do "visto" aus- co, o crculo completara-se; o passaporte, o dinheiro saquinho da camisa, o fiozinho de ouro, o sobretudo vo e pacote de comestveis, tudo aquilo advertira a jo- m de que sse combio de Viena partiria do prprio to dela e de que os trs ltimos dias de "noite de n- &s" eram adeuses que duravam trs dias.
 alpou o leno azul que lhe envolvia o pescoo e teve uso de acariciar o rosto de Agata.
 "Tony, querido, vai-te embora por amor de Deus, eu ) quero chorar !& voltou a ouvir. Deu uma gorgeta ao visor, que Ihe arranjou um assen&o na ltima carruagem.
 junto da janela sse lugar. &Isto comea bem", refle- u ao contemplar o Danbio encoberto pelas neblinas do tono. "Daqui a pouco deixarei de ver Peste--deva-  u--viverei em Viena, numa grande metrpole estran-.
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 94 A AVENTURA EM BUDAPESTE  geira. No tenho ningum em Viena&, cobrou na msica rtmica os eixos da carruagem, nas palsagens fugdias e nos semblantes desconhecidos dos seus companheiros de momento, a sensao de que aquela viagem era uma optima viagem e de que era bom no ter ningum em Viena;--nem os velhos parentes de Peste, que tanto se afligiam por sua causa; nem as duas sombras de Dva, que j se iam velando; nem sse amplexo juvenil e ar- dente, to esquisito agora quanto fra agradvel; nem aqules sonos de chumbo de que era despertado por ru- dos surdos ou estrdulos ou tamborilantes; nem essas ruas familiares ao longo das quais le arrastava remotas angs- tias; nem aqules discursos que Ihe chegavam os ouvi- dos como atravs do escafandro da incompreenso;-- tudo isso se evolava atrs dle e por cima dos marcos qui- lomtricos, por cima dos minutos fugitivos...

 Quando, na fronteira, ouviu as primeiras frases em ale- mo, acendeu-se-lhe nos olhos um cl&ro singular. Pare- ceu-lhe que um reposteiro cinzento caa  sua retaguarda; tacteou debaixo da camisa o saquinho do dinheiro e, na algibeira, o passaporte; o mesmo fz  grande pasta de couro negro onde guardava os seus papis, e disse con- sigo prprio: "Eh bem, vamos ver o que vai suceder agora !"  CAPI&ULO V&  Esbagoavam-se os dias no outvno brumoso e frio: ha- via j quinze dias que se encontrava em Viana e ainda mal dava tento disso. Depois de Dva, povoado sem im- portancia, de Kolozsvr, cidade dormente, de Budapeste descolorida  fra de tanto a ver, de Gorz, monto de runas, e de Innsbruck, cidade estranha, misto de hospital e estancia de vilegiatura, 81e esperava de Viena a sensa- o da grande cidade prpriamente dita, com uma tenso de esprito que nem sequer procurava dissimular. No for- mara programa, porque teria sid mesmo incapaz de ela-   AVENTURA EM BUDAPESTE95  &r-lo. Esperava o milagre que a cidade devia produzir te os seus olhos. Penetrara nela como algum que pe-  etra, sem catlogo, numa galeria de quadros. Tudo para &e era novo, tanto mais que no esperava seno novida- les e que estabelecera como princpio repelir quaisquer &alogias com as coisas conhecidas. A imagem da cidade r&formava um estranho amlgama: as ruas largas e limpas, praas amplas e duma aristocrtica serenidade, e as grandes casas que conservavam ciosamente o estilo da capital, residncia imperial,--tudo isto se lhe confundia um pouco no esprito com os cortejos que desfilavam pe- , ruas, com os autos das missoes estrangeiras arvorando seus pavilhoes nacionais, com as tabuletas berrantes I s botequins nocturnos, cujo nmero, de um dia para o c tro, se multiplicara.
 Seguindo as elegantes que se pavoneavam no corao cidade ou que se acotovelavan) nas avenidas; atrs oficiais frallceses, inglses e italianos; na cola da ultido andrajosa que formava "bicha" nos bairtos ex- riores; no encalo dos judeus dos rebuados que, no irro sito para alm do canal do Danbio, traficavam ao livre, com agudos pregoes, le no podia observar o.
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 ., gus vienense que se quedava, com trgica estupidez em nada compreender, perante o trptico da prosperi- de burguesa: a "lipia", o vinho novo e o rendimento uro.
 inham-no feito exsltar depois de o terem votado ao przo, mas agora, cerrando na a]gibeira o seu dinheiro na alma o ritmo langoroso da velsa do Danbio, cur- va-se sbre si mesmo, imaginando estar nos tempos an iores a 1914.
 Os seus negcios pessoais resolveram-se por si ss, no eio de pasmosa facilidade. Possua dinheiro e a moeda gara valia ali o triplo. Matriculou-se na Universi ade s depressa e mais simplesmente do que teria conse- lo comprar, em Peste, um bilhete de caminho de ferro.
 tabulou relaoes--com um livreiro, a quem adquiriu seus livros de estudo; com um moo advogado que.
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 96 A AVENTURA EM BUDAPESTE  habitava no mesmo hotel e com alguns estudantes. Por intermdio de um dstes recentes conhecimentos de&cobriu, ao trmo dalguns dias, um quarto em boas condioes, num segundo andar e com janela para a rua, a poucos minutos da Universidade. A hospedeira tinha o apelido Wessely; ela intituava-se &Ministerialratswitwe" (Viva de conse- lheiro ministerial) e, dos seis aposentos de que dispunha, sublocava cinco. Nos quatro primeiros qusrtos alugados viviam estudantes: no quinto, uma mulher alta e loura a respeito de quem nada se sabia. Viam-na apenas dar volta  chave do quarto, tdas as vezes que saa. A no ser nestas ocasioes, era difcil pr-lhe a &iista em cima; aba- lava de manha, quando os rapazes estavam na Universi- dade, e no regressava senaG pelo sero dentro ou noite velha& Kdr tomava o pequeno almo em casa da se- nhora Wessely; ao meio-dia, almoava econmicamente na cantina universitria. O jantar, fazia-o duma lata de corned-beef. Calculara que, desta maneira, o dinheiro que tinha Ihe permitiria, segundo tdas as previsoes, passar trs semestres em Viena.
 Dentro em breve se viu levado a estabelecer laos de amizade com os colegas dos outros quartos. No quarto vizinho do seu residia um estudante do terceiro ano da Politcnica, chamado Hummel; ste, uma tarde, bateu-lhe  porta e permaneceu com le at de madrugnda a con- tar-lhe histrias a respeito do seu domnio familiar no Ti- rol, das aldeias que o constituam, das florestas e dos la- gos, do castelo dos seus antepassados, no qual haviam tido a honra de receber Rodolfo de Habsburgo, de todo um esplendor do qual Ihe no restava, por causa do vinho, das cartas, das mulheres e dos agiotas judeus, sen&io o t- tulo nobilirquico de &von und zu&. Pela madrugada, bo- cejando furiosamente, le ergueu-se dizendo: a tempo de a gente se deitar&. Depois, j ao transpor a porta, voltou- -se para Kdr e preguntou-lhe inopinadamente: --E que dirias tu se eu te dissesse que, disto tudo, nem uma nica palavra  verdadeira e que tda esta "hummeliada& no Passa de Pura inveno minha ?  AVENTURA EM BUDAPESTE91  --No importa--respondeu Kdr--divertiste-me bas- tante.
 Hummel desatou s gargalhadas, no silncio matinal do aposento, e foi&se embora. Na Politcnica, soube Kdr que Hummel era filho dum padeiro de &iankt-Polten e que tinha, pelo menos, cinco dos seus antep&ssados--todos les padeiros ou donos de casas de pasto & no cemitrio daquela cidade. &llhbeck, o rapaz alto e delgado que ocupava o quarto ao fim do corredor, era fillogo. Se al- gum por acaso l entrava, ia habitualmente encontr-lo sentado  mesa, a cabea apoiada no punho direito, a es- crever com a mo esquerda num caderno de capa azul.
 &;:le erguia-se ento, cumprimentava embaraadamente o visitante, e voltava sem demora a sentar-se e continuava a escrever. O quarto teria podido arder  vontade,  roda dle. Wiedmann era o terceiro locatrio. &:ste tinha a ma- nia de jogar as cartas. Alm disso, estudava Histria da Arte. Trazia sempre um baralho de cartas na algibeira e, a qualquer hora que fsse, estava disposto a jogar, mes- mo que a parada consistisse apenas numa bofetada ou num copo de gua; e se nem sequer nestas condioes encontrava parceiro jogava consigo mesmo o bacar, a ua mo esquerda adversria da sua mo direita.
 No ltimo quarto habitado por estudantes, o maior, vi iam quatro rapazes judeus, trs dos quais cursavam me- icina, ao passo que o outro freqentava a escola rabnica.
 O futuro rabi era o mais interessante de todos les: ;inha um corpanzil arqueado, os olhos negros ardentes, &relhas grandes como velas de navio e um enorme nariz dunco, a lia de sacada, sobranceiro a lbios grossos.

 nera de Cernovitz para Viena; fazia tdas as manhas a !UB ora&co com as faixas rituais postas e quando s ve- ;es, ao sero, no quarto dos quatro se renia a rapaziada &da, tornava-se difcil acreditar que era do escolar rabino &-voz clara e dura, de timbre polido e retumbante, que en- t&o se fazia ouvir. Adolfo Feuerstein tinha por hbito por-se & vo da janela, de costas para a rua; o seu brao di-  lto, de punho fechado, acompsnhava as frases proferi&  7.
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 &8A AVENTUR& EM B&JDAPESTE  das com gestos bruscos nada judaicos. Havia ocasi8es emguepermanecia assim horas seguidas, traando sempre no ar, a murro sbre murro, linhas verticais, a falar de Beethoven e de Pascal, do socialismo e de S. Francisco de Assis, do Direito Romano, de Shakespeare, dos caminhos de ferro americanos, de Manet, da guerra e da Sociedade das Naoes, da indstria qumica alerra, do teatro de Rei- nhardt, da coleco de borboletas de l ord Rothschild, do bolchevismo, da arquitectura do cimento armado, da crise mundial e da guerra dos Trinta Anos. Citava Gaethe, a Bblia, Ruskin e Peter Altenberg. Uma nica vez falou de si prprio, da sua famlia e de um dos seus irmos que vi&era em S. Petersburgo e que tinha morrido afogado no Neva em 1906, por ocasio dos tumultos. Da bca de Adolfo Feuerstein caam em cascata frases lapidares, for- muladas de maneira lmpida, tomando a feio de senten- a. Em seguida comeava o debate e as palavras tonitroa- vam no aposento cheio de fumo de tabaco. Isto durava horas, at que o &rabi milagroso&--Hummel assim cogno- minara Feuerstein--os mandava deitar. Aquelas nooes completamente novas, sses nomes desconhecidos e essas idias de que no havia formado anteriormente concepo alguma, assaltaram um pouco bruscamente Kdr e, nos primeiros tempos, por mais de uma vez a cabea se Ihe ps a andar  roda, quando deitado. As discussoes ouvi- das perseguiam-no, eram-lhe precisos dias inteiros para dar ne&o a tudo aquilo.
 Um sero, produziu-se um facto com o seu qu de in- slilo: estava Feuerstein junto da janela e discorria sbre a psicose da guerra, quando de sbito a porta se abriu e a dama loura entrou.
 "Do-me licena que oua um poucochinho, meus se- nhores ?" e, feito o pedido, sentou-se na borda duma das camas de ferro.

 Os rapazes, embaraados, ergueram-se, mas a rapariga --sabia-se apenas que era loura, alta e que residia, sob o nome de Gerda Buhr, em casa da senhora Wessely --fez-lhes sinal para que se sentassem e se no inco- A AVENTUR& EM BUDAPESTE  modassem com ela. FeuerstPin, sse, limitou-se a respon- der : &Faa favor, Minha Senhora&, ApOS O que, sem se per- urbar, prosseguiu o seu discurso. Os rapazes deitavam rabinho do lho para a rapariga, que se mantinha sen- da na cama sbre as suas compridas pernas cruzadas, a mar um cigarro e a escutar, ao mesmo tempo que fran- ia as sobrancelhas em arco. Uma espcie de inquietao e espalhou no quarto; alguns dos rapazes interromperam orador, dois outros cochicharam entre si;--o "rabi ilagroso& fustigou o ar com o punho fech&do e conti- uou a falar. "As repercussoes da psicose de guerra colec- tiva...& e os seus olhos fixavam-se ora aqui ora acol, hipnotizadores. Sentia que a presena da mulher cortara a corrente entre le e o auditrto, mas no queria ceder. As palavras tornaram-se-lhe cada vez mais enrgicas, seus &estos cada vez mais impacientes: "A psicose de guerra colectiva&, bradava le, e a sua voz ressoava, intolerante e imperiosa. O olhar fixou-se-lhe por ltimo unicamente na mulher; e o da mulher, em rplica, fixou-se nle.
 Todos observavam aqule extrordinrio duelo, no qual a arma eficaz dum era a palavra, e a arma ainda mais rtante do outro, o silncio; e todos sentiam que se trahva de uma luta pessoal, estranha e incompreensvel, entre aqule enorme judeu de cabelos negros e a alta e.
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 ura crista.
 "A psicose de guerra colectiva", novamente se ouviu e, este instante, Gerda Buhr ergueu-se e declarou: "Agra- eo-lhes. 1& muito divertido... mas voc no passa de m insosso palrador... ou, o que  pior, de um crian- ola !& e, dito isto, desapareceu Seguiu-se um silncio glacial: bonita maneira de corres- &nder  hospitalidade concedida ! Os olhos de Feuerstein estanejaram precipitadamente e le buscou, embaraado, ma palavra de condigna resposta. Foi Hummel quem sal- ou a situao: "Deixa l, no te importes, rabi milagroso !--disse.-- conheo aquela espcie de fmeas;  uma galdria.
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 100 A AVENTURA EM BUDl&PESTE  vulgar ou uma comunista, mas no creio que valha mais de vinte coroas.& Graas a estas palavras, o caso de Gerda Buhr ficou resolvido a contento geral; ningum contradisse Hummel, porque todos estimavam bastante Feuerstein para no fa- larem mais no assunto. Continuaram as discussoes ao se- ro; como  natural, ela no voltou l.
 Chegou a primavera. ao domingo, que Kdr consa- grava exclusivamente ao descanso, dava longos passeios pela cidade e, mais tarde, meteu-se a excursionar nos arrabaldes. Estes domingos decorriam agradveis e fceis: ao fim de dez minutos, era certo e sabido encontrar qual- quer rapariga sorridente e viva com quem podia passar agradvelmente a tarde na pandega; a maioria delas no hesitavam em aceitar o convite, quando, depois da oferta dum caf com creme ou dum copo de cerveja, Ihes pedia que s&bissem a casa dle. A senhora Wessely, por vi& &e regra, encerrava-se no quarto s sete horas da tarde e permanecia invisvel at o dia seguinte de manha; a cria- da, uma lorpa cheia de sardas, passava qusi tdas as suas noites com Mahlbeck, o taciturno;--de modo que ningum impedia aquelas rpidas visitas nocturnas. Estas raparigas dominicais, caixeirinhas, filhas de porteiras, va.
 gabundas de amor um tanto disfaradas, quadravam per- feitamente com o seu programa, cujo leitmoti& mais ou menos inconsciente era: &nada de compromissos !& Suce- deu,  certo, que uma jovem florista do bairro de Schot- tenring voltou a procur-lo em casa trs domingos a fio, mas quando, no quarto domingo, le declarou: "No posso sair, di-me a cabea& ela preguntou-lhe simplesmente: 4 verdade doer-te a cabea, ou as tuas dres de cabea s&o s para mim &. Ele riu e no deu resposta, em face do que ela voltou a pr o seu chapeu vermelho, dum gsto trivial, e atirou-lhe um "adeus, meu pequenote", indo-se embora.
 Momentos depois sau, de bom-humor, e vadiou tda a tarde no Prater com uma pequena que tinha arranjado num elctrico.

  AVENTURA EM BUDAPESTE 101  aNada de responsabilidades, dizia de si para si, eu aqui sou estrangeiro !& Esta vida, de liberdade desenfreada, prolongou-se at que, no como de junho, encetou conhecimento com uma certa Kathe, preceptora dos filhos dum bsnqueiro Esta ligao durava j h muitas semanas e proporcio- nava-lhe muito mais do que le teria podido supor nos primeiros diss. Tendo partido para frias a fsmlia do banqueiro, le fra, um domingo, visitsr Kathe a casa dos prprios patroes. A despedida, ela dissera-lhe: &Poders vir quando quiseres, mas telefona-me primeiro, porque no quero que ds de cara com a velha cozinheira&. E le sentira imediatamente que esta ligao no tomaria o mes- mo curso que as anteriores, no por poder ir ter com Ka- the sempre que Ihe aprouvesse, mas antes porque ela era seguramente diferente das outras. Agata veio-lhe ento  idia. Procurou semelhanas entre as duas mulheres; porm, ao encontrar-se pela segunda ou terceira vez com Kathe, descobriu que eram, em tdas as coisas, a anttese uma da outra. Depois da sensualidade generosa e exi- gente de Agata, o abandono agradecido desta, um pouco tmido, impressionvel e gnero menina pequena, apare- cia-lhe como mais comovente. Depois das impertinentes.
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 aitudes maternais de Agata, a camaradagem de Kathe impunha-se-lhe como mais suave, mais repousante. Pouco a pouco, ela tinha-se pso ao corrente de tdas as coisas que Ihe diziam respeito, ajudava-o merc das suas pala- vras claras e inteligentes e tornava-se-lhe til, e de ma- neira to natural que era a custo que le dava conta disso.
 Chegado o estio, a cantina universitria fechou, e quando Kathe soube que ele tomava as refeioes numa casa par- ticular onde pagava muito caro uma alimentao detest- vel, encaminhou-o para uma pensozinha nas vizinhancas, onde passou a comer e&celentemente e com economia Tendo percebido que a roupa dle era lavada por ex- cessivo dinheiro e  fra de cloreto, ela indicou-lhe quem Iha passou a trazer intacta e numa brancura impecvel, e ainda por cima com menor dispndio.
 102 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Nunca uma palavra desagradvel fra pronunciada entre os dois, nem um nem outro querendo ver na sua ligao coisa diferente de. . . de qu, precisamente 7 &Quandoestamos juntos,  como se ela fsse minha mulher, pensava le; e quando estamos separados,  coino se fsse minha irma." O vero era-lhes favorvel. Um dia em que, vaguean- do ao longo do Danbio, bem distante da cidade, se sur preendeu a contempl-la no seu vestidinho branco, cabe- los soltos, entretida a arremessar seixos rolios  gua e a ver os remonhos nesta produzidos, experimentou uma sensao tpida e benfica; e vendo-se inclinado a renectir no nome a dar a essa sensao, no encontrou outra ex- presso seno esta: "O lar&.
 Naquela poca, no havia j em casa da senhora Wes- sely mais do que trs locatrios: le, Gerda Buhr e, no quarto dos quatro, um estudante. Os outros haviam parti- do, em gzo de frias, para suas casas, e o rabi milagroso obtivera uma blsa de interno na Escola rabnica.

 Kdr conseguiu, com grande custo, levar um dia Kathe ao seu quarto. &E preciso que vejas igualmente onde eu habito& dissera-lhe le. Kathe lanou um olhar em derre- dor; cinco minutos Ihe bastaram para restabelecer a or- dem no quarto e no armrio. A partir de ento, apareceu mais de uma vez, imprevistamente, em casa dle: "Quero saber o que fazes quando n30 ests comigo", declarava.
 As horas sem Kathe eram para ale bastante&montonas: livros e desenhos, livros e mais desenhos Desejava fazer o primeiro exame, com autorizao do reitor, antes do novo semestre. Para conseguir isso, devia trabalhar dura- mente. Kathe mirava os seus desenhos com um tanto de respeito e certa dose de desconfiana. Era com aqules planos que le aprendia a construir prdios? E depois, havia tda aquela quantidade de livros e um ror de dese- nhos e uma chusma dg algrismos... sempre supusera ser coisa -nais divertida. Desataram a rir a bandeiras des- pregadas, desta gracinha; de resto, todo o tempo que pas- savam juntos no era mais dl& que uma brincadeira inin- terrupta que Ihes fazia bem.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 103  Certa vez, passando ambos no "Wiener-Wald& um dia esplndido e inolvidvel, Kathe declarou: &Nunca gozei, e no voltarei talvez a gozar nunca, um to belo vero", e le tambm sentiu que a vida era bela e que as suas coi- sas caminhavam bem. Nunca dizia a Kathe: "Amo-te!" embora sentisse, e cada vez msis, que a amava com smor verda&eiro, para alm dos impulsos da carne Tambm ela Ihe no preguntava nunca se a amava; no era curiosa dessa espcie de confissoes. Sabia que havia coisas que se diziam de uma forma mais decente e mais bela sem falar. Uma ocasio em que Kdr Ihe falava do futuro, di- zendo: "Vai ser preciso trabalhar e lutar muito para con- seguir o meu diploma; e quando o tiver, procurarei pri- meiramente um lugar na emprsa dum construtor e de- pois... depois, se tu quiseres casarei contigo..." Ela ps-se a rir: "Patetinha que tu s ! talvez eu nem sequer viva at l !& Pelo meado de Agsto, a inquietao tomou conta de Kathe: no tinha notcia alguma dos amos. &Oxal les no me caiam a de improviso !& Depois, nos fins dsse mesmo ms, ela deu, pelo meio do dia, uma saltada a casa dle; recebera um telegrama: O Senhor e a Senhora chegaro amanha de manha, os.
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 &neninos s no dia seguinte&. Devers agora aguardar que e escreva para me ires procurar; ou ento que eu venha ; poe na tua idia o trabalho que vou ter nestes pri- eiros dias!
 Decorreu uma dezena de dias antes de receber dela ma palavra: &Tenho um trabalho doido; as crianas no assaram um vero muito bom, o rapazinho tosse cons-  ntemente; no sei mesmo, neste momento, quando po- erei ver-te; escrever-te-ei." Fazia um horrvel calor de fim de vero. Sem Kathe, s dias passaYam cos, vazios de sentido. Aproxirnava-se poca do exame, mas le no tinha cabea para estudar os desenhos no Ihe saam capazmente. Permanecia lon- &s horas sentado no quarto, perante um livro aberto ou m desenho deixado em meio, a garatujar na margem.
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 104 A AVENrURA EM BUDAPESTE  dle, ou na prpria pranchea, palavras incompreensveis.

 "Aborreo-me", pensou um dia, e logo estremeceu. "O que ? Estou por acaso em condioes de permitir-me o luxo do aborrecimento? Tenho tido mimo demais nestes ltimos tempos !& Um dia o bilhete de Kathe chegou, finalmente: "Espe- ra-me amanha de tarde; irei a tua casa&. Ela veio, com efeito, e esteve at s dez horas; no cessou, durante o sero, de lamentar-se da m sade das crianas, do carcter arisco da pequena, da desharmonia existente entre os pa- troes. Quando ela abalou e le Rcou s, uma sensao fria e desagradvel se apoderou de Kdr, ou antes, essa pe- nosa sensao de inquietao, latente nle havia dias, con- tinuou. "H qualquer coisa nisto que no vai bem..." magicou, "ou ento  qualquer coisa que comea a estra- gar-se. Estou demasiadamente habituado a que tudo mar- che de maneira agradvel segundo a minha convenincia" Kathe vinha v-lo regularmente uma vez por semana, mas havia nestas entrevistas fsse o que fsse de inspido e de apressado, conado por relgio, fsse o que sse que.. . que se assemelhava a uma fuga. Ela deixava no seu rasto a inquietaSo e a incerteza. Uma noite, j pas- sadas as dez horas, quando Kathe se aprontava para par- tir, observou que ela tinha um buraco numa das meias.
 aKathe--exclamou--essa meia est rta !&--"Sim, j sei,--re&pondeu ela--vi isso na ocasio de cal-la".
 --"Olha, agora! porque  que a calaste, ento ?&--- "Ja vs, meu pequeno, eu vinha com pressa&, disse isto e foi-se embora. Ele quis ainda alcan-la mas desistiu e ficou a medir nervosamente, s largas passadas, o quarto Uma voz brutal intimou nle: &No quero que me apa- reas com buracos nas meias&. Doutra vez, viu que Kathe trazia um dedo manchado de tinta: "Tens a mo cheia de tinta&, notou-lhe, ao mesmo tempo que baixava os olhos.
 --"E verdade, estive a escrever os meus pais at rente  hora de sair&--"E porque no lavaste as mos ?& Ante esta pregunta ela fixou-o, os olhos dilatados de assombro: &Tony--disse docemente--que tens tu? Falas-me de  AVENTt7RA EM BUDAPESTE 105  maneira to estranha I Sabes bem que tive de vir a cor- rer& le no respondeu e diligenciou retardar o momento de abra-la, a pretexto de uma dor de cabea e tomando na mo& vagarosamente, um sinete...
 O novo semestre avanava: os livros, a cantina univer- sitria e o corned-beef, nada havia mudado. Continuava a no pertencer a ningum nem a coisa alguma. A no ser com Kathe e com os locatrios vizinhos, no convivia com ningum mais. Vivia como que enterrado numa massa cin- zenta e viscosa, na Mediocridade cotidiana duma resoluo amarga, os msculos do queixo retesados.
 Um& vez por semana, Kathe comparecia com a exacti- do dum relgio, afim de cobrar o seu crdito de amor; e, nun&a feia tarde de outono, fri& e mida, enquanto ela se vestia  pressa, le, deitado no leito, observou,  clari- dade amarela e crua duma lampada elctrica, a dupla ima- gem da mulher diante do espelho. Era ex&ravagante; como pareci& pequena e como tinha os seios volumosos ! Teria engordado7 0 espartilho escorregara e a rapariga esfor- ava-se por apert-lo cerrando os lbios e fazendo uma careta cmica e pueril. Vendo isto, um riso maldoso, sa- cudido& rompeu da garganta de &dr. &Que  7&--pre- guntou Kathe, olhando-o na image&n do espelho.--"Nada.
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 --respondeu le em tom desprendido--deu-me vontade de rir a tua figura, a cara exquisita que fizeste!&--"A minha cara no te agrada ?&--replicou ela, of endida, 8pOS um breve si]encio.--"Vejamos, minha Kathezinha-- apressou-Se le a dizer com um pouco de arrependimento na voz--no  caso para te melindrares; no houve mal algum& .--" Ests certo disso ?--preguntou Kathe, tornan- do-se agressiva, e se eu no voltasse mais aqui & Basta de tolices; hs-de voltar, pela certa&. De facto, voltou, mas d& ento por diante qusi deixaram de falar um com o outro. Quando ela chegava, sentavam-se ambos  mesa, comianl qualquer coisa, calavam-se um instante, depois trocavam algumas frases cada vez mais hesitantes e es- tranhas, que recaam imediatamente no silncio. Por fim, quando le a puxava, ela despia-se e deitavam-se juntos.

 106 A AVENTURA EM BUDAPE&TE  Um domingo de trde, em que uma ventania de ex- trordinria violncia fustigava a cidade com uma chuva misturada com neve, Kathe queixou-se de Ihe ter cu&tado muito a vir, de Ihe doer a cabea e de sentir tambrp, de quando em quando, vertigens. Ele ergueu-lhe o rosto, fi- xou-lhe os olhos cheios de olheiras, um tudo nada vela- dos. Este gesto carinhoso, que havia muito se no produ- zia entre ambos, en&erneceu de sbito Kfithe; enlaou-o com um ardor triste e fatigsdo e desatou a chorar. "Tony, querido, ns a-pesar de tudo gostamos um do outro, no e verdade?" Ele teve mdo daquela voz e receou as ex- plicaoes, lgrimas, promessas sentimentais, porque, nesse caso... nesse caso, teria certamente abandonsdo Kathe, fugindo do qualto e at da habitao. Mas ela uniu-se-lhe com um desejo aceso repentinamente, e quando um pouco depois le sentiu no rosto o hlito quente e ofegante da rapariga, pensou: &Deve ter febre; tem aspecto de estar doente a valer.& Na manha de quinta-feira seguinte, comearam de doer- -Ihe a cabea e a garganta. ao meio-dia, na cantina uni- versitria, sentia j fortes vertigens. No caminho para casa, adquiriu numa farmcia um tubo de aspirina e pediu de- pois  senhora Wessely o termmetro. A coluna de mer- crio subiu a 40? &. & gripe& pensou, e meteu-se na cama J nem tinha animo de tomar a aspirina; a garganta inco modava-o horrivelmente; quis beber gua, mas sentia-se incapaz de estender a mo; e tudo o que pde fazer foi apenas dirigir o olhar, na obscuridade, para o lado onde estava o copo. Dormia ainda, ou antes, encontrava-se es- tendido, meio inconsciente, no leito, quando no dia seguinte de manha a senhora Wessely Ihe bateu  porta. "Deus de Misericrdia ! exclamou ela tornando-se lvida, plida como o linho, mas o senhor tem a cara e o pescoo cheios de borbulhas !  preciso chamar j o mdico !& Um mdico recentemente formado morava no prprio prdio: le obser- vou-o. um instante e declarou: &E escarlatina.  necess- rio lev-lo imediatamente para o hospital. Ou prefere tra- t&-loem casa7& Ses&uiu-se um vaivm. tda a &ente com  AVE;NTURA EM BUDAPESTE 107  cabea perdida. A senhora Wessely torcia as mos a borar. Kdr conservava-se deitado, indiferente a tudo-- ra ainda de manha e j a sua febre passava de quarenta aus O mdico conseguiu, depois de muitas dificuldades, municar telefnicamente com uma emprsa de ambulan- ias. Encomendou um carro para doenas contagiosas, fz outra chamada para o hospital "Allgemeines Krankenhaus&, conversando com um dos seus colegas de l, e foi-se em- bora. Meia hora decorrida, chegou o carro. Ningum sabia o que fazer, ningum se atrevia a penetrar no quarto do rapaz. Neste instante surgiu no corredor Gerda Buhr. &H j meia hora que ouo ste cro de lamrias, disse ela; perderam nesse caso, todos, a cabea?&--"Mas, minha senhora, respondeu a criada sardenta, h aqui um doente `contagioso. . . e, enfim, a gente tem receio de ir e de apa- nhar a doena.&--&Se tm mdo, raspem-se daqui, dei- xem o campo livre, no atravanquem ao menos a passa- gem !" ralhou-lhes ela, aps o que entrou no aposento de Kdr. Os maqueiros preparavam-se precisamente na oca- sio para colocar na maca o enfrmo. Este levantou a vista para a mulher, abriu vagarosamente a boca. "Isto vai bem, no se assuste, disse Gerda Buhr, tudo se arranjar." E dirigiu-se ao armrio, abriu-o, arrumou a, formando um.
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 pacote, as coisas dispersas no quarto; depois ps-se a re- mexer, a procurar: debaixo das camisas e dentro duma aixa de metal, encontrou o dinheiro dle. "Olhem, fran- os suios !& exclamou. Contou-os e voltando-se para K- r: &Encontrei aqui seiscentos e vinte francos suos; guardo ste dinheiro comigo, com receio de que... Po- dem lev-lo ! determinou, dirigindo-se os maqueiros, eu vou com os senhores." Dizendo isto, fechou o armrio, ti- rou a chave; disse ainda algumas palavras  senhora Wes- sely, que continuava em riscos de desmsiar: "Telefone ao servio de desinfeco para que venham aqui imediata- mente". Depois vestiu um casaco comprido, azul, e foi &trs da maca.
 108 A AVENTURA EM BUDAPESTE  CAPITULO VIL  No hospital de "Allgemeines Krankenhaus", pavilho das doenas infecciosas. Encontrava-se num quarto pe- queno do primeiro andar, que deitava para um ptiozinho vazio, invernal: descerrando os olhos, enxergou no outro lado do quarto um segundo leito. A, sentado e a olhar para le, via-se um rapazote. ao descobrir que abrira os olhos, o outro imediatamente Ihe preguntou em voz baixa- "Ento, est melhor? Comevamos a supor que..." e calou-se, embaraado. Houve um curto silncio. "Eu j vou bem, prosseguiu o outro, mas voc, voc esteve estes trs ltimos dias gravemente doente. A sua irma h-de contar-lho."--"A minha irma?" interrogou, falando pela primeira vez desde alguns dias atrs, e admirou-se da sua propri8 voz, agora to velada e desconhecida. "Sim, a dama loura que vem aqui duas vezes ao dia. Ou no , nesse caso, sua irma ?" Fechou os olhos fatigado, e no res- pondeu. "Minha irma? Minha irma? Talvez a minha pri- ma, Maria Gazda, que veio de novo a Viena? Teria ela tingido de louro os cabelos ?" Um silncio, que o outro voltou a quebrar: &Se me no engano. . . voc j no ...

 criancinha. Como se explica que, na sua idade, apanhasse & esc&rlatina?" Ele abriu, de espanto, os olhos: "A escar- latina ?& O outro desatou a gargalhada: "O qu ! no sa- bia talvez que estava com escarlatina !!&--"Sim, na ver- dade, sei isso, tenho escarlatina 1!&--"No tenha dvida disse ainda o outro, tambm eu a tenho, mas isto j vai me- lhor; mais umas duas semanas, e poderei voltar para casa& E, ao dizer tal, fz um trejeito bizarro com os lbios. Em seguida, guardaram um grande silncio. Horas depois, a enfermeira--uma mulher forte de faces rosadas--entrou e preguntou: "Ento, meu homenzinho, ei-lo.enfim acordado ? No sente fome ? Quere que Ihe traga uma gota de leite ?& Ele bebeu o leite morno a pequenos goles; subitamente, acu- diu-lhe ao esprito qualquer c0i6a: "O meu dinheiro? pre-   AVENTUR& EM BUDAPESTE 109 untou  enfermeira, que Ihe segurava na chvena.--&0 eu dinheiro ? Trazia dinheiro ? Pela minha parte, no estou facto disso; deve pregunt-lo  SUB parente que o trou-  e para c.&--&A minha parente, a minha irma?& pen- &u le de si para si. "Maria Gazda? I&athe? A senhora iressely? ou talvez a tia Ana?& Sentiu-se fatigado, a ca- a andava-lhe  roda; logo tornou a cair no sono. Quan-  o despertou outra vez, viu, sentada os ps da csma,erdaBuhr. "Olha ! est se a ver ! A minha irma loura !& &flectiu. "Voc8 comea a melhorar, disse a mulher; vai m bom caminho, isto. Tenho esperanas em que h-de ar-se desta o melhor possvel. Ouvi dizer--f8z um si- al para o lado da outra cama--que voc preguntou pelo eu dinheiro. Est em minha casa, seiscentos e vinte fran- cos suos, ou antes seiscentos francos, pois fui obrigada a trocar vinte para pagar algumas das suas despesas. No se preocupe agora com isso. Se tem necessidade dalguma :oisa, diga-mo.& Ele fitou aquela mulher que estava sen- tada junto do leito: os cabelos louros usava-os cortados, 09 olhos tinham um tom azul-metlico, a testa era alta e branca e as faces alvas e cr de rosa desmaiado.
 "At agora nunca tinha visto to de perto o rosto dela.
 Mas&.. porque vem c? Quem , que me quere?&--.
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 "Perdo, minha senhora&, disse a custo.--"Quedeseja?& --"Aproxime-se um pouco mais, faa favor&, e le pis- cou os olhos na direco do outro leito. Ela inclinou-se para o doente. "E ento?--"No tem mdo de apanhar nada ? Tenho a escarlatina !& As sobrancelhas franziram- se por cima dos olhos azulados. "J a tive; mas mesmo ue assim no fsse no teria mdo !--"Mas no ir a 8enhora espalh-la consigo ?&--"Oua, eu sei ter cuidado omigo assim como com aqules com quem convivo...
 no se preocupe !. . .
 Ante palavras to imperativas, excessivamente enrgi- s mesmo sem querer, le calou-se. Fz-se um silncio.
 om os olhos semi-cerrados, mirou de perfil o rosto da lulher. &Faa favor, voltou a dizer minutos depois.--"Que sseja ?& H quanto tempo estou eu aqui ?&--.
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 110 A AVENTURA EM BUDAPESTE  &H quatro dias&.--"E ainda ningum foi l a casa pre- guntar por mim ?&--"No, disse Gerda, ela no foi.&-- "Ela no foi !" Como proferiu categricamente estas pa- lavras ! Com os olhos cerrados, reproduziu ento na mente a cena de Kathe diante do espelho, a apertar o espartilho.

 "Quereria encarregar-se duma comunicao telefnica?& --&Pois no. . . respondeu ela tirando da malinha de mo uma agenda, d-me o nome. . .&--"Kathe Ulrich, em casa do sr. Director Lehrner.&--"Criada de crianas ?& interrompeu Gerda num tom vivo.--"No! preceptora", esclareceu le.--"Sim, com que ento preceptora ? Agora Ja sei, ao menos, quem Ihe transmitiu a doena, seu gran- de maroto. Admirada ficaria eu se a sua amiga no esti- vesse tambm atacada de escarlatina.&--"Ela, com es- carlatina?& preguntou Kdr aflito. E, neste momento, lembrou-se de que, no ltimo domingo em que ela o visi- sitara, Kathe se queixara de dres de cabea e de verti- gens e de que o seu hlito o queimava. Imediatamente se sentiu inquieto. "Minha senhora, gostava de saber com absoluta certeza...& requereu em voz alta. Mas Gerda mandou-o logo calar: "Silncio! nada de nervoso, ter notcias com exsctido.& --&Voc  hngaro, no  verdade ?& preguntou da a um momento o rapazote da outra cama.--"Sim, porqu ?& --".Uas a sua parenta  de Viena, no  verdade ?&-- "No  parenta!.--"Que , ento?&--"Que ?respon- deu em voz arrastada. Uma senhora, um conhecimento da penso em que habito.& O rapaz fz-lhe ainda mais preguntas, mas le no respondeu seno evasivmente, receando que o outro o interrogasse a respeito de coisas relativas  mulher e a que no soubesse responder. Tor nar-se-ia completamente ridculo ser obrigado a declarar: "No sei quem ela , nem porque vem aqui; no sei se- quer coisa alguma a seu respeito. ..& Por fim, o outro disse-lhe: "Vejo que est fatigado. No fale.& Ficou con- tente por se ver dispensado de conversar, fechou os olhos, permaneceu tranqilamente deitado e em seguida adorme- ceu.
  A AVENTUP&A EM BUDAPESTE 111  --Veja como eu tinha razo, disse-lhe no dia imediato Gerda Buhr,  um verdadeiro hospital a casa dos Lehrner.
 Falei com a senhora: as duas crianas e Kathe esto com escarlatina. Devo dizer que essa &preceptora& no  pes- Soa muito conscienciosa. De h muito que os seus educan- dos se encontravam doentes e desde h muito que cho- cava nela prpria a doena, e todavia continuava a visi- t-lo, a voc. Mas, que importa isso agora?! Mandei-lhe dizer que tada a gente Ihe desejeva as melhoras, inclusiv o seu primo Antnio, acrescentou Gerda, rindo.
 Tambm E&dr acedeu a rir, aps o que ficou carran- cudo. Kathe estava doente. "Estar muito mal ?&--"No, julgo que no, mas, na prxima vez, trarei uma resposta mais precisa.&--"Ento, a senhora vai de novo telefonar para l ?"--&Est claro que vou.& Era uma mulher extrordinria, esta Gerda Buhr. Tinha gestos curtos e enrgicos, palavras concisas, arrogantes.
 &ualquer pessoa que a no tivesse visto antes no pode- ria acreditar que fsse rapariga de... ma& que idade po- dia ela ter ? Mais de vinte e quatro ou vinte e cinco, no parecia ter.
 O seu rosto, a sua testa no mostravam uma nica ruga, o olhar era puro e penetrante, na flgura dela havia.
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 um tudo nada que a assemelhava a um rapaz. Em todo o seu sr existia qualquer coisa de spero e de fresco. Ela vinha mas no se demorava muito; se era necessrio ocupar-se dalguma coisa, ocupava-se; proferia algumas &palavras inteligentes, divertidas, animadoras, e abalava. E contudo.. . dir-se-ia permanecer sempre ali ! Nos oito ou dez dias primeiros, no falou muito com ela. No estava bem, tinha muita febre e o mdico receava complicaoes nos rins. Sempre deitado, nada o interessava. A enfer& meira trouxera-lhe um dia um jornal: fra incapaz de &lo. Quando desperto, por via de regra fixava o teto e i&forava-se por no pensar em nada nem em pessoa al- kuma, nem em Kathe que estava doente, nem em Gerda &--' ViQ apenas durante o espao de minutos, nem sequer circunstancia de, por causa da doena, perder seis se- .
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 112 A AVENTVRA EM BUDAPESTE  manas dos seus estudos. As vezes, o garto da outracamadirigia-lhe a palavra.
 Era esquiptico sse companheiro de quarto. Passava o tempo, sentado na cama, a olhar, e mal le abria os olhos, encetava conversa to confisdamer.te como na ocasio do seu ingresso nesse quarto hospitalar.
 "No precisa de nada ? Quere que toque a campanha para chamar a enfermeira ? Deseja ler algum& coisa ? No est fatigRdo ? Pode responder-me quando o interrogo ? Voc foi soldado ? Porque dei&ou Budapeste ? Que fazia l 7 Que idade tem ?" A princpio Kdr respondia-lhe dificultosamente, um tanto irritado com aqule rapazelho to turbulento que no podia estar sossegado um nico instante e que o impor- tunava com o moto-contnuo das suas curiosidades. De- pois, habituou-se um pouco  voz do companheiro, s suas imprevistas e insistentes interrogacoes. Era verdadeira- mente um rapaz endiabrado ! Chamava-se Paulo-Pauli Hesslein e tinha dezsssete anos. Era louro e tinha os olhos dum tom cinzento aveludado; numa dada ocasio em que pde observ-lo mais atentamente, surpreendeu-se ao ve- rihcar que a pele dle era fina como a das rapari&as e que as mos, abstraindo da pessoa, se diriam de mulher.
 &Voc tem a sorte de haver algum que vem todos os dias ver se ainda est vivo... o intersse que consagram  minha sade  muito menor", disse o rapazinho e acres- centou em ar pensativo: "E que eu no estou ern exce- lentes relaoes com os meus pais&. Se Kdr no tivesse pressentido uma latente amargura na voz do mocinho, po- deria achar divertida a gravidade com que ste enunciara a explicao.

 "Essa agora ! E porque  que voc no est bem com ales ?&--&Isso, sabe ?  uma histria muito velha !& No, no havia, na verdade, motivo para rir do modo como aquele gaiato louro com ademanes de menina, de dezas- sete anos apenas e tez muito branca, declarava fazendo um gesto com a mo: &Isso  uma velha histria !& oua, prosseguiu o rapaz, voc supoe que se trata dum r.&3L AVENTURA EM BUDAPESl E 1 13  disparate ou dum amuo de garto ! Nada disso. A coisa c omeou com o meu nascimento, em volta do qual houve . uma irregularidadezinha. A mama teve, com efeito, na &`; poca em que nasci, um amigo, um amigo e um amor de infancia. . . bem entendido.&--"Seu idiota, voc no tem vergonha de falar assim de sua mae ? !. . . " interrompeu &Kdr.--"D-me ateno e no me interrompa, respon- deu Paulo com uma fleugma desenvlta; possuo provas do qae afirmo: a correspondncia do pap e da mama, trocada nesse tempo e que fui encontrar dentro dum ve- Iho armrio, o ano passado, quando a mama esteve dois meses no sanatrio. O facto, por si s, de algum guar- dar uma correspondncia  qual se ligam recordaoes to dolorosas, , naturalmente, uma prova daquela neuraste- nia... mas agora no se trata disso. Que estava eu di- zendo? ah !  verdade. . . contei a um dos meus amigos que continham as cartas adicionando a isso as minhas prprias observaoes--voc deve te-lo visto aqui, um ra- paz de cabelos pretos que h-de ser psiquiatra e que est presentemente no quarto ano de medicina,--e foi le quem me explicou o caso. Em resumo. . . mas isto interessa-lhe alguma coisa ?& Subitamente, ps-se todo vermelho e respirou a custo Fascinado, incapaz de pronunciar a menor palavra, K- dr no podia desprender a vista do companheiro. Paulo.
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 pegou num copo assente na mesinha prxhna da sua cama e bebeu um gole. "Isto no  nada, felizmente, de- clarou em seguida; os anos fazem-nos esquecer tais coi- sus. O homem . . . um animal solitrio, e ainda eu tenho a sorte de ter junto de mim sse Ludwig Wirth, com quem posso conversar nesses assuntos, e tenho os outros meus amigos; e, no tim de contas, rio-me disto tudo. O pap  um cavalheiro chique; ganha muito dinheiro. A mama  uma bonita mulher; vive muito bem. Habitamos n uma casa enorme, no nos incomodamos uns os outros.
 Basta que os criados Ihes digam que o sr. Paulo no de-  &sapareceu. Eu organizo a minha vida conforme posso, e&e amaneira por que a organizo no  a melhor, a culpa.
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 11A AVENTURA EM BUDAPESTE  no e minha... alis, o que importa  que a nossa ma- neira de viver seja a melhor para ns prprios... Ns, quem ? Eh ! para mim !. . . e para os que so meus ami- gOF. . . & Ludwig Wirth, estudante de medicina, amigo e mestre de Paulo, veio de novo no dia seguinte e, como de cos- tume, trouxe alguns livros e folhetos, entre os quais O Esprito da Terra, de Wedeking, e as peas tea&rais de Bernardo &chaw.
 &:le anunciou a Paulo: aHoje, ao meio-dia, vi a Rosi- nha; ela queria  viva fra vir comigo; como  natural, no Iho consenti. Manda-te mil beijos; poe na tua idia qugo impacientemente espera que tu saias." Kdr viu-se acossado por um pensamento fixo. Permaneceu tada a tarde pouco falador, qusi mudo. Depoi. da partida de Wirth ficcu ainda silencioso algum tempo, at que, de s- bito, soerguendo-se na cama, murmurou de si para si: a curioso, nunca Iho preguntei..." "Dize l, Paulo, inqui- riu fixando bem os olhos do outro, j possuste uma mu- lher ?&--"Eu ? Vai fazer um ano. . . a primeira. . . " --"Quem ?" preguntou, simplriamente, Kdr.-- &De- sejas saber o nome dela ? disse o outro, trocista, no  segrdo: chama-se Rosinha Goldrain:  delgada e loura; tem olhos castanhos e tem precisamente trs meses menGs do que eu. O pai  conselheiro nas Finanas e tem neg- cio9 que no percebo muito bem com o pap. Desejas sa- ber mais alguma coisa ?". Durante momentos Kdr sentiu a respirao suspensa. Era uma menina de boa famlia e no uma enfermeira, uma criada de quarto ou uma pre- ceptora !. . . e loura e delgada, e com dezassete anos !

 &Ests a inventar...& proferiu, firmando a sua esperana na dvida.--&Porque te impressionaste ao ponto de nem sequer ousares acreditar no caso ? preguntou o outro. In- felizmente, no tenho c nenhum retrato dela, mas quando estivermos curados, hei-de apresentar-ta." Chegou o dia da sada de Paulo do hospital. Os adeu- ses de ambos foram breves.--"Paulo, disse Kdr sen- tindo a yarg&nta seca, a&radeo-te."--"No me a&rado-   &YENTURA EM BUDAPESTE 115  & nada, interrompeu aqule, mantm-te sossegado no teu dto, trata de curar-te o mais cedo possvel; provvel- nente, virei ver-te&. Dito isto, sau. Gerda continuou a vir los os dias e Kdr de cada vez a compreendia menos.
 cada vez sabia menos a natureza da sua situao pe- nte ela. Vinha, sentava-se, envolta no seu casaco branco, cadeira ao p da cama. &Como se sente 7 Vejamos a rva das temperaturas.. . Deseja alguma coisa ? Disse- &m-me que no tem apetite. Porqu ? A alimentao no boa ? Deseja compota de frutas ? No h nada de novo; s desempregsdos fizeram manifestaes na cidade; da niversidade, no tenho notcia alguma. A SU8 amiga vai em." Expunha tudo isto em cinco minutos, aps o que erguia da cadeira e abalava. Trazia o que le Ihe pe- , observava o que le lia; certo dia disse-lhe: "Vejo ue firmou relaoes de amizade com sse rapaz que a es- ve. . .  um rapaz esperto, no  verdade ?& Depois ela ntinuou a trazer-lhe novas de Ka&he. De incio, precisas pormenorizadas; mais tarde, a partir da quarta semana sua doena, as informaoes de Gerda a respeito de the tornaram-se de cada vez mais concisas; habitual- nte, contentava-se em declarar: &Vai indo.& Kdr no.
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 z reparo nesta sobriedade de palavras relativas a Kathe, quar.do uma tarde Gerda nem sequer falou nisso le esmo se esqueceu de preguntar-lho. Era a prpria Gerda em preenchia agora as numerosas horas dos seus cios.
 Porque razo vem ela ver-me? J  esquisito o ter-se ncarreg&do das minhas coisas quando adoeci. H j algu- as semanas, vejo-a todos os dias, falo com ela, e toda- i& nada sei ainda a seu respeito e cada vez a com- &reendo menos. Aplicava o ouvido, procurava escutar den- ro dle prprio uma voz esclarecedora, buscava observar m s gesto da mulher que constitusse uma explicao u, pelo menos, que a aproximasse de si. Que a aproxi- ssse ? Para qu ? No valeria bem mais pensar nela no neio dessa tranqila penumbra, enquanto decorriam as orar, silenciosas e nada saber de exacto,--para crer em udo o que quise&.se ?. . .

 116 A AVENTURA EM BUDAPESTE  &;egurou-se nas pernas com uma firmeza surpreendente quando, no trmo da quinta semana, o doutor Ihe permi- liu levantar-se. Passeou durante alguns minutos de um lado para o outro, no quarto, tomou com muito apetite o pequeno almo, e depois, por prudncia, meteu-se de novo na cama. Na vspera, Paulo estivera l de visita e contsra-lhe que havia declarado o pai precisar de um ex- plicador para se compensar do tempo perdido nos estu- dos. Ver-se-ism, por conseqncia, todos os dias, desde que Kdr aceitasse dar explicaoes a Paulo. Tinham taga- relado alegremente. Paulo trouxera chocolate e um mao de cigarros finos; ficara o quarto cheio de fumo. Desde que adoecera, era a vez primeira que fumava. "A t&la loura desconhecida veio hoje c ?& preguntara Paulo, para im- plicar com le. &Sim, veio; demora-se todos os dias cinco minutos, como sabes.&--"Mas agora que ests s no quarto, no fica mais tempo?& Kdr corou: &No, por- que ?&--"Suponho que no ignoras que essa mulher est apaixonada por ti& prosseguiu Paulo.
 --Fedelho 1--invectivou Kdr, om esmo tempo que soprava para cima do outro uma fumaa. "Sabes tu que isso quere dizer que...", e crou outra vez. " preciso no hesitares Ir.uito, declarou Paulo com seguranca e descaramento--agora que recuperas a sade, deita-lhe a mo, agarra-a pela cabeca e d-lhe o que ela deseja." Kdr ficara embaraado. Protestou: "I`u, com essas idias cnicas e superficiais. . .& --Tony--interrompeu Paulo--tornaste-te completa- mente idiota? Ento, de nada te serviu a educao que te ministrei durante tantas semanas? - A estas palavras, desataram ambos a rir. Depois conversaram mais uma meia hora, e Paulo foi-se embora.
 O ter sado da cama f&zera-lhe bem ! Aps uma hora de repouso levantou-se novamente, sentou-se perto da janela e ps-se a ver os locos de neve carem l fora. No sentia sombra de fadiga. "Graas a Deus, tenho outra vez sade !&  AVENTURA EM BUDAPESTE 117  ao meio-dia comeu com grande apetite e tornou logo a ddtar-se para esperar, fresco e bem disposto, Gerda Buhr, &e devia vir s trs horas.
 As trs horas em ponto, chegou ela. &Felicito-o por se levantado, tenho esperana de que isto ir agora bem.
 & deus, voltarei amanha&, disse duma s vezada; e, sem t- nesmo se ter sentado, retirou-se.
 Esta rpida partida causou-lhe aborrecimento. Quereria nversar um pouco, mas nem sequer tivera tempo de &t-la. Voltou para a cama, de mau humor, flxou a vista a psrede, atezanado incessantemente por aquilo que Paulo 18 dissera de Gerda Buhr. Adormeceu--Paulo tambm &o tinha vindo--e, aps alguns minutos de viglia que ve de tarde, cau no sono profundo da noite.
 Na manha seguinte a enfermeira trouxe-lhe a notcia de &le a senhora Buhr havia telefonado e mandado dizer que e encontrava constipada e que no poderia vir, nem nessa rde nem no outro dia. Antes de sexta-feira, no viria cer- mente. Esta notcia arrasou-o por completo. Encheu-se P aborrecimento, engoliu o almou sem &petite e qusi sentiu feliz com a partida de Paulo e de Wirth aps a _ I curta visita de meia-hora, se tanto. No dia imediato, ao esteve melhor; mas, pela tarde, a esperana comecou b desabrochar nle: "Ela vir talvez amanha...P De- &is, repentinamente. uma tenso ardente, insuportvel se.
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 he assenhoreou do peito. &Ser possiv&l que (&erda esteja pai&conada por mim ?& Na tarde seguinte ela veio, finalmente. Esperara-a, cheio e nervoso, sentado na cama. Quando a viu chegar, in- ~errogou-a com ansiedade: --No esteve gravemente doente, pois no? --No--respondeu ela ---no quis que passados ape- &as dois ou trs dias depois de se ter levantado... ou &ntes, no quis que voc me preguntasse qualquer coisa que eu fsse obrigada a responder.
 Ele sentiu um enorme baque no corao: Gerda nunca e falara, anteriormente, num tom semalhante quele e &m t&ntss hesitacoes.
 11& A AVENTURA & UD APESTE  --Teria sucedido alguma desgraa?--interrogou em vo& sumida.

 & Sim--replicou ela--baixando os olhos, contra o seu hbito: "Kathe morreu... h j dez dias, com uma me- ningite . . . " Os olhos espantados de Kdr fixaram se numa mancha loura e branca, que se tornou de sbito nebulosa, e um pequeno soluo Ihe embargou a gargsnta. Correu-lhe pelo corpo todo um frio intenso, acompsnhado de loucss e de- sordenadas palpitacoes do corao; em si prprio investi- gou-se, por detrs daquela turvao, se dissimulava algu- ma dose de angstia, de dor, de acabrunhamento... Em seguida, a mancha branca e loura readquiriu nitidez acen- tuando as feioes de Gerda, a rajada de palpitaoes do corao serenou-lhe; das profundezas da sua alma extrau um eco gemebundo: "o homem. . .  um animal solit- rio&, e, nesse mesmo instante, no meio dum frio glacial, produzido por extrordinrio terror, todo le externo teve a impresso de que Kathe estava junto de si--mas como &e nunca Ihe tivesse pertencido.. . como algum cado na rua, em volta de cujo corpo os transeuntes parassem um segundo para imediatamente prosseguirem caminho.
 --Com uma meningite. . .!  terrvel--murmurou le, incapaz de dizer outra coisa.
 --Trate de evitar inquietar-se--recomendou com viva- cidade Gerda;--por isso  que Iho disse mais cedo. A po- brezita comeou a estar muito mal logo no fim da primeira semana e, na terceira, declararam-se-lhe a meningite e uma nefrite. Felizmente, permaneceu sem dar acrdo de si du- rante trs dias completos antes de morrer; mesmo assim, no sofreu pouco.
 Nesse dia, Gerda ficou tda a tarde a fazer-lhe compa- nhia. Ela viu logo que o feito da notcia da morte de K&he se tornava estril no rochedo da indiferena, a custo dissimulada, do rapaz; mas compreendeu simultaneamente que, se o tivesse deixado szinho, essa mesma indiferena o teria assaltado e anigido com violncia temvel. Merc de connrsacdo inteli&ente e interescante conseguiu afastar a  AV&5N&URA Ei&l 15UDAPES&E 119  moo obrigatria do primeiro momento e, visto que an- s o no fizera, falou-lhe dos seus assuntos privativos, da niversidade, e do futuro imediato. &:le tinha, em todo o 1&90, razo--assentia ela--em estudar em Vierla, se bem ue a cadeira de arquitectura de Viena no fsse a melhor - deveria e&perimentar, um dia, ir mais longe, a Zurich k 1 a Berlim. Evidentemente, sob o ponto de vista econ- ico, Viena era menos cara do que outra qualquer cidade Europa, sobretudo para quem tinha o seu dinheiro em .ncos suios.
 Prestou-lhe ento contas: le possuia ainda quinhentos cinqenta francos suos.
 Os dias que teve ainda de passar no hospital escoa- m-se num sombrio aborrecimento, prurido de impacin- a. Adquirira a certeza de que Kathe se exilara to com- letamente da sua vida como aquela escarlatina. E  viva ora evocsva o rosto dela, o seu sorrisozinho gentil. Esse osto esfumava-se, porm; e se o reconhecia ainda, mes- ; o assim indistinto, era apenas porque sabia que o evo- &ra. Meditava nas midas intimidsdes das suas relaoes arnais, mas estas imagens, evocadas de propsito, mis- uravam-se com outros rostos, outros colos, outros ven- res, e as suas recordaoes sensu&is pareciam constituir.
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 ma sntese com mil pormenores diversos e dizer respeito uma mulher super-humana. Tentou ento representar na lua idia o semblante da morta: YPobre rapariga&, mur- nurou na obscuridade, esforando-se por extrair d, pouco lue fsse, do corao. &i:ste grande esfro lacrimoso fin- lou num sadio bocejo; da a nada, caa no sono.
 Gerda levara-lhe os livros de estudo. Folheou-os e re-  &ctiu com apreenso no que j esquecera. Comeou araar novosprogramas de vida, mas a cada instante se ia tomado dum sentimento de incerteza mui penoso, de modo que achou prefervel deixar que as coisas viessem por si prprias, sem fazer provisoes, e enquanto as aguar- asse, readquirir boa sade, sem impacincias.
 Gerda, nos dias ltimos, no se demorava mais do que inco minutos. Bem dilieenciou ale evidenciar-lhe, mediante.
.
 &20 A AVENTURA EM BUDAPESTE  processos pueris e rudes, o inter8sse que Ihe votava; qual uma concha loura e fria, Gerda Buhr cerrava-se com len- tido imperceptvel, mas implacvel.
 Finalmente, num sbado de manha, a enfermeira rechon- chuda conduziu-o a um balnerio; a gua fervia no es- quentador; em cima da cadeira encontrava-se a roupa des- dobrada; do cabide pendia o seu fato azul, o que usava todos os dias, assim como o casaco de inverno. Fazia muito calor na casa de banho; a enfermeira abriu uns ins- tantes a janela rente ao teto, a-fim de sair o vspor mi- do. Atravs da estreita abertura, via-se o cu de inverno, firme, azul, puro.
 Ele olhou, cheio de admirao.
 "Vamos, depressa--disse a enfermeira--h muita &ente, esta manha,  espera do banho...
  CAPITULO VIII  Na primeira tarde que passou, novamente, na moradia da senhora Wessely, os outros estudantes que a viviam reniram-se no quarto dle. Conversaram e fizeram-no conversar, cansaram-no com anedotas e fartaram-no de gulodices. Num intervalo, escapou-se um instante para o corredor e foi experimentar a porta do quarto de Gerda: estava fechada. O tempo corria; nove horas, dez horas, e ela sempre ausente. Encheu-se de inquietao. Pelas dez horas e meia despediu-os a todos, a pretexto de estar fati- gado e desejar dormir.
 Quando a casa caiu em sil8ncio e as luzes se apaga- ram, entreabriu devagarinho a porta do quarto; ps-se  espera de Gerda... Sentou-se numa cadeira, atrs da porta. . . minutos, horas, anos decorreram. . . Uma chave deu volta, suavemente, na fechadura da porta da escada...
 Chegava Gerda.
 Numa nica passada, encontrou-se no meio do corre- dor e, um instante depois, foi esbarrar na mo que a ra- pariga estendia na sua frente.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 121  --Quem est a &--cochichou ela, assustada.
 --Sou eu, Kdr--respondeu ale cochichando tam- bm.
 --Eu devia ter logo desconfiado disso. . . que  que e quere ? --&en.ina Gerda.. . preciso falar consigo.
 --Sim; mas no a esta hora ! Amarlha de tarde, s is horas, venha procurar-me...
 Mais uma noite decorreu. Ele teve um sonho confuso complicado; despertou coberto de suores, o peito arque- nte, fatigado ! Depois, mais uma manha l foi levada; ovia, mas a atmosfera ofertava uma tepidez qusi pri- averil. Dirigiu-se  Universidade, onde falou com um os professores assim como com muitos colegas, que o licitaram pelo seu restabelecimento. Almoou na Cantina niversitria e voltou em seguida para casa.

 Quatro horas ! Ouviu Gerda entrar e conversar com a nhora Wessely.
 Aumentou-lhe a tenso no crebro. "So apenas quatro oras e dez. . . supunha. que fssem j cinco horas&, disse I si para si consultando o relgio. Acercou-se da janela olhou para fora. . . Naquele momento a porta abriu-se e rda entrou.
 --Tenho de sair mais cedo esta noite, e por isso no.
.
 perei que me fosse procurar--disse ela e sentou-se.
 nto, como vai isso ? No se sente fraco ?. . .
 &:le guardou silncio, embaraado; e por fim, numa &sitante, disse: --Primeiro que tudo, devo agradecer-lhe.
 --No me agradeca nada--interrompeu Gerda--qual- uer pessoa teria feito o que eu fiz. . . Quando se foi en- rmeira duran&e a guerra e quando se v um rapaz qu& &o tem ningum...
 --Foi enfermeira durante a guerra ?--preguntou le mirado.
 --Sim, quando o meu marido morreu, logo ao princ , em 1914 !
 --Nesse ca&o, a senhora ...
 12& & AVE;NTURA & BUDAPESTE  --Viva--completou Gerda;--em seguida e repenti- namente, como se j excedesse a conta das atitudes expan- sivas, suprfluas, prosseguiu num tom de voz estranho e indiferente:--Em resumo, nada tem que me dizer obri- gado; aqui est o seu dinheiro, quinhentos e trinta e seis francos, e agora volte a aplicar-se ao estudo.
 Neste momento, sem mesmo saber como, achou-se em frente da mulher, a apertar-lhe os dois delicados pulsos entre os seus dedos fortes, enquanto palavras desconexas e brutais, anelantes, Ihe jorravam da bca: --Por nmor de Deus ! A senhora quere afastar-se e abandonar-me agora ? H j um ano que sei que esiste, e ignoro ainda quem  ! Ignoro a razo por que ia ver-me ao hospital, o que deseja de mim e porque nunca me disse sequer uma palavra que me denunciasse quem  e o que faz.. . A senhora no v que estou doido por si !. . .
 --Largue-me ! Imediatamente !--sibilou Gerda reli- rando o corpo para trs, largue-me, seu animal !
 A presso feita por Kdar deixara-lhe largos braceletes verrr&elhos nos pulsos; com um pouco de palidez no rosto, foi apoiar-se  porta. Enquanto le permanecia, crvado e perdido, na sua frente, as cres subiram lentamente s fa- ces de Gerda...
 --Seu grande bruto--proferiu numa doce voz--que deseja voc ? No seria uma pena acabarem hostilmente as nossas relaoes ? Quere saber porque me interessei por voc8, porque o visitei no hospital ? Porque o meu falecido marido se parecia um pouco com voc, de feioes: sim- plesmente isto. Fez-se silncio ("E se eu a agarrasse e a abraasse ?& passou pela idia a Kdr).
 --Diz voc que sabe h um ano que eu existo e que, todavia, desconhece tudo da minha exist8ncia ?. . . E que  que isso Ihe importa? Nada temos que fazer juntos. Bem poderamos, da mesma forma que habitamos aqui, habitar num hotel. E se eu Ihe dissesse que sou empregada de escritrio ou danarina, em que  que o caso poderia in- teress lo ? Escute, se me quere demonstrar o seu reconhe- cimento por eu me ter ocupado de 9i enquanto estere &AVENTU&A EM &UDAPESTE i23  mte, pense que se ho-de passar, C?mo antigamente, s e semanas sem, nem sequer por acaso, nos encon- rmos no corredor. . . e pense mesmo &anto em mim. .

 &mo nessa pobrezita Kathe...
 --Acredita que isso seja possvel ?--balbuciou 81e tin- ndo-se-lhe o rosto dt&m tom carmesim.
 --Que crianola que voc  !--eXcl&mou ela, co&n a &z j um pouco inclinada ao b?m~hum?r; eu tenho pelo enos mais seis anos do que voc... &esencante a, em alquer parte, uma pequena, uma eSt&ldantinha que Ihe aiba embalar o pensamentO e a imaginao; v ! d-me sua mo !--disse Gerda estendendO-lbe a dela, mida, anca e delicada. Era magra e fresca, e9sa mo; durante &gundos, Kdr que ia prosternar-se diante da rapariga, ento... ou ento... mas, nesse momento de deva- &io, a mo branca desprendeu-se do se&l aprto quente e milde, e voltou a encontrar-se szinho no quarto.
 Durante muitos dias n&o tornou a vel& Gerda, como se tivesse desaparecido daquela m?ra&ia. E teve ento &ites intranqilas. "Precisava de ver clqro dentro de mim prio, foroso  examinar sinceramente se  ou se se me rnar insuportvel que Gerda. . . que i&mais eu e ela. . .
 se tudo isto no  conseqncia das minhocas de que Paulo, no hospital me encheu a Cabe&? L porque uma.
.
 l(ermeira se ocupou um pouco mais de mim. . .P e iMe- almente tornou a ver a sala do h?sPital de Peste, com . csma num canto, debaixo da janela, e & discreta luz azu- lda da noite, e Agata, sentada na borda do leito, com a nso na dle. Um desespro lasso inSinuGu-se-lhe no peito.
 tEla foi boa para mim. . . e Gerda, n&o o foi tambm ? &s suas palavras acalmantes e inteligentes no me fizeram :m ? No vale mais a pena voltar pa&a o lado a cara e &o pensar mais nela ?& Sabia, de facto, que cada minuto cada pensamento que consagrasse a Gerda o arrastariam Ida vez mais para uma coisa que na& poderia alcanar cito algum, visto que no chegara seqll&r a comear.
 Agora, porm, achava refgio nos dias passados na Uni- &rsid&de; o afa&ahm&nto de Gerda fr&-lhe menos dolo.
.
 124 A &VE.&TURA EM BUDAPESTE  roso do que ele havia suposto. Sem sombra de dvida, o seu desejo inconsciente de obedecer  ordem de Gerda, que Ihe intimara esquec-la, alguma coisa influia nisso.
 O mistrio ficaria sendo mistrio--fsse ela quem fsse, "uma simples galdria ou uma comunista", no era neces- srio resvalar na vulgaridade. A estranha criatura conser- varia a sua estranheza, que o preservava de olh-la com aborrecimento.
 Aferrava-se a Paulo com uma teimosia aflita e ingnua: mal se libertava da Universidade, acorria com regularidade a casa dle e passava tambm alguns seroes na sua com- panhia.

 "Daqui a algum tempo hei-de apresentsr-te os rapazes&, declarou Paulo, assim designsndo os 59US amigos, "ento passaremos, provvelmente, todos os nossos seroes juntos !& Porque  que Paulo se ligava a le ? Que fito perseguia, invertendo muito simplesmente os seus papis oficiais e, em vez de sprender com le matemticas e qumica, lhe ensinava tda a espcie de coisas que, at  data, no ha- viam existido na sua vida ? A&ule dava-lhe livros, dos novos escritores alemais, inglses, americanos e franceses, que Kdr por completo ignorava at ento. Fazia-lhe ou- vir nomes novos: Ratheneau, Freud, Spengler; explicava- -Ihe o que significavam outros nomes, como, por exemplo, Wilson e Massaryk, Noske, Poincar ou Baldwin. Pouco a pouco, todos estes nomes tomavam corpo, t&das estas palavras eram investidas duma significao. Muitas coisas que Kdr ouvira outrora e depois esquecera, volviam a ser para le vida vivida, penetrada de sentido. Depois sur- gira nova maravilha: um enorme fongrafo elctrico, de fabrico americano; e regressou uma noite a casa profun- damente perturbado aps ter ouvido no fongrafo a sonata de Csar Franck, para violino e piano. E, ainda por cima, Paulo, dava-lhe dinheiro, muito dinheiro, de sorte que os seus francos podiam permanecer intactos no cofrezinho de ao, oculto debaixo das camisas. Pelas supostas explica- oes, Paulo pagava-lho o suficiente para fazer face a tdas 5 suas despesas.
  &AVENTURA EM BUDAPESTE 1')5  Urna tarde travou conhecimento com Rosinha. H muito serrazinava Paulo, no desejo de v-la. Finalmente, ve que se encontrasser.l os trs numa sala do "Kunst- torisches Museum". Quando Kdr chegou j a rapa- estava l, sentada num sof sito no meio da sala, etida a folhear um catlogo. Logo ao transpor a porta se deu a observ-la: era de talhe esbelto, tinha as per- compridas e delgadas, os cabelos louros cortados, as &s rosadas, esplendendo sade. Percebeu imediatamente era ela, mas como Paulo no chegara ainda no se veu a abord-la. Manteve-se, primeiro, canhestramente to ds porta da sala vazia, e depois especou-se, contra- o, diante de um quadro. A jovem deu por le e dirigiu- e a palavra: Tenha a bondade... o senhor  o amigo de Paulo,  verdade ? Sente-se ento aqui. . . no compreendo rque  que Paulo vem atrasado.
 Apertaram a mo um do outro, a seguir ao que Kdr acomodou ao lado dela, temendo os minutos imediatos, eando no saber entabular a co&rersao Ela mirou-o ntamente e, por fim, declarou: --E:st embaraado sem necessidade alguma disso.
 mecemos, ou antes, continuemos a tagarelar como ve-.
.
  amigos. J o conheo muito bem, deve pensar que,ulo me faloumuito de si.
 E, com efeito, proferidas as primeiras palavras, verificou R Paulo tinha falado dle com muita afeio; tambm rapariga sabia tudo a seu respeito, absolutamente tudo, sde a morte dos pais em Dva at os dias pdssados no pital. Rosinha fslava e as suas palavras doces e gentis trsvavam tambm a lngua de Kdr. Nem deram conta que os minutos se escoavam.
 Apareceu Paulo, um pouco esbaforido e bem-humorado.
 &Desculpem o atraso", rogou le, "o pap recebeu me audincia dominical e eu no podia deixar escapar s&e ro ensejo de falar-lhe nos meus projectos de vero.
 ponho que Ihes no oporo dificuldades; de contrrio, u declararia simplesmente desejar pa&sar o vero com a.
.

 126 A AVENTURA EM BUDAPEST  mama e os meninos... Vejo que vocs fcilmente e beleceram conhecimento, mesmo sem a minha interveno7 Dize-me, Tony, porque  que deitas tanto o rabinho d& lho para esta dama 7 J ests apaixonado por ela 7& Percorreram tdas as salas, contemplando os quadros depois, pela uma hora da tarde, dirigiram-se a uma cerv& jaria do centro da cidade, onde alguns rapazes e rap gas, amigos de Paulo e de Rosinha, estav&m  sua pera.
 &Apresen&o-lhes o meu amigo, Tony Kdr; j Ihes lei dleP, declarou Paulo; e, psssada meia-hora, em Kd& havia o sentimento de ter j vivido rneses e anos inteir na companhia daqueles jovens todos A sociedade de Paulo e de Rosinha, com excep&o Wirlh, duma estudante de medicina j to juvenil, chama Lily, e dum homem ainda novo, calmo e simptico, sen&.
 dum norne muito clebre da aristocracia austraca,--co punha-se sobretudo de condiscpulos de Rosinha no Cc servatrio. Estes rapazes e raparigas, na maior parte cilando entre os dezasseis e os dezito anos, formavam rancho alegre. Alheados das preocupaoes cotidianas existncia, davam-se ao capricho de agitar, com boa-i com a graa da inconscincia, os graves problemas g ciais, morais e sexuais, cuja soluo ou, pelo menos, ur sua explicao completa, a vida livre que levavam exie Assim como se foi habituando os assuntos das disc& soes dles e  sua ndole, Kdr habituou-se tambm sua maneira de viver; veio a achar naturais e cheios sensatez estes casais de camaradas, admitiu, sem reser& as mincias das suas existncias: o facto, por exemt de Roberto e Aninhas terem ido juntos, na Pscoa, a Sa burgo; ou o de Hlia e Arno possurem aposentos comu& ou ainda o de Eva se fechar em casa, durante horas, Hugo. E tambm o caso de Lia, a desastrada, ter-se v coagida, segunda vez, a recorrer a uma intervenco dica, e aqule outro de Hlia e Alberto terem mudado psr. Tudo isto se passava s escancaras, porm com sf tao de preferir a franqueza levada ao e&cesso, m-s.
  &RA EM BUI&APESTE 1&7  &: ostranhos,  dissimulao e, principalmente,  . E os pais, as maes, essas famlias de mdicos, sdos, de funcionrios ou de proprietrios, numa essas famlias de respeitveis burgueses & Elas vam dsses factos sem quererem acreditar nles, , mas negando-o.
 no estava ns fim; Kdr preparava-se afincada- ra o seu segundo exame. Retesava os nervos, as maxilas e fechava os punhos, curvando-se s- vros e sbre os desenhos, porque o espirito Ihe longe, para junto duma rapariga chamada Tilly, bia agora tda a sua vida e por causa de quem &IS francos que lhe restavam.
 &aum ia nos seus dezito anos e cursava, no &rio, o ltimo ano de piano. Pequer&ina de esque- , possua membros to grceis que, s vezes le ava de que essa mozinha estreita tivesse fra &tar outra mo e de que as suas pernas esguias suportar passeios de muitos quilmetros. O rosto uma brancura de leite to acentuada, que ia at rncia, transparncia que umas tantss sardas l at  inverosimilhana; os seus cabelos eram r ruiva, ardente, com um tom avermelhado;.
.

 soltava, caam-lhe at abaixo da cintura. Tilly ma rua tranqila e afastada, numa "vivenda" & de enorme parque. O pai, um judeu baixo, de ca- ivo, de calvcie j muito avancada e que se via ra sala de dimensoes exageradas, no meio de m- &struosos e de quadrcs que revestiam paredes in- &a pela filha um afecto qusi neurastnico. Ata- de vestidos e de jias que ela no usava nunca ia tornado ridcula pondo prolas de enorme vo- & transferia para a Sua milhares de dlares a fa- `ilIy. Tinham-se conhecido, ela e Kdr, em casa ha: Tilly estava ao piano, a tocar um fox-trot o. &:le sentara-se perto, a ouvir silenciosamente e ls mos da rapariga. Depois outra qualquer a subs- ,& piano e Tilly convidara-o para danar com ela.
 la6 A AVENTURA EM BUDAPESTE  mama e os meninos... Vejo que vocs fcilmente esta- beleceram conhecimento, mesmo sern a minha interveno !
 Dize-me, Tony, porque  que deitas tanto o rabinho do lho para esta dama ? Ja ests apaixonado por ela ?> Percorreram todas as salas, contemplando os quadros: depois, pela uma hora da tarde, dirigiram-se a uma cerve- jaria do centro da cidade, onde alguns rapazes e rapari- gas, amigos de Paulo e de Rosinha, estavam  SU8 es- pera.
 &Apresento-lhes o meu amigo, Tony Kdr; j Ihes fa- lei dle&, declarou Paulo; e, passada meia hora, em Kdr havia o sentimento de ter j vivido rmeses e anos inteiros na companhia daqueles jovens todos A sociedade de Paulo e de Rosinha, com e&cepo de Wirlh, duma estudante de medicina j to juvenil, chamada Lily, e dum homem ainda novo, calmo e simptico, senhor dum nome muito clebre da aristocracia austraca,--com- punha-se sobretudo de condiscpulos de Rosinha no Con- servatrio. Estes rapazes e raparigas, na maior parte os- cilando entre os dezasseis e os dezito anos, formavam um rancho alegre. Alheados das preocupaoeS cotidianas da existncia, davam-se ao capricho de agitar, com boa-f e com a graca da inconscincia, os graves problemas so- Ci8iS, morais e sexuais, cuja soluo ou, pelo menos, uma sua explicao completa, a vida livre que levavam exigia.
 Assim como se foi habituando os assuntos das discus- soes dles e  sua ndole, Kdr habituou-se tambm  sua maneira de viver; veio a achar naturais e cheios de sensatez estes casais de camaradas, admitiu, sem reservas as mincias das suas existncias: o facto, por exemplo, de &oberto e Aninhas tererr. ido juntos, na Pscoa, a Salz- burgo; ou o de Hlia e Arno possurem aposentos comuns; ou ainda o de Eva se fechar em casa, durante horas, com Hugo. E tambm o caso de Lia, a desastrada, ter-se visto coagids, segunda vez, a recorrer a uma intervenco m- dica, e aqule outro de Hlia e Alberto terem mudado de par. Tudo isto se passava s escancaras, porm com afec- tao de preferir a franqueza levada ao ogcesso, me&mo  LVENTURA EM BUDAPESTE 1&7  h de estranhos,  dissimulao e, principalmente,  &tiva. E os pais, as maes, essas famlias de mdicos advogados, de funcionrios ou de proprietrios, numa &vra, essss famlias de respeitveis burgueses & EIQS peitavam dsses factos sem quererem acreditsr nles, endo-o mas negando-o.
 inverno estsva no fim; Kdr preparavs-se sfincada- te para o seu segundo exame. Retessva os nervos, tava as maxilas e fechava os punhos, curvando-se s- os livros e sbre os desenhos, porque o esprito Ihe gis para longe, para junto duma rapariga chamada Tilly, U81 enchia agora tda a sua vida e por causs de quem endia os francos que lhe restavam.

 tlia Baum ia nos seus dezito anos e cursavs, no servatrio, o ltirno ano de pisno. Pequenina de esque- frgil, possua membros to grceis que, s vezes le espantsva de que esss mozinha estreita tivesse frca a apertar outrs mo e de que as suss pernss esguias essem suportar passeios de muitos quilmetros. O rosto - tinha uma brsncura de leite to acentuads, que is st ransparncia, trsnsparncis que umss tsntss ssrdss ssvam st  inverosimilhana; os seus cabelos eram a cr ruiva, ardente, com um tom avermelhado;.
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 ldo os soltava, caam-lhe at absixo ds cintura. Tilly ava numa rus tranqila e afsstads, numa "vivenda& eio de enorme parque. O pai, um judeu baixo, de ca- ruivo, de calvcie j muito avancada e que se via lido na sala de dimensoes exageradas, no meio de m- monstruosos e de quadrcs que revestiam paredes in- s, tinha pela filha um afecto qusi neurastnico. Ata- IVa-a de vestidos e de jias que ela no usava nunca &r-se-ia tornado ridcula pondo prolas de enorme vo- e--e transferia para a Sua milhares de dlares a fa- de Tilly. Tinham-se conhecido, ela e Kdr, em casa Rosinha: Tilly estava ao piano, a tocar um fox-trot &ricano. &i:le sentara-se perto, a ouvir silenciosamente e lhar as mos da rapariga. 13epois outra qualquer a subs- :~~ ao piano e Tilly convidara-o para danar com ela.
 128 & AVENTURA EM BUDAPESTE  --No sei danar--respondeu le, mas. . . estimaria outra vez piano !
 --Porqu ? Gosta de msica ? Sabe aprtci-la ? --Gosto, mas o que conheo dela  bem pouco !
 --No Ihe  indi&erente saber quem est tocando ? & No. . . visto que me agrada ver as suas mos s- bre as teclas--confessara le.
 Naquela tarde fra acompanh-la a casa.
 --Est rmal disposto &--interrogara ela no caminho.
 --Eu ? Nem por sombras.
 --Ento porque vai to calado ?  desnecessrio falar muito, desde que...--e cala- ra-se, ambaraado.
 A despedida dissera-lhe Tilly: --Amanha  noite, recebo os meus amigos; dar-me-ia voc satisfao vindo tambm.
 Como  natural, fra; e, a partir de ento, haviam-se encontrado todos os dias.
 Por essa pocs, um rapaz chamado Norberto tornara-se taciturno e desabrido. Passados dez dias, Tilly convidsr novamente Kdr para jantar, mas, desta vez, szinhos o dois.
 --Norberto portou-se hoje mal comigo--tinha decla rado, no decurso da refeio, a rapariga;--chorou, mos tru-se violento e humilhou-se diante de mim quando Ih participei o corte do nosso namro.
 --Cortou o namro com le ? --Porque finge voc no saber nada ? Sabes bem qu foi por tua causa que o fiz !. . .
 Rstavatn apaixonados um pelo outro. Kdr, com sse devotamento instintivo e sem reserva devido  que era me- lhor, maior e mais educada que as outras, um devotamento que no desejava seno dar. Ela, com essa comoo mis- turada de cansao, prpria da sua raca, e que se manifes- tava em cada um dos seus gestos, na vibrao permanent dum sistema nervoso excitado pela arte; e depois tambm c&m o tdio dissimulado do seu ser hiper-&aturado de tud com o erotismo vido duma criana gulosa, e, s ve&ei  :NTI)RA EM BUDAPESTE 129  1, com a fria modera&o de algum terrivelmente em- do 80 contacto das coisas do mundo.
 dr era sempre o mesmo; Tilly, sempre nova, sempre &netrvel. Sentada diante do seu piano Steinway, tocava umann; nessa sala de msica, o mobilirio compunha- unicarnente do enorme piano, duma estante com a co de partituras e dalgulr.as cadeiras e poltronas.

 tgua a esta divis&o, havia outra: o quarto de dormir Tilly. Ningum ali podia penetrar sem licena sua.
 , a enorme habitao encontra&a-se habitu&lmente va- Quando o pai de Tilly l estava, conservava-se qusi pre na sala de fumo, no solicitando ir para o p da seno por espao de algumas meias-horas, ao sero, do a sabia s, para a ouvir tocar piano...
 Toccata evolava-se, grandloqa, do instrumento, .Ido& de sbito, o som se interrompeu.
 r& to no vai, j no posso mais!--exclamou Tilly, ervada; e logo cerrou, com rudo, a tampa do piano.
 &as duas horas em que ela estivera ao piano, Kdr &rs numa felici&ade sem limites: Brahms e Chopin, thoven e Schumann.
 .`illy ergueu-se, dando estalidos com os dedos; Kdr, se encontrava ainda estonteado do ltimo acorde in-.
.
 ompido, pegou-lhe na mo: "Obrigado, Tilly!& E a em, sobreexcitada pelo erotismo das sonoridades, no lou a colar os lbios os ele.
 elas oito horas e meia, ouviu-se bater suavemente na a: "&enina, posso trazer o jantar 7 0 senhor no fica &ite em casa.& ...rou uma mesa volnte, de rodzios, espelhenta de &ais, trazendo ch, carnes frias, peixe, salchichas vrias, ho de sabor esquisito, legumes requintados a enfeitar ratos, bolos, frutas, e bem assim um vinho espsso, pouco acre. Pelas dez horas chegaram alguns pares amigos de Tilly, os quais discorreram coisa de uma 8, retirando-se Kdr ao mesrno tempo que les.
 hegado a casa, parou no meio do quarto, diante da sa, em que jazia o desenho apenas esbocado...
 130 A AVENTURA EM BUDAPESTE  As tr8s horas da manha, sem ser capaz de dormir, a cabea a zumbir-lhe, ps-se a olhar na escurido, onde linhas e letras dahavam em ziguezague perante os seus olhos, sentindo o fludo de Tilly trespassar-lhe o corpo, acompanhado, em cada um dos seus pensamentos, da cobia do sucesso e do dinheiro, e do enorme receio da in- certeha no futuro.
 Nervos e dinheiro: um e outro comea-vam de faltar-lhe.
 Recentemente, mandara fazer um fato completo, num ele- gante alfaiate do centro da cidade; alm disso, tinha com- prado roupa branca fina e sapatos da llima moda. A se- nhora Wessely cobrava-lhe uma exorbi&ancia pelo banho dirio--le adquirira sse hbito desde que observara a casa de banho de Tilly, de mrmore, o cho de mosaico, esplendente na sua alvura. Com camisas de boa qualida- de, tinha de pr gravatas um pouco mais chiques.

 Tilly exaltava-se sempre que le trazia um segundo que fsse de araso, o que o obrigava muito freqentemente a meter-se num taxi para ir s entrevistas com ela. Os res- taurantes e os bars, os teatros, cinemas e excursoes em- magreciam-lhe fortemente a blsa, se bem que as rapari- gas, de ordinrio, no permitissem que algum pagasse em vez delas, e que as prprias despesas de Kdr fssem liquidadas por Paulo. Mas quando Tilly admirava o es- plendor duma rosa italiana numa vitrina, le no podia privar-6e de Iha oferecer; e quando Tilly, meia-noite j dada, declarava sentir vontade de danar, le no podia re- plicar-lhe que os taxis, o bilhete de entrada no baile e as garrafas de champanhe eram gastos inteis. Sim, le apren- dera a danar; porm quando, de boa estatura mas aca- nhado de gestos, se movia no meio da sala, envergonha- va-se de si prprio. Recebera de Paulo, como presente, um smoking, e quando protestara contra essa prodigalidade Paulo limitara-se a notar-lhe: "Creio que virs a ter ne- cessidade dle.& Alis Paulo pagava-lhe precisamente qua- tro vezes mais do que tinha sido combinado por e&plica- 8es completamente suprfluas, e Kdr aceitava do amigo sse dinheiro todo  AVENTURA EM BUDAPESTE 131  Sentia que, nesse momento, o dinheiro e amizade anda- &m estreitamente ligados: sem dvida, satisfazia Paulo, intermdio, 8 evocao para Mecenas nale existente, quereria ento simplesmente que Kdr partilhasse do smo nvel de vida, sem se ver ferido todos os dias pelos dtos, superficiais mas no menos dolorosos, da dife- &a de fortuna de ambos. Ou ento, seria ainda... por- sendo dois a gastar, dispenderi&m mais o dinheiro &IUitO... ou bendito... dos pais? Na ocasio, l estava IUIO& portanto; mas Kdr pressentia que aqule abuso Lo podia durar sempre e que Paulo encontraria dentro em &uco outra paixo, ou que os pais dle restringiriam as as liberalidades. f:m certas noites silenciosas, cheias de &rmes, uma interrogao, embora indefinida em seus con- rnos mas nem por isso menos ameaadora, o assaltava: &uando isto acabar, que suceder?& E se, s vezes, se &va a observar qu& nos trs ltimos meses gastara tanto mo nos dezito meses anteriores, uma arrebatada deter- &ao lhe mordia o esprito: "Dantes, no era vida a va- Preciso de viver sempre assim ! Preciso de ter sempre ;tante dinheiro.& Ter dinheiro... O dinheiro causava- 3 extravagantes obsessoes. Via-se metido na pele dum .
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 lUitecto clebre, a rece&er numerosas encomendas, trans- indo-se de uma emprsa para outra. Teria dinheiro, uma rte inaudita que lhe proporcionaria uma fortuna enorme.
 se eu desposasse Tilly com os seus milhoes na Sua, ua vivenda, os seus automveis e tudo o que seu calvo lizinho tem amontoado para ela?& veio-lhe  idia. Mas &diatamente se recordou de certa noite passada com Iy: o seu corpinho frgil e nu encontrava-se estendido leito enorme, estando le na outra extremidade do leito, olhos cerrados, os membros palpitando ainda das mil saoes inditas do ltimo amplexo: depois quando, na doce dos primeiros alvores do dia, mal perceptvel ain- abrira os olhos novamente para as mil incomparveis ravilhas daquela silhueta que fazia evocar um efebo, e ndo, reaceso o seu desejo, se acercara outra vez dela, a jovem, retesando-se numa atitude incompreensvel,.
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 132 - A AVENTURA EM BUDAPESTE  gritara-lbe: "Agora, vai-te, oh ! vai-te embora, vai-te!- Trazendo  idia essa noite, compreendia que Tilly no seria nunca sua mulher, essa Tilly que, mesmo nua, valia mais que os seus milhoes e que, a-pesar-do seu palcio e das suas jias, era mais pobre que a indigncia ! Tilly des- pedi-lo-ia, a le tambm, um dia, com uma palavra... ou ento seria le quem a deixaria, sem palavra dizer...

 Pelos fins de Junho, com efeito, fecharam as aulas na Universidade e, a-par, acabaram-se-lhe tanto o dinheiro como as relsoes com Tilly. Tinha ficado aprovado no exame d'o segundo ano, com classificao razovel; o quarto e a penso estavsm pagos adiantadamente at o fim de Julho, mas na sua caixinha de ao havia agora apenas umas notazinhas.
 Tilly preparava-se para partir com o pai para a Sua e para a Itlia, onde psssariam o vero inteiro.
 Despediu-se dela numa bela noite de Junho. O peito ofegante, os olhos embaciados de comoo, assaltado bruscamente pelas mil dres da recordao carnal, reteve a mo de Tillv na sua. Docemente, ela disse-lhe: E:nto, adeus. . . at o outono. . . ou at nunca mais.
 Ele amava, doravante, com um amor terrivel, insupor- tvel, essa ruivazinha. Seroes inteiros, parecia lhe ouvir a voz dela, ver a sua silhueta, sentir o aprto dos seus bra- os, escutar os sons doces ou a retumbancia do seu enorme piano. Ningum podia compreender Tilly,--a sua vida que se transmudava a cada instante, os seus suspiros ines- perados e as mil pequenas contradioes que, em conjunto, compunham Q unidade indecomponvel do seu ser. Jamais algum poderia compreender Tilly, jamais algum poderia esquec-la . . .
 Alegre e inespersdo, Paulo fz novamente a sua irrupo nestes dias ocos e vos, como se empunhasse, com gesto seguro, a seringa de morfina do esquecimento.
 "Como sabes, j h meses preparei os meus pais com respeito os meus planos de vero; se quiseres, dentro de oito dias poders partir comigo para Londres", declarou- -Ihe le.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 133  A viagem fra preparada at nas mnimas particulari- &dades, a questo do dinheiro prviamente regulada; logo no dia seguinte compraram os bilhetes "Basileia--Paris Calais--Dover--Londres". Unicamente o passaporte de Kdr deu causa a uma peqnena dificuldade: tendo a Le-  &gao da Gra-Bretanha em Viena recusado pr o "visto" num passaporte hngaro, a solicitude da senhora Pauli- -Hesslein conseguiu-lhe, de um dia para o outro, um pas- saporte austraco e no houve mais impedimento algum  v iagem dos dois rapazes...
 Uma bela manha, um grupo turbulento, brio de alegrh, composto de nove pessoas, subiu para uma carruagem directa que ostentava no flanco o letreiro: "Wien West-- aris Est." Sete dos seus arnigos acompanharam os dois rapa&es a Salzburgo; durante a paragem duma meia-hora nesta ltima estao todo o combio se divertiu a ver sses rapazes e raparigas que se despediam entre mil abra- &os e mil risos. Rosinha e Paulo passeavam no cais, os rostos afogueados de comoo; j os empregados do ca- minho de ferro fechavam as portinholas dos compartimen- tOs quando ambos se estreitaram em longo abrao. O sem- &lante de Rosinha reflectiu uma espcie de emoco extror-.
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 linria. "Meu Deus!& exclamou a rapariga, segurando nda a mo de Paulo, que se conservava de p no estribo u. carruagem, "eu devia ter-te acompanhado, Paulo ! Ex- edir-me-s imedhtamente um telegrama,  tua chegada, escrever-me-s todos os dias, no  verdade ? Tony, te- .ia cuidado no Paulo !:-  J cara a noite quando o combio entrou na &are de,este, emParis; duas horas depois, o rpido partia da are do Norte para Calais. Ambos contemplaram, por de- s dos vidros do seu taxi, a noite parisiense, regorgi- nte de transeuntes e de ruidos e fulgurante de luz. Numa cruzilhada, o carro foi obrigado a parar durante muitos &inutos. Uma rapariga loura, de bina branca, bateu na idraa, arremessando-lhes um "Hello, boy !& sonoro&e legre.
 &Viste ?& preguntou Paulo, &le uma inglea; tomou-nos.
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 134 A AVENTURA EM BUDAPES  por inglses !& Da a instantes, acharam-se na gare Norte. Paulo correu l adiante, mirou a locomotiva: "u bela mquina !& declarou. O carregador chegou com suas bagagens e p-18s diante de uma comprida carr gem Pulmann, pintada de verde. No flanco da carruag via-se escrito: "Paris-Nord-Londres Victoria station&.
  CAPfTULO IX  &No, no me sinto feliz em Londres. Esperava vir e contrar mais do que isto, ou, pelo contrrio, menos talve No saberia diz-lo. Tenho a impresso de que Paulo, q dispoe do nosso tempo e do nosso dinheiro, estragou tUI Que vamos ns fazer ? Nada sei a tal respeito; no  p que no tenhamos um programa, de antemo e minuc samente traado para cada dia; mas nesta ocasio &il Paulo ao Banco receber dinheiro. Vamos, isso no r& oferece dvida, visitar os trabalhos preparatrios da Expq sio de Wembley. Paulo gostaria lambm de assistir uma rusga em Whitechapel; com ste fito, procura agd adquirir relaoes entre a Polcia... E, a seguir, hav decerto um ror de galerias de quadros, de bibliotecas, e&posioes de escultura e de colecoes de antiguidad que vamos honrar com a nossa visita; e uma enormida de conferncias a que vamos assistir. No privamos mu com os outros locatrios da penso; so todos londri ou, pelo menos, inglses. No h, por assim dizer, ge nova entre les; e depois, sabem todos que somos v nenses, desconfiam um pGUCO de ns. Os inglses no comunicativos e no se ligam a ningum fcilmente.
 vezes conversamos com um rapaz que Paulo abord numa biblioteca e, de tempos a tempos, passamos o se na companhia de duas raparigas com quem trav conhecimento um sbado  tarde, graas ao carro dels sofrido uma panne na estrada real e ns, com o Ford Paulo aqui algou, o termos rebocado at  cidade.
 chama-se Isabel Croven, abreviadamente, Lia; os p&i&  URA EM BUDAPESTE 135  Glasgo&v e ela trabalha aqui no escritrio dum vidros. seu parenle afastado. A amiga chama-se ;  altissima, uma verdadeira indu de Madrasta.

 , adando na Universidade. Agora, desejaria dizer-te at&  data, vi de Londres: uma grande cidade, num l&o estontea&or de pormenores acumulados, sem uma &ica j do meu conhecimento, sem um canto de rua r, sem uma voz conhecida; e, todavia, essas casas &s, essas ruas desconhecidas, sses rudos inslitos &egaram a produzir em mim a impresso profunda olutamente novo. Pretende isto dizer que me no vontade, aqui ? Devo dizer, hoje que j semanas n sbre a minha chegada: no estou ainda desen- , ou no espero j mais nada ? No, Tilly, se eu sinto feliz em Londres,  talvez porque demasiado m as sadades por Ti...&  dia dstes, tive um curioso encontro. Paulo fra & ossa manha, uma distinta famlia londrina, para a il&UXera uma carta de apresentao. Aproveitei sse D para dar uma volta. De-repente, numa das ruas &es, perto dum grande hotel, dei de cara com um condiscpulo de liceu, Estvo Varga,--devem, &vida, os tios estar lembrados do seu nome. l&le.
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 a sua direco em Londres e em Ostende, inti- &me a visit-lo no caso de, no fim de agsto ou los de setembro, nos encontrarmos ainda em Lon- &deramos ento passar juntos alguns seroes agra- I Imaginam decerto como me deu prazer falar hn- &oisa que me no sucedia h tempo infinito ! Este to agradou-me tanto mais quanto  certo que, no arga no se contava no nmero dos meus amigos; dsmente nos fazia sentir, a ns outros, alunos po- e tinha uma situao nitidamente superior. Pass- &a boa meia-hora de conversa, aps a qual le foi &da e eu voltei para a penso.
  par trmo a esta carta, devo repetir: faltar-me-iam & o o papel para Iheg descrever, mesmo superflcial- .
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 136 A AVENTURA EM BUDAPESTE  mente, meu querido tio Rudi e minha querida tia Ana, tudooque h aqui de belo e interessante& Talvez um dla, quando a tranqilidade dos dias vienenses mo permitir, ou ento se a Providncia me levar ainda  vossa estimada e familiar residncia da avenida de Presburgo...
  CAPITtJLO X  Regressaram de madrugada.
 Manha alta, Kdr despertou, a cabea pesada, os olhos baos, no rom-rom torturado dum automvel com avaria no motor. Cor.sultou o relgio: eram 9 h. e l/a- Por de- baixo dos estores meio descidos, penetravam raios de sol no quarto. Paulo estava diante do toucador, nu at  cin- tura, uma toalhinha em volta dos rins, a cabea inclinada rente ao espelho, no qual Kdr descobriu dois olhos es- bugalhados, a danarem movidos pelo espanto.
 --Que  isso 7 Que fazes a ?. . .--preguntou-lhe. . .
 e um sbito mau-estar varreu-lhe logo e de todo o sono.
 Paulo voltou-se para le num movimento inslitamente desajeitado, plido como linho: --Nada--respondeu, numa voz sem timbre.--J acordaste?. . .
 --Tens m cara--prosseguiu Kdr.--Ests,  miser- vel, com uma cabeca indecente; be&este demais, hein ?. . .
 --Faz-se o que se pode--replicou Paulo, lanando um ltimo olhar para o espelho, e comeou de vestir-se.
 --No tomas banho ?--estranhou Kdr, ou j tinhas saido do quarto ? --No--respondeu Paulo num tom indiferente.--Creio que apanhei um resfriamento.
 Fz-se silncio. Nalguns minutos apenas, Paulo acabou de arranjar-se; o rosto retomou-lhe a cr natural, mas qualquer &coisa extravagante brilhava em seus olhos. K- dr, da sua cama, observava o amigo. Tinha Q impresso de que se passava fsse o que fsse de anormal. Paulo despediu-se dle em duas palavras:  AVENTURA EM BUDAPESTE 1&7  --Tenho voltas a dar na cidade, preciso tambm de ir Banco; voltarei  1 hora;--e abalou sem detena.

 dr tornou a deitar-se, no meio de interminvel srie bocejos. Pelas 11 horas despertou novamente, tomou ho, almoou, abriu um jornal da manha, que percor- a custo e que depois lanou para longe, a-fim de diri-  se  sala de visitas. O cu apresentava-se ligeiramente uerto; no sentia vontade de sair. &rocou algumas pa- as com o sr. Colham. O proprietrio da penso pregun-  -lhe se eles no quereriam ir de tarde, na sua companhia Wimbledon, onde comeavam os campeonatos de ten-  --No sei ainda--respondeu Kdr. . .--iria de bom do se o sr. Paulo quisesse ir.
 Afinal, sempre sau. Um autobus transportou-o at Bla- friars Bridge; aps um curto passeio na estrada margi- I voltou a p para a penso .. Uma manha vazia...
  muito que eu no tinha uma manha livre&, pensou.
 'aulo foi ao Banco; o nosso dinheiro est qusi a aca- r-se, vamos marchar outra vez. J  tempo !&-; e es- rcou-se por no pensar na saa estada em Londres.
 Era uma hora quando chegou  penso. Entrou no uarto. Paulo estava, sem colarinho, diante do espelho.
 --Onde estiveste ?. . .
 --Na cidade...
 --Ah ! eu tambm;--disse Kdr encarando muito le--Porque  que tiraste o colarinho ? . . .--Paulo olhou ra o ar e proferiu uma evasiva: --Por nada. Depois foi  janela, voltou para defronte espelho e, por fim, deteve-se  distancia de um passo Kdr. Com o rosto cheio duma palidez mortal, disse- ,le, numa voz estranha e grave: --Escuta, Tony,  uma coisa horrvel !
 Aquela cara, aqule tom, aquela frase ! Um terror sem ome se apoderou de Kdr: --Por amor de Deus, que , que coisa horrvel  essa ?...
 - bradou.
 --Tony--\disse o outro, e a SUA VOZ de baiso trans-.
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 138 A AVENTURA EM BUDAPESTE  formou-se numa lamria medrosa de criana, fui contami- nado por Yomaya...
 O sangue de Kdr con&elou-se-lhe nas veias, num s instante. "Meu Deus !. . . a sifilis ?. . ." Ouvindo esta pa- lavra, o rosto de Paulo contorceu-se numa careta.
 --Sim, acabo de vir do mdico que procedeu  anlise do sangue: resultado positivo.
 Kdr no conseguiu encontrar uma nica frase; o peito sacudido por uma nusea, olhou fixamente o seu amigo prostrado sbre uma cadeira, sem vida, como um fantoche a que se soltou o elstico.
 &:ste sil8ncio teve a durao de muitos minutos ou de bas- tantes quartos de hora ? Paulo postara-se no centro do apo- sento, meio voltado para o espelho, meio voltado para le.
 --Porque ests olhando para mim ?. . .--gemeu Paulo, por fim.
 Esta frase restituu a fala a Kdr.
 --Que vamos ns fazer agora ?. . . --preguntou-lhe, desanimado, profundamente envergonhado de gritar por socorro no momento em que devia ser 81e a prest-lo.
 --Agora . . . o que vamos ns fazer ? Eh, bem ! vamos para casa. . . Aqui no posso. . .--disse Paulo, e calou-se novamente. Mantinha-se de p, e Kdr continuava afun- dado na cadeira. Uma borrvel emoo, que Ihe gelava o sangue, estrangulava-o. Recordava-se do que Wirth dissera um dia, a respeito da temvel infecco, inoculada por uma raa diferente. . . Tambm Paulo se recordava disso?. . .

 No se atreveu a proferir palavra; no ousou sequer interrogar Paulo sbre a maneira como aquilo tinha acon- tecido. Caricato ! Como acontecera aquilo ?. . . No repa- rara 81e em que a rapariga estava doente ?. . . Mas pode- ria preguntar-lhe fsse o que fsse, no instante em que Paulo continua& a de p, em frente do espelho, a camisa aberta sbre o peito, os olhos embaciados fixos sbre a sua prpria imagem e mostrando, ao canto das plpebras, duas tristes lgrimas que iam engrossando ? De sbito, em si- lncio, le voltou-se; cada um dos seus movimentos era, nesse momento, desastrado e anguloso.
  LVENTURA EM BUDAPESTE 139  Tony--disse Paulo, aqui nada posso fazer . . . Vamos njar as malas e, amanha de manha, levantarei dinheiro anco e partiremos.
 &se rosto de criana, angustiado, enlouquecido ! No ia seno uma coisa a fazer, nesse instante... Ir di- a 81e, abra-lo, apert-lo nos braos, incutir-lhe cora- e confiana em si-prprio... Via-se, porm, incapaz &ulir sequer, na sua cadeira: a glida serpente do des- o enroscava-se nle, num aprto viscoso. . . Sabia que 'aulo o tocasse naquela ocasio se subtrairia ao seu tacto.
 , imobilidade de Paulo transformou-se repentinamente &a agitao febril e, tal como uma msca  qual quei- sem as asas, o rapaz corria de canto para canto, com &imentos extravagantes, acutangulos e snitos.
 I criado trouxe as malas. A hospedeira acorreu e pre- tou, admirada: "O qu8, os senhores partem ?. . . assim, sbito ?. . . Nem sequer almoaram ainda. . . Como  ral, o preo da penso compreende a semana inteira...
 izmente, no me  possvel deduzir os tr8s ltimos  Bem entendido)&, respondeu Paulo com vivacidade, im- nte de a ver pelas costas. Os fatos, a roupa mida.
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 m do guarda-vestidos e acogularam-se nas malas.
 desvairamento de Paulo apoderou-se tambm de K- ; decorreram duas horas e as malas continuavam por . Talvez por saberem que, uma vez findo 8sse traba- teriam diante de si uma estirada tarde. A partir das 4 s, todavia, nada mais tiveram em que ocupar-se. Con- Earam o horrio dos combios: o rpido partia da esta- "Vitria& s 11 horas da manha; estariam em Paris ; da meia-noite e esperariam o primeiro combio que juisse para Viena. Paulo matava o tempo arrastando o is que podia os preparativos. Pediu a conta  senhora Hlam e pagou, com lentido afectada, o custo da hos- &gem at o fim da semana; depois desceu  rua para prar cigarros. Dez vezes pelo menos, tirou da algibeira &ssaporte e bem assim a sua carta de crdito sbre .
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 140 A &VENTURA EM BUDAPEST  Banco Hudderston &G C.A. De sbito, quebrou-se-lhes grande snimao. Ambos ficaram afundados nas suas c deiras, incapazes de fazer fsse o que fsse. Os minuto escoavsm-se com uma morosidade incrvel... e nada di ziam um ao outro... Pelas seis horas, Kdr ergueu-s finalmente e foi lanar um olhar para a rua, que ento s animava. Abrigava no peito uma sensao amarga, tena e dolorosa No tinha dado bom resultado, esta coisa di vinda a Londres. Que sucederia, agora ?. . . Que iam fa- zer ?. . . Que faria Paulo ? Agentariam um e outro as re criminaoes. . . de quem ? Dos pais de Paulo ?. . . impor- tar-se-iam eles, no fim de contas, com a infelicidade do filho &. . . Ou ento de Wirth ? Perante ste no estava po completo justi&icado ?. . . No ! Ele dir-lhe-ia: "No pres- taste a ateno devida a esta criana&... E depois, seria necessrio ir ao encontro de Rosinha !. . . Santo Deus, se- ria preciso dizer-lhe: &Rosinha, o teu l'aulo..." Um calafrio percorreu-lhe todo o corpo. Rosinha havia- -Ihe de(larado outrora: "A camaradagem amorosa  o melhor penhor duma vida pura e duma sade perfeita.& E surgira, afinal, Yomaya, essa jovem indiana, de tez mo- rena, com o seu sangue envenenado, seus beijos sem cons- ciencia . .
 "Tony, explicara-lhe Paulo uns dias antes, deixa-me, no posso resistir-lhe, no quero... resistir  sua singu laridade,  sua raca estranha&. Ele dissera isto como se fasse um &elho devasso a quem urge o tempo. No era mais bela que Rosinha, nem mais alta, mas era diferente dela... com os seus grandes olhos semi-cerrados, de ex- presso ingnua, com a sua fala calma duma entoao bi- zarra e profunda, assemelhando-se a uma contnua cano com o seu sangue funesto. . . Talvez ela prpria o igno- rasse, tendo-o recebido talvez  nascena,  msneira de maldio dum antigo e malfico ample&o...
 Paulo deitara-se ainda antes de 8 noite cair. Nem sequer jantara. A criada de quarto trouxe a Kdr ch e um prato de carnes frias; custou-lhe a engolir slguma coisa antes de, por 9eU turno, se deitar.
  iVENTURA EM BUDAPESTE 141  itinerrio estava fixado; vinte vezes o tinham dis- o: levantar-se-iam s 7 horas e s lO horas recebe- o dinheiro no Banco, aps o que iriam directamente a estao.
 dr apagou a luz; imediatamente o reflexo dos al&to- que passavaln na rua comeou a projectar-se no teto, feixes de luz que o varriam de lado a lado. O silncio &va no quarto. Tinha j dado meia-noite, despertou sono profundo, animal, surdo, sem sonhos: slgum Inhava ali dentro. Soergueu-se: Paulo encontrsva-se t p junto da mesa, segurando na mo uma costeleta que havia ficado na bandeja. "No consigo dormir, ichou le, e sinto un.a fome horrvel." A situao era &i cmica: Paulo, descalo, envlto no pijama azul , de costeleta na mo.
 - No podes dormir porque ests esfomeado --- disse- Kdr.--Come, que logo dormirs,--e depois recau a almofsda e ferrou se outra vez no sono.
 pertou novamente sob a aco de um &rande ludo a que se seguiu outro leve, uma espl ie de arrepa- le mo em roupa distendida. Um frio mortal Ihe ge-  os membros e todo o terror mau, absurdo, desconhe-.
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 , da existncia humana estremeceu na sua voz, guando, luz indecisa da aurnra, chamou: - Paulo, tu dormes ?. . . Paulo. . . Paulo !. . .
 um salto, atingiu o interruptor; uma luz amarelada lou o quarto; Paulo no estava na cama... ou an- . . arrebatando a ligeira colcha castanha que a cobria, Paulo estendido de costas sbre a cama, a perna di- dobrada sbre o ventre, e... e... o brao direito e o tronco ocultos pela grande almofada branca, que o o esquerdo parecia enlaar. Com cerleza infalvel K-  30ube ento que qualquer coisa sucedera e no se atre- a desviar a almofada de cima da cabea de Paulo.

 &dou-se um instante  cabeceira do leito, nums vertigem turada de desgsto; depois, o seu dedo precipitou-se o boto da campanha...
 Iinutos decorridos todo o andsr estsva a p, e quando.
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 142 A AVENTURA EM BUDAPEST  o Dr. Ryborg, o velho mdico sueco, locatrio da penso, apareceu dentro do roupo enfiado  pressa, ouvia-se j no silncio da madrugada o ronco dum automvel parand em frente do prdio, e a pesada porta abrir-se e fechar-se.
 O quarto trasbordava de basbaques cheios de terror, su- mriamente vestidos, o semblante pasmado e plido sob cabelos em desalinho e de olhos arregaladQs. Silenciosos, deixaram o doutor passar. Este, pegando suavemente n brao azulado que enlaava a almofada, p-lo ao longo do corpo e levantou depois aquela. O rosto amarelo de Paulo --da sua bca aberta e contorcida escorria um fio espsso de sangue que Ihe chegava ao queixo--mergulhava num charco vermelho, ao passo que sbre o travesseiro,  al& tura do pescoo, jazia um revlver miniatural, de renexos azues.
 Em tudo o que se seguiu houve alguma coisa prpria de sonho, alguma coisa de confuso, de estranho e de in- compreensvel: indivduos de bata e de barrete azul, de- pois um agente da polcia e outro mais, e tambm um ci- vil de bigode imponente. Todos o assaltaram com pregun- tas que le dificilmente compreendia; e mesmo que as ti- vesse compreendido bem, nenhum som teria podido sol- tar-se da sua garganta empedernida. A senhora Colham tremia a um canto, com um penteador cr de rosa, de ra magens, pelos ombros, e soluavs. incessantemente: "Ah I que escandalo ! . . . que escandalo ! . . ." A figura do Dr.

 Ryborg adquiriu dimenses sbrehumanas no momento e que se inclinou para le e o interrogou em alemo, pregun tando-lhe se sabia ou se, pelo menos, suspeitava da rsza por que... "No, no sei absolutamente nada, no, no& e, neste instante, brotou-lhe no esprito a idia de que era& foroso dizer quele homem o que Paulo soubera na vs- pera. . . mas j o homem de grande bigode estava na sua frente, a agitar na mo duas flhas de papel que descobrira em cima da mesa, perto da bandeja com os restos do jan- tar. Kdr reconheceu imediatamente as pginas pautadas a azul da agenda de Paulo, assim como a sua caligrafia de- sordenada, traada sem dvida 80 dbil claro que se fll  ,VENTURA EM BUDAPESTE 143  da rua. Numa das flhas achavam-se escritas pala- inglsas: A Polcia: Contra uma doena incurvel, e  por isso me mato. Comprei a arma esta manha. . . Se fr pos- 1, evitem a autpsia. Desejo que o meu corpo seja in- rado. Falem do caso, tanto quanto fr possvel, como acidente de tlansito, e (seguia-se uma ]inha riscada, mesmo assim legvel) pede-se instantemente que se smente os meus pais que o sucdio..." a outra falha liam-se trs linhas em alemo: "Tony, hes falares em Viena, dize-lhes simplesmente: foi por sa dles que isto aconteceu. Tanto quanto possvel, fala &sinha de um acidente de automvel.& epois, o cadver foi levado dali. O agente  paisana uma relao das coisas de Paulo, remexeu em tudo, ou tudo na mo e, a cada objecto preguntava: "1& do hor, ou seria do defunto ?. . ." Ele tomou conta do mi- ulo revlver assim como das duas cartas. Kdr tre- , o corao num bater desordenado; esteve a ponto de ar-se ao beber o soluto de brometo quente que Ihe o doutor.
 avia apenas um instante que estava szinho, bateu  a senhora Colham. &0 senhor  um ,&en&lcman, dis-.
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  ela com um tremor nervoso no corpo todo, e porsuplico-lhe quedeixe a minha casa, que parta sem ora. . . compreende, o bom renome da minha casa. . .
 nhor  um gentleman& no  verdade 7. ..& Naturalmente bem que no podia ali ficar, naquele quarto escuro, egnado da lembrana dos acontecimentos !
 :vou a mo  fronte. & u nem me sinto...", e, pre- )u-se para o lavabo, onde bbeu dum s trago trs s de gua. Que sabor estranho... Provvelmente, Ira-se do copo de lavar os dentes. . . Seria o copo de ?... Um mdo de animal perseguido Ihe sacudiu nembrOs e o estmago logo expeliu tudo o que aca- de tomar.
 teram de novo  porta: era outra vez a senhora m, ainda de penteador cr de rosa, acompanhada de144 A AVENTURA EM BUDAPESTE  um agente. Este trazia uma citao para o dia seguinte, s 11 horas da manha, no comissariado de Bow-Street.
 Na rua escura, Kdr caminhava cambaleando. Que me querem les ?. . . Podia eu sdivinhar que Paulo ia su- cidar-se ?.. . Achou-se perante um comissrio, sentsdo a uma mesa em cima da qual estavam colocados o revl- ver, as duas derradeiras cartas e o passaporte de Paulo. O funcionrio policial preguntou-lhe o nome e pediu-lhe o passaporte. Isto ainda ele compreendeu; mas, para o resto, tiveram de ir buscar um intrprete. Com muita difi- culdade, l acabaram por descobrir algum conhecedor do alemo. &Porque vieram os senhores a Londres ? Que fi- zeram aqui 7 Com quem estabeleceram relaoss ?. . . Qual podia ter sido a causa do sucdio ?. . . & verdade que o seu amigo tinha uma doena incurvel, e de que doena se tratava 7. . . Como se chama o mdico que a veriEi- cou ?. . . O senhor soubera que o seu amigo havia com- prado um revlver ?. . . Quem so os pBiS do seu alnigo e qual  a posio social dles?. . . Quem  Rosinha ?& Tratava-se de um verdadeiro dilvio de preguntas, a que diligenciava responder com conciso e exactido. Em seguida, o senhor de bigode--no despegara dali, o ho- mem--agarrou-lhe num brao, ob&igou-o a sentar-se e preguntou-lhe se sq achava mal e se no queria um copo de gua. "No", recusou Kdr, com um gesto alito ao voltar-lhe  idia o copo de lavar os dentes, l da penso.

 "No admira nada que le esteja abatidssimo" obser- vou o da bigodeira ao outro agente, "o amigo queimou os miolos  distancia de dois metros dle; sabe voc, Graham, o que so estes revlverzitos belgas, de cinco ameixas !...& Propuseram-lhe, por ltimo, um problema terrvel: pre- guntaram-lhe se queria e podia tomar as providncias ne- cessrias para prevenir a famlia e mandar proceder  cre- mao do cadver. Protestou, aterrado. Nesse caso no teria seno que aguardar, no seu domiclio, que a polcia se pusesse em contacto com a legao da Austria. Kdr declarou imediatamente que &inha de sair daquela penso, e quando Ihe preguntaram para onde ia morar, disse, ao  l&VENT&JRA EM BUDAPESTE 145  so, o nome dum hotel, o hotel &rosvenor, perto da es- o de "Victoria", onde se lembrava de ter estado ins- do com Paulo, durante dias logo aps a chegada. De- s disto, permiliram que se retirasse.
 .& o voltar para a penso, encontrou j as suas malas no o. No sbado imediato, um agente ciclista levou-lhe ao el Grosvenor uma citao para s 11 horas. No comis-  riado, encontrou novamente o senhor de bigode e bemim ointrprete Informaram-no de que a autpsia, a no pudera ser evitada, tinha, de facto, provado que defunto contrara uma doena e que se podia, conse- entemente, aceitar e&ta como motivo do sucdio. Alis, mlia tinha j sido prevenida pela Legao, para Gas- n, onde se encontrava em vilegiatura. Por telegram, os is davam o consentimento para a incinerao do corpo, tdas as providncias haviam sido tomadas para isso.
 mbm a famlia consentia que fsse entregue a Kdr dinheiro que sobrara da liquidao da carta de crdito, duzidas as despesas com o funeral e outras correlativas.
 despesas subiram a tanto... a incinerao custava a . antia de... ficava, portanto, um saldo de duas libras e e xelins. . . "renha a bondade de assinar ste recibo." omo decorreram os dois dias seguintes, at sbado ?.. .
 nha a sensao de viver sob um sudrio negro, no ho- barulhento e bulioso, e de estar separado do mundo L tante por sse sudrio. Permanecia sentado no quarto e, n os dentes cerrados, esforava-se por no pensar em isa alguma. Mal tocava nos pratos que Ihe traziam, e o to de se isolar d&sta maneira transformava a primeira moo produzida pela catstrofe numa surda resignao.
 ao me devo deixar ir abaixo... No fim de contas, eu sou responsvel. Responsvel ?. . . mas no se trata responsabilidade, traa-se de Paulo, o amigo que perdi." pois pensava: "no devo dar voltas ao miolo. Voltarei ra Budapeste,  caso arrumado". E agora caminhava na a, vindo do comissariado para o hotel. Caminhava ao sol ente do preldio do vero, a mo apertando, dentro da ibeira, as duas notas de libra entregues pelas autorida- .
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 146 A AVENTURA EM BUDAPESTE  des. J em casa, sentou-se  mesa e tirou para fora o di- nheiro todo. Duas libras e sete xelins, e algum dinheiro mido: aguilo representava a herana de Paulo. Tinha ainda, na careira, mais dois ttulos de uma libra cada, e bem assim dois xelins e alguns pent&ies no fundo do seu porte-monnaie. Somava tudo: quatro... quatro libras, nove xelins e... O dinheiro deslizava sbre a mesa; er- gueu-se, abriu o armrio, tirou de l as suas vestimentas, pegou na mala, num gesto de autmato atafulhou-a dos seus fatos, juntou os objectos midos espalhados pelo quarto, encafuou tudo isso nas malas, e depois tocou a campainha. &A minha conta, faa favor"; mas, mesmo antes de Iha trazerem, desceu ao rudoso trio, onde se sentou numa poltrona em frente do escritrio com a ba- gagem os ps. Um chasset-r trouxe-lhe a conta; dirigiu -se ao g&ichet, colocou em cima a conta e tirou da algi beira todo o dil&heiro que possua, resmungando qualque coisa. O caixa olhou para le admirado, apartou a impor tancia da conta e entregou-lhe o excedente. &l&esta-me...

 s quanto ?. . . trs. . . trs libras e cinco xelins." --"Quere que Ihe levem a bagagem  esta&co de ca minho de ferro ?. . " --"No, apenas  passagem do autobus...& Achou-se na paragem do autob2-s, junto da bagagem, sob os raios dum sol esplndido. Os autobus passavam uns atrs dos outros; no sabia qual tomar e ignorava o que ia ser de si prprio. Afagava de quando em quando, metendo a mo no blso, o dinheiro. Um sujeito, todo vestido de cinzento, limpou da cinza o seu cachimbo ba- tendo com le de encontro ao poste do candeeiro. Resduo de tabaco, de cinzas e at uma falha caram no cho e voaram para cima dos sapatos de Kdr. "Mil perd8es !" desculpou-se o indivduo, levando o ndex ao chapu voltando-lhe logo as costas.
 Trs libras e cinco xelins... Em vez de dinheiro, teri sido melhor que o comissariado Ihe tivesse entregado revlverzinho; le continha ainda quatro cartuchos ints ctos.
  VENTURA EM BUDAPESTE 147  ruazinha denominava-se Little Chelsea Street; den- de casa, le no a enxergava sequer. A sua janela dava uma pasagem singular; a cinco metros da vidraa, ia uma parede duma altura e duma espessura extror- rias. Caiada mas nalguns pontos amarelecida pelas in- pries, ela projectava no quarto,  hora do meio-dia, ndo os raios de sol batiam de esguelha, feixes de luz bunda. Outrora tinha visto, no se lembrava j onde, relexo insuportvel como aqule.
 . avia j dois dias que permanecia naquele quarto, sen- o perto daquela janela. Quando, na ante vspera, su- para o aI&tobus, ignorava por completo o seu desti- Descendo em qualquer parte,  sorte, tinha alugado aposento nesse hotel de aparncia modesta. Desde en- nunca mais sara, ficara  janela a olhar a parede de- te e o ptiozinho ajardinado do hotel. &Precisava de ularizar certas coisas . . Quais coisas ?. . . Paulo. . .
 lo j no e&iste, e se no quero afundar-me completa- e, tenho de esquec-lo. Regressarei a Budap?ste; aca- de todo ste negcio, e, como  natural, Viena tam- I acabou para mim. Foi-se a k:scola Politcnica o foi-se bm Tilly. Mas. .. Rosinha !  indispensvel escrever ; Rosinha... porm, primeiro que tudo,  preciso aban-.
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 ar esta cidade monstruosa, com a sua lngua estranha, s lgubrss museus, suas bibliotecas terrveis, suas mu- res de cr e seu forno crematrio. Voltar para a Hun-  a. Sim, mas como ? O Q&obus, a alimentao durantedias, agorgeta ao rapaz, uma caixa de cigarros e os elins pagos adiantadamente por uma semana de alu- r do quarto... com as 2 libras e meia que me res- 1. . . onde vou eu parar ?&-  J&o fazia a menor idia do valor do dinheiro que aindasua,mas tinha a impresso de que devia ser medo-  ~mente pouco, e a distancia entre Londres e Viena alon- a&se de maneira pavorosa ante seus olhcs. Com as per- .
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 148 A AVENTURA EM BUDAPESTE  nas trmulas, desceu ao rs-do-cho e, com bastante difi- culdade, explicou ao proprietrio do hotel desejar que tele- fonassem para uma agncia de viagens a-fim de saber o preo do bilhete para Viena.

 Um suor frio lhe perlava a fronte enquanto escutava a conversao telefnica do hospedeiro. "Dezassete libras&, acabou ste ltirno por inform-lo. Brotou nle, de sbito, um instintivo rancor contra Paulo: tornou a ver o seu rosto pueril diante do espelho, seus olhos esbugslhados; e, a evocao, un- soluo interior pranteou o camarada per- dido para sempre.
 Findava a tarde dsse segundo dia. As imagens evoca- das esfumavam-se cada vez mais e no lugar da sadade instalou-se um nico pensamento: partir.. . Partir de ali...
 custasse o que custasse. .. No querer saber nem de Ro sinha, nem de Tilly, nem de ningum, mas partir para voltar para a sua terra !. . . S ento se lembrou de certo trco recebido de Paulo no dia do sulcdio, horas antes tinha mais duas libras na algibeira. Talvez pudesse vive com isso tudo durante um ms...
 E quando, na manha seguinte, preparou o estojo d barba e fitou o prprio rosto reflectido no espelho, um impresso dolorosa o oprimiu um momento, mas isso du rou apenas um segundo e uma vontade fria e resolula Ih insinuou logo no corao e no crebro: "Passarei por cim destas coisas, irei para diante ! . . .& Na Legao da Austria. Tinha vestido o fato azul esforando-se por dominar a tremura da voz, mando anunciar-se ao Conselheiro da Legao. Foi recebido p um indivduo calvo, jovial, que, ao ouvir-lhe o nome abanou a cabea em sinal de desaprovao. aSim, reco do-me do senbor, foi um caso muito desagradvel. Q deseja ? Quere voltar para Viena ? . . . O qu ? Repatriad Mas, que eu saiba, o senhor no  cidado austraco, o estarei eu enganado?...
 --No, hungaro . . .
 --No compreendo ! Como  que as autoridades au tracas puderam, nessas circunstancias entregar-lhe u  VENTURA EM BUDAPESTE 149  aporte austraco ? . . . Isto mereceria ser examinado a do... Seja como fdr, quanto ao seu pedido, lamento poder...
 Na Legao da Hungria. Depois de o terem feito espe- numa vasta antecamara, acabaram por introduzi-lo m gabinete de trabalho ricamente mobilado. Recebeu-o homem novo, elegante, louro, de bigode  moda tr- e de monculo: "O senhor deseja?. .&--&Eu ti- vontade de regressar a Peste..."--"Regressar a ?... no compreendo visto que possui um passa- e austraco, ou dar-se- o caso de o senhor ser cida- hngaro ?. . . Tudo isto aparece os meus olhos com aspecto to suspeito. . . &uando esteve pela ltima vez Peste ?. . . Em que ms ? Porque sau de l ?. . . Em o o caso, deixe-me ficar o seu passaporte, assim como utros papis e algum dinheiro para as despesas de ex- enee. Se assim o desejar, a Legao pode pedir infor- oes, mas repatri-lo... nem  assunto para ser enca- o. . . & tarde, sentara-se  mesa para comear uma carta: inha querida tia Ana, meu querido tio Rudi". Mas sen- se incapaz de traar a menor linha no papel, a pedir eiro os velhotes. E quando,  noite, o estmago mor-.
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  pela fome, se ergueu de ali, o que havia escrito eraas ocomc: "Minha querida tia Ana, meu querido Rudi&.

 o dia seguinte de manha despertou fresco e bem dis- to, e le prprio se admirou disso. Tirou da mala o cinzento claro e, como estava todo amarrotado, tocou mpainha para o mandar passar a ferro. Meia hora de- , saiu. Dinheiro na algibeira, caminhou a passo vaga- , fitando atentamente cada tabuleta, cada letreiro. A a do lanche, serviu-se dum bufete automtico para me- na bca alguns pastis, no interrompendo assim o seio. Tinha a cabea repleta de nomes de ruas e, no o, a fadiga de mais de quarenta vias percorridas. No imediato, dirigiu-se de autobu&, para outra parte da de, onde vagueou ao acaso. A un1a hora, bebeu uma.
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 150 A AVENTURA EM BUDAPEST .
  chvena de caldo com um bocado de qualquer coisa, e d pois continuou passeando &t s seis horas. No quinto dia o tom grisalho do asfalto rodopiava-lhe diante dos olhos e i no meio da rua, a viso do passeio produzia-lhe tonturas Foi andando. Os ps avanavam-lhe com uma regular dade mecanica, o ritmo do passo no se alterara. A su & respirao era regular. Aprendera a marchar assim no re i gimento, durante os grandes exerccios; pena era que t , nunca Ihe tivesse servido na "frente", onde era foros marchar duma maneira muito diversa. Fz tda a dilig8n cia por no perder o bom-humor: Londres era uma c dade enorme. . . e le no podia rebentar ali de fome, so bretudo enquanto tivesse mais de duas libras na algibeira i Na primeira cervejaria que encontrou bebeu duas mei ; canecas, aps o que novamente se lanou na rua; e, noite, atirou-se mesmo vestido para dentro da cama, por que nem fras tinha j para se despir.
 No princpio da terceira semana o mundo exterior come ou de tornar-se indistinto em seus contornos. Todos o dias percorria as ruas num passo errante e qusi demente na idia flxa de descobrir um nome dum hngaro, um i dcio da Hungria, e com a inteno bem assente de me digar; e, ao mesmo tempo, com essa passividade, ess impotncia que o detinha e o inibia de agir no prprio mo mento em que talvez o triunfo Ihe fsse sorrir. Na vitrin duma grande emprsa comercial, viu um cartaz: "Preci sa-se de um Agente para o Continente e para os Balkas.
 Estacionou uma boa meia-hora em frente da vilrina se se atrever a entrar. Tinha ainda algum dinheiro na alg beira, no sabendo com exactido qual a sua soma total Caa uma chuva mida e, ao atravessar a rua morna molhada, experimentava como que a sensao de est tentado a saltar s goelas do primeiro transente. Cam.
 nhava por hbito, olhando serrlpre &m frente e no j pa as tabuletas. Um autobus esteve a pontos de esmag-l no momento em que passava rente ao passeio. Recuan& por insinto, Kdr levantou os olhos; viu no letreiro meno "Oxford Circus& e, neste instan-e, acudiu-lhe u&  V&:NTURA EM BUDAP13:ST&5 151  jQ. Entre Oxford Circus e a praa Langham acava si- do o hotel Langham. Varga tinha-lhe dito, outro dia, permaneceria all at 10 de setembro. Estava a 3 de mbro 1. . . Subiu para o autobus com ste j qusi em amento; meia hora depois mergulhou na penumbra do o d&se elegante hotel. &O sr. Varga, faz-me o obs- o ?& interrogou o porteiro.--"N.? &08&, respondeu o pregado voltando-se devagar para o quadro das chaves.

 esta ocasio, no est c.& Kdr sentou-se numa pol- a, frente  entrada. Dez, vinte minutos, meia hora de- reram. Sau e passeou outra meia hora pela praa. Sim ga ia livr-lo de apuros. Mostrara-se muito amvel, da ra vez, quando do seu ltimo encontro. Com tda a teza Varga o auxiliaria, com dinheiro e conselhos. Vi- h muito tempo em lnglaterra e decerto viria em seu &rro, para o fazer regressar  terra natal ou, ento, . Ihe conseguir em Londres um emprego. Varga era e chique.
 essara de chover. Voltou para diante do poiso do por- : o sr. Varga continuava ausente. Sentou-se no trio, ou a sair, passou outra meia-hora, enguliu uma san- he e um copo de cerveja, e por fim voltou ao hotel. "O Varga, faz-me o obsquio ?. . .&--&Ainda no veio.&.
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 am-lhe os rins e sentia a garganta sca, quando trans- pela terceira vez a porta giratria. O relgio fronteiro otel, marcava duas horas e meia. Rodou sbre os cal- Jares, voltou para o trio, procurou assento numa pol- a colocada numa reentrancia da parede e pegou numa ta ilustrada.
 espertou em sobressalto, piscou os olhos e olhou em a, envergonhado de se ter deixado adormecer. Feliz- te, ningum dera por isso. Procurou com a vista o re- de pndula, de relexos azues, do trio: indicava 5 as e 10 minutos. Em trs passadas, correu ao balco porteiro.--"Faz-me um obsquio, o sr. Varga ?. . .& "Sim, j entrou h aproximadsmente meia hora.&-- rigado&, respondeu Kdr dirigindo-se com passo in- 3, para a escada. As dres de rins voltaram a assalt- .
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 152 A AVENTURA EM BUDAPESTE&  -lo e subiram-lhe pouco a pouco  cabeca. Vamos, era ne- cessrio agora ter o raciocnio claro.
 Segundo andar, n.? 201... 04... &08. Suavemente, bateu  porta, revestida de laca branca. "Yes !& disse uma voz masculina, no interior. Entrou: Varga, de smoki&tg, estava voltado para a porta, o semblante interrogativo.
 Numa poltrona, uma raparigaa loura envolta num imper mevel azul e ostentando um chapu de sda brilhante, da mesma cr. "Desculpa-me vir incomodar-te&, disse K- dr imediatamente, em resposta ao olhar admirado de Varga... aMas no me incomodas absolutamente nada, replicou o outro com impecvel cortesia, estou muito sa- tisfeito por tornar a ver-te; desculpar-me-s, porm, de no estar s&, e apressou-se a fazer as apresentaoes. &O meu amigc Kdr&.--"Miss Evelyn Campbell-Gray, irma dum dos meus bons amigos". Atabalhoadamente, Kdr tentou justificar-se de se exprimir mal em ingls e, com o rosto purpureado de vergonha, disse a Varga em hngaro: "Ro go-te o favor... um assunto muito importante... Pod ria falar contigo em particular ?. . .
 Num relance de olhos, Varga mediu-o da cabea os ps: os sapatos estavam cobertos de p mas em bom es tado, o fato bem passado a ferto... "De bom grado, es tou  tua disposio: simplesmente, nesse caso, tenho d pedir-te que te ds ao incmodo de acompanhar-me ao sa lo.& Dito isto, Varga rogou mil desculpas a Miss CamF bell-Gray, prometendo-lhe voltar dentro de poucos minu tos. Kdr fz uma mesura, a jovem aquiesceu com u aceno de cabea. Varga abriu a porta do salo e deixou- passar adiante.

 A janela largussima, formando trptico, do salo, pree chia-a um vitral: o da luta vitoriosa de S. Jorge contra drago. Kdr sentara-se em frente dsse vitral, o bust empertigado, as mos trmulas em cima dos joelhos. Varg postara-se diante dle, com &.s cotovelos fincados nu mesinha redonda. Com os gestos lentos e circunspect acendeu um cigarro: --Como vais de sade, querido Kdr ? Sinto-me feli AVENTURA EM BUDAPESTE 1 S3  me teres vindo visitar; simplesmente, repito-te,  pena me teres telefonado primeiramente; poderamos pas-  o sero juntos.
 --Passar o sero juntos--repetiu Kdr inquieto; emuida,erguendo os olhos para o vitral, soltou um pro- do suspiro antes de comear: --No te zangues, Varga, por eu me dirigir a ti em mstancias extremamente delicadas... mas compreen- aqui, em Londres&... porm, logo s suas primeiras atrapalhou-se "Santo Deus, eu vou mendigar !&: e pensamento trespassou-lhe o crebro como um claro.
 --Pois bem ! Que circunstancias delicadas so essas ? preguntou Varga, franzidas as sobrancelhas.
 --Vejo-me numa situao terrvel, sem que tenha a Ipa disso.
 o pronunciar estas frases, o rosto tingiu-se-lhe de pejo.
 rga, porm, psto em estado de desconfiana, pregun- -Ihe  queima-roupa, abrigando-se por trs de espssa vem de fumo: --E:m qu. . . de que maneira. .. que desejas tu de m ? sta pregunta aparecia formulada num tom to humi- nte, to arrogante e contendo j, prviamente, uma re- a de tal modo decisiva, que Kdr no seu pudor de.
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 bre, se sentiu imediatamente invadido de clera. Num gesto da mo, sacudiu o fumo que se interpunha entre bos e declarou numa voz sca: --Dinheiro !. . .
 outro, fazendo ioar um risinho semelhante a um ga- do : --Dinheiro ?. . . Querers explicar-te melhor, por favor ? Kdr fechou ento os olhos e, engulindo a saliva, meou a sua narrativa: --Tu j sabes que vim aqui em viagem de estudo com n rico jovem vienense... na qualidade de preceptor, de entor, de amigo mesmo... Preparvamo-nos precisa- ente, ara regressar. . . &uando um malfadado incidente...
 e ficou esmagado debaixo das rodas du&n autobl&s... e,.
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 15& A AVENTURA EM BUDAPESTE  agora, eis-me apenas com duas libras na algibeira. H j semanas que procuro uma soluo. . . e pensei que tu po derias emprestar-me o vitico para ir para casa...
 Enquanto ouvia esta exposio o semblante de Varga cobriu-se de vincos rigidos e o olhar fixou-se-lhe, desapro- bativo, no do seu interlocutor.
 --H j semanas que ando  procura de um hngaro ou de um amigo que estivesse em condi8e& de auxiliar- -me nesta difcil situao, a&iantando-me o custo da via- gem . . .--prosseguiu Kdr.
 --Meu querido amigo--disse Varga interrGmpendo aquela fala titubeante--sinto muito a tua desventura, mas infelizmente no me  possvel... A viagem de ida para a Hungria custa, mesmo em terceira classe, uma quantia bastante elevada, que lamento no poder emprestar-te, visto que eu prprio vivo aqui sujeito a certos limites !
 Certos limites razovelmente largos se assim o queres ..

 Mas emprestar-te dinheiro em semelhantes circunsancias equival&ria a fazer-te presente dle. Em compensao, se queres aceitar uma pequena importancia, a metade da que possues neste momento. . .--e, como por encanto, uma nota de libra surdiu na sua mo, que estendeu a Kdr.
 Dominando a tragdia da sua humilhao, ste ouviu ressoar, no fundo de si, um risinho grotesco. oferece-me uma libra. . . Ah !. . . Ah !. . . e se eu Ihe moesse a mo com pancada para mandar ao diabo a sua esmola?!. . .
 pudesse isso, simplesmente, tirar-me de cima do peito ste pso !. . .
 A voz de Varga tornou-se ento benvola, enquanto recolhia a mo que segurava o dinheiro: --&Qas porque no te diriges os pais do teu aluno? --aconselhou.--No fim de contas, no s responsvel porum acidente e les tm o dever de se ocuparem de ti, visto que no era para teu exclusivo prazer que...--Ca- lou-se.
 O silncio pairou por um instante. Kdr tinha a sen- sao de que uma redoma de vidro multicolor e bizarra de&cia do teto, o envolvia e o separava das CoiSQS e dos AVENTURA EM BUDAPESTE 155  Is do mundo. Em sua volta era o silncio completo. As es da redoma de vidro trespassavam-lhe as plpebras e e de cerr-las para que sse colorido alucinante o no gasse.
 Ouviu, vindos das profundezas longnquas, alguns gmentos de palavras: "a legaco da Hngria...  o dever em casos desta natureza. . . A legao da Hun- ..." De sbito, levantou-se. Seus gestos eram dum ranho e uma estranha voz pronunciou: "Obrigado, eus". Depois deu meia-volta e achou-se  porta do salo, Itando as costas ao outro. Varga alcanou-o em duas rnadas, mas Kdr continuou a andar, olhos fitos no p8te vermelho. No largo corredor, Vargas disse-lhe num m qusi de murmrio: --Lamentaria muito que um mal-entendido.. . Iamen- -lo-ia verdadeiramente.
 --No, no tem importancia--respondeu Kdr, sem- descendo a escada e sem voltar sequer a cabea.
 Encostado ao corrimo, Varga ficou um instante a v-lo; pois, tossindo ao de leve, encolheu os ombros, voltou-  e dirigiu-se para o corredor.
  CAPf TULO XII.
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  Durante dois dias Kdr permaneceu em casa. No ti- a motivo algum para sair e no teria sido alias, capaz o fazer. O cu transformava-se de quarto em quarto hora: agora chovia, logo o sol punha-se outra vez a Ihar, e depois voltava a chover.
 Como reaco contra ste remanso, na manha do ter- iro despertou cheio de energia e do desejo de fazer qual- er coisa. A p desde a aurora, envergou as suas roupas elhores. A assobiar, barbeou-se cuidadosamente, tocou a mpainha pelo almo; rnal engulido o ch, com o lti- o bocado de torrada ainda na bca, encontrou-se no meio rua. Percorreu quatro ou cinco artrias, depois subiu a um aut&us que o conduziu  margem do rio. A.
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 156 A AVENTURA EM BUDAPESTE  gua, sob a luz do sol, fremia num tom pardo doirado.; Em baixo, perto dum embarcadoiro, estava amarrado um "gazolins" pintado de branco: um marinheiro fz tinir uma sinta de timbre claro. Num dstico indicador,  en- trada do psto de embarque, lia-se isto: "Cattle Market Station... Deptford.& Desceu rapidamente ao cais; um homem, de sacola na mo, entregou-lhe uma chapazinha de cobre, com a qual subiu para bordo do "gazolina&.
 Cattle Market.. . Desconhecia ainda essa parte de Lon- dres. A passo lento, avanavam animais por cima duma pequena ponte. Comeava a feira de gado. Atravessou a praa, contornou as casas ainda em construo, dirigiu-se ao acaso para uma rua mais largs. Foi ao longo de diver- sos prdios de um ou dois andares, chegou a uma estrada muito ampla, ocupada de um dos lados por uma fileira de edifcios com quatro pavimentos que se estendiam a per- der de vista, ao p&sso que do outro se no via casa algu- ma, mas unicamente uma paliada escura, da altura de dois homens e de comprimento infinito. Devia tratar-se de um vasto terreno para erigir uma fbrica, e o que Ihe fi- cava em frente eram, provvelmente, casas para oper- rios... Com efeito, ao longo do tapume podia ler-se em enormes letras negras:  BERTHAM'S DEPTFORD UN&VERSAL STEEL WORKS  Kdr continuou sempre a andar, rente s casas; com- preendiam estas mesmo ao nvel da rua, inmeras habita- oes. Lojas, poucas; as que existiam eram, por assim di- zer, armazns, como o testemunhavam as palavras pinta- das nas vidra&s fscas: &'offee, Te&, Suga1, Milk, Flo&-, Bean, Breal, Meat. Devia tratar-se de um impor- tante distribudor de gneros alimentcios. "Aqui no h certamente nada para um estrangeiro&, pensou. Da a pouco descobriu, num recanto da rua, uma tabuleta de metal em que se encontrava escrito: D&n&ng-7 oom. Perto da porta, haviaJ&outro letreiro em tom esverdeado, no qual AVENTURA EM BUDAPESTE 1O7  em caracteres que outrora deviam ter sido vermelhos: ra&ar-&endglo-Bor-Sor, Plinka.--o dar com os bos nisto, cortou-se-lhe a respirao. A mo tremeu-lhe nto ou to pouco sbre o fecho da porta, o qual figura- L um bico de pato, que foi incapaz de abri-la; minutos orreram antes que, do interior, algum Iha viesse abrir.
 lou-se ento dentro da locanda e, com o peito arque- tte, mil zumbidos nas fontes, a lngua a balbuciar, pro- mciou no idioma materno: &Bom-dia&. Um rapazinho o e franzino, psto atrs do balco. olhou admirado ra le, aps o que, sem dizer palavra, desapareceu por a port& envidraada; e, um instan&e depois, um ancio barbas, com um avental verde preso  cintura, seguido uma mulher menos idosa do que le, plida, de faces &vadas como as do rapazinho, encontrou-se na sua frente.
 ienhor ! ess8s suas palavras, essa sadao em hnga- ,... seja benvindo a esta casa...  ento hn&,aro...
 &em o mandou c?. . . Veio de Peste?. . . Como sabia senhor da nossa existncia aqui ?. . . Na verdade, o se- or  hngaro?...
 A locanda estava qusi vazia. Unicamente a uma mesa via sentado um homem andrajoso, diante de uma ca- ca de cerveja, a cabea deitada sbre o tampo, entre os punhos cerrados, imvel como se estivesse dormin-.
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 . As outras trs pessoas, vermelhas de comoo, exci- &as pelas suas prprias vozes, apertavam-no com pre- ntas, no Ihe deixando sequer tempo para responder.

 Alguns momentos depois sentaram-se todos num vasto sento do rs-do-cho, com janelas resguardadas por r- s de arame. Essas janelas davam para grandes terrenos gos. Pouco a pouco a torrente das preguntas atenuou- . Conseguiu Kdr exp]icar-lhes que fra por acaso que perdera naquelas paragens e que s depois de ver o eiro em hngaro se decidira a entrar. "Vs tu&, disse &elhote voltando-se para a mulher, "razo tinha eu em "er-te, j o ano passado, que pusssemos o letreiro: no &dia causar-nos prejuzo e devia, sem sombra de dvida, rair os hngaros que fizessem passagem por aqui".
 158 A AVENTURA EM BUDAPEST  Quando preguntaram a Kdr o motivo por que vier quele bairro e o que fazia em Londres, tda a sua rese va se fundiu imediatamente na presena dsses desconh , cidos. Narrou-lhes tudo: a viagem em companhia de l'aulo a sua vida em Viena, a agresso de moca de cauch com que fra gratificado em Peste, e a seguir a recordao do dias mais recentes, o revlver, os passeios sem fim ne motivo, at chegar a Cattle Market. As frases saam-lh da bca em rajadas incoerentes, como lava em erupo Cada uma dessas palavras chorava a sua misria, e quando le findou, os outros olharam-no com estupor e comise rao; durante longos minutos reinou completo silncio n aposento. Foi le mesmo quem o rompeu fazendo-lhes por seu turno, algumas preguntas: &E vocemecs, com e que vieram para aqui?...& O ancio, por sua vez, ps-se a falar com volubilidade na volpia de se entreter, de poder falar de si prprio outro hngaro Fra em 1910 que comeara a aventura Paulo Csords, seu filho, socialista convicto, subtrara-s ao servio militar e refugiara-se em Londres. Aps u ; ano inteiro de trabalho, 81e havia economizado o bastant para msndar vir a famlia Esta, com o produto da vend da locanda que o pai tinha em Peste, abrira 8ste resta rante hngaro mesmo em frente da fbrica onde trabalha vam m&litos compatriotas. Os negcios tinham marcbado medida dos seus desejos. Os operrios, tanto os hngaro como os nacionais do pas, tinham-se habituado a tomar al ; as refeioes; as moedas midas e os xelins foram-se amon toando em cima da caderneta da caixa econmica com seu nome, e todos se sentiam felizes. At &ue veio a Grand Tormenta... Durante a guerra, tiveram de passar por mu tas provaoes. Se bem que a filha houvesse casado co um ingls, as complicaoes no Ihes foraln poupaaas. Esta & no cessaram seno no dia em que seu filho Paulo se alis 1 tara voluntriamente no exrcito britanico. Ele cara mort em Arras. Agora, os dias l iam correndo, o restaurante prosperava e, desde 1914, era aquela a vez primeira qu falavam com um hngaro recmchegado da ptria.
  &VENTURA EM BUDAPESTE 159  urante a conversa, comeou de germinar uma idia na ea de Kdr. Observou o velho: o seu rosto, emol- do de suas, tinha uma expresso simplista e ing- Os cabelos estavam j grisalhos e era alto e corpu- o. Se desse de cara com le no meio da rua no saria ter diante de si um hngaro. O olhar de Kdr Isferiu-se logo a seguir para a mulher: tinha um sem- nte plido e fatigac!o, sob cabelos negros com madeixas ranquiadas. Os olhos dela tinham um tom azu1 d&sla- o. As mos eram mal cuidadas, o modo de andar lento sem aprumo. O rspazinho,--que podia ter a os seus nze anos--era tal qual os outros rapazes inglses da idade. Proferia a custo algumas frases em hngaro...

 pois a famlia... "Devo falar-lhes agora... ou ser Ihor adiar isso para amanha ?. . . No  conveniente trar-me em grande ap8rto. . . Por outro lado, no devo ler ocasio tam favorvel". Nesta altura das suas re- &es a voz do velho interrompeu-as, convidando-o a r com 81es para almoar. De sbito decidido, ps-lhes &o a questo  queima-roupa: "&:scutem, vocemec8s j ,em tudo a meu respeito... Nau poderiam confiar-me trabalho qualquer?. . . No poderia eu ficar convosco encontrar outra coisa, ou at possuir meios para voltar.
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 a a minha terra?. . ." A sua voz era serena e firme.
 fim de contas, o velho Csords no passava de um erneiro e a locanda de Deptford no era o hotel Lang- n.
 No dia seguinte de manha, arranjou as suas malas no tel e, uma hora depois, estava em casa dos Csords.
 vspera o velho no pardera muito tempo a reflectir, vez por causa das re ordaP)es evocadas por aqu81e r&patriota surgido imprevistamente, ou fsse porque o o falecido devia andar pela idade de Kdr na poca sua vinda para Londres, ou ainda mui simplesmente esperana de contratar um criado a baixo salrio. Ante roposta de Kdr ele olhara um instante no vago, con- sra em seguida a mulher, que estava ao balco, e, ao o de poucos minutos de deliberao, declarara-lhe:.
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 l60 A AVFNTIJRA EM B&JDAPE&T  "Bem, pode ficar. Vai ajudar-nos no restaurante e e casa; como  natural, isto  provisrio,--no sabem por quanto tempo poderemos conserv-lo c;--dormi num dos quartos, ter cama, mesa e roupa lavada; orde nado,  que no, mas se nos ajudar a servir os freguese ter a sua parte nas gorgetas. No ser coisa por a aln mas sempre dar, mesmo assim, um pouco de dinheiro& Em vista disto, apresentou-se no dia imediato em ca dos Csords. Contgua  locanda era a grande sala de ja tar, que continha umas trinta mesas; por trs ficavam cozinha e quatro quartos, cujas janelas deitavam para u terreno ainda sem aplicao, dando as portas dles par corredor comum, escuro. Foi no ltimo dsses quartos qu o instalaram; o seu leito ficava a um canto, perto da ja nela. Nesse mesmo quarto existia outra cama, a de Maria a criada que ajudava a senhora Cresse, nora de Csords &EIa est na nossa casa h j quatro anos; mas se n gostarem de ficar os dois no mesmo aposento, no t mais do que dividir o quarto em dois por meio dste r posteiro&.
 A tarde principiou a tomar conhecimento com a nov roda de gente com quem ia conviver.

 Vagueou por todos os recantos da locanda, saiu  ru familiarizou-se com o "patro&, com o rapazinho, com a casas da circunvizinhana; cada a noite, deitou-se na s& cama asseada, com tanto bem-estar como se se tratas de um dos mais luxuosos aposentos do Savoy Hotel como se dispusesse de slido depsito bancrio para faz face a um tipo de existncia elegante. Todavia, logo manha, comeou vida nova: erguer-se s cinco horas, t um avental verde, varrer o cho. . . J dada a meia-noit& cau no leito como uma pedra cai num po,;o, to fatigad que nem reparou na presena de Maria, a qual, na out& cama, respirava tranqilamente, bca aberta, o corpo de& coberto at  cintura, pois, imersa no sono e por causa d temperatura tpida dessa noite d& princpio do outono, nha afastado de si a roupa. No reparou tam-pouco que ela no correra o reposteiro, suspenso a meio do qua  AVENTURA EM BUDAPESTE 161  ndo, pela madrugada, despertou, Maria j estava na zinha. Levantou os estores e olhou para fora, terrenos socupados alm. Chovia, o cu apresentava-se todo cin- nto e apenas ao lunge, cimeiros s altas chamins das bricas, dois claros feixes de luz o trespassavam. "Te-  ho trabalho& pensou. &Graas a Deus tenho trabalho, me- ante o qual posso comer e abrigar-me debaixo de telha ter um armrio onde arrumar as minhas coisas". Inva-  iu-o uma gran&e confiana, abriu a torneira e colocou a bea por baixo dela.--Varrer, esfregar o sobrado, lim- r de p as janelas, transportar pacotes numa carrocinha mo, dar lustro os mveis. . . sair-se bem disso udo.
 pior, porm, era ter de lavar, em gua gordurenta, f- da e morna, a baixela ainda com restos de comida. Sen- repugnancia e o estmago de tal modo se Ihe trans- rnou ao faz-lo que, todo o dia, no conseguiu engulir sse o que fsse. "Hei-de habituar-me", disse consigo prio, cerrando os dentes. "Vale mais isto que rebentar fome no meio da rua&. E veio a habituar-se, de facto.
 miliarizou-se cada vez mais com o velho Csords, com suas alternativas de bom e de mau humor, com a doce.
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 serena Margarida Cresse, que escondia a sua existncia ortiQcada sob um trabalho obstinado de dona de casa; sim como se familiarizou com Jlio, esse rapazote um dinha pateta, com os dois aborrecidos criados do res- urante, com a freguesia proletria e, por fim, corn a bai- la, a gua suja e o avental verde. As moedazitas q&e cebia, a ttulo de gorgeta, perfaziam xelins. Passava as rdes de descanso sentado na locanda, a conversar com n dos seus remelosos freqentadores. At que uma noite, momento em que, terminada a faina, entrava no quarto, Itou Maria na tpida semi-nudez da sua camisa. Era uma glsa corpulenta, nem j muito nova nem precisamente nda velha. Anteriormente, mal Ihe tinha psto a vista em na durante o dia e apenas algumas palavras trocara com . Segundo o seu hbito, acendeu tranqilamente a elec- :idade. Maria no buliu sequer, continuando a dormir.
 flna colcha da cama que ela, com os cotovelos, manti&.
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 16& A AVENTURA EM BUDAPESTE  nha repuxada, denunciava-lhe nitidamente as formas. A camisa, tendo-lhe de&lizado pelo ombro abaixo, patenteava um seio branco e rolio. Recordou-se neste instante de gue, desde a sua chegada aii at  data, nunca Maria fizera correr o reposteiro; e recordou-se tambm de que depDis de Elisa, isto , havia perto de dois meses, no conhecera intimamente mais mulher alguma. O desejo invadiu-lhe todo o seu corpo; mas, imediatamente, tudo se lhe tornou confuso diante dos olhos at formar uma nuvem atriguei- rada, cr da pele de Yomaia... e um horrvel spro gla- cial varreu essa sbita e ardente cobia. Apagou a luz, atingiu, nos bicos dos ps, a sua cama, enterrou a cabea na almofada--e j o rudo das primeiras carroas do leite alterava a calma da madrugada quando conseguiu ador- mecer, com uma respiraa? opressa como a d& e&termr.

 O prfido outono invadiu subtamente a cidade. Como por obra de traio, uma noite, achando-se le  porta, depois de despedidos os ltimos fregueses, pde ainda ver no firmamento as estrlas cintilando c-)m brllho esplndi- do; mas, logo na manha imediata, cau uma chuva tor- rencial. Nos dias seguintes choveu ininterruptamente Sem transio, sobreveio o frio. Pasjados uns dias mais, os fo- goes de coque tiveram de passar a estar con&inuamente acesos nas salas Kdr no queria contar os dias mas dava vagamente conta de que s&manas tinham ido pas- sando, e os Csords mantinham-se sempre to amveis com le como no primeiro dia. Executava conscienciosa- mente a sua tsrefa, e les, em troca, cumpriam a promessa feita. As primeiras noites, aps sse trabalho manual at ento desconhecido para le, remataram num sono pro- fundo e negro Depois, a par e passo que o corpo se Ihe acostumava os mil gestos dessa labuta caseira, maguinal, porca e humilhante, comeou o drama nocturno dos sonos entrecortados e das insnias. Enquanto Maria, a criada, roncava no leito prximo, num sono sadio e profundo, sssaltavam-no vrias preguntas torturantes: &A que es- tado chegaste tu ?. . . em que  que se converteram a& tuas grandes resolu8es ?. . . Para que te serviram a m- AVENTURA EM BUDAPESTE 163  os livros e o descobrimento de tantas coisas no- 9 7. . . De que te serviu sobreviveres  guerra, no te- sido fuzilado pelos romenos, no teres morrido de fome &ndo estavas sem trabalho, no te ter levado a escarla- & ?. . . De que te serviu finalmente, no te veres arras- dO para a morte, contaminado por um ampl&xo funes- 7... Que vantagem houve em teres sido sempre prote- do por qualquer coisa que nunca deixava de indicar-te a a percorrer e que te segurava de cada vez que estavas risco de te despenhares ?..." E, para tdas estas in- ogaoes, vinha a resposta nica, na brutal violncia .na machadada: "Para atingires a situao de criado ma baica de Deptford !. . . & erta noite de inverno, ao despertar dum sonho confuso pesado, notou que Maria estava sentada na cama. Pre- ntou-lhe, a meia voz: aMaria, ento no dormes ?. . .
 No, respondeu ela, e tu ?& O silncio reinou durante itos minutos. O peito dle Qrquejava furiosamente, os s olhos viam andar tudo  roda, numa nuvem incan- cente e movedia. Com avidez, aspirou num hausto Ifundo o odor nocturno dsse quarto escuro, desctu da L cama e, com os joelhos trmulos, dirigiu-se para a ra cama...
 ue mais queres tu, Antnio Kdr, depois do avental.
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 rde, da vassoura, da comida abundante com cerveja gra e banhos quentes os domingos de manha, devidos paternal bondade da famlia Csords... e depois do milde abrao de Maria ? !. . .
  CAPITULO XIII  O tempo foi correndo. Ia em perto de dois anos que se ontrava em casa dos Csords. J no sabia nada mal ingls. As mos tinham-se-lhe tornado speras e aver- hadas. Comeava a ser conhecido no bairro. Adquirira aradas entre os operrios da fbrica, estava com pre- o ao corrente do valor dc cada quipe nos csmpeona- .
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 16& A AVENTURA EM BUDAPE&TE  tos de foot-ball, e a faina domstica de cada dia mais que passava recobria, como vu espsso e cinzento, Paulo, os livros, a Universidade, os seus sonhos de triunfo. Por tr das noites ao lado de Maria desvanecia-se a sadade de Tilly. Tudo sofria reduo e tudo se obscurecia a seus olhos, agora; no queria pensar no passado, nem nle po- deria pensar mesmo que quisesse...
 Uma manha, outro hngaro veio por acaso parar a restaurante. Kdr achava-se precisamente ao p da porta a olhar a rua. Um homem de chapu verde dirigiu-se ao seu encontro. Chegado  entrada, o desconhecido paro e, spontando a tabuleta, di&se em hngaro: "Olha, na sabia da existncia dum res&aurante hngaro em Lon dres !. . & Depois, olhou para K&lr atentamente. Este apertando-lhe a mo, respondeu: & como v; que faz senhor por aqui ?. . . " Entabulada assim a conversao, o desconhecido entrou O velho Csords no estava em casa: encontraram-se pois, sentados  mesa s os trs: Margarida Cresse, K dr e o recm-vindo. Este ltimo--o seu nome era E tvo rth--excitado pela cerveja e pelo uso da lngu materna, falava com volubilidade. Contou que era criad de quarto do sr. Szervinszki, conselheiro da Legao. Ti nha vindo quele bairro  procura dum antigo criado d amo, por causa dumas botas que tinham desaparecido d casa. Falou que se fartou do patro, cavalheiro distinto soberbo mestre de equitao, muito amado pelas formos e lindas in&,lsas... Depois, entrou a falar de si prprio explicando que viera para Londres por recomendao d seu anterior amo, um ingls que residia em Budapeste que, apos uma estada ali de meses apenas, tivera de par tir para a Africa. " uma histria engraada, comento le. O meu amo  das relaoes da famlia dum arquitecto pessoas extremamente ricas, em casa das quais se er controu com uma viva cujo marido fra scio do arqu tecto em referncia. Ora, imaginem vocemecs, essa vi&r  de origem hngara, natural de Kassa. "Ouve, Estvo disse-me o meu amo, repara nessa mulher... ali onde  &VENTURA EM BUDAPESTE 165   uma desembaraadn mulher-homem... que por si ipria administra os seus negcios. Repara bem nela, se-me ainda o meu amo, numa dada manha em que mandou entregar-lhe um ramo de flores. Dirigi-me a ia da senhora, com o ramo, e, visto j saber que era ngara, sadei-a na nossa lngua materna... &Beijo-lhe o, senhora ! I Isto constituiu para ela uma agradvel rpresa. Interrogou-me a respeito da minha vida, quis er se gostava de estar em Londres e, de assunto em ,unto, expliquei-lhe que, no obstante a bondade do meu o para comigo, tinha certos receios quanto  estabili- le do meu lugqr, dado que estes senhores da legao expedidos, ao sabor do acaso, para tdas as partes do ndo. Ela desatou a rir e, percebendo que eu desejava recer-lhe os meus servios, respondeu que no residia Londres, mas sim em Africa, no Cabo, para onde, se me apetecesse, estaria disposta a levar-me. Sentir-se-ia ito feliz tendo um compatriota ao seu servio, entre to- g aqules estrangeiros. &Agradeo-lhe muito, respondi- e eu, mas  demasiado longe para mim.. . Desses pa-  : longnquos, no se volta mais&. E Estvo Tthsseguiu anarrativa faland& ainda do amo, da boa vida Londres e das bonitas londrinas a quem seu amo pu-.
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 a as cabecinhas  razo de juros...

 nquanto o homem falava, do mais ntimo de Kdr rdiu essa qualquer coisa misteriosa, sse gro que, no inho da sua vida, emperrando as ms prestes a esma- lo, impedia sempre, por fim, que viesse a ser aniqui- o.
  mo, senhora ! I Isto constituiu para ela uma agradvel  --Como se chama essa mulher ?--preguntou inciden- ente, pressentindo estar em vsperas de um aconteci- nto decisivo.
 -- a senhora Maier, ou um nome assim parecido, replicou o outro.
  1: a9&im que, na Hungria, 09 homens cumprimentam a& da-.
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 166 A AVENT&RA EM BUDAPESTE  Aps esta resposla, Kdr d&ixou de prestar a mn&ma ateno a Estvo Tth; as restantes palavras que Ihe ouviu ficaram, para le, desprovidas de sentido. Andava- -Ihe a cabea  roda e, dando-se o caso de entrar um fre- gus, correu para o balco; mais tarde, no se sentou  mesa sem, primeiro, ir direitinho ao quarto do velho Csords, onde pegou na lista dos telefones: a, com tre- mor de mos, procurou a rubrica dos arquitectos. A indi- cao que viu logo  cabea da coluna, foi esta: Abley Alexis Hutton, MJ&ers and Soc&t, 42, Piccadi.lr. Myers, era sem dvida a senhora Maier citada por Estvo Tth.
 A rde de arame ps-se-lhe a danar diante dos olhos, pareceu-lhe que o teto ia desabar, que a estnnte encostada  parede se recusava a receber o &olume que l preten- dia colocar, com irresoluta mo. Atravs da porta aberta, ouviu a voz montona do comensal, e no meio dsse ca- tico turbilho do seu crebro repercutiu um nico rudo, um nico raio de lu& cintilou, clamando e iluminando direco: Piccadilly, 42.
  CAPITULO XIV  --O senhor  arquitecto diplomado ?. . .--preguntou a senhora Myers, em solteira Helena Szab, de Kassa.
 --No, ainda no--respondeu le num tom desemba- raado. At agora fiz apenas dois exames... mas creio ter idias aproveitveis...
 Ela encontrava-se sentada a uma secretria comprida e larga, ao passo que Kdr tomara lugar, em sua frente, numa poltrona baixa. O aposentozinho tinha por nico mobilirio duas poltronas mais e um armrio envidraado, de pequena al&ura, que encostava  parede do fundo.
 Como  que ali aparecera Kdr ?. . . No dia seguinto ao da visita de Estvo Tlh havia pedido ao velho para Ihe conceder dispensa da parte da manha. Correra para o banho, envergara o seu belo fato cinzento e, s onze horas, achava-se perante uma casa de tr8s andares, de soberb&  AVENTURA EM BUDAPES&E 167  arncia, em Piccadilly. A seguir a uma noite de insnia, vapores demasiadamente fortes do banho matinal esti- ularam-lhe o corpo. Por cima da porta via-se uma placa mrmore negro, diferindo de um bilhete postal apenas ser um tanto maior, onde se lia: "Abler, Alexis, ttton, Mrers an1 Scott, A&-c&litects. Fizera soar a cam- inha da porta branca e bPixa do primeiro andar, em que insculas letras negras anunciavam: Office-Bur&au.
 m rapazinho de libr acorrera a abrir.
 --Eu desejava f&lar  senhora Myers.
 --Para efeito de servio, ou para assunto particular ?. . .
 --Para assunto particular.
 --Nesse caso, tenha a bondade de procur-la no hotel erkeley.

 Sentira o sangue gelar-se-lhe quando, pelas cinco hora& meia, fra preguntar ao porteiro do hotel Berkeley: Mrs. M&ers est, faz-me o favor&--"Est nos seus osentos&, respondera o porteiro, indicando-lhe o nmero quarto dela. Passado um instante encontrou-se, numa pcie de ante-camara, perante uma mulher com aspecto : governanta. "O senhor procura Mrs. Myers? Da parte quem, tenha a bondade ?&--"Antnio Kdr. . . Faa favor de dizer-lhe que sou hngaro e que Ihe peo uma rta entrevista&.
 Dois minutos decorridos, descerrara-se a porta envidra- da do aposento.
 --1& hngaro e deseja falar comigo ?. . .--dirigira-lhe ,ta interrogao uma mulher vestida de luto, ainda bas- nte nova.
 A alta e robusta estatura de Kdr, o seu fato de bom rte e os sapatos elegantes, os seus cabelos muito louros, seu semblante claro e o olhar franco, no denunciavam mendigo. De facto, Kdr nada tinha de mendigo nessa asio.
 Pela tenso sbita dos seus nervos, pelo arroubo da a imaginao, pela sua decidids resoluo a tudo, era o a dum sonho magn&lco, o general duma batalha deci- , e, se tanto fsse necessri&J, seria o autor dum crime.
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 168 A AVENTURA EM BUDAPESTE  abjecto. Apresentara-se a si mesmo, num tom de voz suave e despreendido; com gesto firme, levara os lbios a mo da mulher para a beijar; em seguida, com ar de- senvolto, rogara-lhe que Ihe concedesse uma breve con- versao. Admirado, qusi estupefacto, observava a sua prpria voz, os seus prprios gestos. "Estou a desempe- nhar &em a comdia, ou estarei talvez a ser rdiculo sem me dar conta disso 7" interrogou-se com angstia. A lin- guagem empregada era castigada, a sua prenncia saa muito pura, as palavras de que se servia eram simples e, simultaneamente, escolhidas. Nada omitira, nada esquecera; e, quanto a ela, achara-se logo desde os primeiros instan- tes sob o encantamento da lngua materna. Haviam atra- vessado dois compartimentos sumptuosamente mobilados, aps o que, acomodando-se no gabinete de trabalho, ela o convidara a sentar-se defronte. Disfaradamente, Kdr tinha-se aplicado a observ-la bem. Ela dava-lhe s pelos ombros, mas era de aparncia fresca e jovem. As feioes enrgicas do rosto fundiam se nos doces tons da tez ligei- ramente crioula. Os cabelos, curtos e negros como aze- viche, obedeciam a um penteado que os puxava para a fronte. Os olhos eram da cr dos cabelos. No momento em que ela acendeu um cigarro, reparou-lhe nas mos: mos delicadas de dedos longos, cujas unhas eram de esmalte cr de rosa. &Sou mais alto do que ela, sou louro, tenho os olhos azues, e  na verdade uma linda mu- lher...& Esta silenciosa observao e esta comparao involuntria foram interrompidas por Mrs. Myers, que Ihe ofereceu a caixa de cigarros: --Com que ento,  hngaro 7. . .

 --Sim, minha senhora. . . isto , se assim quiserem, um pouco cosmopolita. De origem transilvanica, descen- dendo de uma famlia saxnica, flz os meus estudos fora de Budapeste, em Viena e na Alemanha, e depois tambm na Sua e em Frana, onde vivi uns meses. Os anos de estudo no so bons seno quando variados. Infelizmente, no est a Europa central, nem mesmo todo o continente europeu,--disse isto expelindo para o ar uma espssa AVENTURA EM BUDAPESTE 169  vem de fumo e franzindo as sobrancelhas,  em con- ies de satisfazer a ambio e a imaginao dum rapaz lerno. A liquidao da guerra .. (com que voz estra- a pronunciou le estas palavras? !...), o continente falncia e j mesmo falido.. . (aquela voz era a de uerstein !...), a runa moral e material da Europa...
 verdade, se um jovem deseja conquistar o seu lugar sol no tem outra soluo que no seja a de emigrar ra a Amrica, ou ento... --chegado a ste ponto, &mo por acaso, ergueu os olhos para ela--numa colnia ma grande potncia.
 --Quais so, nesse caso, os seus projectos ?. . .
 --No os formei ainda; nesta ocasio conservo-me em &ndres e colocar-me-ei, talvez ainda sem ordenado, na nprsa de algum arquitecto de nome.
 -- arquitecto diplomado ? --No, ainda no. At agora fiz apenas dois exames, as creio ter idias aproveitveis...
 O rosto da senhora .&lyers carregou-se de sombras por instante, mas o tempo suficiente para que le o perce- sse. Kdr estava j  espera de que ela Ihe dirigisse a &gunta: &Como  que o senhor obteve a minha direc-.
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 & ? . . . & --Na Legao.--Escapou-lhe esta resposta e logo, edindo a imprudncia, um calafrio o percorreu todo, &isto . . por intermdio d& um dos meus amigos, que tem pes- as conhecidas na Legao. . . e como a senhora  hn- ra. . . & --Ah ! - exclamou Mrs Myers, levantando-se e indo  de fumo acender um novo cigarro; depois, num mo- lto brusco, parou diante dle e disse-lhe olhando-o amente nos olhos: --Oia-me. Eu no sei quem o senhor , mas peo-lhe a resposta franca a respeito de dois assuntos. Eu quero !ir play, ' entende?. .. Sabia, antes de vir aqui, que,  E2cpresso, p&icol&2icamente, muito in,glsa, de que apro&i &m a!& nossas: &jogo franco", CJOgO leal&, etc,.
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 170 A AVI&NTURA EM BUDAPESTE  pelo lado do meu falecido marido, eu estava associada uma grande empresa construtora?...
 --Perfeitamente--respondeu le--sentindo o peito es- talar de emoo intensa... e se o no soubesse j, sab- -lo-ia pela placa da vossa firma...
 --Bem--prosseguiu ela--e veio c para que eu lhe consiga empr&o na nossa emprsa?...
 Kdr sen&iu a tentao de prosternar-se-lhe os ps, diante dos seus sapatinllos pretos, de Ihe contar a vida de sofrimentos que levara, em palavras para ela inditas ainda e s quais no deixaria de prestar ouvido complacente, de Ihe dizer tudo, os destinos, as vidas e os homens com quem se cruzara no mundo. Sentiu a tentao de Ihe di- rigir uma splica, no tom dum homem que nasceu com alma de mendigo, ou ento com a franqueza dalgum que merece melhor sorte, e de se no erguer antes de Ihe ser assegurada uma situao em que ganhasse quatro libras por semana. . . Mas no!. . . no podia flcar a meio ca minho; no existiam para ele seno duas possibilidades: ou tudo... ou a esmola de uma libra do Varga. Ento, com os nervos em tenso mxima, por trs de uma fronte sem rugas e de uns olhos que sorriam, ao mesmo tempo amaveis e orgulhosos, declarou: --Um emprgo num escritrio de Londres ! A senhora  muito amvel: mas, desculpe-me, no  isso que pre- tendo.

 Enquanto falava assim, estendia a mo para a caixa de cigarros, mesmo dispensando convite. Aps, suspendeu-a um pouco e, por fim, pousou-a docemente, sem tremor, na borda da mesa. E os olhos dle procuraram, num olhar lmpido, os da mulher: --Mas. . . se quiser levar-me consigo para a Africa, irei.
 Decorrido algum tempo achou-se a deambular em Pic cadilly. Tudo era exultao dentro dle; tinha a impresso de ter ganho a primeira partida. Mrs. Myers no o escor- raara ! No. . .
 No momento em que declarara: "Em compensao,  AVENTURA EM BUDAPESTE 171  iser levar-me para a Africa, irei&, o olhar da mulher pa- ra um instante, estupefacto, no rosto dle para se des- n r imediatamente, e depois ela mudara de conversa. Di- i ira-lhe preguntas relativas  Hungria, donde partira onze os antes, na idade de 17 anos, com o falecido Mr. Myers, nde os seus conscios tinham a sede da emprsa Em 13, contudo, estavam j em Sidney; Mr. Myers dirigira, ctivamente, os negcios coloniais da firma e, desde I &7, ela vivera com o rr.arido em Prto-lsabel, at o hor- el desastre sucedido no ano anterior. Nesta altura da rrativa, os olhos da mulller tinham-se enchido de tris- za--Mr. &lyers tomara o avio para Dublin e, ao che- r s proximidades de Londres, por cima de Watford, o io sofrera um desarranjo no motor, incendiara-se e des- nhara-se de uma altura de 700 metros... Em seguida aram de outras coisas, do prprio Kdr, dos pais, fa- cantes de papel antes da guerra, dos seus amigos de ndres em casa de quem se instalara e que eram proprie- rios de muitos prdios nos arrabaldes da cidade, do seu igo, o jovem milionrio vienense, com quem viera em gem de estudo pelo espao de alguns meses e que fora tima de um estpido acidente de transito.. . No lera isso nos jornais ?. . . De novo a conversao tomou o.
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 mo de Prto-Isabel. Ela dera, h pouco, por terminadas conferncias com os scios: ia zelar os seus intersses firma, por si prpria se ocuparia dos negcios colo- is. De resto, nesses quatro anos ltimos, tinha tido en- o de iniciar-se nos negcios. . . Era boa gente, A de l.
 fim de contas, ningm podia defender melhor seus tersses do que o prprio interessado e no local onde s existiam. E depois, sobretudo, quando uma pessoa j veu no Cabo, qusi que no pode ter satisfao em vi- r noutro lugar qualquer. Voltar  Hungria ? . . . Sim, tal- z um dia, na qualidade de turista, dissera ela rindo; as, verdade verdade, no sentia a nostalgia da terra na- , se bem que, s vezes, experimentasse o desejo de fa- a lngua materna. Assim, recentemente, um criado de &rto hngaro, oferecera-lhe os seus servios... (Kdr.
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 l 72 A AVENTURA EM BUDA&  dominara-se, ao escutar tal, para no se por ver s le ouvira as violentas pancadas do seu corao fim, despe&ira-se dela com licena de lhe telefonar, de poucos dias, e retirara-se.
 Ps-se a passear pela rua. A primeira partida ganha. Mrs. Myers devia&estar sem dvida, naquelo mo instante, a preguntar de si para si o que quere' dela. As palavras pronunciadas voltaram-lhe  mem.
 ao evocar a imagem da mulher, teve a certeza infali& que ia ter incio em Piccadilly a sua ascendente ca para o triunfo, para a riqueza, para o Dinheiro !. . .

 De passagem, mirou-se no vidro que revestia a ria duma loja. Deixava de ser preciso pr de parte fato... nunca mais teria de pr o avental verde cu, todo le, era uma redoma cinzenta, da qual, de do em quando, a chuva caa. Tinha de viajar em a& e de taxi. De quantas ou&ras coisas mais iria ter n& dade, nesses dias prximos7... Liberdade e, sobr dinheir. . . Como consegui-lo. . . A quem o pedir ? -lo de quem?. . . Os velhos Csords no Iho dariam, tamente... Talvez Margarida? Ela no o tinha p& prpria e, alis, a que ttulo Iho daria, se o tives& Jlio ?. . . tirado dos seus dois xelins por semans, pa.
 tos midos? No possua j seno uma libra e algw lins... E, todavia, tudo dependia disso.
 Na extremidade da Feira de gado ficava o "B& public House&, no trio do qual havia trs apareL jgo automticos, com paradas que eram, respecti& te, de um penny, de meio xelim e de um xelim. " l capaz de arriscar dinheiro, por menos que fsse, jgo de azar ? !& Rpidamente, decidido a isso sem a saber como, encontrou-se diante do aparelho autol de xelim a parads a dizer de si para si: "Nasci em soma estes algarismos 26:2 e 6 fazem 8. Colocou n- tura correspondente ao nmero & um xelim e pw argola... Os cavalos andaram a roda e o cavalo d rosa, corn o nmero 8, parou em cima da linha v&~ indicadora da baliza. A mquina soou e duas mo&  NTURA EM BUDAPESTE i73  , &iram na bandeja. Pegou no que acabava de ga- tornou a met-lo na mesma frincha e a puxar a Novamente os cavalos rodaram, at que o caval-) sa se deteve sbre a linha vermelha: o autom- alegre sinal. . . "O ano do meu nascimento,  um udo !> comentou consigo mesmo. O cavalo cr de -lhe, pela terceira vez, o ganho de um xelim...
 -t&ensou no ano de 190&, o da sua entrada no liceu te. Resultado da adio dos algarismos: 9. Agora, verde, que era o nono, parou em cima da linha Kdr encheu-se de um riso ntimo. Olhou o -ae pndura do lrio; eram duas horas e meia. Al- &rou por trs dle e ficou a observar o jgo. Vol- r um xelim na fresta sobranceira ao 9. Desta vez cavalo roxo que parou na linha vermelha, e um iitlico e a modos de malicioso retiniu, assinalando Js. Teve um estremecimento, mas recuperou a 'e imediatamente. Aquilo no era nada. Introdu- xelim na frincha do nmero 9. Sau vencedor, a, o cavalo negro: o aparelho fez ouvir nova- _ua voz de matraca. No obstante, o outro xelim no nmero 9 ! O cavalo negro venceu outra vez.
 ura, j quatro ou cinco pessoas se encontravam.
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 &e, e j os outros dois aparelhos haviam conse- nbm amadores da diverso. Depois, acrescendo lade de basbaques, umas dez a vinte pessoas pu- a assistir ao jgo. Os aparelhos vizinhos pe& anhavam sucessivamente; o dle no fazia seno uma multido compacta se amassara nas suas Iquanto, com passo vacilante, le se dirigia ao ra trocar a sua nota de libra. C-)m uma nova de xelins, voltou para o aparelho. Pelas cinco ho- a perdido o ltimo xelim: recuou um passo e &ntade de esmurrar o vidro redondo, 8 modos es- do aparelho, sob o qual os cavalos andavam  Por fim ps-se a rir. Imediatamente os circuns- . ,onUram o seu riso como incentivo a um cro...
 ~-~ todo o recinto retumbou uma enorme garga-.
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 174 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Ihada. & um bonacheiro, comentou algum junto dle eu, no seu lugar, teria atirado um pontap a ste apare- lho indecente!..." J estava no meio da rua e ainda continuava a rir.
 &Perdi tuo o que tinha... Eu estava j a adivinh-lo...
 E que v ai agora suceder ?. . . Vinte e nove xalins ou nada, no vem a dar na mesma?... No tm sombra de im- portancia, vinte e nove x&lins !. . .& Enxugou ao casaco RS palmas das mos, que sentia midss alisou os cabelos elr& frente do espelho duma balana automtica e dirigiu-s& para casa.
 Csords encontrava-se sentado  mesa, no seu quarto dispondo-se a fazer contas, quando Kdr entrou. Logo n limiar da porta, ste comeou a sua histria, dizendo qu tinham chegado a Londres uns seus amigos vienenses, gue, a-pesar-de desprovido de dir&heiro, se via na obriga o de solicitar do velhote umas fria& de uns dias, fim de os pilotar na cidade. Csords olhou para le com a de aborrecido. "&:st bem, se assim queres--respondeu --ainda que eu no goste de ver um rapaz da tua idade ocioso. Concedo-te uma semana... Mas por completo contrrio os meus princpios sustentar-te de graa; pode sair de c durante sse tempo, se quiseres, ou, no caso de permaneceres, pagars pelo alojamento e comida...
 por exemplo, um xelim e meio por dia. No  caro, no  verdade ? . . . & O riso que se apoderara dle, horasantes, ao abandonar o aparelho automtico, comeou a f&zer-lhe ccegas na garganta. . . Mas foi apenas um instante. Ins- tante que, todavia, bastou para o impedir de pronunciar a9 acres p&lavras que estiveram prestes a escapar-lhe dos l- bios &Urn xelim e meio por dia?. . . na verdade, no  caro. . . Agradeo-lhe, mas ignoro ainda se ficarei com 09 meus amigos, ou se...& Evidentemente que, depois disto, era impossvel pedi qualquer coisa en&prestada a Csords, nsm tampouco I Margarida, que iria sem demora cont-lo ao velho&.. 13:, no obstante, custasse o que custasse, tinha de arranjal AVENTURA EM BUDAPESTE 175  heiro, ainda que fsse preciso assaltar a casa de algum, endiar ou assassinar ! . . .
 o cair da note, invadiram-no a inquietao e a impa- ncia& "Onde e como obter dinheiro?& Ai pelas dez ras, sentiu-se vergar ao pso duma fadiga mortal,  frca dar voltas ao miolo sem resultado& &?oi para o quarto, spojou-se do vesturio, deitou-se Ps-se a <Ihar o teto m fixidez& Possusse le vinte libras e poderia ter outra 8 bem diferente& Com aquela mulher, iria para o fim mundo!& . . "Mrs Myers, disse no prprio intimo. . .
 no posso viver sem a senhora& & . Que coisa to idio- ... arranquemos esta mscara estpida, eu no posso r aqui mais tempo ! Leve-me como criado de quarto, assim quiser.&. mas porque  que ela o faria?... Por dade. . . sim, por piedade. . . &'orque  hngara ?. . .
 , porque  hngara, porque  rica e porque  mulher, eu Ihe posso ser til de qualque} maneira. . . E, prin- almente, porque j no posso... porque j no tenho mo para mai&. .. Meu Deus, j no posso mais, livrai- e desta existncia se no quereis que eu rebente, ou en- dai-me a cor&gem de su idar-me, ou de qualquer ou- coisa"neu Deus !. . . Meu Deus!. .." E estendia os os para o teto aguardando, arquejante e com os os fora das rbitas, que viesse a reden&o... ou o.
.

  m pouco depois das onze horas, abriu-se docemente orta. Malia entrou. Coisa curiosa... at  data, le &ais se deitara antes dela& Maria no acendeu a electri- de e preguntou-lhe em voz baixa: "Tony, ests a dor- Ele no respondeu e fingiu estar imerso num o tranqilo& Percebeu que Maria tacteava na escurido.
 abriu a torneira, deixou correr a gua, num delgado e durante muitos minutos fez-se ouvir um surdo cha- har. Quando flndou o seu arranjo nocturno, soltou um de suspiro. Kdr, com os olhos semi-abertos na :uridade, conseguiu descortinar uma alta e clara silhue- . Maria, da nua, enxugava-se. Ele ouviu-a arremes- seguida, a toalha molhada para cima do lavatrio,.
.
 176 & AVENTURA EM BUDAPEST  e deu pelo roagar da camisa dela. Por fim, a cama meu sob o pso do corpo da mulher.
 --Maria--chamou, baixinho.
 --Es tu, Tony, ento no dormes ?. . .
 --No, Maria, escuta...
 Sau da sua cama, foi sentar-se em cima da de Marl Estava sem dvida predestinado a desafogar o coraa junto das mulheres, a entregar-se-lhes, a tom-las co maes e como companheiras, para encontrar ao p del esperana e conslo nas situaoes intrincadas. Tal co torrente despenhada, as suas palavras trasbordaram n trevas . .
 "M&u u&v&u & lvl.,. .&llu&a U&7&IJ& lVlZ& U& &IIU&; estudar, que no nasci para criado de taberna, que a m nha cabea est cheia de idias... que quero constru casas, palcios. . . compreendes ?. . . e que devia continu os meus estudos... Conheces o acidente que me fez - to baixo... Poderia sair da misria... desta misria mas no tenho dinheiro. . . No pOSaUO um penny seque e no sei como consegui-lo. . . Deverei matar algum ?..
 Se desprezo esta ocasio nica...& As suas palavras, caldeadas de lgrimas, formavam um balbuciao incoerente e febril. &iem reparou em que cabea Ihe descara para o colo da mulher e em que inu dando de pranto a camisa de Maria, pronunciava estas fi ses pueris e sem nexo: "No posso mais, Maria...
 preciso acabar com isto... No posso continuar a & criado. . . Quero construir casas, palcios. .. e se despe dio agora a ocasio..." Tomando-a entre as suas fortes mos, e1a afastou l de repente a cabea, f-lo sentar-se de novo no leito num movimento brusco, endireitou o prprio corpo.
 Fz-se sil3ncio. "E se possusses agora dinheiro, pregu tou ela, ests certo de que... 7& Novo silncio. o ro de Maria aproximou-se do de Kdr e, em seguida, apreendeu o som duma&voz lenta que murmurava: " cuta, Tony, eu tenho dinheiro... tenho quarenta e & libras, de economias que fiz durante trs anos. . . para AVENTURA EM BUDAPESTE 177  da velhice... mas tenho ainda tempo de pensar nisso ..
 y, dou-to, sse dinheiro. Sei que mo no restitulrs. .
 lbm Jack, tambm le nunca mo restituiu... h-de er uns trs anos, dei-lhe trinta e duas libras... Tu 3 tuir-mo s tanto como le.
 quarto desatou a girar  volta de Kdr, e de tal ma- a que dificilmente conseguiu manter a cabea direita.

 , mbm no lho restituiu. . . e eu n&o Iho restituirei. . & ou-se  rapariga, para deixar o seu desespro, o seu dono e a sua fraqueza explodirem... Lembrava-se ue, muitas vezes a fio, Ihe lanara, purilmente, de- adamente, em cara o epteto de "criada... criada.. ", dio que le no podia j suportar porque nascera se- e queria voltar a s-lo... e era agora essa mesma riga, essa criada, quem vinha oferecer-lhe dinheiro !.. .
 ois dos bons petiscos de que ela, s escondidas, o en-  : sempre, depois dos seus gratos amplexos, dava-lhe m dinheiro ! &Jack no mo restituiu, tu resdtuir-mo- nto como le. . . & Que se podia responder quilo ?.. .
 e instante sentiu nos ombros as mos de Maria, mos o estreitavam. &No importa, Tony, cochichou ela, t&ei sse dinheiro. . . compreendi sempre que no eras o ns, por exemplc, como eu, como o velho ou como.
.
 &nhora... Tu havias de abalar msis tarde ou mais . . . e se eu no te desse sse dinheiro, poderia acon- te alguma desgraa. Dar-le-ei pois as quarenta e cinco , e se um dia voltares rico a valer. . . & Puxou para bea de Kdr. "Sabes, Tony, esta manha, quando te uma licena e partiste envergando o teu belo fato to, logo suspeitei de alguma coisa...& Os braos de estabeleceram-lhe um n apertado em volta do pes- e le mais sentiu sabre a face estas palavras, do que viu prpriamente: &Tony, tem cuidado com sse di- ... nso psssas ainda de uma criana. . . nem sabes to custa pr de lado sses xelins e essas moedazitas ...
 madrugada, foi Maria quem despertou primeiro e o ou a le. Amortecendo os passos, saltaram ambos da 12.
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 178 A AVENTUR.& I&M BUDAPESTE  cama. A& apalpadelas, Maria dirigiu-se ao armrio, e a rebuscou na parte de bai&o. Ele ouviu a lingeta dum fechadura correr. . . A seguir, sentados na borda da caMa contaram juntos as notas de libra... Uma, duas, dez trinta, quarenta e cinco... Essas quarenta e cinco nota foram rechear a carteira dle. Eram apenas quatro horas mas Kdr no sentia vontade nenhuma de voltar a dei tar-se Vesiu-se e sentou-se ao p da j&anea, os olho fixando o terreno contguo e desocupado. As cinco hora tambm Maria se vestiu. Durante um espao insuportve& mente longo permaneceram  mesa, mudos, face a fa De quando em quando, os lbios de Maria mexiam se remexiam-se como se fssem dizer qualq&ler coisa, m ela guardou silencio. Olharam um para o outro... Po fim Maria foi  sua lida; le ficou s at clarear o di Ento, sau para ir tomar banho. Estava ainda escuro fazia frio e caa uma chuva midinha; mas ale nada se tia, nem o frio nem a chuva. Foi qusi a correr at o e tabeecimento de banhos, onde no havia ainda seno r duzido nmero de clientes. Mergulhou at o pescoo n gua quente, limpa e azul. "Tenho quarenta e cinco libras.
 restitu-las-ei.. . restiturei cem libras ! Hospedar-me-ei,hc mesmo, nas proximidades do hotel Berl&eley. . . e amanh logo de manha, telefonar-lhe ei... Quarenta e cinco bras ! . . . No seria mais acertado pegar nas minhas mal e dirigir-me sem perda de tempo para a estao de "Vi tria&, donde parte s onze horas o combio para o Co .
 tinente ! ... Seria loucura... Vou telefonar-lhe j hoje..

 ao regressar, passada uma hora, declarou ao velh que ia comear a licena nesse mesmo dia e que dura uma semana se instalaria noutra parte. Em seguida pr-se a vaguear no bairro de Piccadilly. Os prdios e gantes dste bairro compreendiam apenas moradas b guesas; em parte alguma enxergou tabuletas indicaD uma s penso que fsse. Subiu a Regent-Street. O si pare&eu-lhe familiar. Em frente, numa praa, descob um hotel: o hotel Langham. Por um instante, experim tou vontade de arrepiar caminho e desatar a fugir; n AVENTURA EM BUDAPESTE 179 ntentou-se em fitar l&rgos minutos o hotel, enquanto a ca se Ihe enchia de saliva amarga. "Se eu entrasse para gar o quarto n. 208...&, pPnsou e, fazendo uma ca- , apressou o passo. Prximo do meio-dia, quando es-  , a a cinco minutos apenas do hotel Berkeley, deu comolhosnuma placa negra, de vidro, na qual brilhava em ras de ouro: &Penso Viena&. Subiu a escada a quatro uatro, at o terceiro andar.
 ez minutos depois havia pago a uma vienense baiYa chonchuda as cinco libras do custo da penso por uma ana. Mal tinha lanado um olhar para o bonito quar- ho que ia pertencer-lhe. A seguir correu a casa dos ords a buscar as suas maletas. Tinha a penso duma ana paga adiantadamente e ainda Ihe restavam qua- ta libras na algibeira. A volta, viu um autobus abrindo cilmente caminho na rua atravancada. No letreiro da eco lia-se "Victria Station&, a estao ferro-viria nde partia o combio para a sua ptria. "Doido seria se me metesse nle !&. ..
  a "Penso Viena&, em que se hospedavam uns quinze triacos e alemaes, o horrio das refeicoes adaptava-se hbitos da Europa Central. As oito horas da manha pequeno almo; a uma hora e meia, o almo; e s e meia da noite, o jantar. Se qualquer cliente o dese-.
.
 a, se a sua profisso a tal o forava, podia tambm er ao modo ingls, mas a senhora Knopfer, a proprie- , no gostava muito disso, considerando ser, sse, um de vida desordenada. Na noite primeira, Kdr dei- -se logo em seguida ao jantar. As roupas eram impe- eis, o leito, de metal, tinha um colcho muito ffo, & blia era bonita e hsvia gua corrente no quarto. O caso ecava bem; no poderia, na verdade, enconlrar domi- melhor situado. Com os Csords arranjara-se tudo da lOr maneira possvel. O velho no Ihe opusera a m- .
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 180 A AVENTURA EM BUDAPESTE  nima dificuldade, contentando-se em observar-lhe: "Tr- -los, se puderes, at c&... Margarida desejara-lhe que se divertisse bastante, Jlio abraara-o afectuosamente, e Maria, na cozinha, voltara a cara para o lado quando le Ihe estendeu a mo, limitando-se a dizer-lhe: &Adeus&.

 E agora ali estava estendido na cama, mas j em Deptford ou na Redburn Street, mas na "Penso &vTiena&, no n.? da Dover Street. Deixara j de pensar em tudo isso, pen- sa-&a agora s em Mrs. Myers, em Helena Szab, de Kas- sa, viva do arqui-milionrio Myers, proprietrio dum emprsa da &frica do Sul... "Ela tinha dezassete anos quando sse ingls casou com ela... Como conseguira ela deitar-lhe o anzol ?. . . E onde se teriam encontrado pela primeira vez ?. . . Em Kassa ?. . . e de que maneira quem eram os pais dela ?. . . e depois, que Ihe sucedeu at atingir a maioridade ?. . . Preciso de saber tudo a se respeito 1... Sim, mas como ?. . . Por intermdio de quem ?..
 Essa mulher tem agora vinte e oito anos, isto , msi quatro do que eu. .. E que se segue da ?.. . Isso -m completamente indiferente. . . No pretendo despos-la. .
 N&o quero que. . . O qu ?. . . Antes de mais nada, mete o p na casa de Prto-lsabel. . . Depois, se l houYer um Universidade, terminar os meus estudos... Mais tarde, construir grandes edificios... A quem ests tu contando to bonitas histrias ? ! . . . " & vergonha assenhoreou-se dle, apagou bruscamente a luz e fechou os olhos. "Adeus, Maria... Construire- mos... Adeus, Paulo, e tu Tilly, e tu Elisa...-  Essa noite decorreu tda num sono profundo e repsra- dor. Devido ao hbito, despertou s quatro e meia da ma- drugada; mas, dando conta da mudana havida, voltou a adormecer, graas ao silencioso ambiente. Passava da nove horas e meia quando sau do quarto. J terminara o poqueno almo e os hspedes haviam abalado para as suas ocupaoes.
 O seu pequeno almo foi-lhe servido nurna mesinha.
 A senhora Knapfer, fazendo boquinhas, sadou-o com um& afvel sorriso.--Como dormiu esta primeira noite que pas-   .AVENTURA EM BUDAPESTE 181  c?--preguntou-lhe ela--bem, espero que... eu es- va com as minhas dvidas, porque a discusso que se le- mtou, eram ainda oito horas, podia te-lo acordado.--K- ir, prazenteira e polidamente, preguntou o que tinha acon- cido.
 --Foi a propsito dos anarquistas de Viena--respon- ela--Dois dos meus hspedes discutiam a respeito da tena--Dizendo isto, trouxe-lhe um jornal vienense A Kdr imediatamente, na primeira pgina, em letras lormes: A sentn&ca do julgame72to dos anarqutstas 'odos os rus deste processo nzonsho foram condena em selJeras penas de priso Seguia-se o texto do comunicado. "o termo de deba- extremamente movimentados e que duraram dezanove o jri formulou finalmente, ontem s duas horas da , a sentena relativa ao processo dos anarquistas. A ois Haek, o ru que lanou a bomba, coube a penali- e de treze anos de degrdo; Norberto Ring, Peter Se- moff e Gerda Buhr, os trs cabecilhas do grupo anar- ta, foram condenados, cada um dles, a oito anos de o; Coloman Fher, o fabricante do engenho explosi-.
.
 a cinco anos, e os outros acusados a cinco anos, cada , de degrdo. Sbre os ltimos debates e sbre os con- randos da sentena, ver pormenores na nossa edio manha&.
 O olhar de Kdr percorreu estas linhas e depois flcou tivo de um nome, o de Gerda Buhr. Gerda Buhr ? u ento, febrilmente, todo o resumo do processo: "Alos Haek  um indivduo baixo e gordo, robusto, aspecto despretensioso, cabelos negros arrepiados e olhar sonso. Exprime-se em linguagem atabalhosda e d por zes respostas incoerentes s preguntas do presidente do unal.
 0 P7esidenle.--Conte-nos, Haek, a maneira como trou para essa sociedade de ar.arquistas... Fale com i a a franqueza. Vamos l !
 Ha,cek.--Eu, senhor juiz, era empregado da estao stal n.? 106 e fazia servio no guichet do registo de.
.

 182 A AVENTURA EM BUDAPESTE  cartas e encomendas. Uma tarde, a menina levou-me uma &arta para registar.
 0 Presidente.--A menina qu?.. .
 Haek.--Ah, sim ! a menina Buhr.
 O Presidente.--Bem, continue . . .
 Hacek.--Ou ento, dizendo melhor. . . ela chegou precisamente s 7 horas em ponto. Eu no queria rece- ber a carta, mas comeou a pedir-me que Iha aceitasse, e ento entabulei conversa com ela e disse-lhe, por fim: "Pois bem,  pelos seus bonitos olhos, minha menina, que acedo a receb-la ainda..." Deqois, disse-me:... (o ru calou-se).
 0 Puesidente.--S&ue Ihe disse ela?. . . continue. . .
 &acek.--Disse-me que iria l mais vezes.
 Get da Buhr.--Mente !
 0 Presidente (depois de impor silencio  r 7Jolta-se de notJo para Hacek).--E, na verdade tornou l?. ..
 Hafek.--.Sim, logo no dia imediato. . . Levou-me seis cartas, eram sete horas, exactamente. Recebi-lhas, aps o que parolmos um bocado.
 0 Presi&ente.--E o ru acompanhou-a at casa ?. .
 Hacek.--Sim, senhor Presidente, porque ela espero que eu acabasse o meu servio.
 O Presidente.--Em que falaram pelo caminho ? Hafek (conse&vando-se en. silencio como se fosse idio ta parece r eflectir aps o gue balbuciou). Eu... eu...
 convidei-a a ir ao cinema...
 O PresideJtte,--Ela aceitou o convite7...
 Haek.--No . . . Respondeu-me &outra vez ser&i; agor estou com muita pressa&.
 Hacek.--E quando  que se tornou ancontrar co ela ? Hafek.--Perdo senhor, Juiz. . . No dia seguinte tsrde, ela voltou ao ccrreio; aguardou que eu findasse meu servio e acompanhei-a novamente a casa; e isto s& cedeu cinco ou seis dias a fio Com a continuao, pass& a ir mesmo sem levar cartas nenhumas.
 0 Presidente.--E isso no Ihe pareceu suspeito ? Ni  AVENTURA EM BUDAPESTE 183  lensou que as numerosas visitas que fazia a menina Buhr podiam ter um motivo especial? No pensou que ela que- ia alguma coisa de si ?. . .
 Ha&ek.--Sim, senhor Juiz; simplesmente, pensei que ela queria outra coisa. (Risos na sala imediatamente t&focados), visto a menina Buhr me dizer que gostava e mim...
 C&erda Buhr.--Mente...
 0 I'residente (ameaa a r de casti&-la, se ela con- tim(2r,  prossegue 7Joltand&se para Hafek).--Bem Haek, agora vai contar-nos como  que essa amizade de degenerar em...
 Hafek.--Em qu? O Prestdente.--No me interrompa.. . em cumplici& ade com os anarquistas?...
 Haek.--Senhor Juiz. .. isso sucedeu porque esta mulher. . . isto  (apoderou-se dele uma grande e&cita- `S&A-O), cometi uma terrvel falh... isto ... perdi com- letamente a cabea e o juzo tambm... Apaixonei-me oucamente por esta mulher... Ela naturalmente, com- preendeu i&so mesmo... e procurou, sabendo muito bem o que fazia (o rt& gagl&eja7&a de comoo) arrastar-me, exci. . .ci. . .tar-me. . . j me no embro como  que con-.
.

 eguiu arrastar-me para um meio d8sses... Quando eles me falaram no atentado e quando preguntaram quem se ncarregaria da bomba. . . como ningum se apresentasse, 13 inclinou-se para o meu ouvido e disse-me: "Encarre- ga-te tu, e ters o que desejas..." Senhor Juiz... (cont crescente entoo) eu tenho trs anos de guerra e sei que, neste mundo, no h nada perfeito. . . (not&amente gngue- a comot&ido) mas... se esta mulher no tivesse feito o que fz.. . eu nunca teria sido capaz de lanar...
 0 P& esidente.--Oia. . . Se esta mulher no tivesse feito o qu?...
 Haek (no paroxismo da comoco).--Se ela se me tivesse entregado... (ntovimento de sensafo ger&1 na sala). Na mesma tarde em que eu-aceitei a misso .. ela entregou-se-me.. . no gabinete de Ring.. . Eles tinham- .
.
 184 A AVENTURA EM BUUAPESTE  -nos deixado szinhos. . . E depois dsse dia (di& isto os berros) mais quatro vezes, at o atentado...
 Gerda Buh& (numa voz fria e contante).--Mentira tudo aquilo!...
 0 Delegado da Mi&zistrio Pbltco.--Tenho a honra de propor ao Tribunal que ordene se torne secreta a con- tr.uao da audincia...
  O jornal escapou-lhe das mos e cau por terra, num rudo abafado. Gerda Buhr, aquela loura fria e misteriosa, que se postara  cabeceira no hospital,  semelhana de uma santa, de uma mae, de uma...
 --Meu Deus, que tem o senhor?. . . No est doente ? --exclamou a senhora Knopfer, que ia a transpor a porta; --est plido como linho. ..
 --No  nada--pronunciou le dbilmente--ste. . .
 ste processo comoveu-me, porque tambm vivi em Viena bastante tempo.
 -- compreensvel--comentou a senhora, tranqili- zando-se. Pensar a gente que h monstros assim !. . . Na minha opinio, a principal culpada  a mulher. E, todavia, no foi ela quem apanhou a pena mais severa, mas sm sse pobre carteiro meio doido ! . . . Que quere o senhor,  a vida... Felizmente, estamos longe dsses horrores...

 "Estamos longe&. . . ao ouvir estas palavras, sentiu urn grande e extravagante alvio, que por completo o trespas- sou: Se naquela noite em que a esperei no corredor, ela, em vez de repelir-me, me tem puxado para si e se, no dia seguinte, em troca do seu amor, me pede vidas huma- nas ! . . . Porm, repeliu-me. . . Porque ? . . . &o valeriaeu tanto como sse Haek?.. . Ou, pelo contrrio, valeria mui- tssimo mais ? . . . Estou j longe daquilo tudo . . . J no quero saber... nem dela, nem dos outros. Estou longe daquilo tudo. . . Tambm aquilo j passou  histria. . . & Presentemente &ratava-se de outra coisa. Indecisa, a se- nhora Knopfer mantinha-se de p,  entrada da sala. K- dr apanhou o jornal, colocou-o em cima da mesa e disse a hospedeira: aJ li; muito obrigado, minha senhora.& - AVENTURA EM BUDAPESTE lR&  Sim, tratava-se presentemente de outra coisa. Tratava- de ter o maior domnio sbre &i prprio para no cor- ao telefone e no chamar Mrs. Myers demasiadamente lo. Era preciso no parecer muito esfomeado, muito do, muito desprotegido, ocioso por completo. Helena b no devia ser posta em condioes de perceber que o, a vida dale e as suas quarenta e cinco libras, se ontravam em cima de ur&a carta nica, dependentes uela partida de jgo. "Hei-de triunfar, tenho de triun- !... No deixarei a fortuna escapar-me.& &o quarto dia, pde enfim, sem mostrar precipitaco, fonar a Mrs. Myers. Ela no estava em casa. Deu o nome, mas a voz cantante e rpida que respondia no !O extremo da ligao repetiu duas ou trs vezes sse &e, indecisa. Poisando no descanso o auscultador, ime- amente a inquieta&o o invadiu ao pensar que a sua rlocutora de h pouco poderia no saber indicar corre- nente quem tinha telefonado. Certo era que Mrs. Myers ia fcilmente adivinh-lo e que le mesmo podia vot- telefonsr, verificado o malgro da primeira tentaliva; via, uma incerteza assim... e, caminhando na rua, cessou de dizer de si para si valer mais e ser foroso remdio a essa incerteza. Na primeira loja de florisla encontrou, adquiriu uma maravilhosa orqudea, de.
.
 I plidos e azues, e enviou-a, acompanhada de uma e de homenagem, a Mrs. Myers. A flor custou-lhe a tela de libra e meia. Que importava ?. . . Decidiu tor- a ligar,  noite, para Mrs. Myers, recreando-se anteci- mente com a surprsa que ela experimentaria ao sa- que l& habitava na sua imediata vizinhana.
 ncontrava-se sentado, ao como da tarde, no quarto, etido a observar o mapa de Africa. De sbito, bate-  porta. Era a criada. "Chamam-no ao telefone, meu or, disse ela;  da parte de Mrs. Myers.& Estupe- &, olhou um instante a rapariga e depois precipitou-se.
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 A AVF.NTURA E&l BUDAPESTE 186  para o telefone. aE' o senhor Kdr7 preguntou uma voz ao aparelho. & "Em pessoa)&--&Aqui fala Mrs. M&ers !...
 --"Como  que sabe que estou residindo nesta casa ?"-- "Sei-o, isto no Ihe basta ?. . . Estou muito zangada por causa da flor. . . FalaremGs a sse respeito. . . Entretanto, agradeo-lhe... Est esta noite?"...--aSim& & &En- to, espero-o pelas sete horasn& Com um gesto brusco, abriu a porta do armrio e olhou o smokin& completamente amarrotado, suspenso dum ca- bide. Havia mais de um ano que o no punha. E a cami- sa branca no estava engomada. Pudera ? com o aventa& verde. . . "Csluda !& bradou uma voz dentro dle prprio, "o avental verde nunca existiu!. . . Com vivacidade, fe soar a campanha eldtrica e logo depois a criada levou o smoktng para ser passado a ferro, enquanto le sau correu a comprar o necessrio. Nervoso, arrancou o em- brulho das mos do vendedor: duas camisas de peitilh postio, meia dzia de colsrinhos, uma gravata de sd da ltima moda, dois pares de pegas finas e um par d luvas cinzentas claras, diablicamente caras. Batia j co& os ps no cho, de impacincia, quando, pelas cinco horas Ihe trouxeram o stnoking passado. Que escandalo!. . .
 ferro quente em demasia pregara-lhe uma mancha ! ... El perto das sete hotas, quando, escanhoado, em trajo d soir&e, negro- e branco, se viu finalmente pronto.
 &rs. Myers esperava-o no seu gabinete de trabalho.

 Uma mesa redonda, colocada em frente da janela, esta& posta para o servio de duas pessoas. "Estou muito za gada por causa da flor&, disse-lhe els mal le entrou.--Ql criana que  ! sse acto de cortesia custou-lhe pelo me nos duas libras e quando se tem uma bolsinha to pouc recheada . . . & le crou e pretendeu interrompe-la, proteL tando com um gesto, mas Mrs. `Myers prosseguiu sem perturbar: --Oia, dada de fingimentos, coloquemo-nos aci dessas coisas. Mandei tirar informaoes exactss a seu r peito. Um rapaz to pobre como o senhor no pede - mitir-se certos gastos... no se formalize, seno  AVENTURA EM BUDAPESTE 1  egaremos a entender-nos. No  vergonha nenhuma.
 tambm no nasci princesa.--Ela disse tudo isto em to familiar e to amvel, que le seria louco se no carasse as coisas pelo lado favorvel. Em todo e quai er caso, faria &IgUra de estpido cGn-inuando a repre& ntar a comdia.
 --Sabe ento tudo a meu respeito ?--preguntou com desprendido, mas com um leve tremor ntimo receando e ela estivesse tambm ao facto do caso de Estevo th.
 _ Tudo; isto , tudo o que quis saber--respondeu ela& Interessou-se ento por mim&, pensou Kdr, sentin- se um poucochinho comovido, ao mesmo tempo que &ava escapar a pregunta: Mas, de que maneira ? --Ingnuo rapaz ! . . . No bastar para isso um empre- do de cartrio um pouco hbil?... Esquece-se de que& nglaterra  a ptria de Conan Doyle !. . . Di&a-me c, sa Mrs. Cresse  bonita?...
 --E' j velha--respondeu le de chofre, mas pos-se o vermelho ao acrescentar a mentira: Pode ter a os us quarenta anos mas est muito cansada.
 Os Csords so seus parentes?. . . Que fazia em sa deles ? . . .
 Crava cada vez mais, debaixo do fogo destas pregun- , e engendrou uma srie de explicaoes intrincadas: o se tratava precisamente de verdadeiro parentesco, mas t&s de um parentesco  moda da Hungria. . . e, no con- rnente ao trabalho, ele ocupava-se l, de preferncia das mpras e dos assuntos pecunirios. ao mesmo tempo, ntinuava os seus estudos interessando-se por tudo que i ia respeito  construo moderna.
 --Com que ento--interrompeu ela--.&lrs Cresse I sa e nada bonita. Tambm eu j sou velha... Pelo enos, sou mais do que o senhor...
 --No  verdade--declarou le bruscamente e com ener- .--A senhora tern, pouco mais ou menos, a mesma ade que eu.
 &88 A A&ENTURA EM BUDAPES&E  --Oia--disse Mrs. Myers, provocadora,--quere fa- zer-me crer que, depois de tudo o que at aqui Ihe contei, no calculou j h muito que tenho vinte e oito anos.
 Sim, meu jovem, estou velha...
 Kdr fixando os olhos nela e sentindo no corao um calor benfico, respondeu: --Tem vinte e oito anos mas parece ter s vinte; eu tenho vinte e quatro, ignoro quantos pareo ter, mas posso bem dizer que j vivi duas vezes a&minha idade.

 Mrs. Myers desviou, subitamente, o seu olhar do dle e estendendo, hesitante, a mo para a caixa de cigarros, disse-lhe; "Faa favor de tocar a campainha, tenho fome&" Mrs. Myers comeu bastante e com rapidez extrordi- nria. Igualmente Kdr se sentia com apetite, e, sentad em frente daquela mulher, no lhe sas da idia este pen- samento: "Ela tem vinte e oito anos, qustro anos a mais do que eu& Mrs. Myers orientava com muita arte a con- versao e a satisfao do apetite dale. Vira desde o pri- meiro instante que Kdr era de ndole pouco loquaz, e ela prpria conduzia pois o colquio, espraiando-se em infinitas varioes a respeito da Africa do Sul, de Mrs.
 Myers, da vida naquela terra, de Sydney, onde tinham vi- vido outrora, e da ltima e trgica viagem a Londres. K- dr comeou a interessar se pela narrativa a partir do mo- mento em que ela desatou a falar de si prpria, da sua mocidade. Helena Szab contava apenas catorze anos quando, num desgraado dia outonal, dia de chuva, o pa --a mae falecera dez anos antes--cara redondamente no meio da rua, levando as mos ao lado esquerdo do pei&o. Tinham-no levado para casa, onde o mdico, cha- mado a tda a pressa, no pudera fazer j outra coisa d& que verificar o bito. A rapariguinha fora conflada os cui-` dados de um velho amigo do pai, o velho Vizsnyi, que viera a ser, deste modo, seu tutor. O tio Vizsnyi permi- tiu-lhe inscrever-se num curso de estenografia.
 Passados seis meses, arranjou um lugar de dactilgraf no cartrio do advogado Simoncsics, com o ordenad& mensal de vinte coroas. Certo dis apareceu-lhe Mr. Myers  VENTURA EAf BUDAPESTE & 89  quitecto peri&o, de nacionalidade ingl8sa, do principal ente do seu patro, Conde X... Tinham-no mandado 81i por causa de um processo complicado e que se ar- stava havia j bastantes anos. Logo desde os primeiros as o ingls se pusera a andar  roda de Helena Szab, petindo muitas vezes ao dia, em tom de brincadeira, que bom grado casaria com uma rapariga to gentil. A&as uilo que se repete com freqencia acaba por ser acredi- o por duas pessoas, pelo menos: aquela que fala e uela que escuta. O arquitecto no permanecera em Cassa s do que uns quinze dias. ao despedir-se da rapariga sera-lhe: "Eu teria muito gosto em que aprendesse in-  I s.& Helena crara at  ponta das orelhas e... ]ogodiaimediato fra matricular-se num curso de ingls, cturno, na Escola Primria Superior. Pouco tempo de s chegou de Londres um bilhete postal, em seguida tro e outro ainda, com intervalos regulares; mais tarde, a carta de Anturpia, uma de Paris, outra de Toronto o pois, novamente, uma de Londres. Por fim, um belo dia, Myers voltara a Kassa, apresentara-se ao velho Viz& yi e, passados quinze dias, Mrs. Myers, em &olteira ena Szab tinham partido de Kassa, no rpido da tarde, rvindo-se de um compartimento de antemo reservado.
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 para les. Nas suas costas, a cidadezinha agitarn-se em mexericos... Porm Kassa viera mais depressa a es& ecer Helena Szab do que Mrs. Myers a sua cidade na- , cuja recordao jamais cessara de persegui-la, a-pesar encantos de Londres, de Sydney e de P8rto-Isabel, ordao inextiguvel, caldeada de espectativa, um tudo da penosa e, todavia, agradvel.

 Ela veio de baixo, de mais baixo que eu !1& murmurou a voz dentro do crebro de Kdr. "Ela conduzir-me- sigo, para a ascenso.& Essa voz falou-lhe suavemente rante todo o sero, orientou suas palavras e seus actos, omendando-lhe prudncia e interdizendo-lhe o menor to que pudesse revelar o mendigo. "Ateno !& dizia- e essa mesma voz, "presentemente, no se trata de uma ola. Se prudente, no te mostres muito apressado, defen&.
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 190 A AVENTURA EM BUDAPEST  de-te de trares teus desgnios ! . . . " &Irs. Myersinterroga va-o exclusivamente a respeito dos seus ne&cios particu lares; a conversa resvalava cada vez mais para os as9un tos sul-africanos. A imagem da Terra Prometida form va-se  maneira de mosaico de cres: o porto ingls e pleno desenvolvimento, num cl;ma digno de Npoles, tend a mais o asseio de Amsterdo e, por detrs dle, a riquez da Federaco Sul-Africana De semana para seman abriam-se novas ruas e a cidade edificava-se, gra&s emulao dos colonos holandeses, inglses e alema rivalizando todos eles, no mximo grau, em satisfazer & seus prprios gostos de luxo e de confrto. A firma aAble & C.& participava largamente, como  natural, neste tra balho de construo: o escritrio de l ocupava alm & dois engenheiros-chefes, uma boa vintena de empregsdo .
 A sua ltima grande empreitada, a constr&o do Entre postos e das docas da Companhia "Cunard Line&, em via de abandono, ra ainda concebida de harmonia com o planos do falecido Mr. Myers. Ia ser, para ela, ums i presso estranha sentar se de novo, aps um lapso d tempo to longo,  mesa de trabalho. . . As fontes de K dr latejavam, de emoo. Ele e&perava uma palavra qu Mas essa palavra no foi pronunciada. Num dado momen to numa sbita vertigem, pressentiu que no devia calar s e deixar escapar sse minuto. Era necessrio ser le mes mo a falar, a dizer novamente: "Irei consigo.& J a vo que murmurava dentro do crebro se calara. . e no s encorajou a declarar-se: &Leve-me com a senhora." Nis& Mrs. Myers ps-se a falar de Londres e das pessoas col quem a se dava, e le observou ento, com terror, qu csda uma dessas frases os afastava cada vez mais do pa dos seus sonhos. No ntimo de Kdr a voz sonora c.
 aventureiro lutava contra a lamria do mendigo, ocult ambas por um biombo de palavras neutras. Aproxima .
 do-se a meia noite, teria dentro em pouco de retirar-s Quando Mrs. Myers, referindo-se a um dos seus sci& de trato bem desagradvel, declarou "No me impor muito, no fim de contas, porque no hei-de atur-lo sen  AV&:NTURA EM BUDAPESTE  l rante uns quinze dias mais&. Kdr experimentou, bem ndo, o suplcio de ter perdido a sua caus&, suplcio se- elhante ao que produziria a picada dum milho de al&i- tes. Verificou as horas no seu relgio e levantou-se.
 este instante, preguntou-lhe Mrs. Myers: &E o senhor l e vai agora f&zer ?& --Que quere dizer com isso ? --Quero eu dizer: qual  o s& u& Llla s prximos?... Vai ficar em Londres? Ele esforou-se por mostrar um ar indiferente, mas o u olhar hesitante poisou, com um frmito, no rosto e a figura da mulher.
 --No sei ainda--replicou, conseguindo tornar a voz rena e desprendida.--Pode ser que &Ique em Londres, de ser tambm que...

 Ela interrompeu-o: No quere, ento, que eu diga qualquer coisa a Scott, . . seu benefcio, para le lhe reservar um lugar no es- trio ? Era talvez squela ocasio derradeira. Tinha de pr trmo habilidadcs de acrobata, dizer  mulher numa voz la- ntosa: "Sin-, fale a meu respeito no escritrio de modo .le, devido ao seu patrocnio, o meu po seja ganho com.
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 enos aspereza !" Mas a teno de jogador arrebatou-o, e clarou num tom frio, cheio porm de amigvel gratido: --Oh ! no, muito obrigado. Mesmo que ali me con- tassem, isso estaria a poucos passos da insensatez. No ria uma soluo para mim... isto ...
 O semblante da mulher corou levemente.
 --Ah ! est bem . . . e. . . se eu Ihe dissesse. . .
 --Isso sim--interrompeu ele, desta vez numa voz triun- nte de vencedor seguro de si, abrangendo-a, tda inteira, m oihar cheio de malicia, onde se patenteava no se tnr agora de coisas mas sim de pessoas, de uma nica ssoa--ela ! Os dois pares de olhos fixaram-se, um ins- te, numa tenso :iimilsr  que precede a descarga da ;ca elctrica. Aps, ela desviou bruscamente o olhar e ;ueu-se:.
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 l92 A AVENTURA EM BUDAPEST  Como adivinhou o que eu queria dizer... visto qu precipitou a resposta ? --A senhora queria dizer--replicou le num tom firm e imperioso, que se me convidasse a partir consigo...
 Nos olhos de Mrs. Myers perpsssou uma espcie d d humilhao, qualquer coisa que valia uma defesa.
 --Mesmo que eu quisesse dizer isso. . .--prossegui Mrs. Myers--no tomei ainda nenhuma deciso a tal res peito.
 --Peo-lhe que no se equivoque sobre o sentido da minhas palavras; no as considere indiscretas; eu qu simplesmente dizer: se me convidar, irei consigo para Africa, ou fsse l para onde fsse.
 E como teimava em perseguir com os olhos o olhsr in certo, hesitante e fugidio da mulher, olhar no fundo d qual ardia um fogo tranqilo, a delicada figurinha afas tou-se bruscamente dle Kdr adquiriu ento a certez podia ir preparando j a sua bagagem: Mrs. Myer& le v-lo-ia consigo, para a Africa, ou fsse l para ond fsse.
  No cofre forte de mltiplas divisrias, oculto na pared do gabinete de trabalho e onde a Sociedade guardava o documentos mais importantes, havia um compartimento especial em que A. T. Kdr, o jovem e eminente arqu tecto, conservava os seus papis pessoais. Documentos de tdas as espcies, recortes de jornais, cartas e notas diver- sas a se amontoavam. Havia l, por exemplo, o seguinte  L&sta dos passagei7 os do 7JapOr Falcnia, da "Cunard Line" trat&essia de... Ig32. Itinerrio: Southam- pton--Gibraltar--Porto-Sad--Adem--Mom- baca--&Iocambique--Bur&an--P8rto Isabel.
  Camarote n.& 166: Mrs. Helena Mvers. con&trutora, Prtc-Isabel.
  &VENTURA EM BUDAPESTE 193  amarote n.? 1fj7: Mr. A. Kdr, secretrio particular, e se dirige para Prto-Isabel.

 Alvar da Perfeitu7 a da Polcia de P&rto-lsabel  .em virtude do qual  concedida licena de resid8n- a Mr. A. Kdr enquanto segue os devidos tramites o pedido de naturalizao Uma carta de Mrs. Myers datada da Cidade do CAbo:  ..Hooley manda-me dizer que, desde que parti de a, enhor passa dias inteiros no escritrio. Agrada-me so- maneiramente que se ponha de-pressa ao corrente de os os nossos negcios, mas  preciso no exagerar.  ha impresso que Hooley se sente um tanto encima- da sua aco, mas isso no dever desanim-lo mesmo Hooley Ihe faa sentir sse sentimento da maneira Isca que o caracteriza. Vejo que Growham trabalhou m e que obteremos provvelmente a encomenda da cons- o da Biblioteca de C. T. Obtido o despacho do pro- so, regressarei imediatamente...
 ubrica desporti&a dum jornal:  A primeira surprsa surgiu do desafio de tennis em dou- mixte. A quipe Kdr-Myers bateu, com notvel faci- ade, por 6-& e 6-0, a quipe Dunn-Dunn, vitoriosa o ano.
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 sado. O jgo harmoniosamente combinado do par ven- or foi - aplaudido com entUSiaSMO& at pelos partidrios par contrrio.
  cAtta do Dr. Bloomhard director da "Union Te- chnologr" de Joha7&nesburgo:  erei verdadeira satisfao em poder contar entre os us alunos o excelente colaborador da firma "Abley & '&. Estou convencido de que, em vista do seu talento e sua exgerincia, dois ou trs meses de estudo permi- .
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 194 A AVfi:NTU&A EM BUDAPEST  tir-me-o apresentar-se, com probabilidades de xito, exame final para obtenyo do diploma d& &rquitecto.
  Um carto de &visita:  A. Th. Kdr, arquitecto diplomado, director da Firm Abley & c.a, Prto-lsabel.
  Original da carta de Mr. Hooler engenheiro-che& a Mrs. Myers:  &...Pela parte que me toca, no posso seno regoz jar-me, minha Senhora, pelo facto de um moo cheio d ambioes querer aliviar-me de uma parcela da minha ta& refa, sobretudo sendo le pessoa, segundo me parece, quo possue a vossa inteira confiana. Tanto mais que estou desde h nove anos ao servio da firma e que j excede considervelmente a conta dos quarents anos de idade.
 Mas precisamente, a minha idade e os lon&os anos passa- dos ao vosso servio autorizam-me a chamar a vossa ateno para certos factos. A especulao feita sbre os terrenos de Kruegersdorp tirou-me o sono durante meses inteiros. Deu resultado,  um negcio feliz, mas por muito tempo me pareceu destinado ao malgro. Aceitar construir a Estao de caminho de ferro de Pretria equivalia, em minha opinio, ao sucdio. Se no vimos ir, nesse caso, o nosso dinheiro por gua abaixo, devemo-lo simplesmento ao caso. Em suma, a minha impresso  que, assumindo eu por completo as mesma& responsabllidades que outrors, a minha influncia deminuiu junto de vs, e, por conse- qncia, tambm em Londres. No recrimino ningum, mas considero dever meu incitar-vos a usar de prudncia. Peo- -Iho minha Senhora, que no pense nunca que, quando Hooley refreia um assunto, o faz por cime, nem que quando le diz "no&,  por inveja. Suponho que me no anquilosei ainda, mas, simplesmente, defendo os intersse& da vossa firma talvez melhor do que aqules que vem o mundo atravs do seu temperamento juvenil e fo&oso...& AVENTURA EM BUDAPESTE l9S  Cpia oficial emJiada pela Central I ondrina o Mrs.

 Mrens de outra carta de Mr. Hooley dirigida por este ao Escritrio de Londres:  " . . . Nove anos de servio nas colnias justificam o eu pedido de tranferncia para o escritrio de Londres.
 davia, se isto pudesse criar dificuldades, eu teria ento lamentar o &er-me obrigado a renunciar  homa de con- uar a ser um dos vossos colaboradores...
  Telegr1ma de Mr. Alexis um dos scios da Firma:  Chego dia 7. Esteja sem falta Prto-Isabel. Desejo falar mbm a Kdr. Alexis.
  Telegrama de h&rs Alexis para Londres fminuta manusct ista:  Tudo perfeito. Intil substituir Hooley. Kdr merece dos elogios. Alexis.
  Recibo de um 1Jale de cor& eio:  Destinatria: Maria Tate, Londres. S. E. Deptford,.
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 eelworks Row, c/o Cresse. Importancia do vale: 100 ras.
 Expedidor: A. Kdr, Prto-lsabel.
  7&ele& ama de GrouJham de Joa&mes&urgo:  Mr. Kdr parte imediatamente. Construo entreposto tida. Felicitaoes. Growham.
  Pontaria do Go7)erno:  O Ministro do Interior ordena: Mr. Antnio Teodoro lr ser admitido entre os cidados da Unio Sul-Afri- & e, especialmente,  concedido ao requcrente mudar o196 A AVENT&JRA EM BUDAPEST  seu nome patronmico para &Cadar& e utilizar dravant ste nome na sua vida civil.
  Recorte de um jornal: Sec&co Mundana-   Mr. A. T. Cadar, o ilustre arquitecto, co-director dafi ma Abley, consorciou-se ontem com Mrs. Helena Myer viva do falecico Mr. &yers, seu antecessor nareferida fi ma. O novo casal recebeu inmero& telegramas defelicit oes das pessoas mais notveis de Londres e do nossopas  Cpia le uma sentenca do Tribunal do Comrc de Londres:  ...O Tribunal do Comrcio risca dos seus Registos firma social "Abley, Alexis, Hutton, Myers e Scott, A quitectos& e inscreve, em seu lugar, a firma socialseguin te: &Abley, Alexis, Cadar, Hutton e Scott,Arquitectos&  Carta a um alto Juncion&io da cidade:  ... No recuarei perante a necessidade de fazer sacri fcios, por m&is importantes que sejam, no interssed levar vante ste negcio. Todavia coloco  cabea tdas e de maneira absoluta a condio de essa comprad terrenos permanecer rigorosamente secreta, at omomer to de se comear a construo, isto , at que euprpri de incio  respectiva publicidade...
  Carta para Londres:  ...Em concluso, tenho absoluta confiana no bo resultado do meu negcio, o qual, se vs no quiserd participar nle, tomarei para mim s.
 Presentemente, com efeito, no se trata apenas daminh impresso pessoal, mas da convico, baseada emalgari mos, de que a compra dsse lote de terrenos vir a s um dos melhores negcios dos tempos que vo corrend AVENTURA EM BUDAPEsrE 197  Documento oJicial  ...A s&ber: os terrenos vagos pertencentes  cidade, ue se estendem a oeste at o trmo da mesma, e aleste  o limite administrativo da cidade de Olchester, osul t o litoral de Algoa Bay, e ao norte at  linha quese stende paralelamente ao litoral e que se situa a umadis- incia de duas milhas inglsas '/&... A cidade cede,em egime de propriedade plena, ao sr. e  sr.a A. T.

Cadar s ditos terrenos, marcados em comum pelas duas partes que figuram na carta topogrflca, por elasreconhecida xacta, como sendo os terrenos numerados no cadastro e 1 a 1.000. A Cidade compromete-se, ao mesmo tempo, fazer executar,  sua custa, todos os trabalhos e aregu- r as instalaoes denominadas abreviadamente "Melhora- entos Pblicos&, cujo inventrio consta do processo nexo ao presente documento. Em troca das concessoes cima descritas, os compradores comprometem-se a cons- uir, instalar e pr  disposio da Cidade asinstituoos e beneficncia definidas no processo anexo opresente ocumento.
  Anncio:.
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  O PARAiso DAS IDADBS BfBLlCAS BNCONrRAVA-SB NA ASI& E&OR. . . O PARAfSO DOS TBMPOS MOoERNOS BNCONTRAR- SB-A NA AFRICA DO SUL.. . PBCAM SEM P&SRDA I&B T&MPOOS ROSPBCTos RELATIVOS ao NOVO PARAiso. . .
  Anncio:  P A Cote d A&ur era considerada, at agora, como o nais belo litoral do mlmdG. No ano prximo, ser aBaa le Algoa. Desejais possuir uma casinha para o vosso eek-end ? . . . Desejais uma vivenda luxuosa ? . . .
Gos- &is do sol maravilhoso da praia, ou preferis a frescasom- ra da floresta majestosa ?. . . O estilo das cabanasdos &egros esta de acrdo com o vosso gsto, ou achais,pelo.
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 198 A AVENTURA EM BUDAPES&E  contrrio, delcia na moderna construo que aplica ovi- dro como primacial matria?... Sejam quais forem as vossas preferncias, no deixeis de visitar os nossoses- critrios, onde tereis ensejo de consultar inmerospro- &ectos e onde em contacto com os nossos arquitectospo- dereis colhr informaoes explcitas...
  Reportagern dum grande perid&co:  Rodmos do &Cadillac", de dois lugares, do clebre at quitecto, ao longo da costa esplendente, sbre aestrada nova, lisa como um bilhar. Dentro de poucos minutos chegmos s proximidades do novo aglomerado de mora dias, "o Eden Sul-Africano&, em vias de construo. No ta-se ali imensa quantidade de materiais, inmeros ca mioes e mquinas, assim como rumorosa multido de ope rrios atarefados.  uma verdadeira cidade. . . umacidad maravilhosa onde o mar se une  floresta, o luxo simpli cidade prtica. Cada casa assemelh&-se a umcastelozinh isolado, orgulhoso smbolo da divisa inglsa "My house is my castle"... & e, a-pesar disto, logo a partir dospri- meiros instantes nos sentimos entre amigos.
Maravilha-se a gente perante o enorme campo de desporto, oesplndi- do cinema, o sumptuoso clube... Todos podem ali en- contrar, quer em suas prprias casas quer noexterior, o confrto, os prazeres e as distracoes que melhorcon- venham ao seu temperamento. .. No decurso do caminho, tive ensejo de ouvir Mr. Cadar. "Estamos bastantesatis- feitos, declarou-me le, com os resultados at agorobti- dos. Estes resultados so no s materiais comomorais: desde os primeiros dias afluram as encomendas efixa- ram-se em ns os olhares, no apenas da Africa mas de todo o imprio Britanico.
  Telegrama do cor r etor Smith:  "A minha casa e o meu ca&telo.&  AVENTURA E& BUDAPESTE 199  Vendidos 610 a 634, peo reservar-me pelo menos cin- ents mais.
  Tele&-ama do corretor Corbett:  Vendidos 80 a 105, peo resposlder telegrficamentese &svel reservar-me mais 10 talhes arborizados.

  relegrama do correto7 Di &rarcelli:  Todos terrenos no sector vendidos. Responder telegr- amente se possibilidade aceitar construoes estilotirols.
  A&Jiso das autoridades:  Na inaugurao do Bairro-Helena e das suas institu- es de beneficncia, o govrno far-se- representarpor ividualidades que sero oportunamente designadAs.
  CAPfTULO XVIII  Chegara, finalmen&e, o grande dia.
 Inaugurao da cidade-jardim. Delegados do govrno.
 scursos. Aclamacoes. Viva a Unio Sul-Africana ! . .
 r va o Imprio Britanico !. . . Viva o Bairro Helena! . . .
 vam Mr. Cadar e Mrs. Cadar!. . . os seus excelentes laboradores e todos aqules que os secundaram nacria- o dste Paraso! O bsnquete de cem talheres no Hotel a-Bretanha, j igualmente vendido, decorreu com tanto aior brilho quanto  certo que tda a gente obtivero que sejara: a Unio Sul-Africana, o novo Eden; o constru- &, o lucro de uma soma incontvel de librasesterlinas; presidente da camara municipal, uma vivenda na nova lade, a preo excepcionalmente mdico, etc., etc.
 Regressaram smbos a casa. No terrao da sumptuosa )radia, fronteiro ao oceano, fumaram mais um cigarro.
 iinto-me fatigado, disse Cadar;--vamo-nos j deitar.
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 200 A AVENTURA EM BUDAPESTE  no  verdade ?. . .&--&Est bem&, assentiu ela,conser- vando-se em silencio um instante; e acrescentou: "pus na idia que podamos esvaziar juntos uma'taa decham- panhe, agora a ss, os dois&.
 --De bom grado--respondeu le, distradamente Tens sde 7 --Muita sde, no tenho; mas vejo que te esqueces te. . .
 --Perda, querida. . .--disse ie imediatamente--es- tava na verdade descuidado e esquecido, mas tda esta bal&rdia de hoje...
 Dirigiu-se para o bufete, onde pegou numa garrafa de champanhe francs e em duas taas. Arrancou o aramo do gargalo da garrafa, e a rolha foi expelida com umrud sco na noite azul. Era a noite do quarto aniversriodo seu casamento. Tocaram as taas uma na outra,esvazia- ram-nas, abraaram-se e foram-se em seguida deitar.
  CAPI&ULO XIX  Cada dia que passava punha mais um tejolo no muro de separao entre Antnio Kdr e A. T. Cadar. Esse muro erguia-se por si prprio... no era Kdr quem o construa... Assim como Antnio Kdr nada, ou muito pouco, fizera para chegar quele pono. Antnio Kdr postara-se simplesrnente debaixo do cu, pensandomuitas vezes, com os dentes cerrados, que havia de vir o bom tempo, que tinha de ser. . . custasse o que custasse.
Pos- tara-se simplesmente debaixo do cu, consentindo queo spro de uma bofetada, de uma doena ou de um beijo o arrastasse para A. T. Cadar. O muro que se erguiaentre a sua vida presente e o seu passado atingia j grandeal- tura. Ocultava-lhe j a imagem das coisas e daspessoa9 de outrora, o som das msicas de nntanho, o jacto dasan- tigas recordaoes. Para c do muro a vida eradiferente...

 ou, dizendo melhor, para c do muro a vida eraverdadei ramente a vida. E para l do muro ?. . . Queimportava-   AVENT&TRA EM BUDAPESTE &01  ue havia para l ?. . . A grande emprsa prosseguiain- tigvelmente a sua expanso, o trabalho aumentava eos psitos nos Bancos, tanto em Londres como em Prto- sabel, iam em contnuo acrscimo. A mulher era a sua ompanheira, no mais amplo sentido, desde o briominuto & os abraos at ao matinal passeio a cavalo; desdeos cl- k ulos eriados de algarismos, sobre a mesa detrabalho, t s muitas revistas profissionais, que ela se nodispen- va de ler tambm; desde os numerosos filmes sonoros t ao teatro de Johannesburgo, onde os levavasempre, E viva fra, o seu representante naquela cidade, JoeLe- is, tdas as vezes que ali se demoravam alguns dias.
A ulher era a sua companheira, quer quando Fermanecia a eu lado, quer tambm quando o deixava szinho, quando to se lhe tornava necessrio, quando se sentiafatigado, uando estava nervoso, quando se via saturado de tudoe . uando carecia de algumas horas de solido viajandoem minhos de ferro, ou na sua casinha de week-e&ld no airro Helena.
 ao seu redor viviam inglses, alemaes e holandeses,re- oes estabelecidas pelos negcios, amigos ouestranhos.
 ao faziam mal a ningum, nem tampouco ningum Iho zia. O sol brilhava eternamente e os diasescoavam-se,.
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 sta forma, numa despreocupao laboriosa, na sade do prito e do corpo. Um dia, looo que instalou namoradia novo aparelho de T. S. F., passou o sero em demanda sons no seio do ter. De sbito, ouviu nitidamenieuma : de baixo. . . "Ides ouvir Dajos Bla e a suorquestra bomios&. Seguiu-se, de facto, uma msica bomia. A lodia pareceu-lhe familiar, mas as palhvras, dessasno lembrava j. Escutou durante algum tempo, reprimindo espirao, e por fim deu volta ao boto.
 Pendurado na parede, havia no seu escritrio um 1nap- mundi. As vezes parava junto dle, a olh-lo... Lon- &s... Depois do seu casamento, tinham passado um em Londres; Viena... onde diabo ficava essa cida- ?... Ah ! sim... I estava ela... Nunca mais tivera &cias de Viena !. . . Budapeste. . . Haviaexactamente.
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 20& & &VENTURA EM BUDAPESTE  seis anos que tivera, pela ltima vez notcias deBudapeste; j se encontravam h qusi dois anos em Prto-lsabel quando se resolvera a escrever uma carta, endereadapara Budapeste, a duas pessoas idosas: "Querido tio Rudi e querida tia Ana, sei bem que  grande ingratido dami- nha parte ter estado tanto tempo sem dar sinal devida.
 Presentemente os meus negcios caminham bem e, desta feita, venho simplesmente pedir notcias vossas.
Queria ainda preguntsr-vos se no tm necessidade de alguma coisa. Aguardo a vossa resposta urgente. Mil beijosdo Tony)&.
 Decorridos quatros meses, viera devolvida a carta,apre- sentando as mais variadas espcies de etiquetascoladas no sobrescrito, o que significava que se tentara opossvel e o impossvel para a entregar os destinatrios. Ocorreio tinhn feito um inqurito digno de todos os elogios.
Por bai&o da direco da Avenida Pozsony, via-se a nota"Mu- dou-se para Marosucca, n ? 1&." Sob esta segundamorada, nova nota: "Mudou-se para Szvetenayucca 16, n.? 6&.

 Daqui a carta fra enviada para outro endero, tidocomo o ltimo domiclio do destinatrio; por l&imo, porbaixo dste, encontrava-se, a lpis vermelho,  laia desuprema sentena, a palavra: Falecido.
 Olhara o envelope assim pintalgado com um olhar frio e indiferente. Ter-se-ia julgado, talvez, um homem deco& rao se uma lgrima Ihe tivesse deslizado entopelas fa- ces, a no ser que se julgasse, antes, um hipcrita;e corno as ]grimas se haviam tornado para le maiscaras do1que o dinheiro, solicitara, por intermdiodafLegao&da Inglaterra em Budapeste, uma investigao a respeitodo caso. A resposta no demorou muito: Rodolfo Bayer,ins pector reformado dos Caminhos de Ferro, morrera, aps dois meses de tratamento no hospital, de um cancro noes- tmago, ao passo que a viva abandonara Budapeste ur& dias depois do funeral do marido. Segundo palavrasouvi- das  porteira do seu ltimo domiclio, ela par&irapara a Itlia, na companhia de uma parenta ainda jovem. . .
Es& devia ser Maria, a espsa do o&cial italiano. "louvvoJ,  AVENTURA EM BUDAPESTE  a sua parte", pensara Cadar, ao mesmo tempo que ati- rava a carta para o fundo duma gaveta. Rompera-se oder- deiro liame que o prendia a Budapeste. Antes assim &No estou ainda velho. Sou novo ainda. Vivo. Para ue serve ter sadades, pensar a gente no passado? as  que se poe a pensar nos vultos esquecidos, quem e recorda dos nomes e&tintos, dos sons desvanecidos uem pensa em tudo que outrora, h muitssimo tempo; i a sua vida ?. . . Faz a gente por no pensar nessas isas e chega at a duvidar que elas tenham sequerexis- do.
 & & R E & &  Miss Edna, a secretria de Cadar, trouxe o correio manha. Trinta e sete cartas. Colocou-as na borda da a pla mesa de trabalho e sau.
 Cadar pegou na que estava ao de cima e que trazia carimbo do correio do Budapeste, com a data de 24 novembro de 1929. Olhou-a com curiosidade duran muitos minutos e deu voltas sbre voltas ao sobrescri antes de o abrir com a faca de papel.
 Leu: &Preza&o Kdr, um pequeno grupo de anti condiscipulos teus envia-te uma amigvel saudao ocasio do Natal...& & na verdade engraado, pensou. Como se lembra.
 les de mim ? . . . & Voltando a pgina, encontrou a explicao. Andre lemen .. "Recordo-me dle, era um rapaz de cabe castanhos que se sentava no quarto ou no quinto ba do meio... E de todos os outros: Guilherme Weisz, gorduchinho de bochechas encarnadas; e Ztony.. . q era o 8eu prprio nome ?. . . J sei, era um lourofranz  &VENTURA EM BUDAPESTE 205  E depois Simon. . . Simon. . . Simon ?. .
 embro de queM ste ...& Releu mais uma vez a carta, por inteiro.. v -  E do&, comentou pondo-a de lado. E ps-se a abrir os utros envelopes.
 Pelas onze horas Mrs. Cadar subiu ao escritrio &Olha querida" disse-lhe le mostrando a carta:depois, esmo sem dar por tal, prosseguiu em hngaro: "Acabo e receber de Budapeste esta curiosa carta, l-a. Fizos eus estudos no liceu com sses rapazes.& Mrs. Cadar leu a carta e soltou uma gargalhada: " erdadeiramente engraado, declarou, e  gentil da sua arte. Umas boas-festas do Natal vindas muito apropsi- .& Depois no se falou mais no caso.

 Passados uns dias, Mrs. Cadar lembrou-se da carta --J respondeste os 4ujeitos de Budapeste ?...--pre- mtou ela ao marido.
 --No, ainda no.
 Ele prprio pensara uns dias antes, ao voltar aencon- ar a carta em cima da secretria, que seriaconveniente emorar a resposts. Mandou ento procurar, no seu mais cente dossie&- de referncias da imprensa, aqulenmero o "Worl'd Sunday Pictures" a que Kelemen fizera aluso sua csrta. Mirou a fotografia: " The famo&s ar chitect Hungat ia&t or-&in.& Era aqule nmero em que o jor- lista, no satisfeito em escrever a seu respeitoalgumas has, tinha querido descrever tambm tda a suacarrei- . Restituiu  coleco a dita foto, e simultaneamente teu a carta na pasta dos assuntos suspensos. Mais s decorreram sem que escrevesse a resposta. Certo dia aram, le e a mulher, da viagem  Europa que havia stante tempo projectavam.
 --Que dizes tu ?--interpelou-a de sbito.--Se, de- is de Londres e de Paris, fssemos passar uns dias aBu- peste, a uma quinzena, por exemplo ?. . .
 Com um brando tom de oposio da voz, ela respondeu --Isso  por causa da tal carta?. . . No tensningum em Budapeste que... ou procurars tu matar velhas.
.
 206 A AVENTURA EM BUD&PEST  sadades ?. . . Manifestaoes de sentimentalismo ?. .
. Quan to a mim, no quero ir a Kassa...
 Cadar olhou em sua frente, com ar sonhador: --No te compreendo. . . mas pouco importa; no por causa de pessoa alguma. . . que desejo ir a essaterra Tens razo, no possuo j l ningum. E uma cidade hoje to estranha para mim como Roma ou E&tocolmo,& por exemplo. Simplesmente, nessa cidade estranhapassei eu boa parte da minha vida...
 Calou-se. Fez-se silncio. Ela sentiu a censuraimplcita nesse silncio.
 --Tony--disse Helena--sabes bem que iremos onde tu quiseres. Se queres ir a Budapeste, pois bem !
vamos a Budape&te. Tanto mais que nunca fui a Peste.
 Ele conservou-se em silencio.
 --Sabes?--voltou ela a dizer--quando & r& guinha, tive um desejo louco de ir a Peste. Teriadado l uma saltada, se Myers... Depois, vi t&ntas grandescida- des do estrangeiro, e no vi Peste ! Hoje, a& cidadede Pest deve estar completamente diferente do que era ento.
 Um spro tpido passou sbre o terrao, na serenidado.
 da noite... o spro do Oceano fndico.
 --sitn--confirmou Cadar--deve estar bastante mo dificada. Deve-se ter desenvolvido muito, comcer&eza.
  CAPfTULO II  Cadar sentara-se diante da sua mquina de escrever, e que se encontrava metida uma flha de papel com o tim bre da firma: "Abley, Alexis, Cad&r, Hutton & Scott, A quitects, London&, tendo por baixo, a vermelho, aindic& o acolonial Section, Port-Elisabeth&.

 "Meu caro Kelemen, a tua carta deu-me muito praze ; Como  natural, lembro-me bastante de ti e de todos mais que a assinaram. H muitssimo tempo que nos n vemos; eis o motivo por que me seria diffcil e tamb intil falar de mim numa breve calta. Em compensa&  AVENTIJRA E& BUDAPESTE &07   muito possvel que vamos a Peste na prximaPrimavera, pOlS tenho assuntos a tratar em Londres, e jtencionva- mos viajar pela Europa. Deste modo,  na esperana de brevemente vos tornar a ver, que vos sado, a todos.
An- . nio Kadar.& --E se no formos a Budapeste ?. . .--preguntou Mrs.
 t adar, lendo a carta.
 --Tanto pior, nesse caso ! Esta carta, alis, no en- erra compromlsso algum.
  CAPfTULO III  Julieta estava de p junto da porta da cozinha. Elaen- ugou a mo ao avental, na ocasio em que le entrou a ante-camara.
 --O senhor tem uma carta,  uma carta da Am- a, de um pas... uma coisa assim parecia com Isa...
  O sangue fugiu das faces de Kelemen. A mo tremeu- he ao levar a carta para debaixo da lampada. "Meu eus !" . . . era a resposta de Kdr ! . . .
 Tinha sido em &4 de novembro l&imo que le mesmo vara a correspondncia do escritrio ao correo,a-tim-de, la sua prpria mo, deitar na caixa a carta para&K-.
.
 r... e estava-se agora em 16 de fevereiro. Haviam de- rrido qusi trs meses. . . um longo trimestredurante o al o nome de A. T. Kdr &e Ihe tornou uma verda- ira idia fixa. Dias houve em que se sups j na ma- vilhosa cidade africana, inimaginvel para le e que,por nsequncia, se Ihe pintava na mente ao inteiro sabor s caprichos da sua fantasia. i&:le era o amigo, oconfi- nte e o brao direito do nababo A. T. Cadar.
 Mas, em contrapartida, havia noites que escorraavam sua cabea estes devaneios; noites ms e abjectss du- te as quais chegava a convencer-se de que jamais en- traria o seu dolo. "Por que carga de gua viria le a dapeste?... Por que diabo se daria sso?... Seria.
.
 208 & AVENTURA EM BUDAPf3:S&  idiota pensar que a minha carta Ihe poderia ter idoexci tar o amor-prprio. &... Algt&ns rego&ijaram-se comoeu ouh os mostraram um poucochito de in&eja, mas todc ns, no fundo, experimentmos admira&o pelo teu &xit t2a 1Jida...& Com um palavreado assim podia-se isgr um homem de Peste, mas nunca. . . um estrangeiro, ain que le fsse de origem hngara...
  natural que o` tenhamos invejado... mas que se im portar le com isso ? . . . & Essas noites tinham-se tornado tanto mais terrive quanto era certo que Kdr e Prto-lsabel constituamen to a nica cartada que Ihe faltava jogar.

 A casa onde estava empregado despedira doze pessoa em Janeiro. Salvara-se pOI um tris dessa feita, masdesd aquela data o seu chefe de escritrio Czilektratava-o d maneira insuportvel. Em cada palavra que Ihe dir}gi transparecia uma espcie de advertncia, a modos deque quere dizer: "Desta concedi-lhe pardo, mas, para oUtl vez, serei impiedoso.& Porm, como a carta enviada a Kdr no viera devo vida e, se bem que no tivesse tido resposta alguma,ni era ainda tempo de desesperar de a receber,restava-lh 8ste derradeiro triunfo, ste bibero de pio que, naso do amarga dos seus seroes, podia sugar, que o ajuda& a subtrair-se  realidade do seu cobertor j muitocoad da sua lampada nua, sem 4ba&jour, da exalao bafien da sua cama sem confrto. Era ainda assim, um bene cio ter sse caso do Kdr. . . embora o pensar nlena Ihe desse de positivo, no Ihe proporcionasse a mni& sensao de bem-estar, compensatria de tantas adven dades passadas e presentes que Ihe perseguiam osentid o bacharelado incompleto, os sucessivos conselhos de viso durante a guerra, falncias nos negcios depel& nos bancrios e, por ltimo, a nenhuma probabilidad& aumento de ordenado.
 E eis que, nessa noite, quando le menos a espera& Ihe vinha to  mo aquela carta, a almejadaresposta, linhas dactilografadas de Kdr. & muito possi&el  AVENTURA EM BUDAPESTE 209  amos na pr&xima Prima&Jera a Peste...  tambm &ta espera&a de os torna7- a tJer brevetnente que. . .&Isto re- resentava at mais do que le pusera no seu desejo,de ue usara aguardar.
 "Santo nome de Deus I--exclamou Kelemen,--sei mui- ssimo bem que no sou uma personagem notvel, que ao passo de um msero falhado, mas quando me acontece fsrejar qualquer coisa...-   Reflectia: deveria apressar ou retardar a sua ida ocaf,deveria ser o primeiro ou o ltimo a chegar l ? Deveria pr-se a gozar o espanto dos seus "companheiros&, um por um e  medida que fssem entrando, ou seriapreferi- vel provocar o efeito duma bomba colocsndo, em.plena assemblia, a carta em cima da mesa? Se a &sse mos- trando a cada qual de per si, garantir-lhe-ia isso ummuito maior sucesso pessoal; mas, ao invs, lanar a coisaem sesso plenria tornar-se-ia mais simples, alm deque, verdade verdade, no era indispensvel que se falasseex- cessivamente no assunto.
 J passava das onze horas quando chegou ao caf. Sen- tou-se e, da a pouco, no decurso da conversaoobser- vou como por mera incidncia: &Agora a propsito. J.
.
 chegou a resposta do Kdr.& Tdas as cabeas se voltaram, instan.aneamente, para o lado dale. Tirou ento da algi&eira a carta doKdr e arremessou-a para o meio da mesa. Foi Rna quem se apoderou dela.
 --Porque carga de gua te escreve le a ti, se fomos todos ns a assinar... ? --Escreve-me a mim--respondeu Kelemen com tda a sua arrogancia--porque suponho, deves lembrar-te deque combinmos que seria eu a figurar como remetente. Ou j ests es&uecido disso ?. . .
 14.
.
 2tO A AVENTURA EM BUDAPEST  --1& exacto, n&io te enxofres, j me no lembrava d caso.
 --- L)elxa ver o sobrescrito--interveio &imon--tem-l ainda ern teu poder? Kelemen apresentou o sobrescrito...
 --Julgas que fui eu quem escreveu essa carta... Fu eu talvez quem mandou imprimir sse timbre no alto d flha . . .
 --No te compreendo, meu velho--respondeu Simon estendendo a mo para o scbrescrito--Porque motivopro- curas conflitos, esta noite?... Porque pareces toexcita- do ?. . . & carta , sem dvida, autntica, e levounada menos do que trinta e quatro dias para c chegar,disse le passando-a ao vizinho.

 A-par da carta, o sobrescrito tambm andou de mo e m&o. Quando chegou  de Kempner ste deu-lhe volta sbre voltas. Depois, dirigindo-se a Kelemen: & Se fazes favor, meu caro Kelemen, gos&aria de ficar com os selos. O meu rapaz faz coleco, e estou emcre que Ihe faltam precisamente estes.--Em seguida, se esperar sequer a resposta, Kempner puxou do canivete, abriu-o e deslocou do envelope, com ex&rma prudncia os selos. Foi conseqentemente, o filhinho deKempner, professor do liceu, quem em primeiro lugar tirouproveito do caso Kdr. Logo que Kempner reslituu osobrescrito, Krh tomou a palavra, mergulhando raivosamente, con- forme era seu hbito, o olhar no do interlocutor; --Olha l, Kelemen ?. . . Tu escreveste-lhe em sepa- rado ?. . .
 Kelemen tornou-se escarlate.
 --Idiota !--negou le--porque razo havia eu de Ihe escrever -parte? Que quere isso dizer? --Ouve--replicou Krh--arrastando as palavras com lentido enervante. Porque motivo ests esta noiteto me- lindroso?. . . No te preguntei se Ihe haviassolicitad qualquer favor; quis simplesmente saber se Ihe tinhases crito mais alguma coisa, em separado. Mas visto queafi mas . . .
  AVENTURA EM BUDAPESTE 211  Desdnhoso, Kelemen desviou a vista da do outro, en- quanto Weisz, que, segundo o seu velho costume,tomava sempre o partido de Kelemen, apostrofou, entredentes: "Idiota !& O Dr. Marton, cujo charuto se apagara momentos an- tes, reacendeu-o.
 --Est bem, est bem--disse le a mascar uns fios de tabaco.--Respondeu, e isso  gentil da sua parte.
Manda dizer que  possvel vir a Budapeste. Tambm gentil, embora no seja certo.
 --Mas, afinal de contas--comentou o advogado Szen- de. ..-- gentil da sua parte vir, sim; porm,ningum o convidou a tal. Se tem de vir, que venha; decontrrio que no ponha c o p. . . Asseguro-vos q&e me nodei- tarei de barriga no cho perante le.
 --Tens razo--observou o irnico Weisz--creio que farias uma tristssima flgura deitado no asfalto, debarriga para baixo. E, contta o que di&es, estou persuadidode que, se le vier, ficars muito &atisfeito, e de que, se oformos receber em comisso, querers ser o nosso orador.
 --Tanto mais que--replicou o outro--se eu abrir a bca, no h-de ser para dizer s asneiras.. .
 --Paz, haja paz, meus senhores !. . . sinto-meradiante.
.
 ao verificar que reina uma permanente simpatia entrevo- c8s todos--interveio o mido Ztony . . .--Isso socoi- sas que ainda vm longe... tm tempo de sobra para questionar a seu respeito... Digam-me antes se j ou- viram falar no casamento do Varga ? --O qu&--espantou-se um dles--qual  a viva ricaa com quem vai casar ? .
 Todos os restantes que estavam em torno da mesa er- gueram um cro de chacota e Ztony continuou adiscre- tear sbre um tema assim to bem acolhido.
 Meia-noite dada, comeou a desguarnecer-se a mesa.
 Foi Rna quem, depois de um enorme bocejo, se levan- tou em primeiro lugar. Voltando-se para Kelemen,disse: --Sade e at Maro ! Se at l tiveres notcias doK- dr, fars o favor de me prevenir imediatamente.

 212 A AVENTURA EM BUI&APESl`E  Tambm os outros se aprestaram para a retirada ime- diata. No inctante ltimo, cada qual encontrou aindade sbito, a sua frase a dizer a respeito de Kdr. &Serece- beres mais notcias dle...& "Se elechegasseimprevista- mente sem ncs avisar..." e assim sucessivamente...
 Kelemen dirigiu-se para.casa, na companhis de Simon.
 No meio da avenida, Simon com um gesto largo, atirou para a calada a ponta do cigarro, ainda acesa: --Olha l, Kelemen, tu no crs que se poderia fazer qualquer coisa ? . . .
 --O qu ?--interrogou o outro, fingindo no compre- ender ao passo que o corao se Ihe punha a palpitarcom mais fra.
 --Sim,  claro, com Kdr, se ele viesse a Peste.
(Aten- o !.. . Ele e aqul Simon nuncs haviam sido muito amigos um do outro... Sem posio social bemdefinida...
 difcil seria saber, presenternente, quais os seusmeios de vida. Era vagamente jornalista, colaborador derevistas ci- nematogrficas e de flhas que exploravam oescandalo.
 Apresentava-se bem vestido, freqentava os botequinsno- cturnos, no andava seno de taxi, dava-se ares deter dinheiro. Talvez le jogasse as cartas... AquleSimon podia tornar-se perigoso. Era preciso manter aateno fixa sbre ale.) --Cad vez te compreendo menos.
 com isso 7. . .
 --Evidentemente, realizar qualquer coisa com le.
 --Mas realizar, ento, o qu ?. ..
 --No te faas idiota. . . Sei l !. . . Realizar comle, seja o que fr !. . . Um negcio no qual,necessriamente, no fsse le a comer o dinheiro e donde nos adviesse um lucro certo. Ainda  cedo para a gente se meter na cama... No queres vir da comigo at ao Casino, para tomarmos, num instante, um caf ?  AVENTURA EM BUDAPESTE 213  CAPfl`ULO V  Aladar Szende, advogado em Budapeste, ergueu-se da sua secretria, descavalgou do nariz a luneta demola, lim- pou-a cuidadosa&ente com o leno de sda violeta: --No, meu caro confrade--disse ao advogado da parte contrria, que se encontrava na sua frente, sentadonuma poltrona, ao mesmo tempo que se dava a verificar aniti- dez das lentes olhando atravs delas para o lado dajanela --no h mais nada a fazer. H-de de convir, afinal,meu caro confrade, que o emprstimo de que se trata tinhasido encarado para o prazo de ano e meio e que foiprecisa- mente o seu cliente quem protestou quando Ihe oferecies- tabelecermos imediatamente o contracto por trs ouquatro anos, o que teria sido ento aceite pelo meu cliente.
Esta- mos actualmente na quarta &prorrogao de um ano, e  bem compreensvel que o meu cliente no queira,sobre- tudo em face da penria de dinheiro que reina nestesnos sos dias...
 --Eu no digo. . . Sei bem que  hoie difcilencontrar quem empreste sbre aquela casa. Em compensao, bas- tar uma aragem favorvel dos negcios, ai por trsme- ses, para que a fbrica&por si prpria se ponha ultura de reembolsar o emprstimo. Mas se nos obrigarem aretirar sses sessenta mil pengoes do fundo das operaoescor- rentes, ser para ela um golpe mortal.
 --Lamento, meu caro confrade, mas isso precisamente.
.
 uma coisa com que o meu cliente nada pode ter.
 --E se, para abreviar, eu me visse obrigado adeclarar- -vos desde ja que no dia 5 de Maio prximo futuro omeu cliente no estar em condioec de fazer face liquidao do debito ?. . .

 --Meu caro amigo, procederemos ento contra vs, re- querendo uma penhora, a no ser que...
 O outro soltou um suspiro de alvio. Aqule "a no ser que& custaria caro, sem sombra de dvida. Aquale "ano ser que& mostrava o dente do usurrio, e todavia, portrs,.
.
 21& A AVENTURA EM BUDAPESTE  da frase, podia existir a tbua de &alvao  qual seagar- raria o industrial em risco de afundar-se...
 --Pois bem ! que quere dizer oom isso ? --Penso, de facto, que, antes do m&s de Maio, chegar a Peste um dos meus amigos, um cliente que reside no estrangeiro, homem que possue grande fortuna. Se eucon- seguisse interess-lo pelo prdio de que se trata,seja sob a forma dum emprstimo a longo prazo, seja mesmo sob a da sua aquisio--a preo razovel j se deixaver-- ns poderamos partilhhr a comisso, meu caroconfrade-- disse Szende a rir.
 --Acredita, nesse caso, que... ? --O gue acabo de dizer  sem compromisso algum. A data da chegada do meu cliente nem sequer se encontra ainda fixada. Ele ultimamente comunicou-me que chega- ria durante a Primavera, mas repito-lho, o que acabode dizer a seu respeito n&o passa de simples sugesto,sbre a qual seria prematuro assentar j qualquer acrdo.
  CAPITULO Vl  Ficar-te-ia infinitamente grato, meu caro capito, I disse Simon se qui &sses fazer 'tud o gue est oteu alcance.
 -- Mas, da melhor vontade, meu caro, repito-to; o seu registo criminal est virgem; le no deu sinal de sidu- rante o regime comunista. No Outono de 1919, tirou um passaporte para tda a Europa e, segundo asindicaoes da estao ferro-vira fronteiria, sau do pas porHegyes- halom. Quanto a sse sr. Bayer, em casa de quemdecla- rou ter estabelecido domiclio e com quem, de facto,viveu nos ltim&s tempos da sua estada l, na AvenidaPozsony, o homem morreu h j bastantes anos. Mandei tirarinfo maoes a sse respeito. No concernente  sua estada e  I Tilulo dos i&s&ectores da Policia. na Hun&ria.
  AVENTUR& EM BUDAPESTE 210  Budapeste, nada mais h a fazer... Mas, se o desejas, vou falar a Vitoresco, da legao da Romnia, paraque le ordene um inqurito em Dva, sua terra natal;isto tambm nada te custar. Vitoresco prestar!te- de bom grado sse pequeno servio.
 --Tu s um anjo, meu caro capito, fico-te muito re- conhecido.
 --Espera.. . Deixa-me tirar apontamento de que de- sejas exactamente saber.
 --Tudo o que se puder apurar a respeito dle, dafam- lia, se ainda tem parentes l na terra, o seu nome ea sua situao... em suma, todos os informes que Ihe digam respeito.
 --Compreendo. Inqurito geral. Torna a passar poraqui ou, antes, telefona, vamos l... daqui a duas ou trsse- manas, trs  mais certo, porque estas coisas exigemsem- pre delongas.
 --Combinado, meu caro capito, ento at daqui a trs semanas. Antecipadamente to agradeo. Mas, afinal,quando  que tenho de enviar-te as notas devidas por estainves- tigao 7. . .

 --Ah,  verdade, as notas. . . Quando quiseres, meu velho; se se arranja a coisa, pode ser no sbado noite.
 --Combinado, capito. Passa bem... Apresenta os meus cumprimentos l em casa.
  O esguio Weisz cobriu-se, mal atingiu c limiar daporta; mas quando j ia a sair deu meia volta sbre oscalcanha- res e, de chapu na cabea, tornou ao meio doaposento.
 Uma mulher de cabelos ondulados, tom louro claro,per- manecia perto da janela, na atitude de quem j sesentia maada da prolongada presena do intermedirio dearren- damentos.
 --En&ana-se minha senhora--declarou Weisz--se.
.
 216 A AVENTURA E& BUDAPESTE  supoe poder alugar a sua parte de casa retirando-me odi- reito de opo. Ela alugar-se-ia, pelo contrrio, bemmais fcilmente, se, em vez de me retirar sse direito, asenhora baixasse o preo. Ando agora  procura de uma coisaade- quada a um dos meus clientes, um arquitectoestrangeiro que h-de chegar dentro em pouco a Peste... um milio- nrio. Existe uma parte de casa numa vivenda de Bude, na Avenida Pasart: quatro quartos, vestbulo,varanda Janelas largas como estas; tudo pintadinho de brancoima- culado, cozinha subterranea, casa de banho para opessoal, casa de banho para os patroes, etc&.. . Um mimo...
Est vaga desde h ano e meio, porque fica um pouco longe.
 Sabe o que me disse o proprietrio ?. . . E um talHevesi.
 Disse-me: Meu caro Weisz, que Deus o abenoe: alu- gue-me voc esta parte de casa por quatro milpengoes, tudo compreendido no preo; at mesmo s que seja por ri&s mil, se fr preciso. Voc ter 20 % para si.
Alugue-a pelo prazo de dez anos ou simplesmente para o Vero, contanto que consiga alug-la, pois ver sempre esteses- critos na porta j me implica com os nervos&. Estouem crer que esta parte de casa convir ao meu amigoestran- geiro, que poderia tom-la por um trimestre ou porseis meses, para todo o tempo da sua estada aqui. Parale, uma nota de mil a mais ou a menos no temimportancia.
 Tenha, pois, a bondade de reflectir, minha senhora Como que para se abrigar dste alude de palavras, a dama fora-se encostar  janela.
 --Diga-me c, meu caro senhor Weisz, ~&espondeu ela numa voz hesitante e levemente enrouquecida--no acha que  melhor manter o preo at  chegada dsss senhor estrangeiro ?. . . No poder o senhor, damesma forma, fazer com qus le venha visitar a minha casa,qu& fica, mesmo assim, um pouco menos distante do queessa da tal vivenda ? . . Isto no caso de, porinfelicidade mi- nha, ainda estar vaga quando le chegar. . . Quanto SUk visita.. . seria sempre possivel traz-lo c. Quemnos diZ que no  justamente esta parte de casa que vem aagra- dar-lhe ?. . .

  AVENTURA EM BUDAPESTE 217  CAPITULO VIII  Amman fincou os cotovelos na secretria e tomou a&ca- bea entre as mos, enquanto escutava Suhajda, que,sen- tado em frente dle e com os olhos fixos no solo, Ihefa- ava numa voz arrastada e um pouco spera: --Tu sabes bem, no  para me lamentar que venho qui,  para te pr ao facto das coisas. Foi com omais vivo empenho dste mundo que me recomendaste, mas moveram-se pressoes mais fortes contra mim. Compreen- es bem, no em favor dos outros, mas unicamentecontra mim...  assim mesmo. Impossvel obter um modesto lugar nos Seguros Sociais, que nem sequer meforneceria o po quotidiano, mas apenas algumas cdeas.
 --1& horrvel--disse docemente Amman--sinto-me sinceramente desolado. Mas a tua clientela particular&. . .
 --A minha clientela particular ?...--murmurou Suhajda erguendo o olhar qusi com uma expresso de censura.
 --Se isto assim continua ser-me- impossvel pagar omi- servel &quarto que aluguei. No, Amman, no se trata agora da crise, da misria dos mdicos, trata-seunica e specialmente de mim. A que  devido o triunfo ?. . .
s rotecoes e  reputao, adquiri uma bastantelastim-.
.
 el . . & Amman bocejou como um hipoptamo. "Desculpa-me, as dormi&a noite passada apenas algumas horas porque conferncia no Ministrio acabou bastante tarde Com- reendo a tua situao e lamento-te. Por mais penosoque seja para mim dizer-to, a nica soluo que vejo paraa ua vida  expatriares-te.& Em seguida, acabado o seudis- urso, empertigou-se de sbito na cadeira.
 &Escuta, acrescentou, tenho uma idia. Tu sabes que aqule Tony Kdr vem agora a Peste. E sabes tambm &carreira que le conseguiu,&fazer&l em Africa...
Pois m ! meu velho, sem que eu possa&prometer&falar-lhe em eu favor, porque, digo-te com a mxima franqueza,quero or meu lado manej-lo para um negcio de exportao,.
.
 218 A AVENTURA EM BUDAPESTE  no hesito em dar-te um conselho: acerca-teinteligente- mente dle. No fim de contas em Africa tambm hneces- sidade de mdicos. Quem sabe ? No liceu, davas-te bem com le ?. . . Bem entendido, o que acabo de dizer-tedeve ficar estrictamente entre ns...&  Rna inclinou para trs a cadeira em que estava sen- tado, f-la balanar, estendeu as pernas para os psda mesa e ps-se a esgravatar os dentes: --olha, pap, ainda te lembras do Kdr, que andou comigo no liceu ? . . .
 --Kdr ?. . .--interrogou o ancio--No, como era le ? --O gorduchinho que vinha aqui jogsr tantas vezes ao ping-pong--esclareceu a boa e idosa mama--lembro-mo eu dle muito bem.
 --No, mama, no--rectificou Rna--Primeiramente, l o Kdr no era baixo e gordo, mas alto e magro; emse- gundo lugar, le, na sua qualidade de cristo, nofreqen& tava a nossa casa. Quando muito, podias lembrar-te deo veres nos exames.
 --No, nesse caso  disse a velha dama lembro dle. Que sucedeu ao tal Kdr ?. . .
 --Foi para a &frica do Sul e fez l enorme fortuna.
 --Enorme fortuna ?...--interrompeu o velhote, j ma atento--H a certeza disso?. . . Comea por que no s se tu sabers, meu filho, o que se entende por enormefo tuna . . .
 --Tranqiliza-te o sse respeito, pap. Eu que te di que adquiriu uma enorme fortuna,  porque assim ; e Kdr vir muito brevemente a Peste.
 --Que vem c fazer ? Por causa de negcios 7 --No, uma simples viagem de recreio. O seu mai prazer consistir em verificar que, presentemente,est t&  AVENTURA EM BUDAPESTE 219  gente aqui na penria, ao passo que le, l naquelaster as, fz fortuna.

 O ancio, que, alis, se havia retirado do mundo dos egcios j uns anos antes, acariciou com o ndex da ao direita a sua barbicha branca, gesto que, na suapes- oa, era sinal de meditao comercial. "()uve,Ladislau, isse le, aps breve reflexo. Tenho uma idia. Se oteu migo , na verdade, um homern to rico como dizes...
 alvez ns Ihe pudssemos impingir o servio deporcelana e Herend, de vinte e quatro peas, que te carrega nas ostas desde a falncia do conde Stambach... Se le,ver-  , adeiramente, tem tanto dinheiro como isso...& Ladislau Rna tirou o palito da bca, quebrou-o entreos edos e atirou-o para cima da toalha.
 --Nem sequer pensas que, querendo le porcelanas fi- as, no precisar de vir compr-las a Peste ?. . . Emtodo caso... pode-se fazer uma tentativa...
  CAPI&ULO X  Na sala denominada "Sala dos Conselheiros Municipais",  o Distrito Burgus, o advogado Marton encontrava-seno eio de um grupo bastante numeroso. Marton ainda no ra membro do Conselho Municipal, mas, para aseleioes.
.
 ximas, o seu nome vinha  testa da lista doscandida- . O advogado possua uma bela voz de bartono.
 "...Estou concorde, meus senhores, estou concorde.
 ingum  profeta no seu pas. No obstante,  doena picamente hngara no reconhecer os talentos da nossa rpria terra, ou, se por acaso os reconhecemos, noIhes nder as homenagens que merecem. Acode-me isto ao spirito perante o facto de um dos meus amigos, antigo marada de liceu, ter partido daqui h anos, repelidopor dos, no levando consigo, na sua pobre trouxinha,mais o que o seu talento e inabalvel vontade de fazerface a dos os obstculos. E, com essa indomvel vontade, le oltou costas  nossa bela mas ingrata cidade de Buda- .
.
 )20 A AVENTURA EM BUDAPEST  peste. Eis que, decorridos longos anos, tendoascendidoo cume da sua carreira, le pega na pena e me escrev nos seguintes trmos: "Sinto a nostalgia da ptria hngara, de Budapeste,dos me&s antigos amigos. No vos quero mal algum; se pro- curr o vosso seio, encontrarei acolhimento afectuoso?...
 &Quem, entre vs, meus senhores, conhece o nome d Kdar?... Ningum, no  verdade?... E, todavia, ido gritar ste nome no importa em que metrpole daEuropa, da A&ica ou da Amrica, e imediatamente centenas ecen- tenas de pessoas se mostraro atentas. "O clebrearquite- cto hngaro&, diro elas Se, depois disto, ns notiver- mos fra bastante para conservar connosco, daquipara o futuro, um homem assim, em proveito da nossa cultura, da nossa economia, da nossa colectividade, ou seja,indi- rectamente, em proveito de cada um de ns,--ento,& meus senhores, s me restar deixar cair o fecho nocho e declarar: "N&o somos merecedores de que...
  CAPfTULO Xl  Desta maneira, desde que, ns sala de espera dum den- tista, certa gravura fra arrancada a um magazine,Ant- nio Kdr tornara-se uma autntica figura lendria.

Dima- nada duma mesa de caf e impelida pelas vibraoesetreas da imaginao, uma onda tinha ido atingir milhares de receptores da cobia. A princpio, apenas uma dziade pessoas se pusera ao corrente do caso; depois, sobpro- messa de sigilo, essas doze haviam iniciado outrasdoze. . .
 e assim sucessivamente. Os crebros sentiam-seexcitados, apuravam-se os ouvidos, surpreendiam-se olhosdilatados, abriam-se muitas mos. Quando entrou a Pri&avera, a cidade,  laia de arena e graas a mos cuidadosas,via-so lirnpa dos detritos da existncia cotidiana; psinvisveis destramente manejadas recamavaM-na da areia loira, ci de oiro, das idias. Cada qual esforava-se porparec& mais importante e maior do que era de facto, a-fim d-   AVENTURA EM BUDAPES&E 2&1  srrancar um mais avantajado pedao da prsa comum.
Acabea de cada um punha-se antecipadamente a andar  roda por causa da vertigem em que sse mesmo estava resolvido a fazer voltear a cabea de certosemelhante seu.
 Imersas na mistia, as imaginaoes aementes farejavama mina de oiro; os apetites desenfreados saboreavam dean- temo o fino a&sado que Ihes iria cair debaixo dodente; de arco preparado para desfechar, caadoresafincavam-se na espera do Pssaro Azul. Amadores e profissionais,ri- cos e po&res, falhados e ar r i&ist&s aplicavamigualmente o ouvido, perscrutando o cu primaveril... "Escuta...
 talvez agora... no o ouves?...& Por este mesmo tempo, j em Londres, Antnio Kdr instalara-se numa ds salas da poderosa emprsa,diante da sua mquina de escrever porttil, a redigir umacarta para Budapeste.
 - aMeU caro Kelemen: De harmonia com o que j dePrto- -Isabel te mandei dizer, podeIemos efectivamentefazer a via- gem a Budapesle. Chegarei a, com minha mulher nosfins de Maio ou princpios de Junho, depois de passarmospor Paris. Se isto te no fsse sobremaneiramenteincmodo, far-me-ias o obsquio de mandar reservar, em seguida recepo de um telegrama meu avisando da nossapartida, dois quartos com casas de banho privativas, no "Ritz".
No caso de te no ser possvel isto, peo-te que medesculpes.
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 o incmodo e que me previnas do facto, numa spalavra que seja, para a minha direco em Londres Adeus, at breve... Sempre muito cordialmente, Kdr.
  CAPITULO Xll  Foi uma verdadeira sorte a carta ter chegado salguns dias depois do ms de Abril. Kelemen no disse nemuma nem duas. Decidiu imediatamente no prevenir os "com- panheiros& da vinda desta segunda carta. Teria tempodisso quando chegasse o telegrama de Kdr. No se tornava necessrio fala. demasiadamente no caso. . . J ameia d- .
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 &2& A AVENTURA EM BUDAPEST  zia de palavras que, em tempos, trocara uma noite comSmon tinha bastado para o encher de inquietao. "Existem pois, outros mais, dizia de si para si, que, como eu,pen sam, que se poderia tirar pa}tida da vinda dle. Eirritante Tratemos de pr sur'dina no instrumento.& Por conseqncia, ficou verdadeiramente aterradoquand um domingo de manha, encontrou, na avenida Andrassy Vavrinec, o qual se sau com esta: --ouvi dizer que Kdr vem a Peste.

 --Sim--respondeu le aborrecido-- provvel ma no  ainda certo. Mas a quem  que tu ouviste falarnisso -- assaz singular--replicou o outro--que eu na tenha sabido directsmente, da bca de voces. Foi meupa quem colheu a notcia do cunhado de Amman.  dest forma que as notcias interessantes tm de chegar ome conhecimento ?...
 "Fala-se ento no caso--pensou Kelemen; no  neces srio, por conseguinte, que eu mesmo contribua paraavo lumar a publicidade em volta dle.& No soprou, pois,um palavra sequer os "companheiros", mas tratou derespon der, sem demora, a Kdr: &Sinto-me satisfeitssimo com a vossa prxima chegada Como  natural, o assunto dos quartos ficarresolvido d melhor maneira possvela& Enquanto esperava, ia suportando aquela atroz Prim vera. Vivia uma dupla existncia: a que levava noescr trio e no caf, lenta e miservel; e a outra quedesabro chava na sua prpria casa, pela noite dentro. Malextingui o luz, olhava em frente, no escuro, sempre a meditare Kdr e em Prto-Isabel. Meditava em tal com a exclus vidade duma idia fi&a, com a obstinao de um crebt prestes a sofrer desarranjo. "H-de dar bom resultado!.
 pensava le; e no pensava se no nisso. Contudo,havi momentos em que o seu eu cnico, a sua personalidad tipicamente pestense, observando-se de fora, a siprpria a advertia atravs dum esgar irnico: "Forte idiotice, am nha !... Entusiasmo-me com ste negcio como se o xi dle dependesse apenas de mim&. Mas estes rarosinstant A AVENTURA EM BUDAPESTE 223  cidos eram varridos pelo devaneio em que serefugiara usi sem transio, aps a realidade por demaisterra-a- terra dos anos anteriores, excessivamente cheia dessaluta elo dinheiro, trasbordava de cuidados materiais e queIhe ao dera seno dissabores. Repetia a si mesmo, com osor- so abstracto, luntico, venturoso e extasiado dosdementes: Ha-de dar bom resultado. . . hei-de ter sorte. . . aminha ra de sorte comea agora... J comeou quando repareina to .. E continuou quando, em Janeiro, no me despedi- am do escritrio. . . quando esta lLima carta chegous epois da renio do caf, no me vendo eu obrigado afalar ela. Sorte foi tambm poder arranjar as coisas demodo gozar as minhas frias na poca mais opvrtuna...& Transcorriam os dias. Um Maio radioso inundava a ci- ade de luz e de alegria, Kelemen vivia, de olhosfecha- os, na ebriedade antecipada dos mil projectos e dasmil speranas da sua futura existncia. "H-de dar bom re- ultado.& Nada mais tinha para le importancia. Um s- ado  noite, jantando em casa da sua irma Carlota, amae z reparo no seu ar di&trado e longnquo: --Andrzinho, que tens ?. . . Porque te apresentas, esde h tempos, to preocupado e to concentrado ?. .
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 s coisas no teu escritrio vo mal ? --No, mama--tranquilizou-a le.
 --Anda mulher no caso ?. . .--preguntou Carlota, in-.
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 scretamente.
 --No, no se trata de mulheres--respondel& olhando xamente a sua irma mais nova--No minha coelhinha; ata-se mas  dum negcio de grande calibre. . .
 --Valha-te Deus !--exclamou a velha mama--per- ste o juzo, Andr !. . .

 A isto no retorquiu, vindo-lhe  idia que se estavaa e que, da a oito dias, haveria renio dos"companhei- s" no caf. Mas, depois, chegaria o final de Maio e a guir viria o comeo de Junho...
 Que bom seri3 esperar... num vasto prado luminoso e mtico... estar debaixo do cu infinito e assim espe- por sse dia em que...
 224 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Em 3 de Junho recebeu de Paris o seguinte telegrama: Chegamos 5 noite Oriente-Fxpresso, peo r eset &arquat tos. K&r.
 Na noite de 4, os "companheiros)&, rrevenidos na m nha dsse mesmo dia, permaneceram juntos alguns minu tos apenas Ztony props, com aquiescncia tcita ein quieta &e Kelemen e a-fim de no assustar osrecm-vir dos, que s Kelemen se dirigisse ao seu encontro, naes tao de caminho de ferro, e os acompanhasse ao hot em que Ihes estavsm reservados aposentos. Em contr& posio, a maioria aceitou a moo de Simon, segund,o qual, no se revestindo a recepo de carcteroficial, t dos quantos quisessem nela participar teriam plenalibe dade de se apresentar na gare.
 Kelemen engoliu a custo a sa natural,& Finalmente, combinou-se que todos os quequi sessem ir esperar o combio cuja chegada era ponco ma ou menos  meia-noite, se reniriam pelas on&e horasn caf, donde partiriam para l em grupo.
  Pelas-onze horas, j se deixa ver que se encontrava todos no caf,  mesa habitual. Rna apresentava-sev& tido com cata de fantasia e jaqueto prto.
Reparando olhar irnico dum dos compa&lheiros explicou que vin do teatro.
 Conversaram pouco, como se, nessa noite, o elo q os ligava se tivesse quebrado. Esse elo,constituam-no ironia, a mofa, a incredulidade peculiarmentepestenses, quais em conjunto formavam uma espcle de teia de r~ nha dentro da qual se sentiam todos presos. O seu cil mo abrandava perante a carta vinda de Prto-Isabe., papel coberto de caracteres elegantes, grave edistinto, A AVENTURA EM BUDAPESTE 2&5  perante o telegrama de Paris, aquilo no era bluffpoeira nos olhos... Era coisa sria e que devia ser levadaem conta, mesmo que nada dali adviesse. E, afinal, quepo- dia advir dali ?. . . Nada, naturalmente. Kdr, omilion- rio, chegaria, distrair-se-ia um pouco e voltaria apartir.
 Quando muito, conseguiriam, entrementes colar-se asse homem de destino fantstico para colhr tambm um pouco da poalha de oiro de que le apareciarevestido.
 Mas, para isso, necessrio era terem f no mesmodestino.
 E tinham-na, acreditavam nesse destino. No se expan- diam em palavras, para se no denunciarem quanto ao abalo sofrido, naquele momento, no seu cepticismo depo- bres dias. Todavia, no meio dessa silenciosa tensode esJlrito, sabiam todos bem que, dentro em breve, iamen- contrar-se face a face com o Sucesso, essa coisaextror- dinria e desconhecida que nunca tinham deixado dein- vejar e de cobiar. Espiavam-se uns os outros,conster- nados e um tanto envergonhados: era aquilo possvel? "Ento eu, um rapaz de Peste, esperto, todo comovido que. . .&- E todos tiveram de confessar a siprprios, em segrdo muito ntimo, estupefactos e envergonhados,que criam nesse milagre, nesse fenmeno... se bem que se no tratasse seno de um Tony Kdr. . . do Pinguim.
 Vinte minutos antes da chegada do combio, estavam j no cais. A estao ViQ-Se qusi vazia: aqulecombio.

 internacional devia parar apenas meia-hora sob o seu alpendre envidraado e, provvelmente, poucas pessoas desceriam de combio to caro. Mediram a passoslargos e vezes sem conto, o cais, cada qual esforando-sepor ostrar um ar calrr.o e indiferente. Mas o seuverdadeiro.
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 tado de alma traduzia-se nos cigarros: havia-os quese &nsumiam ao fim de poucos segundos, aspirados com ervosismo; outros distraidamente esquecidos no meioda editao, apagavarn-se entre dois dedos trmulos.
 De sbito, uma comoo nervosa os trespassou a todos: o longe, para l da abertu1a da &are, enxergaram-seos ois olhos de fogo da locomotiva e logo se viu tambm a grinalda de fascas crepitando por cima da chamin, 1 5.
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 & A AVF.NTIJRA EM BUDAPESTE  grossa como o cachao dum touro, da mquina. O Orien- te-Expresso entrou com pontualidade cronomtrica nagare de Oeste.
 Os olhos arregalados fitaram a srie de janelasinteira- mente escuras das carruagens que desfilavam, comlenti- do, diante dles. Foi Kelemen o primeiro a descobrirK- dr, que assumava  portinhola, j aberta para trs,da car- ruagem-directa para Bucareste.
 "Ei-lo !&--bradou le, o brao estendido.
 No mesmo instante, Szende desatou a berrar: "H, Kdr, salv ! Aqui estamos !&-  Sirnon, sse, chamou um carregador, e depois todo ogrupo se ps a acompanhar a carruagem. Parado o comb& Kdr desceu e encontrou-se face a face com t&1a aa&m- panhia Mudos, encararam-se um ir.stante, aps o que Kdr rompeu o silncio: --Boa-noite! Vejo que foi uma delegao completa que veio ao meu encontro;  verdadeiramente gentil t& rem-se incomod&do tanto por minha causa. A falar ve& dade, eu no esperava isto.--o dizer tal notava-sena sua voz como que uma leve pesquisa de palavras e u& leve sotaque estrangeiro, dificilmente perceptvel.
 Despiu a luva da mo direita.
 Neste momento Kelemen, em ponto de ebulio, avano para le.
 --S benyindo, Kdr. Reconheces-me?. . . Sou o Ke lemen. Viemos todos ao teu encontro e sentimo-,nosfe" zes por te vermos de novo nesta nossa terra.
 --1& certo !...--confirmou Szende rudosamente-- benvindo I bravo ! Isto causa-me verdadeiro prazer !
. . .
 ao dizer tal, tambm le avanou para Kdr estendend -Ihe a mo. Todos imitaram ento o seu exemplo, tod estenderam a mo ao mesmo tempo e aper&aram, um um, a dle, que a mantinha o mais possvel afastada corpo, assim como quem pretende defender-se. No flrr.
 todos aqules apertos de mo, Kdr disse, voltando para a portinhola da carruagem:-  --Desculpem-me, vou ajudar minha mulher a de&c&  AVENTURA EM BUDAPES&E 227  Esta pequena pauss fra oportuna, porque basta um lho pestense um minuto apenas para esquadrinhar at moela uma pessoa estranha.
 A primeira impresso colhida foi a de que Kdr era alto, bem mais alto do que qualquer de entre lestodos.

 Tinhn os ombros largos, o peito saliente; apresentavaa epiderme do roslo como se acabasse de receber a aco dos raios duma lampada de quarzo: era uma tez rude, bronzeada pelo sol e pelo vento, uma verdadeira tezin- gls&.
 Mas j novo espectculo se oferecia os seus olhares.
 Do ltimo estribo, a senhora de Kdsr saltou emterra.
 Um vestido de viagem cinzento, completado por umabina e meias cinzentas, sapatos Richelieu cinzentos, desaltos baixos, um leno de sda, tambm cinzento, opescoo, luvas da mesma cr. Da mo pendia-lhe um estojo de naJante, em forma de maleta, que era igualrnentecinzen- to. No meio dsse cinzento todo, seus olhos negrosbri- &havam com singular esplendor, fazendo contraste como rosto moreno.
 --&o os meus antigos camaradas de licsu--disse K- dar indicando o grupo, e nhgum deu por que lefalava.
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 em hngaro. Nisto Kempner avanou dois passos, a fim de pespegar o cumprimento em lngua inglsa que deco- rara merc duma aplicao verdadeiramenteprofessoral, sob a direco dum colega seu, mestre de francs e de ingls. &adou os recm-chegados nestes trmos: --AIadam ! More than foZ&rteen &eans ha&e passed Mas no pde continuar porque Mrs. Kdr, numa voz um pouco fatigada mas em que o acento estrangeiro se fazia notar ainda menos do que na fala do marido,pediu: --Fale em hngaro, por favor, eu tambm sou hngara.
 Foi uma surprsa que estava bem longe de ser espe- rada. Kempner, assim projectado para fora do seutexto, cou-se a olh-la, de bca aberta; e todo o grupomostrou &na atitude to consternada, to ridiculamentesurpreen- da, que, s-pesar de tda a sua natural fadiga, dosem- uxoes, do incmodo, da poeira e da fuligem duma via- .
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 2 '8 A AVENTURA EM BUDAPESTE  gem de trinta horas, ela desatou a rir as gargalhadasfres- cas e sonoras: --&em sequer punham isto na vossa imaginao, no  verdade?... Pois tambm eu sou hngara.
 Foi Simon quem, primeiro, recobrou a serenidade: --Tanto melhor ! Bravo !--exclamou. E esta circuns- tancia provocou uma pequena ovao tanto maisoportuna quanto  certo que o intermdio de Kempner frapertur- bar um tudo nada o primitivo programa da recepo.
 Entrementes, Kelemen julgou chegado o momento de se destacar do grupo e, dirigindo-se a Kdr,declrou em voz alta: --Magnfico, tudo isto; crein porm que, aps tolonga viagem, basta por hoje. Mandei-lhes reservar quartosno "Ritz"; o nlais acertado seria a gente deixar-vosagora, e que apenas um de ns vos acompanhasse at l.
 --Sim,  isso que convm, apressou-se a acrescentar a senhora de Kdr; eStJU& efectivamente, um poucofati- gada.
 -&Fsse porque o olhar brilhante de Kelemen Iho tives sugerido, fsse por efeito da correspondncia trocadaante- riormente entre ambos, Kdr definiu sem demora sse desejo: --Por que havemos de dar-lhes mais sse incmodo,& se ns temos o automvel ?. . . mas se tu, Kelemen,que- res ter a amabilidade de acompanh&r-nos... Em todo e qualquer caso, vamos !...
 Dirigiram-se para a sada. ao absndonarem o trio,chP- gavam a os carregadores com as bagagens: duas grand malas-armrios e seis maletas de diversas dimensoes.

 --Observa bem isto--disse Simon a Marton, tocand -Ihe com o cotovelo.-- alguma coisa, hein !. . .
 A senhora de Kdr subiu para um taxi, enquanto K lemen mandava pr as bagagens em dois carros mai Kdr apertou a mo de cada um dos seus amigos, dize do-lhes: --Grande gentileza a vossa, vindo esperar-me...
 rei muito pra&er, como  natural, em tornar a ver-v  AVENTURA EM BUDAPESTE 229  mais cedo possvel. Talvez o melhor seja eu combinarisso com Kelemen, que depois vos informar.
 --Muito bem, Kdr.
 --Combinado, boa noite.
 --Boa noite !. . . Adeus.
 --Mais uma vez, sentimo-nos muito felizes, sde ben- vindos.
 Acompanharam Kdr at o carro e, enquanto le se acomodava l dentro, despediram-se tambm da senhora de Kdr. J Kelemen mandara seguir os outros doiscar- ros.
 Subiu en&o, por sua vez, para o taxi, sentando-se no banco de dobradia, em frente do casal.
 --Psrtamos--insistiu a senhora de Kdr, dirigindo gestos afveis a todos. E o carro ps-se emandamento.
 --Para o "Ritz&, passando pela avenida Andrssy-- indicou Kelemen. Depois, dirigindo-se a Kdr: --Permite-me que te ponha ao corrente do que fiz; mandei reservar dois belos quartos com casa de banho comum, uma saletazinha de entrada e varanda sbre o Danbio.  de quarenta e oito pangoes a diria.
 --Quarenta e oito pengoes--observou Kdr--menos de duas libras; perfeitamente, agradeo-te...
 Os &companheiros& dirigiram-se lentamente para a ave- nida central. Na noite serena de princpio de vero,debaixo do cu negro e tpido, as mirades de luzes da cidadecin- tilavam em concorrncia com as estrlas que, no alto,bri- Ih,avam em pleno esplendor. Batidas pelas luzes, assom- bras indecisas dles,  semelhana de tteres,imobilizaram- -se uns instantes, para as despedidas mtuas. E emseguida dispersaram.
  Kelemen, compenetrado do seu papel de guia zeloso, entreabriu a porta dos quartos e meteu dentro acabea, como para se as&egurar, num ltimo olhar, de queestava tudo em ordem. Encontrava-se tudo o melhor possvel.
 '30 A AVE.&TURA EM BUDAPE jTE  Do lado do elevador, acabavarn de trszer as bagagens.
 Estendeu ento a mo a Kdr.
 --Boa-noite, meu caro. Est pois combinado, telefo- nar-te-ei amanha depois do meio-dia. Evidentemente,se tivesses necessidade de mim antes.. . tens a minhadirec- o e o nmero do meu telefone, no  verdade ?. . .
En- to, adeus !--E abalou.
 Puxou o chapu para os olhos, ao descer a escada. At ali, tudo ia  medida dos seus desejos. ao passardiante do porteiro, aste sadou-o num rasgado cumprimento.
Ke- lemen correspondeu levando o ndex ao chapu.

 Entretanto, Kdr e a mulher iam assomar-se ao balco do quarto, sobranceiro ao Corso ' nocturno. Rentes gua, havia luzes  beira do Danbio. A cidadela, obaluarte e a igreja lamejavam batidos pelo claro teatral dosreflec- tores. At s vizinhanas do monte de Bude cintilavam inmeras luzes amareladas. Num stio distante, paros lados da ponte, uma luz verde. ao longo do Corso, aper- der de vista, um renque espaventoso de luzes. No riodes- lizava, sem rumor, um barco iluminado. E haviaestrlas no firmamento. Ouvia-se ao longe o ronco dos motores dos automveis e, vindo das guas, um aulido claro,grave e prolongado de sereia percutiu o ar. Depois tudo seca- lou. Mas este silncio foi interrompido pela msicadiscreta e aveludada dum ja&-band, que escorria do terraosito no alto do hotel. ao ritmo do tambor e do pianocasava- -se o som doce e, todavia, penetrante dum saxofone,que parecia rir e chorar ao mesmo tempo.
 -- belo--disse ela-- na verdade muito belo.
 --Sim  belo--concordou ale--Budapeste  uma bela cidade.
 --Faz lembrar um cenrio de teatro--observou He- lena.--Calaram-se ambos, uns instantes. Depois elaacres- centou: Que serenidade !
  ' Pas&eio marginal do Danubio muito freqentado.
  AVE&TURA EM BUDAPE;S rE  --Sim, depois d& estarmos em Paris. . . pode chamar- -se a isto, aqui, um bairro calmo.
 --A-pesar-de tudo, a falar verdade, torna-se bastante singular que Budapeste seja para mim. . . uma cidadees- `trangeira.
 --Oh ! notou Kdr, h j tanto tempo. . . hoje, at para mim ela  tambm estrangeira.
 Fez-se silncio. Durante momenEos, arderam ainda dois cigarros no balco do segundo andar... Mas pouco de- pois passou a haver, sbre a margem do Danbio, menos dois claroezinhos vermelhos e duas sombras humanas a animar a noite.
 & &VENTUR&  As portas de dois batentes, quando abertas de todopara trs, formavam estreito corredor atravs do Isvabo,ligan- do os dois compartimentos-camas. Apenas os leitos ds parte de baixo se encontram descobertos. Um dos com- partimentos est imerso em escurido, ao passo que a lampada de cabeceira se conserva acesa no outro Reina o silncio, sse silncio especifico dos combios, oqua acompanha com a sua tranqila monotonia o ritmo da& rdas.. . um, dois, trs, quatro. . . A rnaneira deum bon chefe de orque.stra, as rodas sabem marcar o compassod& tdas as msicas que, com o jeito de obsesso, se no desenvolvem n(J crebro: elas marcam um diapaso su& ceptvel de variar livre e imprevistamente... um,dois trs, quatro. . . Ora se trata de uma melodia rpidaa qua tro tempos, ora tem cadncia de valsa, ora  uma ria dois tempos, ora, por fim, evoca uma marcha fnebre.
M no se fica por aqui, pois logo volta a variarnovament As vezes, o rail solta um grito estridente, como de d aguda, CUj8 sonoridade se prolonga. Isto mesmo, por  AVENrURA EM BUDAPESTE 233  se pode muito bem fundir na harmonia geral. .. um,dois, trs, quatro...
 No compartimento iluminado ouve-se de quando em quando o trmulo dum jornal; d prazer ouvir istopor- que o ouvido se afez ao rudo das rodas. No espaorectan- gular, da porta a luz toms um aspecto estranho,velado e tranqilo; aqui e acol, adquire reflexos, parecesbre os puxadores de cobre mais intensa;  uma luz que Ihefaz lembrar o sabor acre dos frutos selvagens que, certavez, quando era menino, o tinham adoentado. O estoreescuro no veda por completo a janela; a luz das janelas dum combio que corre em sentido contrrio acaba dedarde- jar, por baixo do estore e para dentro docompartimento, as suas flechas doiradas.

 Ouve-se de novo o frmito das folhas dobradas, o bo- to da electricidade despede um rudo sco, aescurido torna-se completa. De sbito, ele sente, dominando oodor prprio do combio, aqule odor da essncia incolor efres- ca que ambos tinham adquirido dias antes no centro da cidade. Passfldos um instante, h um novo rudo scoe reacsnde-se a electricidade. Algum se mexe nocompar- timento do lado.
 --Que  isso, querida ?. . .--diz le.--Porque no tentas dormir?...
 --Fazes favor meu querido... Est aqui muito calor e no consigo flbrir o ventilador. Querers ajudar-me?. . .
 i&:le afasta a leve colcha azul, desce do leito,passa ao outro compartimento, sobe cautelosamente para cima da guarda lateral do leito, d volta ao espio de cobredo ven- tilador; uma lufada de ar fresco penetra no comparti- mento.
 --Obrigada, eu no sabia que era&e&ciso dar volta, supunha que se devia puxar para b&a x&.
 --Bem, meu tesouro, agora trata&d dormir. Boa-noite.
 --Boa-noite... Olha, a que horas chegaremos a Viena ? --L para a madrugada--respondeu le.--Muito ce- dinho. Nem teremos sequer necessidade de nosIsvantar- mos.
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 '3& A AVENTUR & E&l BUDAPES rE  --E quando estaremos em Brest ? --I)epois de amanha, j tarde.
 --Bem, ento boa-noite.
 --Boa-noite.
 Em seguida, le sentou-se na borda aa sua cama. A IUZ apagou-se, no outro compartimento. Estendeu-se ocom- prido. &Quero dormir, dormirei&, disse de si para si.
Reina o silencio... smente as rodas marcam o compasso da msica dos eixos: um, dois, trs, quatro...
  CAP&TULO II  --Um-dois-trs-quatro. . . Y can & gi&e rou any&h&n& but love um-dois-trs-quatro--Bab&--dois-trs-quatro.
 Ums gentil americanazinha acabara de cantar estacano com a sua vozita um pouco enrouquecida, verdadeiravoz de cinema falado. O ja& tambm era muito bom, certa- mente; contudo, o do "Savoy& era melhor... Mas estes msicos da mesma forma tocavam todas as novidades e muitssimo bem. A melodia de agora no era, a bem di- zer, novinha em folha. J a haviam tocado no ano pas- sado, o que significava uma persistncia sobremodolonga.
 Em suma, na ilha Margarida o ja&-barld era e&celente.
 Estava-se no como, na noite do terceiro ou doquarto dia, no decorrer do seu primeiro jantar com os&compa- nheiros&. Kelemen tinha organizado as coisas muitodesu sadamente. Dissera-lhe Kdr prviamente "todos sero, como  natural, meus convidados& e, no obstanteisto, no fim do jantar desataram todos a puxar dascarteiras e a protestar: "Agradecemos-te mas, na verdade, nopode- mos aceitar... No foi para isso que nos renimos..

.& Ztony, sse louro plcido, foi o que ps maisteimosia nos protestos. &Extravagantes criaturas !& As vezes,pare- cia-lhe reconhec-los a todos, mas logo uma palavra,um timbre de voz, um s gesto bastavam para fazer dlescria- turas completamente estranhas. "Catorze anos"... Eram todos estranhos, sse Rna, sse Szende... Todos. N&-   AVENTIJRA E&1 &UDAPES&E &3;:,  turalmente, para os outros, o estranho era le,Kdr...E aquela tremenda gaffe logo no p&incpio, quando Mar- ton--tambm sse, que rosto o seu, to diferente dou- trora ! . . .--quando Marton comeara a contar queanti- gas firmas, noutros tempos lorescentes, seencontravam agora  beira da runa e quando, olhando de soslaio,de- clarara: aPerdo, Kdr, isto no pode interessar-te,fale- mos de outra coisa..." Tda a companhia se calara en- to, subitamente. "Partiremos daqui por oito dias,ser tempo mais que suficiente para podermos ver tudo&,dis- sera le consigo mesmo naquele momento. "Escuta&, pe- diu-lhe lla. I I can't &ive you&... Foi com estacano que o ja& comeou o concerto. Ila divertia-se emBuda- peste, achava a cidade e a ilha muito bonitas... E,entre os "companheiros&, era Amman quem gozava da sua preferncia. Amman, um moo de figura imponente e de maneiras distintas, vestia nessa noite smoking, era onico de smoking, alm de Kelemen e de Kdr: tambm ste pormenor era desagradvel; os outros sentiam-se, sem som&ra de dvida> constrangidos dentro dos seustrajos de passeio. Amman convidou Ila para danar e Kelsmen preguntou-lhe se, depois dos outros se retirarem, note- riam vontade de passar ao bar para tomarem qualquer coisa. "De bom grado", respondeu Kdr, se bem que.
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 no tivesse nenhuma vontade disso. Os outros haviam decerto notado que aqules que vestiam smoking sepre- paravam para ir, juntos, a alg;lma parte... Abalaramto- dos, ambos Weisz, Szende e os restantes. Foidesagrad- vel No fim de contas, que importava ? ! nada ameia-noite, transferiram-se para b Bar. A americanazinha tambm para ali vel&o: sentou-se ao p do tocador de bombo,can- tou, danou, deslizou por entre as mesas, fz os seusvol- teios habituais.
 Era uma bonita criatura, muito gentil. A sala eraigual- mente engraada, se bem que vasta em demasia para dar  t lla, deminu&tivo familiar de Helen&, a es&sa de&dr.
 236 A AVENTURA EM BUDAPES&E  a nota de intimidade dum verdadeiro bar; todavia,agr&- dava a Ila. &al esta tinha novamente comeado adanar com Amman, aconteceu entrarem na sala quatro ou cinco rapazes e trs raparigas. Pararam junto da porta,procuran- do com os olhos um lugar: uma das mulheres ostentava um vestido verde claro, um vestido leve de soire, um tudo nada pretensioso, que se no podia dizer demaravi- lhosa elegancia; dava a impresso de ter sidoarranjado a trouxe-mouxe, apenas na idia de conseguir umvestido le&e, bonito. Logo ao entrar na sala a raparigaatrau a ateno de tda a gente, porque a sua cabeaapresenta- va-se adornada de enorme e pesada coroa de cabelosru- vos, de risca ao meio, cabelos qusi vermelhos e quepa- reciam chamejar. Despenhavam-se-lhe sbre as orelhas,em duas espssas conchas que se ligavam por baixo danuca.
 Causaria efectivamente pena ver cortar essa cabeleiramagn- fica. O olhar da mulher correu tdas as mesas e,quando atingiu aquela em que &stavam Kdr e a companhia,ela ergueu o brao direito acenando com a mo enluvada de brai1co: &OIha, proferiu Kelemen,  a minhairmazi;lha!
 No percebo nada..." M&s j, sem detena e em passo desembaraado por entre as Gutras mesas, sentindosbre si os fogos cruzados dos olhares dos convivas, arapariga se dirigia para a mesa dles. "Viva, Andr !",exclamou.

 A voz parecia, ao mesmo tempo, estranha e familiar, eo seu rosto tambm parecia familiar, sse rosto de umabran- cura de leite, rematado pelos c&belos rui&ros e emque luziam uns olhos bizarros, de um tom entre verde e azul.
"Co&n que ento tu freqentas stios to chiques?. . .--Eupo- dia fazer-te a mesma pregunta, letorquiu Kelemen, quo denunciava certo embarao. No percebo, Yoli, comquem tu vens.. .&--Esto alm, respondeu ela indicando com um dedo o grupo a distancia; vim com aqules rapazeSO raparigss.& Depois, porque avistou uma mesa livre,fz de novo sinal os do grupo, gritando para o lado da porU "Otto..." e mostrando-lhes os lugares vagos. Kdr l vantsra-se e esboara a inteno de se apresentar a prprio  rapariga. aPosso ser eu a fazer asapresentaoo  AVE;NTURA E& BUDAPESTE 237  disse de sbito Kelemen: O meu amigo Antnio Kdr, tu no te lembras dle, eras ento ainda muitopequeni- na... a minha irma Yoli.& --O senhor  o antigo condiscpulo de Andr, que che- gou agora do estrangeiro, no  verdade ? . . . Jouvi fal&r em si. E a sua espsa tambm aqui est ?. . .
 --Sim--apressou-se a responder Kelemen, em vez do amigo.--Mais logo, se tornares a passar por aqui,apre- sentar-te-ei  senhora.
 Kdr mar:tinha-se de p perante ela.
 --J sabia ento quem eu era, j sabia da minha exis- tencia?--preguntou Kdr, voltando-se bruscamentepara a rapariga e encarando-a.
 --Pois est claro que sim; Andr disse-nos um dia que o senhor vinha de visita a Peste. Quais so as sunsimpres- soes de Peste?...
 Ele esboou um s&rriso.
 --Agradeo lhe o- interesse. Peste , sem dvida, uma belssima cidade. Desenvolveu-se muito desde que...
 --Diga-me, o senhor dana?...--preguntou ela en- to, desviando ao de leve a cabea para o lado.
 --Sim--respondeu Kdr a rir (&que bonita rapariga !& pensou;--posso pedir-lhe que dance comigo?.
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 --Muito obrigada, mas preciso primeiramente de ir ter com&os meus companheiros; logo mais, se quiser podeir  nossa mesa convidar-me.
 --Ah ! isso no--observou Kelemen en tom severo;-- eu nem sequer sei quem so as pessoas com quem es- ts... Em compensao, se quiseres sentar-te  nossamesa daqui a bocado. . . no caso de tu dares licena,claro est --rematou le, voltando-se para Kdr.
 &:ste llimo ps-se a rir: --Porque s to severo para tua irma,  tirano ?. .
.-- e, dirigindo-se a Yoli:--Vem daqui a bocadinho, no  assim ? Ser gentileza da sua parte.
 --Venho, sim--respondeu ela.--At logo !. . . Andr, porque s to implicante ?. . . e, a rir, estendeu amo, uma bonita mo, branca, fina, pequenina. Depoisafastou- .
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 ')38 A AVENTURA EM BUDAPEST  -se. "I can t give rou anr&hing". . . At o modo de an dar dela pareceu a Kdr ser j seu conhecido.

 --Eu no sabia, Andr, que tinha irmas. Mas Yoli  ainda muito nova, no  verdade?...
 --Vinte um e anos--respondeu o outro--ou, com mais exsctido, fz os vinte anos no h ainda muito tempo Ila danava maravilhosamente. Em Prto-Isabel, les tinham o hbito de danar com extrma freqncia. As vezes acontecia irem ambos passar o sero ao BairroHele- na, beberem l um cocktail e depois fazerem uma boa hora de dana no "Imperial Dancing&.
 Kelemen no estava ainda em si por ter encontrado a irma em lugar to luxuoso. "No percebo nada--repetia pela terceira vez com os seus botoes; isto aqui  umpont de renio caro, um botequim elegante, para gente dedi nheiro.&--"Peo-te, protestou Kdr no se deve serto rigoroso. E verdadeiramente encanta&ora a tua irma...
 a mais nova, dizes tu ?. . . Quantas tens ento ?. .
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 --Duas--respondeu o outro--tu no conheces Carlota, tampouco ?. . . Essa j est casada. Mas no gosto deque Yoli esteja aqui... Posso falar-te com tda asincerida- de &. . . Ela nada tem que fazer em stio to snob.
 Es um homem de idias  a&ntiga--interrompeu Kdr; --na verdade, causas-me espanto. No vejoinconvenienta algum em que uma rapariga, com pessoas amigas..&. E, subitamente, calou-se. A cabea ruiva de Yoliirradiava at le, por cima das mesas, o seu esplendor. "E uma cabe- leira postia, pensou, com uma caraa e um fato dems- cara; uma figurs de teatro..." e, simultaneamente, um sentimento extravagante, feito de embarao e dehesitao, o invadiu. Yoli voltava neste instante a cabea paraaquie& lado e le viu outra vez o seu rosto branco, os seusgran- des olhos entre azues e verdes, com uns cliosexagera- damente compridos, demasiadamente artificiais. Com o olhar vagueando na direco da rapariga, Kdr deixou sollar-se da sua bca uma frase pronunciada no tom de quem interroga ou procura adivinhar: "Ter sardas ns& pele ?. . . "--"O qu 7...--preguntou Kelemen, quedissest  AVENTURA EM BUDAPESTE 239  tu?&--"Nada... estava a olhar para a cantora...& Ke- lemen desatou ento a contar anedotas a respeito daar& tista... Kdr nem sequer o escutava. Bruscamente in- terrompeu-o: "Olha Andr, eu, decididamente, no quero incomodar os amigos de tua irma, mas quando minha mu- lher acabar de dansar dar-me-s muito prazer se Ihaapre- sentares.&--"Com muito prazer&, respondeu Kelemen, abrindo muito os olhos e inclinando- se comconstrangimento para o balde do champanhe.
 Ila e Amman estavam de regresso, caminhando com lentido por entre as mesas. "O senhor dana muitobem, disse Ila a Amman; um tudo nada de maneira diferente de ns outros, os inglses... com mais eutusiamo, mas muito bem...& &Qh! respondeu Amman com modstia, ns sabemos danar poucochinho&, e, acariciando com ponta dos dedos o sel& fino bigode louro cortado moda trtara, mirou lla cm um olhar sorrateiro.
 --Quem  aquela bonita rapariga que esteve aqui h pouco ?--interrogou Ila.
 -- minha irma--respondeu vivamente Kelemen.
 Ila ergueu a vista e, por cima das mesas, olhou ospa- res que danavam: --Ela dana deliciosamente. . . Que deslumbrantecria-.

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 turinha! Depois, voltando-se para Kelemen: "Obsequiar- -me- muito apresentando-ma... Aps o conhecimanto que entabulei com tantos cavalheiros graves de Peste,para variar um pouco devo tomar contacto com uma jovem pe- tense...& E lla ps-se a rir.
 A cantora americana veio novamente cantar. Kelemen tirou para fora do glo a garrafa de champanhe. "Esta Yol& tem vinte anos; eu nunca a teria tomado por irma de Kelemen; no se parece nada com le; verdade seja que entre ambos existe grande diferena de idades&,me- ditou Kdr. Em seguida, levantando a sua taa, dissepara o amigO: &A tua sade !& Kelemen aplicava todo o seu zlo e encher as taas. Ila esvaziou mais do que umavez a sua; gostava a valer de champanhe. "Tambm pode ser, de resto, que tenha os cabelos tintos... No; cabelos.
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 240 A AVENTURA EM BUDAPESTE  ruivos como aqules so os que melhor se combinam com uma ctis de to rara brancura... Epidermes assim no se obtm ar&ificialmente. Os lbios destas mulherestam- -pouco necessitam de pintura, estas ruivas cr dejaspe tm uma bca dum tom vermelho vivo, natural"; e, ao reflectir nisto, experimentou de sbito e desejo deobservar os lbios de Yoli: "l me no recordo se ela tem osl- bios grossos ou delgados&, e, entre os paresdanantes, procurou com os olhos a cabea ruiva. Mas a juvenilcria- i tura deixara j de danar; ao voltar descorooado dapes- quisa, o olhar de Kdr chocou com o de Kelemen. . .
Fi- taram-se um instante, aps o que Kelemen desviou avista para longe. Desenhava-se-lhe no semblante uma preocu- pao, emquanto expelia para o ar nuvens de fumo epros- seguia a conversao com lla. Kdr tornou a ver afigura de Yoli, que se preparava de novo para danar. O seup era, desta vez, um rapago de largos ombros, vestidod cinzento. As cabeas de ambos aproximavam-se muito les falavam, rindo a bom rir. Passados instantes osvol teios da dana colocaram casualmente Yoli em frente d Kdr. Seguindo-a com a vista, le percebeu ento que olhar de Yoli se assestava naquela sua mesa. . . eque er mesmo, deliberadamente, dirigido a le. Kdrrelanceou o olhar na direco de Ila... Esta, sentada no meiodos dois rapazes, tinha a pele afogueada e premia entreos de- dos um cigarro. Foi mesmo ela quem props a Kelemen:, "Olhe. Kelemen, pea enta&o a sua irma que venha tom uma taa de champanhe connosco. . . & Kelemenlevantou -se do seu lugar e foi direito  outra mesa. Baixandoum pouco a cabea, trocou algumas palavras com um dos companheiros de Yoli, aps o que esta se ergueu e,pondo a mo sbre o brao do irmo, lanou um olhar emvol&a, correndo a sala inteira. Coisa singular, os seuscabeloS ruivos atraram todos os olhares para essa mulher queta vez, sem les, teria parecido insignificante. Elacorrespo dia os olhares, parecia at provoc-los. Comocaminhav- pelo brao de Kelemen, ningum os teria tomado por ir mo e irma.
  AV ENTURA EM BUDAPESTE 241  Kelemen fz as apresentaoes. Ila fitou Yoli,franzindo levemente as sobrancelhas: --Sinto-me feliz em conhec-la, minha menina; aca- bava precisamente de dizer a seu irmo que tinha uma gentil irmazinha.

 Yoli pareceu um instante embaraada; mas logo se sen- tou com ar natural e estendeu a mo para pegar numa taa. "No poderei demorar-me mais do que um minuto, declarou; no devo deixar szinhos os meus amigos&. A sua bca estava longe de ser bela: era rasgadademais, com os lbios excessivamente finos.
 --Estou to contente por a ter conhecidopessoalmente, minha senhora !--disse Yoli a Ila.--H-de permitir-me que v um dia visit-la... Com certeza que h-de ter muitas coisas interessantes para me contar. A senhora vive num mundo to diferente do meu, em regioes queeu no conheo seno de nome e atravs do cinema, ou de narrativas de viagem que raras vezes so exactas... !
E desatou a rir.
 "A sua voz--pensou Kdr--ste riso puro&: sonoro, j ouvi qualquer coisa semelhante, certo dia,&;bre as guas dum rio, a bordo dum barco".
 --Mas, sem sombra de dvi'da, terei muito prazer em.
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 receba-la--disse lla "Este rosto estranho e to variado de expressoes...
 iria jurar que j o vi noutra qualquer parte. Elaparece- -se...--neste momento, Amman levantou-se e pediu a Yoli que fsse danar com le--devido queles ombros estreitos e  sua figura esbelta... parece-se comTilly, no h que ver !. .. Tem, simplesmente, os cabelos um pouco mais claros. Tambm a mo dela... Devia ter olhado bem para essa mo&. Com a vista, buscou Yoli entre os danadores. "Que pena ! se, ao menos, notrou- xesse aqule vestido verde !& lla ps-se a falar a respeito de Yoli. Gabou a suamo- cidade e a sua frescura. "Sim, aquiesceu Kelemen, mas estou zangado com ela, porque no gosto que uma rapa- tiga to nova d nas vistas..." 16.
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 242 A AVENTURA E&s BUDAPESTE  Ila motejou do seu modo de encarar essas coisas. "As raparigas inglsas e americanss percorrem o mundointeiro completamente szinhas, e o senhor irrita-se sporque...
 No creio na sinceridade de plincpios toconservadores num rapaz como o senhor &.
 "Quero ver a sua mo& & pens&u Kdr, e quando o par acabou aquela dana, imediatamenae se ergueu epregun- tou a Yoli: --Vamos agora ns danar ?. . .
 --Sim, sim, muito obrigada; mas aguardemGs que a msica toque um tango ou qualquer blue porque no gosto muito destas danP.s mexidas demais.
 Ela sentou-se, a taa de champagne na mo A sua mo tambm se assemelhava, com extrm;a parecenca,  de Tilly.
 --Diga-me uma coisa, Yoli--preguntou-lhe logo K- dr sabe tocar ?. . .
 Tinha a certeza de que ela Ihe responderia que tocava piano.
 --No--informou Yoli--infelizmente no; comecei em tempos com o estudo de piano, tenho muito ouvido mas, em virtude de ter comp;eendido que no tinhasom- bra de talento, abandonei isso.
 --Efectivamente--acrescentou Kelemen, acontece o mesmo com toda a nossa famlia: todos temos muito ouvido mas nenhum talento para tocar.
 Nisto, comeou uma dana lenta, arrsstada, magoada, negride. Era o saxofone, acompanhado do piano,tocando baixinho. Yoli ergueu-se: --Se deseja agora. . .

 Tambm Amman se inclinou levemente perante &la. E dirigiram-se todos, em flla indiana, para o meio dorecinto.
 Yoli colocou o rosto um pouco de lado, mantendo-oper- tssimo do de Kdr... um dos cabelos ruivos, sltodo penteado, veio cocegar-lhe doceMente nas pestanas;daque- les cabelos e bem assim daquele rosto dimanavafrescura, exalava-se dles um penetrante e singelo odor desabonete.
 O corpo esbello da rapariga obedecia ao seu, ospa&so&  AVENTURA EM BUDAPESTE 2&3  dela s&guiam os dle,  maneira de uma sombra, noritmo da dana. "Deveria dizer-lhe qualquer coisa pararomper o silncio. . . fsse o que fsse. . . que o tempoest bom, que  linda a ilha Margarida, ou ento que a achopareci- dssima com algum que conheci outrora, ou que eladana bem, que me sinto verdadeirarnente feliz por...", mas no disse nada, afinal. Ela tambm guardava silncio.
Uni- camente a msica falava, o saxofone nalamentosaamelo- dia, o tambor nos seus baques surdos, o piano emnotas desgarradas- & essa msica estranha e enervanteenlaa- va-os, o seu ritmo lento e interminvel ligava ospassos de ambos Ele experimentava a sensao de que, para alm do recinto do baile e do bar na confuso dasor- mas e do espao, o seu corpo e o de Yoli avanavam ou reCuavam com uma serenidade desconhecida e incom- preensvel, enlaados no tempo com a simplicidadenatu- ral duma posse recproca e imaterial. .
 Fra assim que aquilo principiara.
  Nos dias imediatos, nada aconteceu d&e novo.
Budapeste, a Budapeste dsse esplndido co&no de estio,oferecia os estrangeirOs um semblante prazenteiro;  noite,com a sua ilha devotada s diversoes; pelo meio do dia,com.
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 os seus banhos de ondas artificiais, as suasexcursoes pelo Danbo, em canoas-automveis; ou ainda, a qualquer hora, com os passeios em auto pelas montanhas do Sul.
 Tendo lla manifestado desejo de visitar a cidade,per- correram ambos a avenida Andrssy de extremo a extre- mo; doutra vez, passaram durante algum tempo, a p, numa das ruas principais; numa terceira vez,prolongaram a caminhada at um stio dos arrabaldes Kdrdepressa se sentia fatigado; o passo de Ila tornava-seincerto, mos- trando-se ela nervosa... Regressavam ento ao hotel.
 Com a interveno de Kelemen, Kdr alugou, logo nos primeiros dias, uma elegante conduite de quatrolugares.
 ao volante sentia-se le mais -vontade em Peste doque.
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 244 A AVENTURA EM BUDAPEST  a andar a p. Kelemen, alis, aparecia-lhes todos osdias, polidamente e com fervor, inquiria da sade dles edos seus desejos eventuais.
 --Kelemen , na verdade, um excelente rapaz, bem educado declarara Ila um dia... Com franqueza,cheguei a temer v-lo exagerar o seu esprito de amabilidadee tor- nar-se importuno... Enganei-me. &` ao pronunciar estas palavras assomava-lhe na voz uma espcie de desconfiana, desconfiana de que eramalvos tanto a cidade estrangeira como sse es&ranho,Kelemen.
 Antes daquela viagem, bem raramente Kdr falava, alla, de Budapeste, e sempre que o fazia era em trmosvagos.

 "Ela agora medita com certeza na minha vida deoutrora, passada nestes stios, dizia consigo mesmo, h-dequerer saber qual a casa em que habitei, quais as paragensde que mais gostava&. Ila alvez, de facto, meditassenisso, mas no o interrogava a tal respeito. No falavam,pois nessas coisas. Kdr tinha a impresso de que Ila node sejava aproximar-se de Budapeste, a no ser porinterm dio dle. Tratava-se de uma cidade estrangeira... daqual dentro em breve se afastariam.
 O automvel facilitava-lhes a vida, permitia dargasto s horas em corridas sem fim, ao acaso. Dir-se-ia umabo- bina de actualidades cinematogrficas: erainteressante, movimentada e no tinha, contudo, alcance algum, ne nhuma importancia, nem estabelecia qualquer liame com quem a via desenrolar ante os olhos. Era puro espect culo. Quando o seu interesse falhasse, bastariadeixar de olhar; abandonar-se-ia quando e como se quisesse...
 E, todavia, o caso no era to simples como isso.
Logo no primeiro dsses giros em auto Ila acompanhara o m rido. O acaso levou-os a um& rua, onde, afrouxando oa damento, contornaram certo casaro: era o liceu quel durante oito anos freqentara. Tdas as manhas e tda as tardes, ao ir para as aulas ou ao ssir delas,nesses lon- gos oito anos, ali, num recanto da rua, encontrava um cego, o qual, com um velho chapu de cco sbre osjoe- lhos, aguardav as esmolas dos transeuntes. Lcontinuava  AVI&NTURA EM BUDAPESTE 24;&  a estar, no mesmo stio, o bom do mendigo. Olhado de cima do carro, nada sofrera nle alterao !
 --H catorze anos, j ali estava . . .--comentouKdr, como falando consigo prprio; e, de sbito, suspendeua frase.
 --O qu, a quem te referes ? . . .--interrogou Ila.
 --Nada. . . no tem importancia.
 O seu bom humor toldou-se bruscamente. No dia ime- diato meteu-se de novo no carro. Ila adquirira ocostume de dormir a sesta depois do almo. Ele aproveitou ofacto para vaguear umas horas, todos os dias,  aventura.
Certa vez, deu com os olhos num grande painel,  entradaduma larga artria: a avenida de Kobnya. Pareceu-lhe queo nome Ihe evocava qualquer coisa, sem, contudo, selembrar exactamente do que era. Apoderou-se-lhe do espritoum sentimento desagradvel. Desistiu de seguir, voltoupara trs. Doutra vez, indo a rodar por umas ruasestreitas, ao longo de vivendas com jardinzinhos  frente, teve des- bilo como que o pressentimento de que ia encontrarYoli.
 O seu p aliviou de presso o acelerador, o carrops-se a andar muito devagarinho. Durante meia-hora rodouassim, sem, todavia, a encontrar. Dias e dias a fio,prosseguiu nestas explora8es em automvel, a que se noentregara.
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 anteriormente em nenhuma outra cidade. Uma tarde pre- guntou-lhe Ila: "Vais sair hoje tambm, enquanto eufao a sesta?&--"Sim&--"onde vais?&--No sei ainda; passearei ao acaso, como  meu hbito."--"Trata-se de uma manifestao de sentimentalismo?" preguntou ainda Ila. I&le crou: "Sim puro sentimentalismo. Estasexcur- soes sem objectivo so, com efeito, suprfluas.
Vamo-nos retirar dentro em breve.& Na manha seguinte Kelemen telefonou; estava um tempo maravilhoso, ia fazer, provvelmente, muito calor.

No te- riam les vontade de ir ver,  tarde, a praia deEszter- gom ?. . . Ila to&nou ento o auscultador e &icoucombinado que se encontrariarn na praia artificial, ondealMoariam tambm. Mais tarde, quando o calor abrandasse, iriamvi- s tar Godollo.
246 A AVEN&URA EM BUDAPESrE  Kelemen esperava-os no trio do estabelecimento de ba-   --J h muitssimo tempo que vos&no via; creiam quesmto uma espcie de remorso&por vos ter deixado, assim &solados, nests grande cidade, sem sequer preguntar se no deseJariam alguma coisa que eu, na qualidade de indi-   --Oh !--respondeu Ila--meu marido no  aqui posi- t&vamente um estrangeiro; quando muito, renova o seu co- nhecimento com a cidade. Imagine o senhor que, todos os d&as, se farta de percorrer, szinho, essas ruas tdas Ela pronunciou estas.&palavras no mesmo&tom em que dias antes, declarara: "Trata-se ento ide sentimenta-   --Brsvo !--exclamou Kelemen.-- para avivares astuas recordaoes de infancia, Tony ?. . . Esta pregunta agas- tou urn pouco Kdr d tt  Estsva ainda pouca gente. ao chegar  piscina, Kdr av&stou Yol&, sentada  sua borda, numa cadeira de verga T&nha vestido um maillot vermelho e sapatos de banho da mesrna cr. Os cabelos ruivos, batidos pelo sol, crepi- tavam; tinham a cr do maillot e dos sapatos --Bom-dia, Yoli --Bom-dia, senhor Kdr, como vai?. .. A sua espsa  Ila, que acabava de acercar-se, sadou a jovem muito afectuosamente: --J tinha preguntado por ti, minha pequena, ao teu  --Ela tem olhos azues esverdeados. . . Ainda no tinha dado por &sso, ou t8-lo-ia eu esquecido?... A cr influe mu&to; esta brancura extravagante, o corpo to branco como a pele do rosto, de um branco qusi anormal. E depois aqules olhos, aqu81es cabelos! E sem manchas de sar- das . . . Porque teria eugpensado quelela as havia de ter 7 Nem sequer se pinta... Tilly tinha bastantes sardas- foi isso que me fz supor que esta rapariga tambm a& teria,& &A AVENTURA l&:M BUDAPESTE: 2&7  Achavam-se agora, todos os trs, es.endidos em transa- tlanti&-os". & Sbre a pele de Yoli o sol lanava falhas.
 --Tinha tanta vontade de ir para qualquer parte--disse Yoli--mas estou a ver que, ste ano no h meio; no tenho dinheiro.
 "No tenho dinheiro& ! . . . Como estas palavras adqui- riam um timbre esquisito na bca daquela rapariga !& No tenho dinheiro&--dissera ela com uma cara to engraa- da!. . . Quem a mantinha!. . . O irmo?. . . Os pais. . .
 Viviam les desafogadamente, ou ns penria. . . "Oh !
 prosseguiu a voz da rapariga, ste ano, no tem a gente outro remdio seno ficar em casa. &lerdade seja que. no ano passado, tambm no fui muito longe. Fui para Lelle,  beira do lago Balaton. E, todavia, do que eu gostava era de partir para muito longe, para a Sua ou para as praias francesas, mesmo que ti-&esse de abrigar-me l num bura- quinho. Porm, meu I)eus, tudo isto  quimrico. . . & Yoli deu ento um sRlto por cima da balaustrada da piscina. Com o corpo dobrado, pronto para o mergulho, deteve-se na extremidade da prancha. Num gesto largo e lento, os braos levantaram-se-lhe, descobrindo as axilas rspadas. A cabea inclinou-se-lhe um pouco para trs, ar- queou o busto, distendeu o corpo, o maillot revelou-lhe.

.
 tdas as formas, realando os seios pequenos e rijos. Numa graciosa curvP., mergulhou na gua. Uma grande vaga, de cambiantes azues e verdes, envo]veu-os, remu-os.
 O brao de Kdr tocou no ombro de Yoli. Voltando-se ela de repente, encontraram-se ambos face a face. Os olhos da rapariga tinham a mesma cr da gus. Recordou-se ento Kdr de que, em Kritzendorf, numa excursozita que durara um dia inteiro, se banhara igualmente na com- panhia de Tilly, no Danbio. Tilly tinha um maillot prto, com uma estrla azul bordada no peito.
 Do meio da piscina, algum cumprimentou Yoli. "Bom- dia, querida Ila& replicou ela a outra rapariga de &ouca  1 Cadeira& de rep-uso, prpri,gs de pr&ia.-.
 ')4& A AVENTIJRA EM BUDAPESTE  branca. "No acha deveras engraado que tambm esta senhorita se chame Ila e o marido dela Antnio ? . . . &- disse voltando-se de novo para Kdr e borrifando-o todo com um jacto de gua da sua bca, aber&a em riso franco Yoli resguardava a cabea numa touca de banho verme- lha, to vermelha como os seus cabelos, o maillot e os sapatos. lla resplandecia: sob a btega de sol, o seu corpo brilhava na gua azul; na atmosfera transparente, a figura dela exalava mocidade e pureza, os seus cabelos negros cintilavam com um esplendor igual ao dos olhos. A pis- cina estava agora cheia de gente. Algum, por trs dles observou: "Olha, ali est o elegante casal de inglases do Rzl& Vi outro dia, szinho num automvel, o marido respondeu outro; mas a bela ruivazinha que est hoje com les no  inglsa. Encontrei-a muitas vezes nas margens do Danbio e tambm durante o inverno, no cinema...

 &Jma franganota apetitosa... Anda a ver se deita o anzol ao paspalho do ingls " Kdr sentiu ganas de se voltar, para ver a cara dos dois atrevidos conversadores, mas li- mitou-se a observar de soslaio Ila e Yoli; felizmente, elas nada tinham ouvido, com certeza. Puxou ento de um ci- garro, deu meia volta e lobrigou dois rapazes, que escol- tavam uma loira de grande estatura. &Pelo que ouvi, aqu- les cavalheiros esto ento a supor que Yoli..." Dirigiu- -sa a um dles, que estava com o cigarro na bca, e, em hngaro e em voz alta, pediu-lhe: &D-me lume, por obsquio ?. . .& Trs pares de olhos cheios de embaraos, trs rostos consternados... "Muito obrigado", rematou novamente num tom alto de voz, tornando a acomodar-se no degrau inferior. Instantes decorridos, voltando-se para trs outra vez, verificou que o grupo havia desaparecido Os Kdr e Yoi almoaram no banho; Kelemen excu sou-se a isso, alegando ter que fazer, e combinou com les adiarem a excurso a Gadoll. "Telefonar-lhes-ei an- tes, se mo permitem&, e foi-s embora. Ila mandou vir carnes frias e um gelado. Yoli pediu requeijo. Depois do almo, puxaram os "transatlanticos" para a sombra; Kdr ti&ha ido  proeura do Times e do Dail& Hrald,  AV13NTURA EM BUDAPE3:STE 249  que se ps a folhear enquanto escutava a conversa das duas mulhetes. Yoli, apoiando-se no brao esquerdo, vol- tava-se tada para Ila, que estava deitada de ventre para baixo A convetsa seguia suavemente o seu rumo. Os cabelos ruivos tinham, nesse momento, um reflexo bizarro e esbatido pela sombra. Enquanto de quando em quando Aeixava, por trs do jornal, descair o olhar sbre aquela silhueta de maillot vermelho, a imagem do estabeleci- mento comeou de esbater-se na imaginao de Kdr: sub6tituiu-a um cos movedio; o vasto recinto da piscina, a gua espelhenta, os vultos humanos iluminados pelo sol cederam o lugar a uma rua es&leita, na qual surgia, por trs de um muro de pedra, alto como um bastio, um jardim imenso. A copa das velhas rvores gigantescas pro- jectava no caminho, coberta de areia loira, uma espcie de mosaico, constitudo pelas chapadas de sol e pelas som- bras das flhas: sse caminho, que comeava num largo porto, conduzia  enorme vivenda, de rasgadas janelas, de salas vastssimas, cheiss de mveis e de quadros...
 De repente, pareceu-lhe ouvir, puro e ntido, o som de um piano; a princpio era surdina, depois cada vez mais e mais forte e penetrante e, por Qm, com uma potncia tal que dominava tudo o mai&, retumbou e repercutiu-se no.
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 seu ntimo a Toccata de Schumann.
 Deixou cair por terra o jornal e, acima dos homens'&'e das coisas, perdido no tempo e nos sons, os olhos prestes a estalar de desejo desenfreado, a sua vista faminta de remin.scncias abateu-se sbre o corpo metido no maillot vermelho. Yoli falava de si prpria, respondendo s pre- guntas de Ila. Revelava pouco a pouco a sua vida, a vida de uma rapariga pobre de Budapeste. Primeiramente, o seu lar, sse cenrio de insuportavel e profundo aborreci- mento no desenrolar montono dos dias. Trs divisoes em que cohabitavam, por assim dizer, trs famlias; em todo o caso, trs geraoes. A mae que ia envelhecendo, que estava cansada e um pouco rabujenta, e cujos melhores momentos eram aqules em que se punha a desfiar as suas recordaoes ou as dos outros. A irma mais velha, modlo.
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 250 A AVENrURA EM BUDAPES&  de espsas fiis e de donas de casa... burguesinhas.

 cunhado, que mantinha a famlia e que dos insignificant& acontecimentos da sua vida de lojista pretendia nov; sensacionais, capazes de animar o lar. Andr, que era nica pessoa simptica da familia, mas de tal maneira& absorvido pelos seus prprios negcios quz qusi nenhun tempo podia consagrar os outros. "Verdadeiramente, eu& nem saberia dizer em que me entretenho todo o santoq& dia... ajudo um pouco minha irma Carlota ou distraio a; mama, leio alguma coisa. . . Tinha psto na idia arranjar um emprgo num escritrio... foi para isso que aprendi estenografia; mas encontrar-se hoje uma colocao !...& As vezes,&saa acompanhada de alguns rapazes e raparigas do seu conhecimento, matando o tempo mais fcilmente de vero que de inverno, por causa da praia e do Danbio Yoli falava docemente, erguendo a cabea e fltando lla a sua voz continha resignao mas tambrll a revolta per- pa&sava nela, plidamente embora Nisto& como os seus cabelos enrolados em concha sbre a orelha direita esti- vessem em riscos de se desmanchar, ela de3enrolou-os por completo, assim como os do outro lado, pondo-se de- pois a pente-los com os dedos e arremessando para tr a espssa cabeleira. "O seu anel  divino, disse a Ila, d licena que o veja melhor ?. . ." Ila levantou a rno, par mostrar o fino aro de platina que tinha ao meio uma enorme prola e que les, na Primavers, haviam comprado em Londres. ao ouvir estas palavras de Yoli, Kdr lem- brou-se de sbito do protesto de Kelemen no bar da ilha Santa-Margarida: "Eu no percebo que ela tenha podido vir a um stio to caro!" Gostaria bem de preguntar a Yoli como  que ela, queixosa de no ter dinheiro para ir para fora, o tinha para ir  praia, para passar os wee&- -ends, para freqentar os cinemas e para tudo o mais? Quem Iho dava h& Sobressallado, repeliu do crebro este pensamento. Que tenho eu com isso ?. . . Que tolice, a mi- nha !. . .  o irmo quem Ihe d dinheiro. . . Mas no so coisas que me digam respeito". "Santo Deus ! prosseguiu Yoli, alyumas vezes acode-me ao esprito a convico-- , AVENTURA EM BUDAPESTE 251  as eu no digo seno asneiras que no Ihes podem in- &ressar--de que a existncia duma rapariga como eu &o tem razo de ser, porque  sem finalidade.. . porque &o trabalho e, todavia, me canso de viver...& Esteve ms instantes calada, aps o que continuou: "A mama e Carlota, essas, vivem para os filhos e para o marido, a &,arlota vai ter outro bb, as mos dela esto sempre cheias de trabalho. . . e existem raparigas que so empre- adas ou que, ento, aprendem qualquer coisa, quanto mais no seja a coser, ou que tiram cursos, ao passo que eu, eu no fao nada, e&cepto. . . pr-me a pensar que se- tia horrvel para mim casar-me com algum como o meu cunhado. Penso tambm que s a riqueza permite viver realmente, fazer a gente tudo o que queira, poder andar sempre a viajar e nunca estar em casa..." Espreguiou- -se, soergueu-se no seu "transitlantico&, descrevendo no espao, em volta do corpo reteso, com os braos muito alvos, um simulacro de vo.
 Kdr, entretanto, ia ouvindo sempre, dentro de si mes- mo, a Toccata. "Temos melodrama, pensou, que tolice !..." Sentiu poisar-lhe no rosto o olhar de Ila. &Meu Deus!
 que chorrilho de patetices me saem c para fora, disse Yoli, quando desaLo a tagarelar... No querem ir, outra vez, um bocado para a gua ?. . . &.
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 Caa j a tarde, foram deixar Yoli perto da casa dela, na avenida. Ila despediu-se da rapariga dirigindo-lhe um convi- te: "Espero tornar a v-la muito brevemente, ou no banho, ou telefonando-nos para o hotel. Com certeza, permanece- temos aqui mais uns dias ainda, no  verdade, Tony ?. . .
 --"Uns dias, sim,  prov&7el&, respondeu Kdr. Yoli es- tendeu a mo, e a cabea de Kdr inclinou-se ao de leve ao mesmo tempo que, com a sua, levantava a mo de Yoli; mas, significativa e fir;nente& o brao nu da rapariga deteve sse gesto.
  No fi&ou o nmero da porta, mas ficou conhocondo o predio em quo habitava Yoli.

 2S2 A AVENT&JRA EM BUDAPESTE&  No dia seguinte, ao meio dia, ele e lla tiveram uma surprsa muito agradvel. No hotel, fz-se-lhe anunciar um casal ingls: O capito Simmons, da legao, e a mu- Iher. Mal eles surgiram ante seus olhos, Kdr &-erificou que Edith Simmons era um seu antigo conhecin ento de Londres; o marido fra, duas vezes ou trs semanas antes, nomeado para Budapeste, mas s na vspera o casal sou- bera que os Kdr se encontravam em Peste. O ministro, ao qual tlnham ido de visita,  que Ihes falou nisso.
 "& verdadeiramente admirvel ! . . . O nosso bridge, eis-nos servidos para o jogar aqui!"--"Jogam o ten- n&s ?. . . "--&Evidentemente, e at somos campeoes&.
 Almoaram os quatro juntos, aps o que foram para a ilha, a-fim de assistir a um desafio de polo. Duran- te o desafio Kdr sentiu-se invadido de c&rta impacin- cia: puxava, a cada instante, do relgio. "Tens de ir a alguma parte?..." preguntou Ila, reparando nesse gesto impaciente.--"No, a parte nenhuma&, respondeu Kdr.
 Aquela era a hora a que, ainda na vspera e nos dias an- teriores, passeava no seu carro, ao acaso, pela cidade.
 Ila no cabia em si de contente, muito consolada por ter novamente encontrado pessoas amigas de nacionalidade inglsa. Tanto ela como o marido haviam-se tornado, a bem dizer, autnticos inglses, sul-africanos. A Unio Sul- -Africana era um pouco menos que a Inglaterra, mas sem- pre era mais alguma coisa que o continente europeu, que a Hungria... Era, pois, muitssimo natural que estivesse satisfeita por encontrar amieos inglses. Aquela hora trans- correu, mas a inquietao no libertou Kdr e continuou mesmo a persegui-lo& quando, findo o desafio, foram to- dos abancar numa pastelaria. "Como eu me deixei habituar quela estpida vagabundagem !)& Para no pensar mais no caso, esforou-se por encher de cres e de sons os olhos e os ouvldos...
 Havia ali um ja& discreto e doce. Alguns pares desli- zavam pelo cho encerado, luzidio. Consultou mais uma vez o relgio; o seu olhar cruzou-se com o de Ila. Na testa de Ila cavou-se Uma ruga estreita mas profunda...
  AVENTURA EM &3UDAPEST E 253  Que loucura, no poder vencer um hbito de tal modo pueril !. . .
 Convidou a senhora Simmons para danar. Entretanto, chegou tambm Simmons, que se ausentara uns instantes.
 "Budapeste  uma explendida cidade, sentenciou ele, com ent&}siasmo;--h j dois anos que andava desejoso de arranjar o lugar de adido a uma Legao, mas no sabia qual escolher. Edith ambicionava simplesmente que fsse- mos mandados para uma cidade encantadora, a-fim de pas- sarmos a agradvelmente os nossos primeiros anos de casados. No se teria podido escolher melhos, no e assim, querida 7& A senhora Simmons estava mal instalada: era coagida, a cada momento, a voltar muito o pescoo e a inclinar a cadeira, para ver os pares danantes. Quando Kdr deu por isso, trocou imediatamente o seu lugar pelo dela.
 Achou-se, desta forma, em frente da entrada, donde podia observar os que chegavam e os que partiam. ao som da msica e ao sabor duma conversao calma e alegre, os minutos foram correndo. O capito Simmons era um ho- mem encantador. Encantadora era igualmente Edith. O s- tio, agradvel e belo, sio elegante, stio luxuoso e caro.
 Estava certo de que Yoli no viria ali, de que ela no se.
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 esgueiraria at quele lugar. Sem sombra de dvida, devia estar em casa... sem se ocupar em coisa alguma... a encher-se de tdio...

  &os primeiros tempos Ila gostara, evidentemente, de ver Kdr sair td&s as tardes... Pelo menos, no compreen- dera a razo desss sadas. Aquela sua pregunta: "So manifestaoes de sentimentalismo ?", que se reavivava com fre&qncia no esprto de Kdr, testemunhava isso mesmo.
 Todavia, com a continuao, fora obrigada a compreender a essncia do mvel de tais excursoes; veio a compene- trar-se de que le demandava a antiga cidade da sua in- fancia, sem sequer o suspeitar. Ou, ento, habituara-se ela quilo. Certa tarde em que Kdr ficara em casa, Ila.
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 254 A AVENTURA EM BUDAPEST  preguntou-lhe: &Porque no sais esta tarde?P &:le fico& silencioso uns segundcs e depois disse: "Estrsnho qu nunca me preguntes onde fui.& Para qu? replico lla. Eu j o sei. O teu amigo&Kelemen resumiu o cas& outro dia, em duas palavras: sadades da juventude. Prc cederia eu talvez como tu, se tambm aqui tivesse vivido.

 No volveram mais ao assunto. Ila continuava a dormi o seu pe&ueno sono aps o a]mo, enquanto le fazia ro- dar o seu carro. Uma tarde, no regresso, passou pela Ave- nida. No dia seguine, fez o mesmo;  terceira vez ousou parar uns instantes diante da casa de Yoli, sem que, toda- via, a conseguisse ver. O sol dardejava os raios sbre a parede amarela e leprosa do prdio, onde cada janela cin- &zenta, de estores corridos, correspondia ao olhar dle como corresponderiam olhos cegos. "E se eu subisse a casa delah& interrogou-se bruscamente: Bom-dia, Yoli, como est voc ? Idiota no caso, repreendeu-se a si prprio. Corn e que posso persuadir-me de que... ? Querem ver que vou dar cabo da cachimnia ?. . . Vamos mas  abalar, eu e Ila, quanto antes, decidiu; depois, com frieza implacvel, acrescentou mentalmente: descansa, que no me deixarei arrastar, no ! Tem parecencas com Tilly ou, antes, tem os cabelos da mesma cr ruiva, mas nada se parece com ela: eis tudo. Vamos partir, sim h& Tremeu-lhe a mo ao premir a alavanca da velocidade, as rodas dent`adas, rangendo, engrenaram umas nas ou- tras e, com grande sacudidura, o carro arrancou. Qusi s cegas, atravessou praas e ruas. Num cruzamente, um agente sinaleiro gritou-lhe: "Nem sequer v a luz ver- de ? ! . . . Avance . . . " Quando chegou ao hotel encontrou Kelemen em con- versa com lla. Aqule telefonara durante a sua ausncia e lla convidara-o a subir. Kelemen dispunha-se nesse mo- menlo a falar do escritorio em que estava colocado e de si prprio. Se bem que no gzo de frias, o seu chefe, na ma- nha dssc mesrmo dia, pedira lhe que passasse por l, por causa de um negcio importante, negcio de que Kelemen havia tomado a iniciativa muitos meses antes e cujo estado & A\; ENTU&A EM BU[&APESTE 255  de madurez, para ser efectivado, se verificara agora. Des- gracadarnente, tinha-se levantado, entre a direco da em- prsa e le, uma divergncia de vistas, no respeitante ao lado material do negcio. &Trata-se, de facto--plano meu --da organizao dos transportes pela via continental, mas os pormenores no so de molde a interessar-vos; em resumo, se les querem pegar no negcio, reservando- -me um lucro honesto, a coisa vai; seno. . .&--"Tens razo de sobra, aplaudiu Kdr; deves, evidentemente, reti- rar proveito proporcional ao teu trabalho, para poderes manter com dignidade a famlia.&--&Seno... repetiu Kelemen& estou decidido a tudo... j Iho fui dizendo antecipadamente. &Ce tanto fr mister, romperei com les, instaurar-lhes&ei um processo.& Nisto& Kdr de novo inter- rompeu Kelemen, preguntando-lhe: &Dize-me c, Andr, quanto ganhas tu, na realidsde7. ..& Pregunta esta indis- creta e estpida !. . . Ila levou o olhar a perder-se no vago, em atitude de quem no est -vontade. Kelemen frsnziu as sobrancelhas e respondeu: &Cinco vezes menos daquilo de que teria necessidade e dez vezes menos do que merece o meu trabalho " Era uma forma hbil de replicar a pre.
 gunta to alheia s normss da correco. A fronte de Kelemen no se desenrugou antes de atingir o fecho das suas consideraoes: &Ganho muito pouco, meu amigo,.
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 uma verdadeira bagat&la. Se te dissesse a cifra, st ffcarias estupefacto...& E enqusnto Kelemen continuava a falar, em amargos trmos, da obrigao que pesava sbre todo e qualquer homem de valor de lutar pela conquista do po cotidiano. . . at ao ponto&de se ver constrangido a aban donar a sua prpria terra, para ir mundo em fora, empu- nhalldo o bordo de peregrino--- foram-se pouco a pouco avivando na memria de Kdr os queixurnes de Yoli, dias antes, a propsito da sua existncia de burguesinha sem recursos, da sua falta de dinheiro, e do seu tdio imenso. Tornou a ver, em pensamento, o vestidinho verde alinhavado s trs pancadas que ela levara, ento  ilha; e, como contraste, veio-lhe tambm  idia a maravilhosa toilette, de excelente seda negra e brilhante, decotada atras.
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 256 A AVENTURA EM BUDAPEST  at  cintura, que lla comprara para si, nessa mesma pr mavera, em Paris.--"E Yoli, como est ?&--"Est be obrigado&, respondeu logo Kelemen. &Durante uns dii sofreu de uma espcie de constip&o nos rins, mas j hoje,  hora do almo, a vi levantada, sinal de que s encontra completamente boa. Ela considerar-se-, pel certa, muito feliz se vier passar algumas horas convosc qualquer dia dstes, no causando isso transtrno ao VQSS programa.& "Ora essa, pois no, garantiu lla, amvel mente; no se esquea de Ihe dizer que terei muitssim prazer em tornar a v-la.
 Esboaram em seguids diferentes excursoes, e quand se puseram de acrdo sb&e a ida  Pousada do Caminho na tarde do dia imediato, desde que o tempo o permitiss Kdr, por sua vontade e cedendo  impacincia, teri mandado Kelemen imediatamente e no seu prprio carr procurar Yoli, no fsse ela comprometer-se com uma ic a qualquer outra parte.
 Findo o jantar, Ila manifestou o desejo de dar um p queno passeio, simplesmente para andar alguma coisa a p Por duas vezes percorreram, pois, a margem do Danbio sentando-se depois no terrao dum bar, donde se puse ram a contemplar a animao da noite no local. Decorridc minutos, deram com os olhos em Yoli, que passeava n companhia de vrios rapazes e raparigas. Tambm ela por seu turno, no tardou a avist-los e, a um gesto ami gvel de Ila, acercou-se da mesa em que ambos estavam Vestia saia azul claro e pull-07)er branco, levando sus penso da mo o seu chapelinho azul. &Aqules meus c maradas foram buscar-me, explicou ela, e descemos todo para respirar um pouco melhor.

 Trocaram-se mais a]gumas palavras. Ila convidou-a sentar-se junto dles, excusando-se ela: "Com esta fatio no posso. . . alm de que no devo deixar os meus am gos. Dar-me-ia, contudo, muito prazer ficar aqui convosc um bocado."--"Bem nesse caso, at amanha", declaro Ila.--"Com a maior sati&fao. O Andr, que passou  por casa esta tarde, j me disse que os senhores tivers  A AVENTURA EM BUDAPESTE 257  a gentileza de convidar-me para o passeio de amanha." Ficou combinado que, com o irmo, Yoli iria ter com les ao hotel.
 --Sabes que esta r&pariga  maravilhosamente bela ? comentou Ila, passados instantes;--e a verdade  que  difcil a uma ruiva ser bela; mas esta tem a pele lmpida, perfeita, e olhos dum tom bem raro. Pena  no ter a boca mais bonita, no achas ?. . .
 --Efectivamente, no tem uma bca bonita, no, assen- tiu le.
 --Que importa isso, afinal--exclamou lla--quando se tem vinte anos ? 1. . .
 Yoli e Kelemen j se encontravarn no trio do hotel, quando os Kdr desceram dos aposentos, ao cair da tarde seguinte. Yoli trazia outra vez o vestidinho verde e, na- quele dia, tambm Ila reparou em que a cr dos olhos dela era igual  do vestido. E disse-lho, a sorrir. "Tambm j eu dei por isso, mas foi por mero acaso...  um vestido branco que mandei tingir. A culpa foi do tintureiro&, de- clarou ela, num riso franco. "A bca no  muito bonita,  um tudo nada grande demais&, confirmou de si para si Kdr. &Em compensao, tem uns dentes deslumbrantes, que brilham com um oriente similar ao das melhores p-.
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 rolas.& Kelemen e Ila sentaram-se no banco interior do carro, ao passo que Yoli tomou e assento da frente, ao lado de Kdr. Atravessaram lentamente a cidade; as ruas apre- sentavam-se cheias de uma multido bulicosa, de veculos de tdas as espcies, de luzes muito vivas. &Gosto mil vezes mais da cidade  noite que de dia, confidenciou Yoli;  noite, tudo parece diferente e mais amplo. Diga-me, numa grande cidade como Paris, por exemplo, h mais luzes do que em Peste ?. . .--"Oh ! sim, muitas mais, e  de todo em todo diverso o aspecto em relao a Peste,& Contornaram uma estao do caminho de ferro e en- contraram-se, finalmente, na estrada nacional; o potente carro pareceu dar um salto vante e ps-se, com estrpito, a devorar quilmetros sbre quilmetros. Kdr sentia, .
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 258 A AVENTURA EM BUDAPESTE  sua direita, um doce calor; e dominando o cheiro prprio do auto, da gasolina e do leo, um perfume fresco e puro como o dum bom sabonete, arremeteu contra le. Levava o olhar fixo na estrada, embranquecida pelos fsris do carro MaS sentia 'os olhos da rapariga poisados sbre si. De sos- laio, lanou-lhe uma mirada; mas viu que Yoli voltava de sbito a cabea. "Oh ! 110 quilmetros  hora, notou ela, sempre tive um pouco de mdo de andar de automvel, mas, apesar disso, adoro correr assim. Seria, contudo, pru- dente afrouxar na escurido, urn tanto. . . & Quando chegaram, viram que a Pousada abarrotava at mais no. Muito a custo, conseguiram mandar pr uma mesa ao ar livre, jnnto do valado, j na curva da estrada nacional. Esta perdia-se no seio da noite, ao fundo duma tranqilidade branca e adormecida. As rvores que a la- deavam erguiam, a distancia, uma sombra mais negra que a negrura do horizonte. Um cu magnanimo espalhava no firmamento, por cima da paisagem, os seus tesouros es- telares. Para os lados do campo, ouvia-se a orquestra r- pida das cigarras, cujos ritmos fundidos na harmonia uni- versal formavam uma espcie de acompanhamento  m- sica que, um tanto amortecids, chegava  mesa por les ocupada. No terrao, iluminado por grinaldas de lampeoes via-se gente danando. Assumia grande estranheza essa melodia dolente, arrastada e desconhecida, dum ja& to- cando no terrao duma casa campestre, melodia que, de- pois de pairar entre as velas que, em globos de vidro fla- mejavam por cima das mesas, ia por fim perder-se no mistrio do campo nocturno.
 Kdr fitava Yoli. E]r conservava-se silenciosa, mal pro- ferindo uma palavra de quando em quando; a sua mo branca loava apenas, num gesto sonhador, as iguarias colocadas na sua frente. "Est cansada, minha amiguinha? preguntou lla; dir-se-ia que est fatigada ou de mau-hu- mor."--"Nem por sombras, respondeu a jovem; estou mas  gozando profundamente esta noite deliciosa, visto& que tudo  aqui to singular e to belo." Com efeito, o lu- gar era excepcionalmente estranho e cheio de beleza: veri- A AVENTURA EM BUDAPESTE "59  ficava-se no recinlo a mistura um pouco artificial da ele- gancia citadina e da restaurao do primitivo estilo da "Csarda& & clssica. Nesse espectculo se integrsvam o sa- bor do champanhe francs e o aroma a feno no campo nocturno, os sons do ja& e dos automveis e a cintilao das velas. Os semblantes, os trajos, os rudos, os gestos: tudo isso provinha do baile da ilha Margarida. .&Ias o cu de ali no era apenas uma tapearia, as estrlas eram ver- dadeiras estrlas e no lampadas elctricas, e o horizonte no era, de modo algum, cenrio de teatro ! . . .
 O rosto de Yoli brilhava, plido, ao cla&o das velas.
 Num dado momento, Kar, ao estender a mo para pegar no po, tocou sem querer na de Yoli. Um estreme- cimento a percorreu tda. Ele deu por isso, precisamente.
 A mo branca retraiu-se, num movimento rpido. Uma impresso de torpor invadiu o peito da jovem. Simulando colocar melhor a cadeira, le mexeu-se e tocou de novo, agora voluntriamente, o brao de Yoli, que estremeceu tada outra vez e se desviou urn pouco, como por acaso...
 Comeram, conversaram, danaram; e, quando, ao ritmo lento da msica, os corpos de Yoli e de Kdr roara&n um pelo outro, le estreitou-a muito fortemente contra si.
 Estremeceria ela desta vez tambm ?... Em seguida 81e tornou o abrao ainda mais estreito... Durante sse.
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 abrao, sentiu, num dado momento, que faltava a respira- o a Yoli; e, no fim da danca, com mo flrme levantou  viva fra a mo ecquiva e pesada de Yoli e bijou-a acima do pulso... &:sse pulso era frgil, como delgados eram os seus artelhos e as suas pernas. E a pele era de uma brancura impecvel, o busto franzino, os ombros pouco largos. E, sobretudo, ela tinh& vinte anos. "Vinte anos !" acentuou Kdr de si para si, recordando-se das palavras de lla e sentindo, simultaneamente, um leve aprto no corao. ao acompanh-la ao lugar, em marcha sinuosa por entre as mesas, deixou-se ficar um pouco mais  1 Danca e m&ica tradicionai& da Hurlgria.
 260 A AVENTURA EM BUDAPli:STE  para trs, na idia de observ-la melhor, ao claro incerto das velas Yoli parecia estar mal-disposta. Ila, pelo contrrio, es- vaziava uma vez e outra o copo; estava alegre, buliosa, tinha palavras afveis para tudo e para todos. Coisa curiosa, parecia, nessa noite, mais nova do que Yoli. Re- sultaria isso do contraste com o semblante branco at  inverosimilhana, tal como o das mscaras, da juvenil irma de Kelemen ? . . .
 Chocando-se em sades sucessivas, os copos tiniam no meio da msica. Esta convidava tda a gente a danar.
 Enquanto se dirigiam, os quatro, para o terrao, Kdr le- vou, com teimosia involuntria e inconsciente, a mo ao brao de Yoli, agarrou com npeto nesse brao nu e atraiu-o a si. "Deixe-me, por favor. . ., disse Yoli, eu no quero. . ."--"Porque  que no queres ?. . . Defendes-&e de qu ?. . ." Deu com o p numa cadeira, pediu desculpa  pessoa nela sentada; mas no largou o brao de Yoli, excepto um momento, j no terrao, quando se viram face a face, e simplesmente para Ihe enlaar o busto. O feixe de raios luminosos, azues esverdeados, de que os olhos de Yoli se mostravam sempre prdigos, pareceu-lhe, nesse instante, repassado de espanto. Estranho, sse olhar 7 Es- tranho, no era bem assim; sse olhar era agora, pelo contrrio, familiar, ao ponto de le se sentir atnito pe- rante a sua expresso. Subitamente, convenceu-se de que mais valia cessar imediatamente de Idanar, desenrolar ali, sem disfsrces, todo aqule negcio, regressar depois a casa e sbalar para longe, guardando bem no fundo da alma uma bela recordao. "Os inglses danam todos ptim& mente, no  verdade ? preguntou Yoli. Sabe, eu gosto de ver danar, juntas, pessoas da mesma altura; e eu, eu chego apenas ao seu ombro, ou um nada mais acima. . .& "E se me baixasse agora e Ihe tomasse a cabea, beijan- do-a7..." perpassou pela mente de Kdr. "O senhor tambm dana muito bem; mas o certo  que, hoje, o se- nhor  j mais ingls do que hngaro... que, afinal, tam- bm os hngaros dancam muito bem..." "E se euagora A AVENTURA EM BUDAPESTE 261  me baixasse, e... ?&. Era o mesmo pensamento a perse- gui-lo sempre !

 No regresso, foi Ila quem guiou o carro. Kelemen sen- tara-se ao lado dela, ao passo que Yoli e Kdr tomaram lugar na bancada posterior. Yoli inclinou-se tda para trs: trazia um manto negro que, envolvendo-lhe por completo o corpo, ainda descaa para baixo do assento. S a alva mancha do rosto e os cabelos ruivos se destacavam da negrura do manto. Com as mos nos joelhos, de luvas caladas, a sua atitude tinha a imobilidade da morte. Du- rante minutos manteve os olhos cerrados. Iam todos em silncio. Ila, sbre a estrada sua desconhecida, guiava com prudncia. Kelemen, inclinado para a frente, observava a fita do macadame, que a luz dos faris branqueava. "Se eu agora Ihe dissesse, pensou Kdar. . . Yoli, d-me a tua mo&; mas, neste instante, divisou, reflectidos no espelhi- nho fronteiro ao volante, os olhos negros e brilhantes de Ila, atentos ao caminho. Oh ! os olhos negros, fiis, puros e inteligentes de Ila !. .. Sentiu uma vertigem. .. Aqules olhos negros como o abismo, durante a primeira viagem que faziam juntos, a bordo, na noite do dia em que em- barcaram, perto de Gibraltar ! Os seus lbios famintos e vidos, o seu corpo branco e ardente, na obscuridade, por trs da porta entreaberta da cabi11e, quando... "E se eu.
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 dissesse agora muito docemente, muito baixinho, to bai- xinho que s Yoli me pudesse ouvir: Yoli, d-me a tua mo .. ?& --&Oh ! vejam como aquilo brilha--disse de repente Yoli, no viram ?. . . "--"Era com tda a certeza uma lebre ou um gato bravo, uns olhos que brilhavam com um fulgor verde no meio da escurido..." Endireitou o corpo, reclinou-o para a vidraa lateral: &Aquelas luzes, Ifl em baixo, so j de Budapeste, no  verdade ? . . . " O carro estacou diante do prdio sito na avenida. Ele desceu, ajudou Yoli a descer por seu turno: Kelernen j se encontrava junto da porta e acabava de tocar  cam- painba. Ila ficara ao volante; inclinando-se para a porti- .
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 262 A AVENTURA EM BUDAPESTE  nhola, disse mais uma vez: <Adeus, queridinha Yoli, vvisitar-nos logo que possa." Apertaram-se as mos: "Boa noite.& "Se eu Ihe dissesse agora. . ." pensou le nova- mente. E, nesse instante, sentiu que a mo de Yoli, assente na sua, se erguia num gesto doce, humilde e qusi incita- dor. & mo ergueu-se de maneira imperceptvel, at le poder dob[ar-se sbre ela e beij-la. ao levantar a cabea Kdr sentiu outra vez o feixe de raios luminosos, azues esverdead?S, dos olhos de Yoli, projectar-se-lhe sbre o rosto, enquanto Kelemen, encostado ao carro, os obser- vava, &tento, manhoso e meditativo.
  Kdr teve o pressentimeuto de que Yoli no acederia ao amvel convite de Ila, de os tornar a visitar no dia se- guinte, ou no imediato a sse. Mas quando trs dias trans- correram sem que ela aparecesse e ao ouvir lla, uma noite, declarar. ao mesmo tempo que puxava da sua agendazinha de cour? vermelho: "1& preciso escrever qualquer coisa para & Sua, ou supoes que bastar um simples telegrama a aVisar a nossa chegada ?&.--le viu-se logo a contas com a mesma inquietao dos dias anteriores, reflctiu em que, se dur8nte ss&s trs dias passados tivesse percorrido a avenida7 teria sem dvida... teria, certamente, tornado a enContrar Yoli. "Se queres, respondeu a lla nessa oca- sio, podemos escrever&, e imediatamente se silenciou.

 "Bem, nesse caso, disse Ila, vamos escrever para Saint- -MoritZ e para Flims, e depois... que disseste tu maisj ste inverno ?   . para Engelberg 7 . . . & Kdr no respon- deu logo- Folheou distraidamente o jornal ingls que esta- va na mesa e acabou por consentir, numa voz arrastada: "Sim. . .&--"N&o me ests ouvindo 7 preguntou Ila. Pa- rece-me que j vimos Budapeste mais do que suficiente- mente; creio que podemos marchar de aqui para fora. No concordaS ?--& justo, respondeu le enquanto dobrava o jornal; mas, antes, desejava estudar o tal negcio. Falei hoje nle a Abley, pelo telefone.&--&Queres ocupar-to A AVENTURA EM BUDAPESTE 263  disso ? preguntou lla, num tom um pouco frio, ah ! bom !& Vivamente, Kdr replicou: "Ocupar-me, precisamente, no, no creio que o faa; mas, em todo o caso, d&eja- ria estudar o negcio. Abley tambm mo aconselhou.& --&Abley no pode julgar as coisas a distancia, respon- deu lla; se vale a pena estudar isso, ocupemo-nos ns, aqui, do assunto. S tu s juiz na matria, e se pensas que a coisa vale a pena--acrescentou ela tomando, de cima da secretria, o jornal--estuda-a; pela minha par- te,  negcio que no seduz.& Kdr no deu palavra. "Tambm o prprio Abley aconselhou... --voltou Ila  carga-- ridculo; que podia le aconselhar-te que no fsse isso ?. . . Estuda tu o negcio; f&-lo, se te parece interessante, mas no te es- queas de que no podemos tomar compromissos a longo prazo no Continente; pelo menos, ns, os de Londres.
 O negcio em referncia consistia numa proposta do advogado Szende. Esse ltimo chamara-os ao telefone, dois dias antes. Tinha comeado por se informar da sua sade, com uma amabilidade requintada e depois declarara querer falar com Kdr por causa de certos negcios, se isto o no incomodasse. Queria obter o seu conselho como perito nessas coisas, e ao mesmo tempo provocar a sua ateno para um negcio que, no entender dle prprio, Szende, se podia contar no nmero dos mais interessantes.
 Constrsngido e forado, Kdr por mera delicadeza acei- tara a visita.
 --"Esse Szende, qual  dles 7 . . . &--interrogara lla quando o marido a avisara da prxima visita do advoga- do.--" o. . . como hei-de eu descrever-to 7. . . E aqule de bigode negro, um tanto barrigudo e bastante barulhento a falar.
 Szende aparecera, no dia marcado. Tinha levado um bonito ramo de flores para &la, e como ela havia sado precisamente nessa ocasio, na companhia de Mrs.
 Simmons, le lamentara muito no Iho poder entregar pessoalmente. Em seguida, entrara na matria. Tratava-se de um dos clientes, que le recomendava muito particular- .
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 264 A AVENTURA EM BUDAPESl`E  mente a Kdr, chamando a ateno dste para o facto de--abstraindo agora do referido cliente--le, Szende, de- senvolver certa actividade no meio consagrado a tran&ac oes de prdios e  construo civil. Dispunha de relaoes magnficas e muito numerosas. Szende falava com vivaci- dade, desenhando largos gestos, proferindo frase& forte- mente coloridas, assaz subtis e astuciosss, um pouco no estilo retrico. Kdr escutara a comprida arenga de Szende e dificilmente se contivera, para no sorrir.

 "Eu, comprar coisas em Budapeste?... construir em Budapeste ? . . .& preguntara a si mesmo durante a conver- sa, mas o seu esboado sorriso congelara-se-lhe sbre os lbios desde que cruzara o olhar com o do advogado. Acu- dira-lhe, entretanto, uma idia. Fixara qualquer ignoto ponto no ar cheio de fumo e respondera "Ouve, Szende, assim  primeira vista, no posso, como  natural, dar-te uma resposta em regr&, nem sequer em princpio. A minha inteno era no passar em Budapeste mais do que umas semanas e, a alar verdade, poucos motivos tenho pnra me interessar, aqui, por negcios; mas . . . & Olhou de novo o tal ponto invisvel no ar, pensando de sbito que havia j quatro semanas que se enconravam em Budapeste, que no tardariam em partir e que Yoli no tornara a telefonar desde a excurso da ante-vspera, e concluu "...mas tenho muito empenho em estudar o negcio que propoes, e se vir que interessa. . .& A cara de Szende estava radiante, os lbios recalcaram um sorriso matreiro e os olhinhos negros, de plpebras entumecidas, brilharam por trs dos vidros da luneta. Vol- taremos a falar nisto, rneu amigo, voltaremos a falar nisto !
 assegurara ele. Pela parte que me diz respeito, estou sem- pre e inteiramente ao teu dispor." Combinaram, por firn, permanecer em contacto por meio do telefone.
 Depois da iluso a ste negcio e da sua restante con- versa com Ila, Kdr sau para a varanda e contemplou o Corso matinal. &Dentro de alguns dias, partiremos,mur- murou. No h razo para que fiquemos mais tempo, salvo  AVENTURA EM BUDAPESTE 265  se...& Fez um gesto de agastamento, como que para se convencer da estupidez de tudo aquilo. "Vamos abalar para a Sua, para Saint-Moritz, para Flims ou para Engelberg, ou seja l para onde fr; o mais tardar, partiremos no meado da prxima semana..." Impaciente, voltou para dentro do quarto, na idia de consultar a guia dos caminhos de ferro. No a encontrou.
 "Onde a teria eu metido7... Talvez esteja no qusrto de Ila...& Mss a guia no apareceu em parte alguma. Olhou o seu relgio, acendeu um cigarro, bebeu mais um clice de co&haque e pegou no chapu. As senhoras esperavam-no na pastelaria, do meio-dia para o meia-dia e meia hora.
 Contornou o largozinho ajardinado, enfiou pela avenida que orna a margem do Danbio. Estava calor. Com seme- lhante tempo seria delicioso ir para as montanhas ou para o p do mar.
 Na pastelaria, juntou-se ao grupo de Ila e de Mrs. Si- mons. "Que h de novo ? preguntou-lhe logo a mulher.-- &Vamos deixar Budapeste& pensou ele e, logo no mesmo instante, escutou, a par de um baque mais forte do cora- o, a sua prpria voz, a qual, com entoao extravagante, a custo perceptivel, respondia: "No sei ainda, tenho de estudar a coisa;  primeira vista, parece-me interessante." --Quanto tempo ficaro os senhores ainda em Buda-.
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 peste?" quis saber Mrs. Simmons.--"No sei ainda, res- pondeu, estsmos enm vsperas de partir para a &ua, mas de bom grado ficaria ainda aqui uns dias se visse valer a pena ocupar-me do tal negcio." Tambm no dia seguinte Yoli no se deixou ver, e quan- do Kdr, a instancias de Ila, acabou por expedir as cartas para a Suia, a-fim-de obter informaoes--sabia le j perfeitamente que o envio dessas cartas era intil: agar- rar-se-ia ao pretexto, sobremodo simples, qusi ridculo, que Ihe forneceria Szende. Estudaria o negcio, ocupar- -se-ia dle, apenas para poder demorar-se em Peste. "En- ganarei o prprio Szende, reflectiu, porque, no fim de con- tas, no farei negcio nenhum, e enganarei tambm Ila.?.
 se  possvel engan-lae&.
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 '&6S A AVENTURA EM BUDAPE&E&  Nos ltimos tempos, devia haver j coisa de ano e meio, Ila deixara de ocupar-se dos negcios, no tinha conheci- mento dles seno por alto, atravs das conversas de am- bos em casa. Contudo, se ela viesse a interessar-se por aqule negcio do Szende, daria logo conta, desde o pri- meiro instante e to bem como le mesmo, de que se tra- tava de uma coisa absurda. No era possvel enganar-se Ila... e o n da questo estava em saber se ela se inte- ressava pelo negcio em referncia, ou no. Kdr tinha de precaver-se contra esta circunstancia, e, logo que aten- tou nela, preparou friamente, lucidamente, at as prprias palavras que iria dizer, tanto a Szende, que desejava en- volver no seu jgo, como a Ila, a-fim-de justificar perante ela a sua atitude ! "Preciso de cumprir para como esta ci- dade o dever que  minha conscincia se impoe e--o que nada adultera to elevado sentimento--farei, ainda por cima, um bom negcio&...
 Mas esta falta de franqueza, 8ste jgo das escondidas consigo mesmo no durou mais que dois ou trs dias, e Kdr acabou por confessar os seus botoes: "Pois bem-!
 sim,  por causa da Yoli que eu fico mais algum tempo c.& Quando chegou a &te ponto, teve de formular outra pregunta correlativa: "Porque quero ficar por sua causa? Que queria eu dela?...& E, ante estas preguntas, deu-se resposta mediante diversas mcntiras. Yoli, todavia, conti- nuava esquiva, nem sequer se mostrava. A-pesar disto, Kdr deixara de andar inquieto. "Tenho tempo&, pensou; e encetou as conferncias com Szende.-&Pobre Szende, que se encontra firmemente resolvido a tirar proveito da minha pessoa!& Sorriu com um sorriso satisfeito e mal- doso, ao raciocinar: "Viu em mim um idiota, quis intru- jar-me, mas  le o roubado. J outrora, na esc&la, deu- -me um dia cinco aparos espelhentos em troc& do meu frasco de goma. Aps a troca, verifiquei que eram apa- ros lavados depois de servidos, j com a ponta gasta. Po- bre Szende ! E o mesmo direi dos outros, todos les bem merecedores, afinal, de sorte igual !& Szende no se esqueceu de cham-lo ao telefone, e  A AVENTURA EM BUDAPESTE 267  autntico ar de escarneo que le estadeava na cara, na manha em que pela segunda vez se apresentou a visit-lo, era nada menos que repugnante. No dissimulava, o ho- menzinho, o seu triunfo. Se Kdr no se decidiu a p lo mediatamente fora da porta, foi porque... O advogado Szende extrara da sua pasta um processo enorme, cheio de plantas, de fotografias de terrenos, de contratos, de avaliaoes, de clculos, actas, de exposioes, de projectos, de oramentos. Foi por tda esta papelada que comeou a comdia. Pobre Szende ! Mesmo que Kdar no tivesse necessidade dle como pretexto para ganhar tempo, nin- gum poderia ter mo em Szende... Nem nesse, nem nos outros.
 Durante todo o tempo da permanncia de Kdr em Budapeste, Szende elaborara, no fito de Iha fornecer, uma pasmosa quantidade de planos, de clculos e de propos- tas, dera-se a angariar um acervo de informaoes e de refernciss.
 Agora, levava-o todos os dias a ver prdios em runas, sitos nos arrabaldes, e exclamava, extasiando-se: "Casas para as classes trabalhadora&, meu amigo ! no tm escri- tos nunca, o operrio  locatrio que paga bem. . .& Ar_ rastava-o para onde existiam terrenos vagos, bons para.
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 fbricas, seduzindo-o com a vantagem que adviria de compr-los a baixo preo. Explodia de entusiasmo  vista de charnecas poeirentas, fora de portas, propondo-lhe construrem a um Bairro Helena hngaro...
 Sim, Szende merecera bem o que Ihe acontecera ! Du- rante mais dum ms, colara-se-lhe como sedenta sangues- suga. Dias e dias a fio, torturara os miolos para fazer brotar uma s idia que fsse, em que Kdr acabasse por mordr. Invent&va coisas de inaudita complicao, cuja impossibilidade de realizao se metia pelos olhos dentro, ou, outras vezes, vinha com projectozinhos duma tenu- dade que cau9ava d. Chegava a no saber, com justeza, se Szende o tomava por um perfeito imbecil, ou se Szen- de era, pelo contrrio, cego ou tolo alm de todos os limi- t&... Kdr j estava mais que farto, mas resignara-se.
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 A AVENTURA EM BUDAPES'  devido a no poder desembaraar-se ainda dle, No final de contas, a meia hora que passava, diriamente, na sua3 companhia, no tinha grande importancia. E, todavis, st jgo inspirava-lhe, muitas vezes, desgsto. "Ficmos ern Peste. . . vou falar com lla. Pflrvo sou eu em acreditar qu& Ila no v claramente atravs dstes truques ingnuos.& ao ter estes pensamentos, fechava os olhos, cerrava os lbios. Mais valeria servir-se de outro pretexto que melhor ocultasse a situao, enquanto isso pudesse durnr &Os meus negcios retm-me em Budapeste.. & Esta comdia durara meses, qusi at o derradeiro dia passado em Peste; e fsse por que Szende tivesse dado com a ln- gua nos dentes, fsse por que os outros houvessem fare- jado a pea de caa--todos tinham vindo, pouco a pou- co, um a um. Semblantes vrios surgiram no hall do hote}, semblsntes que o fitavam cheios de ansiedade; inmeros apelos soavam pelo telefone, cuja inflexo, trmula de co- movida, Ihe no podia escapar Semblantes conhecidos e desconhecidos, semblantes que le tinha diflculdade em identificar atravs do nevoeiro duma distancia de catorze & anos. . . Qusi no havia semana que no trouxesse uma; nova tentativa, mais outro semblante. Mrton, tambm advogado, tentara o csco com o conto fantstico e intrin- cado duma pequena casa bancria a desencalhar e que seria inigualvel fonte de lucros para um capitalista sli- do. Em seguida, Weisz, o desleixado que entortava as pernas, com aspecto de bufarinheiro, viera oferecer-lhe, a le, construtor de fartos capitais, o ensejo de aquisioes particularmente lucrativos. Amman, tambm esse por ali- passara, o elegante Amman que, em linguagem castiga- da, fazia espalhafato das suas relaoes com as mais allas prsonalidades do Estado: "Ignoro, meu amigo, se s sen- svel os ttulos e s distinoes, mas empenho-me em con- seguir a tua nomeao como cnsul honorrio da Hurigra l nessa terra onde vives, desde que, como  natural, faas uns pequenos sacrifcios.& Seguira-se Simon, que, sem ne- nhuma proposta concreta, insistira na circunstancia de ser homem apto para tudo e que, como quem no quere a:  AVENTURA EM BUDAPESTE 269  &coisa, falara da sua ltima viagem  Transilvania no de- curso da gual o caso Ihe permitira ver, em Dva, as tum- bas dos pais de Kdr. Devia voltar l muito brevemente, ~e se Kdr sentisse vontade de acompanh-lo. . . Depois, fra Suhajda a aparecer, com o fato muito coado, tmido e atabalhoado no falar; vinha pedir a Kdr informaoes sbre as condioes sanitrias, e mdicas da Africa do Sul /&s olhos dle tinham adquirido um claro exasperado e , qusi demente ao balbuciar algumas palavras incoerentes a respeito da fatal ingratido, histrica mas imperdovel, que a Sociedade crista do seu pas, reconquistada pelo judasmo internacional, usava para com os seus melhores filhos. Por ltimo, um dia, no meio da rua, Rna tinha agarrado Kdr por um brao, a-fim-de lev-lo, quasi a viva fra, ao seu elegante armazm de porcelanas, no centro da cidade; a metidos ambos num gabinete em que o outro se envaidecia de se ver investido na pele de pa- tro, foi-lhe mostrado o servio que o velho Rna com- prara  famlia dum conde arrulnado: a autntica por- celana de Herend; no me importaria vend-lo a um preo irrisrio, meu amigo; mas haver algum em Peste capaz de comprar-mo?...& E muitos mais tinham vindo, com ou sem recomenda-.
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 oes, seus antigos conhecimentos ou estranhos por com- pleto, apresentados por um amigo, ou cunhado ou um sobrinho, ou referindo-se outros, muito simplesmente, a um fortuito encontro com le, outn&ra Tinham-lhe prodi- galizado discursos prudenes, aliciantes, vagos e fantasis- tas. Patentearam-lhe projectos csmbaios, sem nexo. Lan- aram-lhe no caminho idias to leves como penas...
 &possibilidades, sonhos, uns "talvez&... que, desde que houvesse dinheiro, se poderiam converter em outras tan- tas realidades brilhantes, extrordinrias, esplndidas Aque- las pessoas tdas tinham f na fra magntica do dinheiro, nessa lei da atraco que faz com que dinheiro atraia dinheiro. Para elas, quanto mais se tem, mais se ambi- ciona e mais se  capaz de conquistar, graas  faculdade que possue o dinheiro de se multiplicar por seus prprios.
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 270 A AVENTURA EM BUDAPEST  meios, de se fecundar, forcosamente, a si mesmo Engo-- davam-se todos na crena de que basta o facto de estar& na proximidade de uma grande fortuna para ver fugir para& Ionge a misria. E&actamente como os touros bravos, ex- &citavam-se todos  vista do pano vermelho do negcio cho- rudo que, nos crebros esquentados, delineavam Todos ofereciam e prometiam, faziam luzir esperanas e multi- plicavam exortaoes. Mostravam-se dedicados, generosos- alheios ao vil inersse. Todavia, nenhum dles ousava p dir abertamente, nenhum queria mendigar, no por vergo- nha, mas porque, se estendesse a mo, poderia obter...
 quando muito, uma libra, como Kdr sabia por experi- ncia prpria.
 Contudo, era visvel que lla gostava de estar em Buda- peste; andava de bom-humor e no tardara a deixar-se da insistncia em partir. &inh buscado e conseguira-o com extrma facilidade, dislrair-se na companhia dos Simmons.

 S quando a conversa resvalava para aqules negcios de Peste, quando ela via essa chusma de clientes-fantoches quando Kdr tentava justificar-se, explicar-se perant ela, s ento Ila, sem abrir a bca, franzia as sobrancelha e uma rugazinha profunda se Ihe cavava na fronte. Cada vez mais assaltava Kdr ste pensamento: "Impossve  que lla ignore no passar tudo isto de um pretexto; impossvel  que no veja a verdade l" Punha-se a espiar, num tremor ntimo, para ver se qualquer mudana se pro- duzia em Ila e se alguma coisa se alterava entre ambos, se alguma saa de lugar prprio. "No pode haver som- bra de dvida sbre o estar ela ao corrente do caso de Yoli, reflectiu; oxal nada, apesar disso, se tenha modifi- cado entre ns !& Mas Ila no dizia palavra. E, ao medi tar um dia mais a fundo no silncio de sua mulher, deu a si mesmo esta explicao ingrata e cnica: "Ah, bem ! esti compreendido, tambm eu poderia falar e sei calar-me l&  Havia j algum tempo que Kdr no saa de carra aps o almo. Enquanto Ila passava pelo sono, esten- & AVENTURA EM BUDAPESTE 271  dia-se le tambm no diva e lia ou, ento, remexia nos seus papis. Os negcios do Prto-Isabel preocupavam-no, s-pesar de tudo, e passava s vezes dias nervosos,  espera de qualquer telegrama de Scott. Mns l tudo marchava bem: os hrrenos de Bloemfontein tinham sido vendidos ao Servio Aeronutico do Estado e a firma havia obtido a encomenda dos trabalhos de construo do novo aer- dromo. De manha, jogavam o "tennis&, na ilha Margarida, m GS Simmons. Os dias escoavam-se, repletos de pro- cia espectativa, 8sses dias fceis e belos que os estran- geiros ricos gozam em Peste, durante o vero. Kdr sen- tia-se calmo, tinha confiana no tempo e no mtuo siln- cio de ambos. "Ela ser, quando eu quiser, minha amante&, pensou um dia; depois, num riso sacudido, reflectiu: "No tenho hecessidade de tal, nada quero dela. Nem se quer  bela, e mesmo... no se trata disso; trata-se de saber se lla est ao facto do caso da Yoli... Porque me apraz encontr-la... porque me informo da sua sade, junto do irmo?. . . Porque penso nela ?. . . "Ante estas ltimas palavras, sobressaltou-se. ao pronunciar a frase: "Penso nela&, teve, pela vez primeira, conscincia de que, de facto, pensava muito nela, que muitas coisas se teciam em trno dela, que vrios acontecimentos sofriam a sua influncia, que se ocupava dela, incessantemente, nos seus pensamentos, e tambm de que... tudo aquilo no.
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 tinha ponta de senso: mais valeria que houvessem par- tido, le e Ila, logo ao fim do primeiro ms de estada em Budapeste.
 Um dia encontrou Yoli, por acaso: "Bom-dia, Yoli !
 -&disse, detendo-lhe o passo, h muito tempo que no temos noffcias suas. Como est de sade ? (1& curioso reflectiu, osta manha estava mortinho por v-la; e agora parece-me que o facto me d pouco prazer)&-- &Efectivamente, h ja muito tempo que me vejo impossibilitada de visit-los, no obstante o amvel convite de sua mulher& respondeu ela.--"Tem tido muito que fazer ? . ." continuou Kdr mas sentiu imediatamente quanto a pregunta era tla e pretendeu emend-la: "Sai, sem dvida, muito... Vai.
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 272 A AVENTURA EM BUDAPEST  freqentes vezes  praia 7 . . . "--"Oh ! no, nada disso, replicou Yoli, nada tenho que fazer e no vou a parte al- guma."--"Ento, porque no telefonou ?--"A bem dizer... nem sei.

 Kdr olhou-a de perfil. "E; uma falta de gentileza, da sua parte&, lamentou, um pouco embaraado. Yoli, com vivacidade, cortou-lhe a palavra: &Para que lado vai7 se nada tem que fazer, de urgente, acompanhe-me um bo- cado; tenho de comprar uma fita para pr m m chapu velho e vou a um armazm onde estou certa de ir com- pr-la mais barata.& Caminharam lado a lado, conversando em coisas insi- gnificantes. Enquanto andava, Kdr ia observando Yoli.
 Trazia um vestidinho branco, tendo por cima um casaqui- nho curto, encarnado, um barrete branco e sapatos entran- ados, brancos tambm. A marcha era ligeira mas impri- mia ao corpo uma atitude levemente compassada. Rente a ela, Kdr sentia s vezes o feixe de raivs luminosos dos raios luminosos dos seus olhos, azues-esverdeados, envol- v-lo todo. Os ps dela eram pequenos, belos porque no deformavam o calado. De sbito, atravessou o crebro de Kdr um claro: "Olha, sandlias e saltos rasos. . .& e declarou ento: "Conheci, j h anos, uma rapariga em Viena que se parecia muito consigo, e eu e ela ramos muito amigos." Yoli soltou uma risada sca e desnorteante. &Tem conhecido, nesse caso, bastantes mulheres ruivas?& pre- guntou ela. Fixou-a; que poderia responder-lhe?... Que rplica imediata e curta Ihe daria?. . . "No me queira mal, observou Yoli, com uma espcie de irnico arrepen- dimento na voz, eu no quis verdadeiramente desfazer na sua ruivazinha doutros tempos.& Um estranho sentimento de incerteza agitava o peito de Kdr. Aquela rapariga tinha bastantes traos da Tilly sem, contudo, se parecer nada com ela. Era diferente no rosto, nas mos, na estatura, nos ps, e, todavia, no con- junto fazia lembr-la. Parecia ter o mesmo tom de voz, se beM que Tilly fsse susceptvel de ter mil vozes diversss A AVENTURA EM BUDAPESTE 273  e que, com Yoli, trocara apenas escasso nmero de pala- vras ainda.
 "Vamos, est zangado comigo a valer ? . . .--disse Yoli rompendo o silncio...--Garsnto-lhe que no quis dizer nada desagradvel, mas fui obrigada a deixar sair c para fora esta asneira, porque o senhor  um homem... to esquisito...&--"Eu, esquisito..,  coisa que no sou.
 --"Sim, ou por outra, um homem de tal modo silencioso . . .
 mas eu gosto mais de que se calem. Naquela noite, mal abriu a bca. Certo  que detesto as pessoas que tagarelam, sempre, como sucede com sse horrvel Simon. O senhor, v-se bem que no  de Peste, que  estrangeiro e que tem mais idade do que ns, mais idade do que os rapazes e as raparigas com quem costumo sair. J, naquela noite que sabe, quando esteve todo o tempo calado, senti que havia em si qualquer coisa minha conhecida, como se j o conhecesse h muito tempo. Mas agora reparo em que estou a fazer-lhe a crte, ou qusi. Ento, no est zan- gado comigo, no  verdade ?. . ." --No, no estou--respondeu &dr; e, num gesto desastrado e inconsciente, agarrou no brao de Yoli um pouco acima do pulso.--"Peo-lhe..." protestou Yoli, desenvencilhsndo o brao, com um nico repelo. Aps ter dado mais alguns passos em silencio, parou diante.
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 de um estabelecimento. "& aqui o armazm de que Ihe fa- lei alnda agora; quere entrar ou esperar-me c fora, se ainda dispoe de tempo ?" Alguns minutos depois ela reapareceu, trazendo, sus- penso do dedo por um fiozinho, um pequeno saco de pa- pel. A voz tornara-se-lhe diferente, as suas palavras eram revestidas de jovialidade: "Sabe que eu daria um guia admirvel, para acompanhar estrangeiros? Olhe, naquele armazm, vendem-se as sedas mais caras e da pior quali- dade; neste peleiro, h uma maleta encantadora, a no ser que j 8 tenham vendido. Veja, veja, muito me conviria um automvel exactamente como o que est por trs da- queta vitrina. Infelizmente, no sei de que marca , e de- pois, tambm... Olhe, neste armazm aqui, corrpro eu.
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 &74 A AVE&TU&A ElU BUDAPEiTE  discos, quando, o que raras vezes sucede, posso pag-los.
 Os discos custam por tda a parte o mesmo preo, mas gosto tanto de entrar neste armazm e de ouvir esta mu- sicata infernal ! . . . " E desatou a rir num riso fresco e alegre, que arrastou Kdr a fazer o mesmo: "A Yoli daria, efectivamente, um guia admirvel.&--"Sim, a-pesar de ser s vezes um pouco maluca, replicou ela, mas isto no obsta, no  ver- dade ?. . .--"No, no obsta nada&, respondeu le, olhan do-a outra vez de soslaio (&Se eu Ihe dissesse agora: Yoli, eu quero que possua tudo o que h de mais belo no mundo . . . ").
 Um &ovem em cabelo, envergando um fato de linho, bonito rapaz, passou em sentido contrrio. Yoli, com a mo, dirigiu-lhe um gesto amigo. A sse gesto, o jovem, um tanto desconcertado, parou e fixou seus olhos sbre os dois, seus olhos piscos de mope, munidos de grossos culos de aros de tartaruga. E;ra um daqueles rapazes de smoktng que a acompanhavam, da outra vez, no bar da ilha Mar- garida. &Salv, Yolizinha, como vai isso7. . .--"Salv, Toto, que andas tu por aqui a fabricar a estas horas 7& E Yoli fz as apresentaoes: "O doutor Otto Huszr, o se- nhcr Ant&nio Kdr, ou antes, mister Kdr apenas, por- que no sei dizer o seu nome prprio em ingls; numa palavra, Toto, tu sabes, o amigo de Andr que veio da Africa do Sul." Prosseguiram os trs juntos o mesmo cami- nho, pondo-se o -Dr. Otto Huszr, com gentileza, do outro lado de Yoli. De quando em quando Kdr deixava-se fi- car meio passo atrs, para melhor os observar e escutar a sua conversa, ftil e brincalhona. Fala bizarra. . . pestense da gma; "Minha pequenina Yoli, meu pequenino Toto.& Esto em boas relaoes um com o outro, so amigos, companheiros, pensou Kdr; e um tudo nada de amar- gura Ihe acudiu  garganta. Mostrou expresso hosdl quando, num recanto da rua, o doutor se despediu. "Quem  ste cavalheiro?...& preguntou a Yoli, poucos passos adiante.--&Porque est com essa cara de zangado ? quis saber Yoli num ar implicante, no  um cavalheiro qual- A AVENTURA EM BUDAPESTE '75  quer,  um &om companheiro. Alm disso,  mdico, no precisamente clebre, mas j ganhando bem a sua vida, sobretudo se tivermos em vista que acaba de se formar.
 E especialista de doenas de pele, acrescentou ela com certo respeito. Huszr  um velho amigo no&so, faz parte da nossa sociedade.  um rapaz muito gentil, muito inteli- gente. Mas, para que lado vai agora o senhor ? Eu, tenho de ir para casa. ., & Quando Kdr chegou ao hotel, Ila no regressara ainda.

 Junto do telefone encontrou o bilhete costumado, de aviso do local onde le podia ir ao seu encontro: "Estou na &praia artificial&, com Edith. Estaremos de volta  hora do almo.& Ps-se s passadas largas pelo quarto. &No  bonita...
 & no seu rosto qualquer coisa de vulgar e a bca tam- bm nenhuma beleza tem..." Como estava calor vestiu o pijama. "Devo ir ter com Ila ?. . . Ela levou o carro. No, fico antes em casa, jan- taremos aqui no quarto&. E estendeu-se no diva. Pouco tempo depois, o telefone soou discretamente, em cima da &ecretria. Era Kelemen. &Como vais ? . . . &---"E tu, que fazes?... Desejava muito falar contigo...& Combinaram que Kelemen iria ter com les s quatro horas e que se sentariam depois, em qualquer parte, dum terrao do Corso.
 Kelemen, sse, era o mais discreto de todos. Mostrava no abrigar nenhum desgnio particular e, todavia, era certo que tambm havia de querer alguma coisa. Como  natural, um ouvido j experiente poderia at perceber isso mesmo s por certas inflex8es de voz, por certas meias frases. Ele queria qualquer coisa e, mais tarde ou mais cedo, deit-lo-ia c para fora. No havia sombra de dvida que Kelemen era o mais paciente, o mais prudente...
 &ieguramente, as suas ambioes ultrapassavam as dos ou- tros. Mas o prprio Kdr no Ih- tinha pedido o mais que lhe podia pedir? !
 Pondo o auscultador no descanso, aps a conversa com Kelemen, voltou a estender-se no diva. Era nah&ral e lgico que pensQsse, neste momento, em &roli. "Quem.
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 276 A AVENTURA EM BUDAPESTE  ser aqule rapaz, aqule sbio de culos de sros de tar- taruga, que conversa galhofeiramente em calo de Peste, aqule cavalheiro que no  um cavalheiro mas sim um camarada, aqule fedelho?... Quando muito, ter vinte e cinco anos, vamos l, vinte e seis. Eu vou fazer trinh e trs anos; h sete anos de diferena. Em meu favor, ou para desvantagem minha?. . . Yoli parece ser como unha e carne com le... tratam-se por tu, e o tal Toto pegou- -Ihe no brao num gesto semcerimonioso, habitual, sem que Yoli se defendesse disso; ela no o sacudiu, como fz comigo... Tudo isto  uma enorme estupidez, como se eu fsse agora a ter cimes daquele crianola...  idio- ts !& "1& idiota !& repetiu em voz alts, porque as plpebras comeavam de pesar-lhe e no queria deixar-se adormecer.
 Quando Ila entrou, ergueu-se em sobressalto. Ila vinha de bom-humor. Referiu: "Coisa extrordinria, hoje; che- garam mais duas famlias inglsas ao hotel S. Gerardo; um industrial de Birmingham acompanhado da mulher, uma filha e um genro, e tambm um sujeito de Londres com a filha. A gua estava maravilhosa e o sol to quen- te !. . . olha, v as minhas costas, ainda apanhei um bom banho de sol. . . & Enquanto Ila falava, interrogava-se sbre se Ihe devia dizer que encontrara Yoli por acaso. Este pensamento tor- nou-o furioso. Tinha necessidade de se entregar a refle- xoes a sse respeito ? Que idiota ! E sem demora &nterrom- peu Ila: "Imagina tu que encontrei na rua Yoli Kelemen.
 Preguntou-me se poderia vir, qualquer dia, ter connosco& &E que Ihe respondeste tu ?&--"Disse-lhe, evidentemente, que teramos prazer em v-la e que te telefonasse ela.&-- "&: claro que tenho prazer na sua companhia, assntiu Ila.

 Mas que estava eu h bocado a dizer?. . . Ah ! sim, que nem podes pr na tua idia a pessoa engraada e diver- tida que  essa Mrs. Charvell, a mulher do industrial de Birmingham . . . "  "Yoli no vir nunca por iniciativa sua&, reflectiu le; pelo que, desta vez, no quis confiar no acaso para conse-   A AVENTURA EM BUDAPESTE 277  guir novo encontro. Agora j le se permitia, frente a frenteconsigo mesmo, a franqueza bastante para chegar a pen- sar :& &Terei gsto em encontr-la, em v-la, em chamar- -me perto dela." Tornava-se intil recriminar, discutir.
 :Sentia prazer em ver Yoli e era-lhe agradvel pensar nela.
 De que serviam, pois, as frases austeras, as suposies, os raciocin&os, as apreensoes ?. . .
 Quando, no dia seguinte, se sentou com Kelemen no terrao dum caf do Corso, encetou logo a conversa con- vidando-os, a le e  hma, para jantarem no hotel, numa das noites prximas. "Depois do jantar, poderemos subir, um bocado,  esplanada c do hotel, a no ser que as damas manifestem desejo de sair.& Kelemen, claro est, acei&ou com prazer o convite. Con- versaram. Pareceu a Kdr que, por trs das palavras um pouco abafadas de Kelemen, se ocultava uma espcie de preocupao. "Com que ento, divertem-se em Budapes- te... Eu & conava com isso; no h ningum que no goste de Budapeste, sobretudo se  apenas de passagem que se encontra." Kelemen pretendeu saber quanto tempo mais se demorariam ainda. Kdr respondeu desconhecer ainda a data exacta da partida, que, alis, no estava pre- vista para dia muito breve; a viagem  Sua, adi-la-ia.
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 provvelmente, at que tivesse examinado mais a fundo as propostas de Szende. ao pronunciar estas ltimas pa- lavras, fixou Kelemen com olhar perfurante. Kelemen sou- be dominar-se e s os dedos Ihe tremeram ao acender o cigarro que metera entre os lbios. "Ah ! com que ento Szende fz-te algumas propostas!. . . Muito bem, se se trata de negcio importante...& E imediatamente le en- trou a falar dos seus prprios negcios, que se Ihe no spresentavam muito brilhantes. Comea por que sabota- vam--esta era a expresso que convinha ao acaso--a sua idia, a qual referira noutro dia, resumidamente, a Kdr. No Ihe diziam sim nem no, queriam-no em suma, &zer render pela fome. Mas isso seria, mesmo assim, o mal menor, nas circunstancias actuais; naquele momento, o pior era no se poder entender com o seu chefe de seco.
 278 A AVENTUR& EM BUDAPESTE  Este era um velho cioso que temia ver-se desapossado, por le, do lugar que exercia, fazendo-lhe portanto tdas as partidas possveis, a le que jamais impusera proteco alguma e que atingira o que era simplesmente pelo pr- prio esfro... Abreviadamente, Kelemen deu a entender que no se espantaria muito se recebesse mais dia menos dia a notificao de estar despedido. Em seguida, deixou o assunto e a conversa tomou o rumo de Prto-Isabel.

 Kelemen dirighl inopinadamente esta ptegunta: &Dize-me, Tony, que espcie de gente  essa que tens ao teu servi- o, l em Africa?.. .&--"Oh !  pessoal excelente, so tcnicos de primeira ordem.P--"Sim, sem dvida, exce- lente sob o ponto de vista profissional, mas a respeito de honestidsde?..." Kdr, admirado, fitou Kelemen. No compreendeu imediatamente. "Como ? ! a respeito de hones- tidade?. . .& Queres dizer: se les fazem desvios de di- nheiro?. . . Ou se les metem a mo no cofre?. . .&-- "No, isso no, mas como hei-de eu dizer... por exem- plo, na compra de materiais... no cobram comis- soes . . . ?&--"Ah ! sim compreendo, replicou Kdr, que- res saber se as pessoas encarregadas de comprar por nossa conta no aceitam dinheiro dos fornecedores, isto , se no do preferncia queles que as subornam.--"Sim,  isso. . . "--"No, porque  impossivel, Tu no podes compreender isto sem conhecet bem como so as coisas naquele pas.  impossvel, em primeiro lugar, porque sou eu prprio ou o Scott, o filho dum dos scios, quem dirige as compras. E depois,  impossvel porque o mercado de l&i trabalha com tarifas fixas e qualidades bem especifica- das, de modo gue, mesmo no caso de um dos emprega- dos se mancomunar com um estranho aceitando dinheiro d81e, isto no podetia nunca fazer-se em detrimento da qualidade do material fornecido e o fornecedor dispendetia inutilmente o seu dinheiro em pagar uma comisso."-- "Sim, compreendo, disse Kelemen, de semb!ante constran- gido e pareeendo j arrepender-se de ter atacado o assun- to. Eu no pensei um nico instante em que o teu pes- soal pudesse ser indigno da tua con&lana.&  A AVE&NTURA EM BUDAPESTE '79  Prosseguiu a conversa, mas no tardou a afrouxar. No conversaram dali em diante seno de coisas vazias de in- tersse, e o tom s se reanimou um instante quando Kele- men declarou: "Desculpa-me, eu no gostaria de que vis- ses nisto indiscrio, mas interessar-me-ia enormemente saber como atingiste o que atingiste, tomando como ponto de partida os bancos da escola de Peste. .. Uma carreira como a tua, um triunfo assim to raro. . . &--&Oh ! seria dificil contar isso&, respondeu Kdr, fazendo um gesto vago com a mo. Subiu-lhe os lbios uma frase corri- queira: "Tive de lutar muito.& Estava qusi a proferi-la mas conteve-se, substitu2ndo-a pelas pal&vras: "Estas coi- sas do-se um pouco por questo de sorte... Um acaso feliz pode levar-nos l.& (Esse "l&, pensou le ento, con- sistia naquela sua situao de, os trinta e dois anos, ter j muito dinheiro ganho, de ser o patro de si mesmo e de sentir-se uma potncia na esfera da sua actividade; e, a-pesar disso tudo, ali estava agora sentado na companhia dum pobre estrangeirito, famlico e medocre, um dsses escravos, desventurosos sem dinheiro e sem mrito, que existem pelo mundo fora os milhoes, ali estava a perder o seu tempo com le, ilnicamente no fito de... de ver Yoli.) Chegado a ste ponto, o pensamento de Kdr esta-.
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 cou, para, em seguida, voltear impotente  roda do nome de Yoli. "Que faz a Yoli.. .? preguntou a Kelemen, como vai ela7... No tem projectos qusnto ao seu futuro?...
 No seria bom que se empregasse?. .. No gostaria ela de trabalhar, quanto mais no fsse para estar ocupada, como  o caso, em geral, das raparigas modernas?...& Como estas, outras preguntas do mesmo gnero Ihe sa- ram. As respostas de Kelemen foram prudentes, um tanto reservadas; le cingia-se estrictamente os assuntos e mostrava-se lacnico at ao ponto de ser dissimulado. K- dr percebeu ste retramento qusi provocador. "Canalha !

 pensou. Deste por que ela me interessavs. No queres entregar-te, fazes-te usurrio ?& Dois olhares peaetrantes se cruzaram ento, aps o que os dois homens se apertaram mutuamente as mos e se.
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 280 A AVENTURA EM BUDAPESTE  separaram. Tambm Kelemen ia, sem dvida, pensando em que talvez ainda...
  Infelizmente, o combinado jantar no se efectuou.
 Nessa manha, s oito horas, Ila tinha ido jogar o "tennis&, na ilha Margarida, e, meia-hora depois, j ela telefonava, desesperada, de uma elegante casa de sade de Buda: ,Urs. Simmons escorregara no terreno ainda um tanto mido, cara, e certamente devia ter o tmozelo direito fracturado. Ila fizera com que a transportassem para aquela casa de sade e, agora, andava-se  procura do ortopedista recomendado pela direco da mesma. O capi- to Simmons encontr&va-se em Belgrado. Kdr atirou- -se para dentro dum taxi e correu ali. Permaneceu l at findar a operao, que foi feita com xito ao meio-dia.
 `oi em seguida telefonar ao capito Simmons. Este que- ria regressar imediatamente, de avio; o director da casa de sade teve de recorrer a tda a sua eloq8ncia para o tranqilizar e dissiduadi-lo disso. Ila ficou a acompanhar a amiga.
 Kdr almoou szinho no hotel, subindo depois para o quarto. Lembrou-se ento do convite feito os Kelemen para essa noite e de que era necessrio contra avis-los.
 Uma certa indeciso se apoderou do seu esprito e, du- rante algum tempo, sentiu-se incapaz de anular o programa da noite. Vacilava na deciso a tomar. Deveria mandar umas palavras a Kelemen ou a Yoli, ou deveria ir pes- soalmente, a sua casa? Acabou por telefonar a Ila, 8 pe- dir-lhe conselho. A mulher respondeu-lhe num tom um pouco impaciente: "Evidentemente, esta noite  imposs- vel; eu, pelo menos, no poderei: mas, se queres, nada te impede de receb-los."--"Est claro que, sem ti, no fao isso& concluiu le. Depois, num carto de visita, in- formou Yoli e Kelemen do acidente, desculpando-se dsse contratempo e convidando Kelemen a ir v-lo na manha seguinte, ao hotel, cujo chasseur foi o portador da men- sagem. Passadas umas horas, dirigiu-se novamente para  AVENTURA EM BUDAPESTE 2#1  a casa de sade. Durante o sero Mrs. Simmons foi aco- metida de dres muito difceis de suportar. Ila estavs ner- vosa, agitada. Ele deixou-as ss, voltou para o hotel, an- dou de um lado psra o outro no quarto, encontrou afinal a guia dos caminhos de ferro dentro duma gaveta onde fra remexer, leu alguns telegramas vindos de Prto-Iss- bel e depois, debruado da varanda, ps-se a contemplar, de alto, o Corso. Pelas nove horas, desceu  sala de jan- tar, enguliu sem apetite qualquer coisa, ficou qusi meia hora no terrao e, em seguida, recolheu-se. A noite estavs quente. Adormeceu imediatamente mas no tardou a des- pertar, e ficou ento bastante tempo sem dormir. Eram j qusi trs horas da madrugada quando conseguiu recair no sono.

 No dia imediato, o advogado Szende voltou a procur- -lo: mas Kdr, impaciente, desembaraou-se serr& delon- gas dle. "Infelizmente, ste desa&radvel acidente impe- diu-me, disse-lhe Kdr, de ler com ateno as tuas no- tas, mas espero ter, num dstes dias prximos, um mo- mento vago para ir visitar contigo sses tais prdios.& Szende dissimulou o seu despeito, mostrou uma expres- so risonha e foi-se embora. Foi nessa mesma manha que Kdr se deixou arrastar, em frente de Kelemen, ao ponto de cometer uma. . . --digamos a frase exacta--uma.
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 aco infame. No passou de vaga palavra, de um vago encorajamento, mas Kelemen bebeu essa palavra como uma esponja sca absorve um lquido infecto. No decurso da conversa, ambos vagueavam  roda de qualquer coisa, como se cada um dles esperasse do outro a palavra de- cisiva... No meio dessa conversa conduzida os sola- vancos, neutra e refreada, Kdr lanou, de passagem: &l, naquelas paragens, o mundo , com efeito, diferente.
 O talento e a fra de vontade acabam sempre por triun- far ali, duma maneira ou doutra, sobretudo quando h &Igum a quem a gente se encoste..." Ps-se, em se- &uida, a falar doutra coisa, mas viu que o rosto um pouco &tigado e um tanto gasto de Kelemen se reanimava e que, m seus olhos, um claro vivo e violento se acendia. Pou-.
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 28 ' A AVENTURA EM BUDAPl&:STE  co depois Kdr acrescentou que no havia situao al- guma em que o homem tivesse o direito de se deixar ir abaixo, sobretudo se nle houvesse f, esprito de deciso ou uma idia fixa, se conservasse uma s rstea que fsse de esperana num futurs) melhor. Ele prprio, Kdr, era vivo exemplo disso; mas preciso era tambm que cada qual visse nitidamente o que poderia esperar de outrem e o que Ihe poderia oferecer em troca. Nesta ocasio Kele- men deveria falar, oferecer e pedir, visto que, de facto, cada um dles sabia perfeitamente aquilo que queria do outro e o que poderia dar... mas Kelemen guardou si- lancio.
 "E;le quere que seja eu quem fale primeiro, pensou K- dr. Quere conservar a vantagem da posio&, mas ao surpreender no olhar de Kelemen aquela viva chama, im- possvel de dissimular, disse de si para si: "Tu falars, meu amigo; conheco de sobra essa ttica, sse silncio, essa reserva..." Como estavam um em face do outro, erguendo os seu& clices de conhaque e envoltos na espssa fumarada dos cigarros, Kdr evocou subitamente uma cena semelhan2e, passada num salozinho londrino, tornou a ver-se a 9i mesmo afundado numa poltrona, defronte duma mulher estranjeira, cujos olhos e cujos cabelos tinham utn tom negro luzidio e que estava vestida tambm de negro. T&r- nou a viver o momento em que, j  beira de se entre- gar, de perder as suas fras, se retemperara e escorra- ara com uma s palavra voluntariosamente indiferente mendi&o que ia surdir dentro dle, que fremia no desej& de implorar uma moeda mas que, a-pesar-de tudo, na& queria entregar-se a preo vil...
 &EIe quore obter muito, e eu tambm, o que  justo", raciocinou. A primeira infamia, instintiva no fundo mas premeditada nos pormenores, consumara-se... No vol taram a fslar de Prto-Isabel nem de Yoli, salvo para acentuar que era na verdade aborrecido terem ficado pri- vados da renio alegre da vspera, esperando porm des- forrar-se disso brevemente.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 28&  Pelo meio do dia Kdr diri8iu-se para a casa de sade.

 Mrs. Simmons de5cansava, pelo que no entrou no seu quarto. Conversou apenas uns instantes com Ila, no largo patamar do prirneiro pavirrlento. Nh noite anterior Edith tinha tido febre, dormira mal, a pobrezita... Se, ao me- nos, tivesse ali o marido ! Ele telefonara de man&ya anun- ciando a sua chegada para o dia seguinte. Nesta altura da conversao, atravessou o parlatrio uma enfermeira alta e cheia, de figura robusta. Ela parou um segundO no li miar da porta, envolveu-os a ambos num s olhar e sau.
 Quando se ia embora, Kdr cruzou-se novamente, no corredor, com a mesma enfermeira. Ela sorriu, fz men- o d& se deter e cumprimentou-o. "Boa-tarde, Sr. Kdr, no me reconhece?...& Aqule sorriso ! . . . Aqueles olhos negros, rasgados no belo semblante redondo, de feioes regulares, aquela ma- deixa de cabelo, negro como azeviche, escapando-se por debaixo da coifa branca... Era Agata.
 &Mas, se me no engano. . .  voc, Agata&, disse, es- tendendo-lhe a mo hesitante.--&Que coincidncia! ob- servou ela: quis o acaso que se fizesse precisarnente para aqui o transporte dessa dama inglsa... J ainda agora eu tinha reconhecido o sr Kdr. Santo Deus ! h tanto.
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 telllpo que o no via. . . como vai de sade?. .. Como se compreende ste seu regresso a Peste? Desde que nos apartmos no voltou mais a Peste, no  verdade?& . .
 Graas a Deus, vejo que est bem. . . & As feioes daquele semblante nada se tinham modifi- cado; apenas emanava agora de tda a sua fi&ura, de for- mas rolias, uma impresso de tranqilidade, de contenta- mento interior. A voz tambm era a mesma, eSSa voz que o acariciara, merc das suas inflex8es aveludadas, durante as penosas noites de doena e que le to bern conhecia em todos os seus tons, desde o riso fresco de rapariga alegre at os soluos reprimidos da hora do adeus, sem excluso dos suspiros extticos da volpi8. Agata prosse- guiu: "E a senhora, esta dama bngara, e sua espsa, no  assim & Que mulherzinha encantadora e gentil ! Me&.
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 2&4 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Deus ! como eu gostaria de ouvir o senhor contar tudo o que Ihe sucedeu durante todo ste perodo to longo...

 mas ve&o que est com pressa... Deso a acompanh-lo, se mo consente " Dizendo isto Agata voltou-se e foi-se colocar, com de- ferncia,  esquerda de Kdr. Durante os trs minutos que levaram a descer a escadaria, as preguntas dela, salpi- cadas de exclamaoes admirativas choveram copiosamente em cima de Kdr: &Santo Deus !  ento verdade que o senhor vive em Africa?... Inacreditvel! E vejo que as coisas l correm bem. . . O senhor j est casado h bas- tante tempo e, j se dei&a ver,  feliz com esta senhora encantadora. . . Talvez ela seja de Peste, no?. . . Ainda no tm herdeiro?. . . No. . .  pna, mss ainda no  tarde...& Depois contou que, graas a Deus, tambm les passavam bem, isto , ela e o marido, que era o chefe da secretaria da casa de sade. "H j mais de quatro anos que estou casada com le, desde que sou aqui enfer- meira-chefe; vai a gente indo o melhor que pode, ganha- mos suficientemente. . . " Kdr experimentou um agradvel sentimento de sere- nidade na presena dessa mulher que, transpirando sade por todos os poros, se consagrava a velar pela vida dos outros. Quando, j  porta, le Ihe estendeu a mo, Agata, ou seja a sr.& de Jos Komives, apertou-lha com a mesma firmeza e a mesma familiaridade de oulrora. Um sorriso Ihe iluminou o rosto; desabotoou a blusa branca, na altura do pescoo cheio e alvo, e puxou para fora um fiozito de ouro, do qual pendia, como talisma, uma flha de trevo: &Ve&a, sr. Kdr, ainda o tenho e guard lo-ei tda a mi- nha vida . . . graas a Deus. deu-me sorte !"  A magntica frca que o impelira para a rua, nessa noite tpida de Julho, emanava daquele trevo de ouro qu& Agata trazia ao pescoo. &EIa est, pois, feliz, opulenta e satisfeita&, considerou Kdr, no reresso. Onze anns  AVENTURA EM BUDAPESTE 285  so passdos. . . casou-se, o fio e o trevo levaram-lhe feli- cidade.& ao atravessar o tnel e a ponte, afrou&ou o passo.
 Eram sete horas quando chegou ao hotel. Sentia a cabea estonteada. Aquela fra a primeira mulher com quem...
 &ue .. e, neste instante, viu mui nitidamente b fiozinho de ouro em volta do pescoo esbelto e, todavia, gordinho, liso e branco, e afincou-se, arrastado por uma curiosidade bizarra e pueril, em alargar a sua viso, em avivar o pas- sado. Teve a sensao qusi fsica de tocar na mo de Agata, mo branca, de dedos finos e longos; voltou a ver o seu corpo esbelto e, ao mesmo lempo, robusto, as suas espduas, os seus cabelos soltos; voltou a ter, perto de si, a Agata de outrora, a imagem que conservara dela, com o seu vestido castanho e com o seu grande avental azul.
 Viu-a desaparecer na obscuridade, na fosforescncia mis- teriosa do seu corpo branco... Depois, essa viso tur- vou-se; tornou-se nebulosa, transformaram-se-lhe as c- res, d ssiparam-se-lhe as formas, os cabelos negros e sol- tos tomaram um tom mais claro, apareceu uma cr loura, a princpio cendrada; em seguida, escurecendo de novo, tingiu-se de vermelho at se tornar num ruivo ardente. O rosto, tambm le se transformara noutro rosto que no era conhecido nem desconhecido, como se o nariz, a bca, o arco das sobrancelhas, a linha do pescoo, o arredonda-.
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 do das espduas e o dos seios pertencessem, cada um, a sua mulher diferente.
 Tudo era estranho, tudo diverso, na nova figura e, to- davia, parecia-lhe j ter visto em qualquer parte essa mu- lher misteriosa e impessoal. Fechou os olhos esforando- -se por repelir essas recordaoes com cem semblantes, cem corpos, cem aspectos vrios. Ergueu-se e, stravessando o hall do hotel, sau. Sem fazer caso do seu carro, que es- ` tacionava junto do passeio do edifcio, dirigiu-se a p para os lados da avenida Andrss&. "Tenho de subir ao meu quarto, tenho de ir jantar e preciso de deitar-me. . . " Mas aquela fra magntica arrastou.o irresistivelmente, tal como a complicada mquina, inteligentemente construdo,.
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 &86 A AVENTURA EM BUDAPESTE  apta para mltiplas funoes, mas sem alma, obedecendo a uma vontade estranha, exterior. Cessou de pensar; os sentidos apreendiam as coisas e os sons de maneira vaga, apaziguadora, agradvel e que lhe no deixava responsa- bilidade alguma. O cu era azul, sem nuvens; o creps- culo morno caa docemente, como chuva finssima. Senlia &elcia em caminhar no meio daquela atmosfera veludnea, doce e quente. Foi at ao fim da avenida Andrssy. Os habituais passeantes das tardes de vero iam e vinham, na ondulao pacificadora e leda do passeio; passavam rente dle mulheres e raparigas. Teve a impresso de que uma coisa a qualquer sossobrava dentro de 9i: a dureza do corao, a fra resoluta, a vontade de lutar, os resul- tados obtidos. Contemplava a vida em redor com os seus &ntigos olhos de estudante curioso, vido de tudo. A rua vacilava sob os seus passos; vinham roar por le risos, fragmentos de frases, a msica dum aparelho de T. &i. F., &ue saa da janela dum primeiro andar. Raios de luz que dimanavam de olhos femininos atingiam-no no rosto, olha- res lentos que eram ofertas, uns, e outros fortuitos, fug- dios. Lentsmente, encorporou-se no desfile. A passo mido, ia cruzando com pessoas isoladas ou em grupos, cadeias de sres humanos, uma verdadeira floresta humana no meio da qual poderia perder-se. Chapus brancos, barretinhos-- de cr, vestidos leves e pintalgados, pernas cingidas de meias brancas e cr de carne, pernas esbeltas e juveni&, seiozinhos rijos e provocadores, sob o falso segr8do de - blusas, debaixo de sdas coleantes, ou oferecendo-se s escancaras; depois, rostos de homens e de rapazes, com olhares pesquisadores, atrevidos. Surpreendeu-se num re- canto da rua, diante de um "caf" donde se exalava um cheiro a bebidas e a po.
 Pessoas de tdas as classes, novas e velhas, homens, mulheres, crianas, estavam ali abancadas, formando uma assemblia pitoresca e turbulenta... Ps-se de novo em marcha, cortando a multido, com a sua alma distante, como que imersa num sonho. Havia qualquer coi&a den- tro dle que sossobrava; casas, trres, navios, toalhas de  A AVENTURA EM BUDAPESTE 287  gus, metrpoles, caminhos de ferro sumiam-se  sua Vi9- ta, e uma enorme quantidade de libras esterlinas afunds- va-se tambm; o cu era dum azul profundo e muito vivo, sob o esplendor perptuo do sol. No meio dsse inevit- vel e supremo naufrgio das coisas surgiu, na noi&e m gica de Peste, o seu prprio vulto, branco e purc c&mo uma esttua triunfante, no sop da qual se agitsvam os prantos e os risos, os triunfos e as derrotas de quinze anos de vida, o sonho e a morte. Continuava sempre a andar. Por cima dle, a segurana do firmamento eterno; sob os seus passos e para trs, o sucesso esquecido, tra- do, a incerteza aventurosa do presente; e, na sua frente, uma espcie de grande e estranha nostalgia, dolorosa e boa ao mesmo tempo. Continuava a marchar. Bicos de gs tremeluziam  sua passagem, lanando um claro s- bre as sombras que, pelos bancos, se enlaavam. De quando em quando um automvel passava sem rudo, re- percutiam assobios, agentes ciclistas, em patrulhas dobra- das, deslizavam pelo meio da calada. O silncio, o aroma da noite, da poeira, das fJres e dos relvados. &:le seguia, sorria. Eis que surge uma bela avenida, com pessoas dis- tintas sentadas em inmeras cadeiras. Mil lampadas elc- tricas cintilavam num jardim a abarrotar de &ente; depois,.
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 passavam outros automveis iluminados; da distancia vi- nha um som musical. E viu-se de-repente numa rus es- treita, bordada de vivendas silenciosas e fechadas, com seus jardins profundos, ericados de grades. . . Houve en- to silncio ao seu redor, aps o que percebeu uns dbeis acordes, vindos de longe. Parou, aplicou o ouvido, reco- meou a marcha, dirigindo-se para o stio donde, cada vez mais distinto, partia o som... dum piano. Atravessou a calada, avanou qusi correndo na direco da msica.
 Deteve-se diante do porto gradeado duma vivenda que tinha uma janela tda aberta e iluminada. E como que pe- trificado, ficou-se a escutar: mos de &Jiatuose faziam ali &rotar do piano a sonata de Chopin, na sua pureza de sons encadeados, nas variaoes dos seus trilos, nos seus acor-  es cristalinos, em tda a sua polifonia indefinivel e su-.
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 288 A AVENTURA EM BUDAPESTE  blime, na sua imorredoira melodia... Aquela sonata bro- tava de um piano Steinway... Kdr, instintivamente, p&s a mo no fecho do porto; mas a pea de frio me- tal resistiu-lhe. Num pulo, encontrou-se em frente da ja- nela; escalando o muro baixo, ergueu-se at o pinculo do gradeamento e segurou-se a um dos varoes; de a, atra- vs da folhagem das rvores, lanou um olhar ardente psra o interior da casa.
 No aposento iluminado, diante do enorme piano, iria le divisar uma silhueta estreita de ombros, com abundante cabeleira ruiva e as mos esplendentes de brancura ?. . .
 No ! No aposento inundado de luz, perto da janela, via-se um piano de natureza especial, revestido, a meio, de uma placa de vidro. Um- indivduo calvo, levemente obeso, de roupo, era quem estava sentado diante dle. As mos, assentes em duas alavancas, entregavam-se Q movimentos rigidos, singulares; o busto acompanhava, com meneios ritmicos, a msica; e os ps do homem ocupavam-se em premir os pedais. Aquilo no era um piano Steinway, mas uma simples pianola; em lugar de ser msica renascida de cada vez, recriada ao toque de inspirada mo, era mu- sica recolhida em registos, para uso dum maquinismo per- feito: uma pianola ! . . . Olhando o instrumento e deitado no fundo dum leito de rodss, estava um rapazinho dos seus dez a doze anos, de pele macilenta, a cabeca pen- dida para trs, semi-cerrados os olhos, os ps paralticos, embrulhados em cobertores...

 O sonho, sse seu sonho nebuloso, catico, redemo&- nhante, prprio de quem tivesse tomado pio, desvaneceu- -se bruscamente. A iluso que o tinha feito sair de si mesmo acabava de descambar na realidade; o arrebata- mento que o havia erguido to alto deixava-o cair na obri- gao de fazer um exame de conscincia. Ainda durante minutos se manteve na mesma posio, colado ao gradea- mento, naquela rua deserta, com os olhos sempre fixos na janela iluminada. Depois murmurou &Amo-a& e, com pre- cauo, saltou em terra, ficou um segundo a reflectir e Ds-se de novo a caminho. Acudiu-lhe ao esprito uma A AVENTURA EM BUDAPESTE 289  frase, que Ihe causou calafrios: "Estou envenenado". Mal pronunciou estas palavras, capacitou-se, com tda a luci- dez do crebro, de que estava de faco, envenenado e de que o veneno penetrara j profundamente, incurvelmente, na sua carne. Esse veneno, fsse qual fsse o nome que Ihe aplicassem, romantismo, sentimentalismo, recordaoes da infancia, nostalgia doutra vida, obsessoes, neurastenia, ou, mais simplesmente, efeitos de um agradvel passeio e noite pelo bosque. . .--a etiqueta seria to indiferente como o frasco que o contivesse--a essncia dle, dsse veneno, chamava-se Yoli. Era medonho, talvez mesmo insuportvel, mas, ao menos, era ponto averiguado. Dei- xara de debater-se na incerteza a tal respeito !. . . &Santo Deus ! . . .  espanto&o. . . estou apaixonado por ela. . .  terrvel!. . .& Exclamaoes que tinham sinceridade e que eram como que o protesto contra o facto de ale, o homem rico, independente e srio, cheio de equilbrio, le, o ma- rido de Ila, ter podido apaixonar-se por aquela garta ruiva de Peste. Amargurava-o, humilhava-o a confisso e, toda- via, apenas o dizer consigo prprio "amo Yoli& fazia com que um sentimento infinitamente doce Ihe reaquecesse o corao e Ihe florisse de sorrisos os lbios. Meditou ento em Yoli e tambm em Ila. A mulher no o interrogara nunca; nem trocara sequer com uma nica palavra no que.
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 tinha sido a existncia dle antes do casamento de ambos.
 Apenas a sua unio e a sua vida comum Ihe importavam.
 Os dois iam, a par e passo, envelhecendo com les,  me- dida que caminhavam para o futuro, e o passado nada in- teressava a Ila. Qual poderia ter sido o passado de Kdr ? O que constitue a existncia de todos os rapazes: amres, mulheres mais ou menos atraentes, que assim como sur- gem assim desaparecem. Tudo isso poderia j ter tanto intersse como tinham tido, para ela, Kassa, sua terra na- tal, e Myers, o seu defunto marido. Ila vivia hoje a seu Iado, pertencia-lhe e vivia para le, e o seu nico desejo era sab-lo a viver para ela e com ela. Naquela noite em que le se introduzira na sua cabine, a bordo do &Falco& nia", lla j o esperava. f3m Prto-Isabel, durante os pri- .
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 290 A AVENTURA EM BUDAPE  meiros tempos, permanecera sendo sua amante, e a circtancia de tda a gente estar ao facto disso deixava-a in ferente. No se quisera casar antes de le se tornar igual, de ser engenheiro-arquitecto, senhor dos seus p& prios actos: Ila aguardara que tal se desse. Era cerlo, tu& isto. As vezes, quando le a esquecia, tinha o sentime& vivo de que ela esperava o seu regresso. E agora.

 &Engan-la-ei mais uma vez, disse Kdr consigo mesrr cheio o seu corao de frieza, ser-lhe-ei novamente infie engan-la-ei como logo no como do segundo ano, ain no estvamos casados, em Johannesburgo, a enganei cc a filha do reitor da Universidade, Bloomhardt. Engan-l -ei como a enganei com aquela danarina sueca com qu& ia encontrar-me todos os meses, no Transvaal, para fic com ela uns dias; ou como com Isabel, que me secrel riava h dois anos e que acabou por casar com Growha ou como com Lady Astifield, que se me lanou nos b os durante uma crise de histeria... Nunca pude resi& ao meu desejo, nunca soube renunciar, desviar-me da &- tao, permanecer fiel. Persegui sempre tdas aquelas cobicei, atormentei-as, como sucedeu com Isabel, at f& -las render. E agora, tambm agora vou estender a - para aquela que amo, agarr-la-ei e enganarei, atrai& Ila novamente...& ` Num pequeno pulo ergueu-se da cadeira em que s servara sentado, havia bastantes minutos, no quart& escuras. Acendeu a electricidade. Uma luz branca, pura suave, luz purificadora, espalhou-se em volta. Sentiu ud fome terrvel: desde o meio-dia que no comia nada. E& fome tornou-se de sbito insuportYel; desceu  sala jantar e pediu uma ceia. Era meia noite... O corpo sentia-se-lhe da fadiga do longo passeio, mas no l~ vontade de dormir. Sau para a margem do Danbio, procurou uma cadeira. A atmosfera estava pesada. Le& tou-se, continuou o seu passeio, encaminhou-se para extremidade do Corso que dava sbre o cais Junto embarcadoiro, em frente da sala de espera, havia ban& sentou-se num dles. O odor da gua penetrou-lhe  AVENTURA EM BUDAPESTE 291  as como hlito purificador e refrescante. "No  coisa iim to grave&, murmurou, olhando depois em volta, ra se assegurar de que ningum o ouvira "A coisa no ainda assim to grave como isso&, repetiu mentalmente, sentiu ento grande alvio. No fim de contas, trata-se enas de uma criaturinha de Peste.  certo que tem vinte os, mas tal no  motivo para ningum se deixar apa- ar. No havia perigo. Ele no se deixaria cair na rde.
  Ila, durante aqules dias, era como se estivesse ausente Peste. Passava-os, qusi por inteiro, ao p da amiga, rs. Simmons, na casa de sade; e no queria ouvir falar, quels ocasio, em deixar Peste. Edith Simmons fra iga da senhora Alexis e Ila conhecera-a em Londres.
 ornava-se natural que, no estrangeiro, um antigo conhe- mento, ainda que apenas superficial, se transformasse ma amizade muito ntima; todavia, na afeio de Ila por rs. Simmons pareceu a Kdr descobrir uma espcie de fgio, de procura de amparo.
 Ila continuava a passar a maior parte das suas horas companhia de Edith, mesmo depois da chegada do rido desta, e s quando comeou o perodo da conva- :ena de &rs. Simmons ela se resolveu a permanecer nto de Kdr a parte da manha. Passavam-na, geral-.
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 ente, na 4praia artificial&, onde tambm almoavam, e seguida Ila dirigia-se para a casa de sade. Umas ve- ; Kdr acompanhava-a a e prolongava a sua visita por la hora; outras, limitava-se a ir busc-la j pelo sero ntro. Com as tardes assim livres, consumia-as deitado no uarto, que mantir.ha em escurido. Punha-se a pensar em oli ou, ento, quando o calor abrandava, ia vaguear pela dade, ao acaso. Procurava Yoli, e s vezes conseguia &la. Invadia-o uma sensao incmoda, glacial, sempre ue fazia maior reparo no facto de consagrar agora uma ande parte do seu tempo a pensar em Yoli e qusi tda restante em exploraoes pelas ruas, no fito de encontr- 292 A AVENTURA EM B&JDAPESTE  -la. "J a&ingi os meus trinta e trs anos, reflectiu ale com pavor, j no sou um colegial de quinze anos". Mas qusndo alcanava um momento de sinceridade consigo prprio via-se obrigado a confessar que sses devaneios a respeito de Yoli, essas exploraoes em sua busca, Ihe proporciona- vam instantes to comoventes, to agradveis como aqua- les que o penetravam na presena dela.

 De quando em quando Yoli passava uma manha na companhia de Kdr, na "praia a&tificial&, e outras vezes, encontrava-a Kdr szinho, como por acaso. Este acaso, forjava-o le baseado em anterior conversao: Yoli dis- sera, por exemplo, que em determinado dia iria a ste ou quele stio, e Kdr fixava isso para l a encontrar "por acaso&.
 Certo dia, interceptou um demorado olhar perscrutador de Ila, assestado sbre o rosto de Yoli; pensou ento que Ila ainda ignorava ter le tido no Transvaal, durante os seis meses em que a se ocupara em construir os entre- postos, uma jovem sueca, chamada Inga; impossvel seria, porm, que Ihe passasse despercebida esta histria de Yoli, "Qual histria ? ! . . . rectificou imediatamente, haver aqui seja o que fr que se deva ocul&ar?. . . Tratava-se, evi- dentemente, de uma nova mentira, tanto maior e mais pro- funda quanto era certo que, por fim, j no referia a Ils sses seus encontros fortuitos com Yoli Esta no deixava nunca de Ihe pedir notcias de Ila e lamentava at que ela se encontrasse presa na casa de sade; mas parecia, no obstante, aceitar como coisa natural o encontrar-se, to freqentemente e  conta do acaso, com Kdr, e estarem mesmo muito mais vezes szinhos os dois do que em com- panhia doutras pessoas.
 De que falavam durante os seus grandes passeios ?. . .
 Era, geralmente, Yoli quem falava, limitando-se Kdr 8 responder s suas preguntas. Bastava-lhe, a le, ouvir a voz da rapariga, contemplar-lhe o rosto, a figura, o modo de andar, marchando um nadinha atrs dela. Yoli falava- -Ihe da trivialidade cotidiana da vida. Esse era o seu ete no assunto, que tomava visos de idia fixa. Enquant&  AVENTURA EM BUDAPESTE 293  davam milhares de passos, Yoli falava incessantemente.
 As suas palavras ferviam, semi-conscientemente, duma irritao contra a sua existncia de burguesinha, contra a habitao exgua, atulhada de gente, contra os aborreci- dos divertimentos baratos, os nicos ao seu alcance. Ou- via-se, nessas palavras, gemer uma nostalgia, meio-cons- ciente, duma vida mais bela, melhor, mais rica. Quando falava de si, por trs da sua franqueza glacial e cruel, por trs do desprzo qusi sdico por ela mesma, era a re- volta que assomava. Enquanto deambulavam ambos pelas ruas estivais, no decurso dsses passeios tornados, por acrdo tcito, regulares--Kdr observava a jovem e observava-se a si prprio, como se no seu ntimo exis- tisse um estranho. "Que desejo eu dela?..." interroga- va-se amide, pensando imediatamente em &la. Que Ihe im- portavam o joelho dorido da mae de Yoli e a gravidez da irma ? ! . . . Ila, Edith, os amigos de Londres e os de Prto- -Isabel vinham-lhe  idia. "Que poder interessar-me que, em casa de Yoli, tenham de improvisar quartos em tdas as divisoes ? !& E logo evocou a sua vivenda de Prto-Isa- bel, com o enorme terrao sbre o mar. "Que tenho eu que ver com as preocupaoezinhas cotidianas dela, com os seus desejos insatisfeitos, com as suas inmeras re-.
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 nncias ! ? . . . & E invadiu-lhe de sbito o esprito a ima- gem dos seus vastos escritrios de teto envidraado, pa- receu-lhe ouvir o matraquear precipitado das mquinas de escrever: consciente do seu poderio, levou a mo  algi- beira do casaco, onde repousava o espsso livro de cheques do Banco da Unio Sul-Africana. Mas, em seguida, usou da sua brutal franqueza contra 81e prprio, injuriando-se: "Porque mentes tu?... Porque ests com essa com- dia?... Tu queres Yoli, queres possu-la! Para que esta- r es a iludir-te, a negar a evidncia?& Nisto, outra voz soou nale, sondando-lhe o esprito ainda mais profunda- mente: Mas se a desejas, porque hesitas?... Estende a mo para ela...& ;& Sentia vagamente que qualquer resstncia Ihe embar- gava o caminho e que era preciso, ou fugir dela decidida- .
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 294 A AVENTURA EM BUDAPESTE  mente ou quebrar essa resistancia num nico mpeto. Per- manecer hesitante,  que no.
 E, contudo, houve uma semana em que teria podido. . .
 em que teria devido... em que era, em que teria sido mais fcil... Fra no flm de Julho, numa tarde em gue, em Buda, num restaurante da moda, haviam jantado, jun- tos, os quatro: Yoli, o irmo, Ila e le. O sero decorrera segundo o rito habitual. Kelemen prodigalizara a sua obse- quiosidade costumada, Ila conservara o seu ar distrado esforando-se por parecer interessada por tudo. Yoli de- clarara, a certa altura e como mero incidente, que, na tar- de do di seguinte, teria de fazer uma compra nuns arma- zns do centro da cidade, o que era m.aneira de fixar uma entrevista com Kdr ao p dos ditos armazns. Tinham ambos, agora, uma espcie de linguagem cifrada. Na ma& nha imediata Kdr jogara ao "tennis& e ficara depois at o meio-dia na praia. Aps o almoco, acompanhara Ila ao sanatrio e voltara para a cidads precipitadamente Yoli esta j  sua espera, diante dos armazns. A passo lento, foram passeando por uma das mais tranqilas ruas da cidade.
 --Queria dizer-lhe j ontem, comeou Yoli, que parto no sbado.&--"Parte?... Para onde?... Por quanto tempo?... Com quem?...& preguntou Kdr, suspen- dendo a marcha.--"Oh ! no vale nada, uma semana ao todo. Eu a princpio no queria, mas os meus amigos in- sistiram tanto, que, por fim..."--"E onde vai7..." tornou le a preguntar, em voz surda.--"Vai ser bastante divertido, respondeu Yoli; imagine que partiremos, num grupo de oito, de barco para Viena e que levaremos con- nosco dois escaleres de passeio. Depois, de Viena, desce- remos o Danbio, de escaler, at Peste. Levaremos, bem entendido, um equipamento completo de week-end, tendas para o camping, etc."--"Com que ento, sero oito7...&, disse Kdr aps uma pausa.--"Sim, oito.. . & Nova pausa.

 --"Qustro vezes dois7. . .& Yoli, voltando levemente a cabea para le fitou-o. Uma pequena pausa. Depois, com certa frieza na voz: "Sim, quatro vezes dois, porque  AVENTURA EM BUDAPESTE 295  no 7 . . . Tem alguma coisa a dizer a isso ?&--"Ah ! no, nada.& Nova pausa, finda a qual Yoli prosseguiu: "Sim, esparo que seja deveras divertido... Sero estas ao me- nos, as minhas frias... Supoe que me n&o far bem es- capar-me de tudo isto dursnte uma semana...?&--"&: quem sero os seus companheiros?...&--&No os co- nhece, para que dizer os nomes ?. ..--"O Dr. Huszr faz parte do grupo, no  verdade ? . . . &--"Pois est claro que sim; faz !& Durante bastante tempo marcharam lado a lado, em silncio. Chegados ao fim da rua, j prximos da aveni- da, voltaram pelo mesmo caminho. "5&uatro vezes dois, remoa 81e na idia, e o Dr. Huszr vai tambm.& Ner- voso, levou a mo ao colarinho... Oprimia-o uma sensa- o esquisita. Iam ambos calados. Por l&m, Yoli rompeu o &ilancio. "Uma semana no  nada. Eu queria, sobre- tudo, preguntar-lhe se ainda estaro em Peste, de domingo a oito dias, porque ser nessa data que regressaremos.
 --"E possvel; ao certo, no sei ainda, respondeu le, hesitante; pode dar-se o caso de termos j partido." Neste momento, em voz estranha, calma e profunda, Yoli pas- -Ihe inesperadamente o problema: "Diga-me, no quere que eu parta?..." Urr.a luz, como um relampago, fugiu.
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 no crebro de Kdr: ela oferecia-se-lhe, conforme le sempre esperara. Chegado era o instante de a agarrar e de a arrebatar. 1&: ento, um pouco desairosamente, com frou- xido, ofegante, disse: &-me muito difcil responder. . .
 S voc deve sab-lo, deve senti-lo, Yoli...&  No meado da semana seguinte chegou, de Viena, um bilhete postal: era uma fotografia de quatro raparigas e quatro rapazes, constitundo quatro casais, todos les com os cotovelos fincados na amurada do barco. "Mandmos um fotgrafo ambulante retratar-nos&, escrevia Yoli na sua fina caligrafia, um tanto inclinada para a esquerda.
 Alm disso, dizia fazer l um tempo soberbo e que aba- .
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 296 A AVENTURA EM BUDAPESTE  lariam de ali no dia seguinte, de escaler, que desejava queestivesem bem de sade e que os voltaria a ver, em Peste, no princpio da semana imediata.
 Kdr mirou o postal ilustrado. Este representava quatro raparigas bonitas e frescas e quatro rapazes de aspecto desportivo. Yoli aparecia numa das extremidades do grupo, rindo e fixando o operador. ao lado dela estava o Dr.
 Huszr com os seus culos, numa atitude negligente, um pouco reclinado para Yoli, como quem se prepara para acender um cigarro. "Que antiptico fedelho !&, murmurou Kdr. "No, no  verdade. No  antiptico; tem, pelo contrrio, uma testa larga de pessoa inteligente, como j outro dia, quando nos encontrmos, pude observar. Tem o corpo bem proporcionado e  slido de ombros. E o tipo do homem moderno, do homem deportivo.  mdico.
 Na fotografia, est ao lado de Yoli, inclina-se para ela.

 Como parece ligar pouca importancia ao facto de o acaso o ter psto junto de Yoli, na fotografia ! Tudo o sublinha: a sua atitude, a maneira como acende o cigarro, como se quisesse afirmar que essa coisa da fotografia no tem im- portancia alguma para le... Aqule homem  o amigo de Yoli. Constituem um casalinho de companheiros...& Kdr- adquiria a certeza disso olhando aquela folo e, subitamente, invadiu-o uma tristeza que Ihe apertou o cora- o. Passou-a para as mos de lla, juntamente com os jor- nais inglses e uma carimbada de Londres. a natural, continuou le a pensar. . . andam sempre juntos, vo jun- tos ao cinema, passam juntos o weeck-end, partilham tdas as suas distracoes. . .& E a bca crispou-se-lhe num riso sco e duro. &Eu engano Ila, ao passo que Yoli engana- sse Dr. Huszr. Sim, ela engana-o comigo. Aquela sua frase, quando outro dia me preguntou, com uma voz es- ` tranha, calma e profunda, que eu jamais Ihe ouvira antes, "Diga-me, quere que eu no parta ?. . .&, era j infidelidade da sua parte, e quando Ihe respondi no sei que vaga idiotice... ela nem sequer se formalizou; olhou-me de de soslaio e disse-me, pondo trmo a um breve silncio: 4Isso  uma resposta digna do senhor."  A AVENTURA EM BUDAPESTE 297  Ila sau do quarto, segurando numa das mos a maleta azul que levava para a praia, e na outra o postal de Yoli.
 &Com certeza ainda estaremos em Peste, observou ela, como em resposta ao que continha o postal, que entregou ao marido: aToma l, guarda-o tu... Como est bonita nesse retrato ! Ento, Tony, ests pronto, podemos sair ?& Kdr meteu a foto na carteira e no mais a tirou de l.
 O Dr. Huszr no cessou de perturbar-lhe as noites, em pensamento, enquanto Yoli se conservou ausente em Peste.
 "Devamos partir j& pensou le muitas vezes no decorrer dessa semana crtica, e punha fra de imaginao em por- menorizar locais e modos de abalar de ali. Reflectia em como achar pretexto para a partida, no caso de Ila no querer ainda deixar Peste, por causa de Mrs. Simmons: um telegrama para Londres, depois uma resposta telegr- fica para Budapeste. . . ou ento, com a maior das simpli- cidades, tomar o combio e partir para Saint-Moritz. Aban- donar Peste, Yoli, o Dr. Huszr e tda aquela estpida salgalhada. . .
 Durante essa semana sentiu quanto era estpido, abor- recido, odioso o que Ihe acontecia e tudo o mais que da resultava: as suas relaoes com Kelemen, o homem reser- vado, sustendo at a prpria respirao, pronto a abater-se sabre a pea de caa; ou com Szende, ofegante e sua-.
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 rento; ou com Mrton, fanhoso e importurio; ou com Va- vrinec tinha passado  beira do Danbio, pesquisando com olhos as janelas dos aposentos de Kdr. Kdr, que es- tava precisamente nesse instante  janela, deu pelo homem que se aproximava e que trazia os olhos erguidos para le. Imediatamente o reconheceu. Passados minutos, Va- vrinec voltou sbre os seus passos e levantou de novo os olhos para a janela: " Vavrinec&, disse consigo, sentindo ao mesmo tempo o sangue subir-lhe  cara. Com vivaci- dade sara para a varanda e olhara deliberadamente na direco de Vavrinec.
 Naquele momento Vavrinec desaparecera por trs das sebes de buxo do parque. a o Vavrinec, aqule u quem devo t6da a minha carreira ! . . . & Passou-lhe pela idia des- .
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 298 A AVENTURA EM BUDAPESTE  cer para ir ao seu encontro, mas nesse instante o telefoneretiniu: era Ila a pedir-lhe que fsse  casa de sade o mais cedo possvel, porque Edith desejava jogar uma par- tida de &bridge". Ele consumira o resto da tarde a desem- baraar-se do seu correio e a ler um interessante artigo do Times sbre a situa&o da construo civil em Inglaterra.
 Um pouco antes das seis horas estava pronto para sair; e, ao transpor a porta do hotel, a primeira pessoa que vira na sua frente fra o Vavrinec. &tNaturalmente, raciocinou Kdr, esteve  minha espera t8da a tarde, a fazer quarto de sentinela diante do hotel,  espreita da minha sada&.
 --Olha,  o Vavrinec !--exclamou, parando em frente do passeante.--J ainda agora te tinha visto, no Corso.
 E a mim que procuras?...
 --Como ests Kdr?--disse o outro, avanando a mo e deixando-a logo descair, num gesto hesitante (nem a voz nem o rosto dle haviam sofrido qualquer mudana).

 Foi meramente por acaso que passei por aqui; desde que no trabalhamos de tarde no escritrio,  muito raro vir  cidade.
 --Vou a Buda buscar minha mulher, mas ainda tenho tempo. Vem comigo, se queres.
 --Como marchavam lado a lado, Kdr rompeu fogo imediatamente: --E tu, como vais, Vavrinec ?. . . H tantos anos que a gente se no via ! Conta-me alguma coisa a teu respeito, a respeito do que se tem passado desde... Que fazes tu e como viv&s ? Vavrinec encarara-o com um olhar desconfiado.
 --Vai-se indo, vive-se. . .
 --Mas, dize l, em que  que te ocupas? Vavrinec ps-se ento a falar, a sua voz tornou-se ma quente, e a desconfiana cedeu o lugar  confidncia la- mentosa: --Vegeto por aqui. Sou engenheiro numa grande fbrica de mquinas. A minha verdadeira especializao  em termo-dinamica, motores de exploso, etc., mas a situao que tenho actuatmente  a de chefe da oficina de caldeiras.
  AVENTURA EM BUDAPESTE 29  Qual o meu ordenado? Vale mais a pena nem falar nisso, meu amigo, quando me ponho a pensar que j vou nos meus trinta e quatro anos de idade...
 Enquanto falava, uma certa apreenso se lia no sem- blante dle e, quando se calava entre duas frases, havia no seu silncio como que uma exortao; depois recome- ava a falar da fbrica, da azfama da oficina, da sua e&is- tncia sempre falha de recursos pecunirios, dsse meio entranhadamente anmico de que le gostaria de sair, indo para qualquer parte do estrangeiro tentar fortuna, antes de adquirir crosta. Voltando para o hotel, detiveram-se ambos no passeio. Quando Kdr poisou o p no estribo do seu carro, Vavrinec, enchendo-se de coragem, disse- -Ihe: --Tu sabes Kdr... tinha ainda vontade de dizer-te uma certa coisa em que tenho muitas vezes pensado...
 Refiro-me quele mal entendido, quele...
 Demais sabia Kdr do que  que Vavrinece Ihe desejava falar. Interrrompeu-o e, numa voz lenta, olhando fixamente, como se lesse nos olhos do outro o que ia dizer, estadeou a sua situao brilhante: --Escuta, Vavrinec, eu ainda no te falei de mim pr- prio. Ouve, eu possuo em Africa uma grande emprsa de construoes que goza de renome no mundo inteiro. Vinte.
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 e dois empregados trabalham nos meus escritrios, isto s na sede, alm dos seis engenheiros e das centenas de ope- rrios a quem dou o po a ganhar. Tenho vinte e quatro camioes e uma grande fortuna. Poderia dizer`te que pos- suo dois milhoes de libras ou trs, mas tu no compreende- rias o que isso significa. Na realidade, no tenho mais do que um milho de libras esterlinas. . . H l, evidentemente, fortunas muito mais avultadas, mas a minha  j conside- rada como uma fortuna invejvel. Sou capitalista, um grande capitalista--e isto graas a ti, Vavrinec! Agra- deo-te teres feito com que eu apanhasse aquela sova, com que me precipitassem da escada e me pusessem fora da Universidade. Doutra forma talvez eu, hoje, fsse tambm sub-chefe de oficina em Peste 1. . .
 300 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Abriu a porta do carro, sentou-se ao volante e acres- centou: --Nada de mal-entendidos entre ns; sobretudo, no creias em que te quero mal... Pelo contrrio, estou-te re- conhecido.

 O motor ps-se a arfar; em seguida, abafou-se-lhe o rudo. Ele fz a manobra para o arranco: --Custa a fazer mexer;  um carro alugado; em todo caso, no  muito mau. L, tenho um &Cadillac&... Adeus, Vavrinec . . .
 Fez-lhe um sinal com a mo e afastou-se lentamente.
 Riu-se de si para si. O rosto de Vavrinec estava da cr da cidra e as plpebras tremiam-lhe.
 &A falar verdade, eu no quero mal nenhum a ste po- bre Vavrinec. Afinal de contas, devo-lhe tudo... inclusi- vamente Yoli."  Transcorrera a semana. Kdr, est bem de ver, no partira. Nem mesmo entre le e Ila havia sido discutido o assunto, quando, no princpio da segunda quinzena do ms de Agsto, ela foi acompanhar Mrs. Simmons a Sua.
 Kdr, alis, j chegara a um ponto em que tudo se Ihe tornara indiferente. Descera ao fundo do abismo e no sabia agora seno uma coisa, isto , que amava e dese- java aquela rapariga. Ila e Edith tinham partido para Mon- treux; esta viagem de ambas havia sido decidida em meia-hora e os bilhetes foram logo comprados. Antes da partida, Ila prcguntara-lhe se le as acompanharia e acei- tara, sem mais, a sua resposta negativa "Aqule negcio de construo de que andava tratando..." Ela nem se- quer dera ateno de maior ao pretexto, e Kdr pde cla- ramente ver-lhe nos olhos que a mulher contava de ante- mo com a recusa dle em partir. &No fim de contas, gosto mais disto, dissera Ila; a Edith no est ainda refeita do seu achaque e como  por causa dela que vou, prefervel  que eu esteja completamente livre.& Nesta frase no era  AVENTURA EM BUDAPESTE 301  ifcil descobrir uma certa inflexo, significativa de que a bem que a enganavam, mas que se no opunha a isso.
 ombinaram falarem telefnicamente uma vez por semana tambm que o regresso de Ila a Peste se faria, da mes- a forma, na companhia de Mrs. Simmons. Tanto le mo o capito &immons acompanharam as duas senho- s ao combio. Kdr- e Ila abraaram-se e depois,  pressa, le voltou para a cidade. Tinha marcada uma en- evista com Yoli, para as cinco horas, no como da ave- ida Andrssy.
 "Amo-te e quero-te !& Seguiram-se onze semanas, que se passaram toaas numa ertigem, num sonho louco, incoerente e incompreensvel.
 Onze semanas, at ao regresso de Ila, at ao momento em que se despediram de Budapeste.
 Meio-hora aps a partida de Ila, j le passeava com &Yoli. "Ela j partiu?& preguntou Yoli.--&Sim"--"E o senhor? Porque  que as no acompanhou?...&--"A Yoli sabe-o bem&, respondeu Kdr. aIsso no  uma ra- &zo&, declarou Yoli, num tom frio.--&No  uma ra- -&o... E se eu a abraasse agora e Ihe dissesse...", pen- &ou le.--"Amo-a...", disse finalmente.--"Muito obri- gada, retorquiu Yoli, eu j o sabia. Ama-me e quete-me, ao vale a pena continuar.. . ".
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 Kdr lanou-lhe um vivo olhar e comentou com um sorriso: "Pequena descarada...&--"obrigada, isso faz parte do programa&--"Mas ento, porque  que voc anda comigo ? Porque vem quando eu a chamo ?... Onde guere voc chegar ?" disse Kdr num tom brusco.--Est bem ! vou raspar-me... ameaou Yoli, dando dois largos passos em frente mas sem, a-pesar-de tudo, se afastar.
 Estava na convico de que ia agora ver Yoli todos os dias.
 Sentia em seu ntimo a paixo duma criana abandonada e com fone, e acreditava tambm em que os freqentes encontros de ambos, a repetio constante das mesmas palavras e a simples passagem do tempo quebrariam, por &i ss, a resistncia da jovem. Porm, logo seguiram cinco ou seis dias em que no conseguiu pr a vista em Yoli.
 302 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Nem ela Ihe telefonou para o holel. Kdr, todavia, envia- ra-lhe um recado em que Ihe rogava que o fizesse. Mas Yoli guardou obstinadamente silncio. Chegado o quinto dia, Kdr, depois do almo, ousou ir bater  porta do terceiro andar onde ela morava. Uma criada eslovaca, imun- da e bronca, veio abrir e nem sequer o deixou entrar: "A senhora est a dormir e a menina sau." Desceu contrariado, a escada escura. Tampouco Yoli telefonou no dia imediato a sse. "Que fazer? Escrever- -Ihe novamente?... ou ir postar-se diante da casa dela, a espi-la ? . . . Sim, com um revlver em punho, porque se sentia j fora de si. "Mat-la-ei...&-, mas, nisto, decidia coisa mais prtica: &Compr-la-ei...& E Yoli continuava no seu jgo: Yoli era mais forte do que le. O que no era de estranhar: descera ao fundo do abismo e perdera todo o domnio sbre si prprio. Chegou mesmo a abdi- car por completo de ter vontade sua, contentando-se em desejar smente, deixando de exigir para simplesmente suplicar. "Mas sou eu, na verdade, quem assim procede ?. ..
 Avano corajosamente at junto do obstculo ou, por outra, &ou arrastado at a, e eis-me a pretender trans- p-lo por meio de splicas ? !& Aparecendo, certo dia, Kelemen a visit-lo, Kdr pre- cipitou-se literalmente sbre le, a pedir-lhe notciss da irma. Kelemen sublinhou, com um sorriso subtil e inteli- gente, sse intersse que se manif&stava sem precauo alguma e marcou-lhe uma entrevista para o dia seguinte, num tom de voz que parecia dizer-lhe: &Podes estar tran- qilo; percebo; entregar-ta-ei." " um&alcoviteiro, reflectiu Kdr, valeria mais a pena falar-lhe abertamente, oferecer- -Ihe dinheiro..." ao chegar a ste ponto da sua idia, suspendeu-se perturbadssimo: "Estarei doente?... Teria eu perdido todo o meu bom-senso ? . . . " Todavia na tarde do dia imediato, invadiu-o a mesma emoo de sempre ao ouvir a voz fresca e irnica de Yoli dizer-lhe: "Recebi o &eu carto de visita e soube tambm que esteve em minha casa, mas eu estava ocupada, alm de que me no apetecia nada.&  A AVENTURA EM BUDAPESTE 303  Kdr observou Yoli com desconfiana. "Ela mente, pensou le, mente quando fala, mente quando se cala, mente qusndo me oculta alguma coisa...& Passaram em seguida a encontrar-se com extrma fre- qncia. A melhor parte do dia de Kdr era constituda pelas horas em que passeava com Yoli, em Buda e na ilha Margarida, cheia de encanto estival. Depois, quando se en- contrava de novo s, tendo ainda no esprito a lembrana da ltima palavra dela, ambgua e vaga, punha-se com impacincia e tormento a aguardar o encontro seguinte.

 Ficava ento estendido no quarto, ou vagueava ao acaso pelas ruas, ou conversava com os seus antigos condisc- pulos, 09 quais, mordidos pela fome& continuavam a vir farejar em volta dele. Mas Kdr em nada mais pensava seno em Yoli. ffMeu Deus !. .. estou envenenado, reflectiu certa vez, fazendo ao mesmo tempo uma careta de menino cheio de mdo. Meu Deus ! porque  que Ila se foi em- bora ? Porque me deixou neste abandono ?. . . " Lutava contra as suas repetidas alucina8es, passava o tempo a engendrar projectos irrealizveis: "Dar-lhe-ei muito dinheiro, lev-la-ei para que possa manter-se-me fiel ! . . . " Desatava a rir como um homem brio. "Tudo isto .
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 idiota. Vou lev-la comigo para Prto-Isabel, contrat-la-ei como minha secretria... ou, por outra, isso no. Lev- -los-ei a ambos, o irmo e ela. Sero mais dois emigran- tes, e ningum ter nada que dizer. Vivero em Grahams- -town, ou em Island London, e no haver necessidade de ningum saber nada a seu respeito. E Ila tampouco sabe- r. .. E se ela vem a saber do caso . . . a-pesar-de tudo ?. . .& Tinha j descido to baixo que nem sequer lutava con- tra o prprio facto, mas apenas contra a contingencia de lla o vir a saber. Era isto o que havia de mais penoso ~nessa sua flutuao desordenada entre a realidade repre- sentada por Ila e a fico que Yoli representava. "Lev-la-ei para Johanesburgo. Ila tambm nunca soube nada de Inga..." Depois, um dia, formulou-se-lhe no ntimo um problema que o deixou transtornado: "At quando durar.
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 304 A AVENTURA EM BUDAPESTE  isto?. .. No poder durar eternamente.. . Eternamente, eis uma palavra estpida.&. Quando me sentir saciado dela, garantir-lhe-ei um futuro... Saciado dela?... Ainda no chegmos l. Estamos sgora ainda no ponto em que ela diz no, no e no...& Atingira o fundo do precipcio. Saa-se com tolices mal- dosas. Falava amide de Prto-Isabel, do dinheiro, do seu poderio, do apoio que poderia conceder a quem visse que o merecia... Tudo isto era dito com sobrescrito para Yoli,  laia de mensagem envergonhada e cmoda, por inter- mdio do alcoviteiro. Kelemen, nessa poca, j havia per- dido o emprgo. Kdr ignorava se o tinham despedido ou ento se, embriagado pela proximidade da riqueza, ti- nha sido le prprio a abandonar o escritrio; o certo era Kelemen no ter agora modo de vida. Volta e meia, estava de visita a Kdr; telefonava-lhe todos os dias. Mas nun- ca Ihe dirigia pedido algum. Quanto os outros, fsse ste ou fsse aqule, apresentavam-se ainda de tempos a tem- pos, para tatearem o terreno com ninharias que at fa- ziam despertar o riso. Vinham, iam, tornavam mais tarde.

 Kdr a todos escutava, com o semblante grave, aparen- temente interessado. Examinava o teor dos negcios que Ihe propunham, a todos dava uma resposta dbia, e cada vez mais se convencia qa insignificancia desesperadora daquelas coisas, da ridicuta falta de seriedade da sua pr- pria atitude. "H-de julgar-me idiota, tda esta gente, com a qual eu nem devia, antes, mandar pr no lho da rua,& por um lacio. . . " "Que  isto7... Se eu no tenho j necesssidade de qualquer pretexto para ganhar tempo... ento, vingo-me eu de Yoli sbre estes pobres diabos, que nenhuma culpa tm ?... Serei um sdico7 Estimulo-os, empurro-os, ene& vo-os, sabendo bem que um dia..." Szende voltava ainda, numa teimosia exacerbada, a& passo qye Mrton deixara j de aparecer. Quando Kd se ocupava a valer dsses assuntos, o que alis era raro cavavam-se profundas rugas na testa de Kelemen. "Rec& mendo-te prudncia&, decidiu-se este ltimo a dizer u  AVENTURA EM BUDAPESTE 305  dia; mas Kdr atalhou com rudeza: "Prudncia?... Su- poes ento que no vejo atravs de todos aqules sujei- tos ?. .. que no sei o que valem e o que querem ?.. . So burros !. . . todos uns burros, sem excluir o Varga&. Por- que Varga, o homem rico e distinto, tambm le surdira, como solicitador. Kdr e 81e encontraram-se na sala de &antar do hotel. Varga tornara-se um cavalheiro solene, um tudo nada calvo e barrigudo, muito janota, verdadeira en- carnao da fortuna ganha pelo prprio esfro, consciente e bem&administrnda. Usava agora culos de aro de tarta- ruga. Ele parara diante da mesa para a esquerda- "Mas se me no engano,  o Kdr !. . . tinha le exclamado; que feliz acaso, na verdade! Para te ser franco, devo confes- sar-te no entanto que, quando ouvi dizer que te encontra- vas em Peste, alimentei a esperanca de que nos encontra- riamos no por simples obra do acaso, mas sim porque tu prprio me procurarias. Porm, no quero de forma algu- ma recrimir&ar-te. Ds licena?... Apenas um minuto, at que cheguem os meus visitantes estrangeiros&, e, dizendo isto, sentara-se  mesa do arquitecto sul-africano. aSinto- me sinceramente feliz por ter sabido a teu respeito coisas excepcionalmente elogiosas, coisas que me vieram dizer os nossos comuns amigos de Peste e outras antigas relaoes.
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 nossas. Tivemos conhecimento de que desejavas desen- volver alguma actividade na Hungria... tomar contacto com a vida hngara... Se assim , considero um dever aconselhar-te a maior prudncia e o maior dos rigores na escolha dos teus futuros colaboradotes. O nosso estabele- cimento coloca-se, evidentemente,  tua inteira disposio, para tda e qualquer operao bancria. Conto com a tua visita os meus escritrios. Ah ! alm esto os meus ami- gos franceses. Mais uma vez, sinto-me feliz a valer por te ter encontrado, depois de to longa ausncia . . . &--"Sim, respondeu Kdr, procurar-te-ei se, na realidade vier a fa- zer aqui alguma coisa, porque sei bem quo importante  pOSSuir relaoes em tdas as partes do mundo. Se os ne- ocios projectados se efectuarem, diligenciarei concretizar &0ssa tua amvel oferta de entrar em contracto com o teu  20.
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 306 A AVENTURA EM BUDAPESTE  estabelecimento, ainda que no seja seno sob a forma duma pequena conta de depsito e que ste se eleve acima de... vamos... uma libra esterlina. No se trata,  verdade, de grande quantia, mas s vezes uma coisa de nada basta para encetar agradveis relaoes...& Varga crou at s orelhas, um claro sombrio e rpido perpassou-lhe no olhar, mas o tom correcto, alegre e af- vel da sua voz no sofreu alterao: &Com efeito, as rela- oes importantes comesam muitas vezes por actos dos mais insignificantes, e, se tu o queres, considera sses vinte xelins, vamos l, como uma primeira pedra, ou um sm- bolo.. & Varga afastou-se. Kdr, ao encontrar-se s, flcou de mau-humor. No sentira, afimal, a menor satisfao em humilhar Varga, devido a ste ter neutralizado a sua pro- vocao com uma atitude prudente e corts, digna dum comerciante e em que, todavia, espreitava o seu qu de desprzo. Dera prova de mau-gsto. No fim de contas, quando Varga Ihe oferecera em Londres uma nota de libra, no o fizera por mal. . . Simplesmente, Kdr queria ento mais. Exactamente como Ihe sucedia hoje perante Kele- men e Yoli, essa rapariga para a qual tudo convergia e que, era manifesto, no acedia a tornar-se sua amante.
 Durante as noites desassossegadas formulava de si para si preguntas que Ihe penetravam na carne como golpes de laminas. "Ela no gosta de mirrl ?. . . Ama outro ?. . . De- seja dinheiro7... Que e que ela ambiciona?... Poderis obter tudo o que quisesse...& Brutalmente, no seu ntimo, injuriava-a, cobria-a de expressoes imundas e deprimen- tes, para, qusi logo a seguir, chorar de angstia e de co- bia insatisfeita. Era estpido, sincero, desprovido de tactff e'ridculo; Junto dela, falava-lhe do seu dinheiro, dizia que a raptara e faria dela uma mulher chique. "No chego a compreender-me a mim mesma&, replicava nessas ocasioe Yoli. "Se outro homem qualquer me falasse dste modo, j h muito tempo o teria deixado de conhecer.& Kd4 recorreu, por fim, s splicas: &Eu no posso viver se& voc... Se a no possuo, Yoli, vai ser a minha perdi&  A AVENTURA EM BUDAPESTE 307  No tem mdo disso ? E se eu um dia, a. . . e a mim pr- prio, a seguir... & S o desejo de tocar no brao da jovem era o bastante para o fazer tremer. Pff ! Tinha raiva a le mesmo, por causa daqueles modos de caloiro apaixona- do... "Eu, que vou fazer daqui a pouco trinta e trs anos !& Yoli sorria, um tanto surpreendida: "Um homem srio no devia falar assim ..." Kdr ameaou-a ento de partir e de nunca mais voltar. Eu no posso impedir que v", retorquiu Yoli, docemente.--"Voc detesta-me, odeia-me ?. . . & preguntava cem vezes a Yoli.--No Ihe devo dar resposta)&, suplica a jovem.--"Bem, obrigado, isso basta."--&Isto qu . . . ?&--"O saber que me detesta e que me odeia. No  verdade?...&--"No Ihe res- pondo sequer."  Chegava o Outono. Ila telefonou de Roma: "Pode ser que partamos para Peste no meado da prxima semana ou, o mais tardar& no fim. Que h de novo ? (j havia se- manas que ela nada inquiria a tal respeito).--"Nada&-- "E sses teus negcios de Peste ?&--"No creio que saia daqui coisa que valha..."--"Ah ! bem; como vo os Kelemen, e a Yoli?...&--aBem.. . Vejo-os de quando em quando...&.
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 Nas semanas ltimas tudo efectivamente, se tinha bara- lhado no seu esprito. Nem uma coisa nica se Ihe ofere- cia como certa; de um minuto para o outro, de pensa- mento em pensamento, os seus impulsos modificavam-se e contradiziam-se. Era acometido de frias que o sufoca- vam, de dios selvagens, os quais, todava, iam todos fin- dar na humilhao implorativa. Escarnecia de si prprio, lamentava-se; convertera-se, em suma, numa personagem grotesca. Estava assim pagando, bem caros, quinze anos de tranqilidade e de presuno.

 Num domingo de manha, com um tempo doce e tpido de fins de outubro, subiram ao monte de S. Gerardo. Ke- lemen acompanhava-os. Chegados ao cume puseram-se, apoiando-se na colunata de ferro do parapeito, a contem- .
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 30&3 A AVENTURA EM BUDAPESTE  plar a cidade. Inundado de sol, o cu apresentava um a&ulplid?& cutonio. Kdr sentiu invadirem-no ums tristeza e U&rla lassido profundas "Vamos partir desta terra", disse le de sbito. ao ouvir estas palavras Kelemen fitou-o e fito& Yoli em seguida. Esta, distrada, afastou dos olhos o bjnculo. Pouco tempo depois desceram e encaminharam- -se para o carro. Kelemen, tomando avano, foi o primei- ro &. chegar junto dle. Logo atrs vinha Yoli. Ela calava Sap3tos de desporto, castanhos e de salto baixo. Quando  estavam todos ao p do automvel, Kelemen abriu a portinhola e, inclinando-se para a irma, pareceu dizer-lhe qualquer coisa: os lbios moviam-se mas a voz perma- necia-lhe imperceptveL "O que ?. . pre&untou Yoli em tom forte e ntido, que disseste tu?...". I&elemen voltou-se par&, ela e respondeu: "Preguntei-te, pequenina, em que lug&r querias sentar-te." E, sem aguardar resposta, tomou assento na bancada interior do carro. "Est fresco, devia ter trazido o meu casaco de abafo.& Durante o trajecto Kelemen conservou-se silencioso, mas, no momento da de5pedida, disse, ruidosamente e por duas vezes a Kdr: "At  vista." &o dia imediato Yoli telefonou para o hotel. Estava livre da &arte da tarde e preguntava a Kdr se no queria le- v-l& ao cinema. "Se voc quiser...& respondeu Kd&, numa voz arrastada.--"Se  smente porque eu queira, ent&? no digo nada", redargiu els. J no cinema, Yoli inqiiiriu: aVamos a saber, quando partem os senhores ?.. . & _ &Ainda no sei o dia certo.&--"E absolutamente ne- ceSSario& isso?..."--&Sim, j estamos h muitssimo temP? ausentes de casa.&--"E se eu Ihe dissesse o qu ?. . ." interrogou Kdr, com uma voz estrangulada.-- &Nada- " Ficaram ambos silenciosos; o filme, no cran, oferecia mil imagens os seus olhos, os sons ofereciam- se.lhes os ouvidos; mas le no via nem ouvia nada.

 Depois, seguindo pela rua e fingindo fi&ar atentamente& qu&,lquer coisa interessante que estava no passeio oposto, Yoli disse ainda: "Se no  absolutamente obrigado partir--- se no  absolutamente necessrio...&  AVENTURA EM BUDAPESTE 3  No havia dia algum em que le no tentasse erguer um muro entre a sua pessoa e a de Yoli; mas, imediatamen- te, ante uma simples frase incompleta dela, ou porque no cinema Ihe tocara na mo sem que ela a retirasse, sse muro desabava e a noite que se seguia era para le de perturbao. "Que  isto ? que quere ela de mim ? Suspei- tar de que me pus na defensiva? Pressentir que desejo subtrair-me  sua influncia?. . . Ou andar a troar de mim!. .. No Ihe bastar o que j me tem atormen- tado... ?" Passara-se isto na tarde de sbado em que acabava de falar, pelo telefone, com Ila. Uns minutos depois dessa comunicao pelos fios com a cidade papal, Kelemen, igualmente pelo telefone, chamou-o e dirigiu-lhe as suas habituais palavras: "Que h de novo, como vais de sa- de?. . ."--"Agradeo o teu cuidado, di-me um pouco a cabea. Acabo de falar com minha mulher, que chegar no princpio da prxima semana, e partiremos daqui pro- vvelmente, logo depois." Terminada a conversa com Ke- lemen, deitou-se em cima do diva. "Di-me a cabea.
 como h muito tempo me no sucedia. Detesto as dres de cabea. Hoje nada tenho de especial a fazer l fora; vou ficar aqui no hotel. Ila est de regresso. H j dois meses e meio que a no vejo.".
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 Estendido no diva, fixou os olhos no teto, esforan- do-se por no pensar em coisa alguma. "Aqui, tudo des- carrilou", reflectiu com amargura.
 A noite cau lentamente. "Ainda aqui ficaremos mais slgum tempo ?. . . Ila vai de-certo preguntar-me pelo esta- do dos negcios de Peste; finalmente me preguntar um dia. Terrvel sintoma seria se ela nada quisesse saber, se isso a no interessasse. Dir-lhe-ei uma mentira qualquer Saber ela j, de antemo, que Ihe vou mentir?... Ser por isso que me no pregunta nada ?. . . Com que ento vamos abalar den&ro em pouco ?. . . E que aconteceria se tivesse de prolongar a minha estada ca?...& A escurido tornara-se completa. "Hoje, nada ! Vou ao cinema; bestializo-me aqui, estupidifico-me vou distrair-me.&.
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 310 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Neste instante abriu-se a porta e Kdr reconheceu, no seu retangulo iluminado, a silhueta de Yoli. "Bati por duas vezes, disse ela, e, como no recebesse resposta, ousei mesmo assim entrar. Tenha a bondade de acender a luz.& Num pulo, le correu ao interruptor. Yoli cerrou a porta, avanou pelo aposento. Trazia vestido o seu impermevel azul escuro e, na cabea, uma bina da mesma cr. O rosto,  luz elctrica, parecia muito plido. &D licena que me sente um bocado &. . . Vi o Andr esta tarde, que foi l a casa numa saltada. Ele participou-me que lla chega brevemente."--"Sim, chega daqul a poucos dias&, con-   brevemen&firmou le. Yoli conservou-se em silncio. "Que quere isto dizer?" interrogou-se a si prprio Kdr, sentindo um ca- lafrio. "Que me querer ela ?. . . Sabia que eu estava sj que quere de mim? At  data nunca veio aqui szinha!. ..& Yoli olhou no vago; depois, o alvo semblante dela er- gueu-se e os feixes de raios azues esverdeados dos seus olhos erraram por aqui e por ali, no aposento. "Devo pre- guntar-lhe como est de sade, o que h de novo, qual o estado do tempo, o que faz a mae dela... em suma, qualquer coisa. Impossvel  suportar semelhante siln- cio.. & Neste momento, com um tremor qusi imperceptvel nos lbios, num leve spro, ela disse: "E o senhor vai par- tir ? . . . &--"Sim". Yoli calou-se, pondo-se a desenrugar as luvas de encontro os joelhos. 4E se eu Ihe pedir que no parta ? . . . "--&Porque havia eu de ficar ?& preguntou Kdr com expresso carregada.

 Ento, sacudidamente, Yoli levantou-se; sob a madeixa ruiva que se escapava da bina, o rosto dela apresentava uma palidez de morte. Ergueu lentamente a cabea, p&s os olhos no cho e comeou a falar num tom de voz que pouco excedia o dum murmrio. "Eu nunca tinha vindo s a esta casa; o senhor h-de estranhar, seguramente, ver- -me aqui, sobretudo, desde que sei que, dentro de poucos& dias, se ir embora. Eu no serei nunca tua amante... Tu, porm, no chegaste a pronunciar aquela nica palavra& A AVENTURA EM BUDAPESTE 311  que esperava de ti. u no sou uma boa amante, no sir- vo muito para isso, no me resigno a tremer continua- mente no receio de perder-te... No  o teu dinheiro que eu quero, e no quero fugir contigo... Quero antes, que te deixes ficar comigo. Deixa-a partir, a ela. Escreve-lhe...
 telefona-lhe para que volte... essa pobre e querida Ila.
 Lamento-a, mas no quero que permaneas sendo dela,  preciso que te divorcies... No quero partilhas com lla.
 nem com pessoa alguma... Quero-te para mim s.  a ela que pertence o dinheiro?... Que importa, eu no o quero para mim... At agora, eu no sabia o que havia de fazer. . . Torturei-te. . . Supoes que me no fazia pena ver-te sofrer, debateres-te na dvida? Mas no quiseste nunca pronunciar a palavra que devias... A princpio pensei em deixar que partisses e em te esquecer... Su- puseste-me leviana. . . Pois bem ! no o era, no. Ainda agora, ao receber a notcia do prximo regresso de lla, tive imediatamente a noo do que devia fazer. Ficarei agora contigo se assim quiseres. . . ou talvez seja melhor que tu me acompanhes... ` o que convm mais... Dei- xemos-lhe tudo." Yoli calou-se imvel, sempre com o olhar baixo.
 A Kdr, gelou-se-lhe a respirao. Fz-se silncio com- pleto. "Comediante&, ouviu dentro de si dizer uma voz escarnecedora. "o menos, sabes agora o que ela quere.
 Comediante, cabotina de baixo estfo. O que ela quere,  o teu dinheiro. No te partilhar com pessoa alguma. No quere tornar-se tua amante. Tens de divorciar-te e de casar com ela. .. & Nesse silncio impenetrvel e sobrecarregado de tenso, imps-se-lhe de sbito ao esprito esta expresso trivial: &Eis o momento decisivo." Sentiu imediatamente a indife- rena com que at ali contemplara o curso imutvel da sua existncia, como se fsse perante si prprio um estra- nho, como se tivesse estado sempre fora de si mesmo.
 No soubera dominar essa indiferena seno duas nicas vezes na sua vida: voltou a ver-se na linha de demarca- o fronteiria entre a Hungria e a Romnia, em face dos.
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 312 A AVENTURA EM BUDAPESTE  oficiais romenos, no momento em que a sua alma em far- rapos se acolhera junto do oficialzinho ingls em quem ins- tintivamente adivinhava um amigo e que sadara com a palavra Kamerad. Tornou, igualmente, a ver-se dentro da pele do aventureiro de Londres, no salozinho de Mrs.
 Myers, no instante em que acabara de recusar com gesto elegante a esmola oferecida pela mulher que dle suspei- tav& ainda, mas cujo corao j estava meio subjugado e que le conquistara definitivamente com estas palavras de efeito infalvel: "Se me levar consigo, segui-la-ei seja para onde fr.& E agora? Tratava-se doutro momento decisi- vo ?. . . Teria de estender de novo, corajosa e livremente, com inteira franqueza, a mo ?... Pela derradeira vez na sua vida, possivelmente, teria de segurar outro momento decisivo-? . . .

 Nada quebrava aqule silncio, mas a comoo que transtornava o rosto de Yoli cedeu o lugar a uma grande e serena lassitude. "Agora j sabes tudo, j tudo te disse..." declarou ela. No me respondas neste momen- to, vou retirar-me... E, como sabes, espero-te...& Pas- sado um instante, Kdr encontrou-se szinho no apo- sento.
  Dias depois, Ila e Edith chegaram a Peste. Kdr e Simmons foram esper-las, de manha,  estao. Frescas, alegres e beneficiadas por um bom repouso, desceram ambas duma carruagem-cama vinda directamente de Mi- lo. Edith estava por completo curada da fractura do ar- telho. Quanto a lla, o seu rosto trigueiro parecia mais claro.
 Os dois casais abraaram-se. "Meu querido Tony, es- ts plido, observou Ila. Tens trabalhado muito?. . . ou ter-te-s metido muito na pandega?...& E desatou a rir.
 Oh, sim ! andava plido, desde a ltima vez em que vira Yoli. Ela no mais dera sinal de si: esperava. Estav certa de que le iria procur-la... &omediante... Cabo- tina ruivazinha! Desem&enhara o seu papel, alis com A AVENTURA EM BUDAPESTE 313  bastante habilidade. Achava-se confiada no efeito e supa- nha intil mostrar-se. Deixara-o a amadurecer o caso, a atormentar-se, a-fim-de correr depois a prosternar-se-lhe os ps. "Quere que eu me divorcie e case com ela...
 Ama-me, adora-me. No quere ser minha amante, como no se importaria ser doutro qualquer, talvez mesmo como j o foi doutro homem. Ruivazinha. . . Minha linda bone- quinha ruiva. . . minha noiva. . . --Retiro me agora, e, sabes. . . I te espero.. .--Sim esperas-me e esperas o meu dinheiro, esperas e teu rico noivo, gue no consentes em partilhar com ningum mais... Eu divorciar-me-ei e despacharei para casa dela a pobre, querida e velha Ila, com todo o seu dinheiro... Casarei contigo, sem que te- nhamos sequer necessidade de esperar que ela regresse; bastar mandar-lhe um telegrama: Intil voltares. Cumpri- mentos. Tony Kdr e a sua noiva... Depois de tantas infidelidades, mais uma a derradeira. . . Oh ! Yoli, linda ruivinha da minha alma. . . Vai-te, comediante !. . . Su- poes que no oio a tua voz ntima, que no penetro em cada um dos teus penssmentos, que no vejo tda a tua vida 7. .. Cra que no percebo cada um dos teus movi- mentos, a maneira por que fugiste com o brso. . .? Agora j eu sei porque no querias partilhas.. . No queres par- tilhar do meu dinheiro 7 No queres nada, dizes tu ?. . . Que ela leve tudo consigo.. .  s a mim prprio que tu que-.
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 res!. . . Vou abandon-la por tua causa, minha lindinha e ruiva Yoli. . . Poderia eu, na verdade, abandon-la  po- bre e querida Ila?..." Mas isto fra durante uma noite apenas, e ainda se ti- nham passado mais outras cinco noites e cinco dias sem Yoli, szinho com le mesmo, at  chegada de Ila.
 "Infelizmente, hoje no disponho de tempo&, dissera a Kelemen, que o chamara ao telefone. "Agradeo o teu in- cmodo, masser-me-ia difcil comprometer-me", respondeu a Szende. Quando a Suhajda, a sse, tinha-o mandado pr, pura e simplesmente, fora da porta. ao cruzar com Amman, no meio da rua, limitara-se a levar a n&o ao cha- pu, acelerando a passo. Tendo avistado, ao longe, Simon.
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 314 A AVENTURA EM BUDAPESTE  tratou de passar logo para o passeio oposto. Um dia, sur- preendera-se diante da casa da avenida de Pozsony. Er- guera os olhos, estivera uns instantes ali parado e depois voltara para o hotel.

 --Coisa divina !--extasiava-se& Ila, no dia do seu re- gresso.--Indescritivelmente belo ! Mais tarde te contarei tudo pormenorizadamente. Mas tu, Tony... no estou nada contente contigo. Tens muito mau aspecto. Ento, que h de novo ?. . . Que se tem passado em Peste du- rante a nossa ausncia7.. .&--"Nada", respondeu le.
 Tirou da cigarreira um cigarro, acendeu-o e atacou o as- sunto: "No manha de 28, temos barco em Brest. Por acaso,  precisamente o Falcnia. Partiremos daqui em 28, no rpido da noite." Ergueu-se da poltrona, foi tirar de uma gaveta dois livretes de capa cr de rosa e colocou-09 em cima da mesinha redonda, ao meio do aposento. Fez- -se um curto silncio. "Vejam isto, disse Ila com lentido ao mesmo tempo que pegava nos livretes, mal chego te- nho de partir logo, outra vez. Eu, ao menos, vi muita coisa; ao passo que tu. . . aindano ests farto de Pes- te?& Novo e breve silncio. &Ento, j acabou sse neg- cio com a Yoli ? . . . & ao ouvir esta pregunta, Kdr mostrou de sbito uma cara triste, comprometida e singularmente infantil. "Aca- bou&, proferiu le, semi-inconscientemente... Seguiu-se outro silncio, aps o qual Kdr preguntou baixinho, numa voz tmida de quem procura um amparo: "Ento, tu sabias disso ?. . ., Ila fixou o olhar em qualquer ponto vago, atirando simul&aneamente para o ar o fumo do ci garro: "Tony, meu pequeno... que ingnua pregunta a tua !. . . Eu tenho sabido sempre tudo. Nunca to quis di- zer, mas agora  preciso. Conheo-te bem. Conheo o teu semblante, os teus olhos, a tua voz, os teus pensamentos.
 Soube sempre quando qualquer coisa dessas ia comear, e depois o que seguidamente sucedia. Tony, meu peque no... Daqui a pouco tenho trinta e sete anos feito... E ns... amamo-nos.  preciso que eu saiba tudo a teu respeito, para que possa velar por ti, Jamais te interroguei A AVENTURA EM BUDAPESTE 315  sbre a tua vida passada, s o presente me interessa. Mas soube sempre tudo: o caso da senhora Growham, assim como o da sucazinha do Transvaal, e o de Jane Astfield.
 Quando a gente partilha da vida de algum, quando se est sempre na sua companhia... Muitas vezes, deixei-te szinho, lembras-te disso 7. . . quando pressentia que esta- vas saturado de mim, exactamente como te deixei agora tambm s. Se eu tivesse pressentido que isto poderia ter conseqncias graves, no te teria abandonado, teria ficado a teu lado; mas essa ruivazinha no era mulhor para infelicitar ningum, para produzir uma catstrofe; podia, quando muito, constituir uma aventura. Mas o lar, o teu aconchgo prprio,  ao p de mim que o encontras hoje outra vez. No houve, pois, mal algum. Mais tarde, talvez daqui por dez anos, quando eu j tiver quarenta e sete e tu apenas quarenta e trs, se porventura vivermos ambos at l.. .--e da, bem pode ser que mesmo ento nada acontea, nem nessa poca nem nunca. Eu sei que, s vezes, tens necessidade de afastar-te de mim por algum tempo, mas sei tambm que voltas em seguida. Es rico, independente, poderias libertar-te por inteiro... Se o fi- zesses, eu em nada poderia obst-lo; mas no o fazes, pelo menos agora, e talvez o no faas nunca. Vs? Digo-te tudo isto com plena franqueza, e nem sequer tenho mdo.
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 de assim me entregar to inteiramente a ti.. . porque, vs tu? a tua nica e verdadeira famlia sou eu.& Um silncio. Apenas se ouvia a respirao ofegante de Kdr: "Ests com muito mau parecer, meu bom Tony.
 Sofreste?... Valeria na verdade a pena?..." Numa voz quebrada e lamentosa, escapou a Kdr: "Ila... juro-te...
 --Cala-te, interrompeu, j basta ! no falemos mais nisso; no me interessa, no me importa e no falemos mais no caso para que no tenhas de mentir. H direito de a gente se calar, assim  preciso mesmo algumas vezes; agora, de mentir  que ningum tem o direito. J houve da tua parte um como de mentira, nos teus supostos negcios de Peste; alis, rpidamente cessaste com isso, sofreste, envergonhaste-te por sse motivo. Fiquei-te reconhecida e.
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 316 A AVENTURA EM BUDAPESTE  a amar-te ainda mais. No falemos mais, portanto, de tudo isto. Seja o que fr que tenha havido, o que acabou no tem j importancia, j l vai. . .  ao pronunciar estas pa- lavras, a mo familiar e flrme de Ila tomou a de Kdr, a sua bca fiel procurou a dle, no como inimiga que perda, que se resigna mas que, no ntimo, se lem- bra sempre... No. No. Ela mostrava-se o que havia sido sempre, a companheira da sua vida, do seu corpo, do seu pensamento, a espsa que se orgulhava de ser amante ao mesmo tempo,  qual se era forado a con- fessar: " verdade, no estou comigo prprio seno quan- do estou junto de ti. . .& e a quem se poderia mesmo con- fessar: "Sabes que houve qualquer coisa. . . que se que- brou dentro de mim... O tempo ser capsz de repar-la ?...
 Dize.... Ajudar-me-s a esquecer?.. Isto desvane- cer-se- ? . . . "  Depois, passados uns dias, Andr e Yoli Kelemen fo- ram visit-los mais uma vez, a convite telefnico seu. Os visitantes no chegaram juntos. Kelemen vinha um pouco plido, um pouco constrangido e taciturno. "Desculpa-me (tinha le dito na vspera, mostrando-se pela vez primeira sinc ro com Kdr) de te expor um problema. Vejo-me sem emprgo e, para falar sem cerimnias, tinha dito de mim para mim... tive a impresso de que, com o teu auxlio, arranjaria um. . . Pregunto-te, pois, se posso con- tar contigo para me ajudares a encontrar uma colocao no estrangeiro. . . "--"Eis uma coiss para mim totalmen- te imprevista,--respondeu Kdr, opondo uma derradeira mentira s primeiras palavras francas de Kelemen--mas, na verdade, no vejo bem de que maneira... nem em que campo eu poderia..." Kelemen no se demorou, assim, mais do que dez mi- nutos na visita. aConservaremos uma excelente recorda- o de Budapeste e dos meus amigos tambm, declarou Ila. No fixmos ainda a data exacta da partida, pode ser A AVENT&A EM BUDAPESTE 317  mesmo que nos tornemos a ver daqui at l... mas, em caso contrrio..." Yoli, que chegara meia hora mais tarde que o irmo, tampouco se demorou muito tempo. Ila tinha, entretanto, mudado de vesturio. As duas mulheres trocaram umas palavras. Yoli levantou-se, enfiou o seu impermevel azul; o rosto tinha a brancura do mrmore. "Sim, estas faces e esta fronte extrordinriamente brancas, puras em ex- cesso, por baixo de uns cabelos ruivos que. . . pensou K- dr. E a bca dela no  bonita&.

 Ila ergueu-se, por seu turno. "Espere um momento, mi- nha pequena, pediu ela, ns samos tambm,  s o tempo de arranjar a cara. .& E transferiu-se para o quarto vi- zinho. Kdr e Yoli encontraram-se ss. Um instante mantiveram-se de p, frente a frente; depois, subitamente, Yoli aproximou-se tanto dle que Kdr Ihe sentiu o con- tacto dos seios rijos, atravs do fino impermevel. El& pre- guntou-lhe numa voz segredante: &No me abraa7& E os olhos mergulharam nos dle. Num profundo silncio, o olhar de Kdr afrontou os raios azues-esverdeados dos olhos de Yoli. Aps, respondeu: &No&. A bca de Yoli contorceu-se um pouco; ela recuou um passo e sentou-se em seguida. Depois os trs juntos, desceram ao hall, onde os Simmons j os aguardavam.
 --"Pois bem ! minha querida Yolizinha&, disse Ila abraando-a, "se nos no tornarmos j a ver. . . Adus !.
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 Olha ! est a chover. . . &, prosseguiu ela, voltando-se para o marido: "Tony, leva esta pequena a casa, no carro; ns ficaremos aqui  tua espera".
 O auto moveu-se lentamente sbre o asfalto escorrega- dio, de todo encarchado. "No chegou sequer a respon- der-me, disse inopidamente Yoli, no me deu resposta al- guma quilo que Ihe preguntei outro dia. Esperei-o, mas nem sequer se dignou dar sinal da sua existncia-.-- &Efectivarmente, no&, respondeu ele numa voz surda.
 Houve depois um silncio. Koli voltou, porm,  carga: &No me quis como espsa.. .&--No&, replicou le, sumidamente.--&Nem mesmo como amante 7. ..&--.
.
 318 A AVENTURA EM BUDAPESTE  "No", repetiu Kdr, e de novo cau o silncio entre am- bos. O caro parou diante do prdio. A ficou parado du- rante uma boa poro de minutos. O corao de Kdr batia com fra e invadiam-no vagas de calor, enquanto, dentro do cranio, a sua razo impiedosamente lcida es- palhava um frio glacial. Yoli no se mexia. Ficaram silen- ciosos. De sbito, Kdr sentiu sbre a sua mo a mo de Yoli e a bca da rapariga pertssimo da dle. &No me quere, ento, abraar?...& preguntou ela mais uma vez, num spro.--"No&, replicou le, com doura. Yoli des- ceu, le por sua vez sau do carro, e ambos se encontra ram diante da porta. Yoli tirou a luva, estendeu-lhe a mo, uma mo gelada: "No me beijar sequer na mo?...& preguntou-lhe ela ainda, enquan&o os lbios se Ihe crispa- vam:--"No&, obstinou-se le, numa voz enrouquecida.
 Encararam-se. "Est zangado comigo ?. . . & interrogou Yoli, ao mesmo tempo que um singular claro se punha a brilhar ao canto dos seus oihos. "No&, disse le des- viando a vista. Um silncio. "Meu Deus! proferiu Yoli, muito baixinho, meu Deus ! talvez seja esta a ltima vez que a veja, na minha vida... e parte sem me dizer uma nica palavra 1. . . &--"No. . . "--&Ento . . . boa-tarde".
 --"Boa tarde&.
 Yoli sumiu-se na escada; Kdr subiu para o carro.
 &Boa-tarde I Regressemos. Depois de amanha, partimos...
 J bastou... e mal no houve. Um pouco de coragem...

 e no falaremos mais no caso. Esta noite iremos ao cine ma com os Simmons, e depois de amanha... Daqui at l, pode-se dormir  vontade. Cessou a necesidade de olhar em redor, visto que nada se passou.  preciso pr trmo a tudo... a ste martelar de artrias nas fontes...
 No  di&cil, basta querer, estar decidido a isso..." Com efeito, o bater irregular do seu corao acalmou-se pouco a pouco... Pressentiu que, dentro em breve a pacificao Ihe entraria no esprito. Nessa noite foram ao cinema, deitaram-se depois e dormiram. No dia seguinte, Ila e le passearam, juntos, pela cidade fazendo ao mes mo tempo umas compras midas: uma cinta, um par de  AVENTURA EM BUDAPESTE 319  luvas, um frasco de perfume. Despediram-se dos Simmons.
 Na ltima tarde, Kdr foi entregar na garage o carro alugado. Quando passava ums das avenidas centrais, um garto esteve em riscos de ficar debaixo do automvel: teve uma ligeira avaria, os acumuladores ressentiram-se, sendo precisos uns bons minutos para se pr de novo em marcha. Deu-se isto precisamente defronte da casa de Yoli.
 Antes da meia-noite, dirigiram-se para a estao do cami- nho de ferro... Desde aqule instante, estava le certo e seguro de que, dentro em pouco, a calma, o apaziguamente se Ihe instalariam por completo no esprito. . . visto que j o ritmo do seu corao era mais regulat...
  O rudo dos eixos amorteceu-se, ouviu-se o ranger dos freios, o gemido dos rails. E as rodas imobilizaram-se.
 Foram, alguns preg8es em voz arrastada, rumor de con- versas, barulho de passos, tinir de ferragens, o uivo duma locomotiva que passava noutra via, o timbre agudo duma corneta, o som estrdulo do aparelho telegrfico da ests- o. Ele levantou-se, sobressaltado, afastou a cortina um pouco, limpou a vidraa do vapor mido que embaciava e olhou para o exterior. As bagagens, registadas para Brest, iam em vago selado. Os passaportes, haviam-nos.
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 deixado nas mos do revisor das carruagens-camas. De ai a um nada, ouviu-se uma porta bater, foram em seguida pronunciadas algumas palavras em voz baixa e houve al- gum que avanou, s apalpadelas, no corredor. Decorri- dos uns momentos de silncio, a voz de Ila elevou-se no compartimento vizinho: --Tony !
 --Que queres tu ? . . .
 --Ouvi-te mexer. Onde estamos? --Em Hagyeshalon.
 -- j a fronteira ?. . .
 --Sim.
 Fez-se novamente silncio; depois, Ila voltou a chamar: --'rony.
 --Que desejas, minha querids ?. . .
 320 A AVENTURA EM BUDAPESTE  --Ainda no consegui dormir.
 --&ambm eu no. Mas j  mais que tempo de o fa- zermos.
 --Vou tentar. Talvez, enquanto aqui estivermos para- dos . . .

 Novo silncio. Seguidamente ouviram-se falas em sle- mo, um a&sobio, depois um novo e grave toque de si- nta e a campainha do telgrafo a retinir, ali perto. Por fim, o combio arrancou outra vez; as rodas comearam de mover-se lentamente, lentamente... O ritmo do com- boio foi-se acelerando, a sua msica tornou-se mais forte e mais variada, at dar toda a orquestrao de sons dum combio que vai correndo, galgando atravs da noite. Ro- dava com velocidade louca, fustigado pela chuva e perfu- rando a treva--vindo de Peste e em direco a Viena, a Brest, ao Falc&nia. Para a Africa, ao encontro da paz...
  Passava j da meia noite e ainda Kelemen se encon- trava no bufete da estao, a observar a ga?-e atravs das vidraas. De sbito, deu pela presena de Kdr junto do combio de Paris. A mulher ia ao lado dle. O arquitecto ocupava-se nesse instante em dar uma gorgeta ao empre- gado da carruagem-cama, o qual se inclinou em profundo agradecimento. Depois, a senhora Kdr, num passo leve, saltou para a carruagem, e o marido imitou-a. O combio, magnificamente iluminado, ps-se em movimento, e Kele- men abandonou a estao, remergulhando na obscuridade, caminhando sob a chuva midinha e ao longo de ruas mal limpas e lamacentas. Chegado a casa, subiu vagaro- samente a escada s escuras, tacteando a parede para se no enganar no andar. Doa-lhe a cabea; sentia uma surda presso sbre a nuca, presso acompanhada de zumbidos. "S o que me faltava, era isto!" pensou, fu- rioso. E abriu com estrondo a porta da casa. Esta estava imersa em trevas. Mas a porta da cozinha escancarava- -se.lhe em frente, e de l saa um enjoativo cheiro a res- tos de comida e  gua das lavagens da loua. P&-- !
 veio-lhe uma nusea, complicada ainda com o arrto   AVENTURA EM BUDAPESTE ` 321  cerveja que tinha emborcado no bufete da estao. A pressa, dirigiu-se para o seu quarto, sempre s apalpade- las na escurido. A luz crua da lampada elctrca no tar- dou a despenhar se sbre a cama j aberta, de colcha no ltimo fio e qusi sem sinal de franjas, e sbre o oleado da mesa. "Pu-- ! Pu d- !. . . & Esta exclamao era a sua mais eloqente forma de exprimir desgsto. Com gestos bruscos, arrebatados, des'piu-se, espalhando pelo quarto a roupa e arremessando para longe os sapatos. ao sentir o contacto mido e frio da camisa de noite, teve um arrepio. Depois estendeu-se, o corpo hirto na cama gelada, o olhar perdido na escurido. Subitamente, atravessou-lhe o crebro uma frase, aquela mesma que, desde a vspera, desde o ltimo aprto de mo de Kdr, se Ihe aninhara no esprito e le se esforava por escorraar de l para fora Essa frase era, na sua verdade cruel e irrefutvel, semelhante a uma sentena derradeira,  lapidar eloqen- cia dum epitfio. Ela dizia: "Falhou&. Essa sentena &fa- lhou& ps-se-lhe a danar diante dos olhos, em caracteres brilhantes e glaciais. Eles tinham abalado. Kelemen ouviu, vindo da rua, o toque da campainha dum &elctrico& das carreiras retardatrias; sse som repetiu-lhe: "Falhou&. A atmosfera fria do quarto cochichou-lhe tambm: "F&lhou.&.
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 Tirou as msos para fora da colcha e, num gesto infantil e suplicante, levou-as  pobre cabea dorida, demasiada- mente cansads e exausta para poder reflectir, avaliar  justa a sua situao. Em seguida, outra voz enfraquecida e lamentosa Ihe surdiu do ntimo: " preciso principiar de novo... voltar atrs, ao ponto de partida..." Cheio de angstia, escutou um instante essa voz; depois, num es- fro violento, os dentes cerrados, fechou os olhos e vol- tou-se para a parede, num movimento de extremo aban- dono e soltando um dbil gemido.
 No dia imediato, depois do almo, subiu as escadas da sua irma Carlota. O cunhado sara j, mas Carlota estava em casa. Desde que se encontrava outra vez grvida no ia para a loja do marido seno umas duas ou trs horas por dis, e apenas da parte da manha. A mae dormia a.
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 322 A AVENTURA EM BUDAPESTE  sesta, como era seu costume. Yoli, sentsda numa cadeira de baloio, ia entregar-se  leitura dum romance. Um forte cheirQ a couves empestava a atmosfera da sala de jantar.
 "Tambm eu comi hoje couves, ao almo&, disse Kele- men, ao entrar.--&Este fedor a couves  insuportvel, comentou Yoli; j te pedi que abrisses a janela.& Carlota, lentamente, ergueu o nariz no ar e farejou. &No  to in- suportvel como isso, replicou; depois queixam-se de que faz frio aqui; mas se o cheiro  insuportvel a sse pon- to, no tens mais do que deixar o livrinho e ires tu pr- pria abrir a janela. . . &--&Est bem", disse Yoli, conti- nuando a leitura.
 Kelemen sentou-se  mesa, pegou num palito, apode- rou-se depois do lorgnon da mae e folheou, por fim, dis- traidamente, o jornal atirado com negligncia para cima de uma cadeira.
 --Que h de novo, Andr ?. . .--preguntou Carlota.
 --Nada--respondeu le procurando revestir-se de pre- sena de esprito.--No leste aquilo ?. . . o vampiro de Dusseldorf. . .
 --No te faas parvo. Que h de novo a teu respei- to ?.. . Nada ?. . .
 --Nada--respondeu le numa voz quebrada de animo; --supoes que  coisa assim to fcil, hoje ?. . .
 --Foste l, a casa dos Me4czer ?. . .
 --No--disse le na mesma voz surda--ainda no fui. A falar com franqueza, no julgo que aquilo me sirva.
 --Isso  que no est bem--replicou a irma num tom duro de voz--no tens o direito de formar uma opinio antes de teres ido ter com les. Tanto mais que o Carlos j Ihes falou de ti... Ele vai ficar pasmado de tu ainda te no teres dado ao incmodo de ir l. E  Havas ?. . .
 J l foste ?. . .
 --Ainda no.
 Ca&lota parou junto da mesa, em atitude um tudo nad teatral: --Andr, a falar verdade, no te percebo. Esquece&-to de que so passados qusi cinco meses desde que...
  A AVENTURA EM BUDAPESTE 323  Kelemen quis interromp-la. Yoli levantou os olhos, mas no abriu bca.
 --Admiras-te depois de que nada de resultado, e o Car- los bem se pode cansar a recomendar-te para a direita e para a esquerda... Yolanda, peo-te, prosseguiu Carlota voltando-se agressivamente para Yoli, sabes bem que hoje  dia de a criada passar a ferro; ests para a sem fazer nada, preguiosa, enquanto o trabalho cai todo em cima de mim...
 --E depois ?. . .
 --E depois. .. A menina no teria a bondade de aju- dar-rme, no poderia desembaraar a mesa ? --Se  preciso, v l !... --disse Yoli; em seguida, num gesto indolente, colocou o livro sbre o parapeito da janela; levantou-se, espreguiou-se, deu dois passos para a mesa e tomou na mo os culos da mae.

 --Olha l, Andr--interpelou ela, encarando o irmo --que fazes esta tarde?. . .
 --No sei ainda, porqu ?.. .
 --Podes levar-me ao cinema, ou a uma pastelaria qualquer ?. . .
 --o cinema ?. . . No, francamente, no tenho ne- nhuma vontade disso...
 --Bem, -me indiferente--continuou Yoli... Desejava falar contigo, com sossgo, durante uma bo meia hora.
 --Dar-se- o caso de eu os incomodar 7--preguntou Carlota, num tom provocador.
 --Com tda a certeza--respondeu com tranqilidade a irma, fi&ando-a de maneira insistente.
 Ento Carlota, furiosa, arremessou para cima da mesa com a escovinha das migalhas e sau, batendo com a porta atrs dela. Yoli, em silncio, tirou a toalha e atirou-a, jun- tamente com os guardanapos, para o aparador, para o lado dos pratos e dos talheres. Findo isto, voltou a sen- tar-se na cadeira de baloio.
 No rosto branco de Yoli, escoltando os seus lbios finos, cavavam-se dois sulcos duros e amargos. Os olhos dela apresentavam circulos azulados em trno. "Tem vinte.
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 324 A AVENTURA EM BUDAPESTE  anos e meio&, considerou Kelemen, lanando de soslaio um olhar  irma. &Que mau aspecto que ela tem !. . .& Yoli sentada na cadeira de baloio, dobrou as pernas sbre o prprio corpo. Tinha vestida nessa ocasio uma saia azul escuro, com um pull-07Je1 branco; por baixo da saia escapava-se um joelho assim como uma parte da coxa.
 "V l se te sentas como deves&, quis le ainda dizer; mas enguliu essas suas palavras antes de as ter pronun- ciado. Cau o silncio entre ambos, apenas perturbado pelo rudoso ranger duma porta l para dentro, assinalando a passagem de Carlota.
 Yoli ergueu os olhos.
 -- o programa do costume, depois do almo. Agora, entram as lgrimas. . . &aeu Deus! que farta estou disto tudo !...
 Kelemen tentou fazer desviar a conversa e disse brus- camente: --Bem, a que cinema queres ir ?. . .
 --A nenhum--respondeu Yoli--no tenho a mnima vontade de ir ao cinema; se te fiz a proposta foi simples- mente para nos desembaraarmos da Carlota. O que quero dizer-te, posso muito bem dizer-to aqui mesmo.
 --Como quiseres--assentiu Andr numa voz estran- gulada.
 Sabia j do que se tratava. Esta conversa no podia dei- xar de efectuar-se; era fatal depois daquela rpida frase que em voz baixa, dirigira a Yoli, do automvel, quando haviam ido ao monte de S. Gerardo...
 Yoli fitou-o novamente, fustigando-o com o facho azul esverdeado das suas pupilas: --Eles j partiram?--preguntou na sua voz sacu- dida.
 --Sim.
 --Foste acompanh-los  gare ? --No, isto. .. ...
 --Como, isto  ?. . . Sim, ou no ?. . .
 --No os acompanhei  &are, mas achei-me, sem bem A AVENTURA EM BUDAPESTE 325  saber como, no bufete da estao. Todavia no Ihes fui di- zer adeus.

 --Compreendo--disse Yoli.
 O silncio cau de novo entre os dois irmos, um siln- cio glacial que  laia de pesada cortina, os isolava do mundo exterior, um silncio impenetrvel, intenso e im- possvel de suportar.
 --Era isto que querias dizer-me ?--preguntou Andr, apenas para no estar calado, pois temia sufocar naquele silncio.
 --Sim--replicou Yoli, e novamente emudeceu.--Tu sabes que le tornou a passar aqui.
 --&uando ? . . .
 --Ontem, de tarde. Mas no subiu. Eu ficara tda a tarde  janela, no para ver se le vinha, mas apenas por- que, no tendo vontade alguma de sair, queria p&ssar o tempo a olhar a rua. O carro dle parou junto da cas& ali defronte... No subiu e, depois de estar um bocadinho parado, foi se embora. No chegou mesmo a descer do automvel. Foi at s pelo carro que eu conheci.
 Novo silncio; a cadeira de baloio oscilou.
 --Escuta, Andr, eu queria que. . . que me respondes- ses com tda a franqueza, se puderes. Eu  que estraguei tudo ?. . .
 --Peo-te, Yoli. . .--esforou-se le por protestar-- Eu no . . No compreendo 8 tua pregunta e , alis, su- prfluo falar agora nestas coisas.
 Yoli ergueu-se da cadeira de baloio. Nas suas faces brancas flamejam duas manchas dum vermelho ar- dente.
 ---Andr, quanto a mim, no quero j saber do caso para nada; mas  preciso que ns dois nos entendamos-- insistiu ela. Com quem queres tu que eu me abra?. . .  bem contrariada que o fao, mas  absolutamente neces- srio, porque.. . Andr, tu sabes, sim, o que le pretendeu de mim...
 Penoso e profundo silncio, aps o que a jovem conti- nuou numa voz branda, a custo perceptvel:.
.
 326 A AVENTURA EM BuDApEsTE  --Sabes o que le pretendeu de mim, e aconselhaste& -me a ser condescendente...
 --Eu ? . . .
 --Sabias que eu j n&o era uma verdadeila donzela. ..
 e quiseste que...
 --Eu, eu ? . . .
 --Sabias que 81e me fazia tda a espcie de propostas, que me dirigia mentiras, loucuras, oferecendo fazer-nos emigrar, a mim e a ti, para a Africa...
 O seu rosto, sob os cabelos ruiv09, era agora todo le uma ardente mancha.
 --Pode ser que tenhas tido razo; simplesmente& o que ignoras  que sou do gnero daquelas de que os homens se aborrecem de-pressa, muito de-pressa, e ento... teria sido grave... teria acabado mal... pois tu sabes que le no passa de um imundo egosta... eu pressentia-o& eu sabia-o, e foi por isso que.. .
 Com os joelhos num tremor doentio, com o vcuo no crebro, le teve de ir apoiar-se ao peitoril da janela, fi- cando a fitar, de a, com os olhos fora das rbitas, a irma.
 --Sabes ? Eu fui, szinha, ter com 81e ao hotel. . .
 Um sil8ncio molesto os envolveu e oprimiu.
 --Declarei-lhe, efectivamente, que nunca... me tocaria, a no ser que se divorciasse do seu velho camafeu... e que casasse comigo...

 Nos ouvidos de Kelemen fz-se neste momento um medonho zumbido, semelhante ao uivo de uma sereia e que, brando a princpio, se tornou cada vez mais agudo, impedindo-o qusi de ouvir a voz da irma: --Dize-me, Andr... Fui eu quem estragou o neg- cio ? . . . No se deveria talvez. . . ter querido tudo ao mes- mo tempo... deveria eu ter-me entregado?... Ver-se-ia depois ?. . . Aconselhaste-me a ser condescendente . . . Pois bem ! Fui condescendente demais, mas no bastou... Dize- -me, foi por minha culpa que aquilo se perdeu, para ti e para mim ? . . .
 Kelemen tomou, bruscamente, uma atitude fria e dura: A AVENTURA EM BUDAPESTE 327  --No compreendo Yoli, o que estas para a 8 dizer.
 Perdeste o juzo 7. . . No sabes o que dizes. . .
 --Visto que estraguei tudo, tanto pior. Tambm eu perdi completamente o juzo. Foi-se a ocasio. No hei-de morrer por causa disso... Hei-de arranjar-me... j que no foi le... pelo menos com o Toto Huszr, e depois com outros mais...
 Num salto, Andr arremessou-se sobre ela e agarrou- -Ihe num pulso, apertando lho at qusi o esmagar: --Enlouqueceste 7.. . Atreves-te a dizer uma coisa dessas diante de mim, diante do teu irmo 7. . .
 A dor quebrou imediatamente a embriaguez da rapari- ga, fazendo-a voltar a si, daquele seu acesso de sinceri- dade histrica. O tom vermelho desapareceu-lhe do rosto, a voz retomou o timbre normal; voltou a sentar-se na cadeira de baloio e pegou outra vez no livro, que deixara no parapeito da janela.
 --Andr... seja, no falemos mais nisso.
 Kelemen sufocava. No podia suportar ficar ali mais tem- pO aNo posso ficar aqui nem mais um minuto...& e, neste mesmo instante, abriu-ss a porta do quarto da mae e a velha senhora apareceu, fitando-a com os olhos pis- cos, pisados da longa sesta: --O qu, meu Andrzinho, tu ests c7. . . No sa-.
.
 bia... Yoli, ser preciso pedir-lhes sempre, a ti e  Car- lota, que me vo acordar?...
 Impossvel foi a Kelemen escapar-se. Foi obrigado o ficar uns minutos mais. ao observsr a idosa senhora, uma dor vaga e inexprimvel apertou-lhe a garganta, um senti- mento de piedade qusi inconsciente invadiu-lhe o cora- o. Uma madeixa de cabelos brancos caa-lhe, do lado direito, sbre a testa da velha mama. Ela trazia um ves- tido de andar por casa, cor de caf, com leite, e apresen- tava na frente da saia uma grande mancha clara, de gor- dura ou coisa idntica. A biqueira dos sapatos, deformada, recurvava-se para cima. Kelemen nem temia ja sequer que ela Ihe fsse fazer preguntas que o atormentassem e s quais no soubesse responder: "Que fz sse teu amigo.
.
 328 A AVENTURA EM BUDAPESTE  estrangeiro?... J encontraste, enfim, um emprgo?..
 Ainda tens dinheiro?..." Nem sequer temeu agora essas preguntas. O nico sentimento que o dominava ento era a piedade--por causa daquela madeixa de cabelos bran- cos caindo sbre a testa, por causa da ndoa clara da saia e por causa das biqueiras deformadas. "Pobre mama !. . .

 Tambm tu, sim, terias aproveitado com aquilo, minha mamazinha, minha querida mamazinha..." --Estou com ba9tante pressa, mama. Voltarei amanha ou depois, disse le, ao beijar a mo da mae. A Yoli lan- ou apenas um vago. "Passa bem h- Na ante-camara en- controu Carlota, que, amuada, Ihe voltou as costas quan- do passou ao p dela.
 Encontrou-se depois na avenida, com a chuva a cair-lhe em cima. A gua fustigava o seu guards-chuva aberto, salpicava lhe de lama os sapatos e as calas arregaadas.
 os transeuntes iam e vinham, movendo-se entre as umbe- las como se fssem tteres suspensos do cu por outros tantos cordelinhos. "Meu divino Senhor ! pensou le, agora  com Toto Huszr, amanlla ser com outros; com Antnio &dr  que no, com sse Kdrque. . . Foi ela quem estragou a negcio?... Qual negcio, santo Deus ? ! . . . porque eu queria vend-la . . . porque eu sabia que ela j no estava virgem, que j tinha tido um ou mesmo muitos amantes, que o era agora de Toto Huszr e viria a ser doutros mais7... Eu quislvend-la... Quer eu tivesse suposto que ela j o deixara de ser. . . quer eu supusesse de certeza que era ainda uma donzela, no a teria querido de facto, vender ?. . . Talvez tudo se tivesse arranjado, tudo se teria passado pelo melhor, tsnto para mim como para ela prpria, se aquilo tivesse dado resul- tado. Mas no deu...& Num contnuo monlogo, reparou a certa altura em que caminhava precisamente na direco oposta  da estao do caminho de ferro do Oeste, stio onde tinha uma en- trevista marcada. Chovia sempre; rabanadas violentas de vento sacudiam as r-&ores despidas e enchardas: "Que tempo to infame! Naturalmente, na Africa do Sul, est A AVENTI)RA EM BUDAPESTE 3&9  sempre bom tempo... E, de sbito, tomou-o todo uma lassido de chumbo. J na vspera se apossara d81e aquela mesma lassido, quando, depois de uma noite qusi td& em claro, voltara da estao para casa. Estacou defronte da extremidade da ponte, na paragem do "elctriCo&. ao longe, do lado da avenida de Pozsony& vinha a chegar um carro. Este aproximou-se lentamente e parou diante dle.
 Desceram do veculo dois oper&rios "Tens lume ?&--pre- guntou um dos homens para o outro. Uma senhora gor& da e idosa, com um chapu de plumas, com uma pasts amarrotadssima debaixo do br&O, subiu para o carro, que se ps logo em andamento. "&ambm eu devia ter subi- &do", relectiu e, depois de transposto o extremo da ponte, tomou pela direita, para entrar num largozinho escuro e onde se no via ningum. &E&l devia ter enfiado pela es- querda, para o lado onde h ?&tra paragem de "elctrico&.
 Os seus passos eram pesados, como se caminhasse enter- rado na lama at os tornozelos. Subitamente, sentiu ne- cessidade de sentar-se, com mdo de cair para ali. Encos- tou-se ao espaldar dum bancO, mas ste estqva molha- dssimo. "Creio que estou doente. . .& Escurecia cada vez mais. A fileira de altos candeeiros projectava, do lado da ponte, uma luz branca. "Tenho de sentar-me, eslou inca- paz de dar um s passo mais que seja. ..& O friO mido.
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 fz-lhe correr pelas costas um calafrio. "Vou entrar num caf para tomar um copo de Cognac. . . ou, ento, encon- trarei de-certo aqui, no cais, utn abrigo;  mais perto. . .& disse consigo mesmo, descendo sempre em direCo ao cais. J h trinta anos que vivo em Peste, e nunca tinha vindo para estes lados." Arrastou&se& com a cabea per- dida, o corpo arquejante de fadiga& atormentado pela eter na inquietao da fuga. Atingira j o embarcadoiro e ia agors ao longo dos entrepostOs. Cada vez estava mai5 escuro. . . dir-se-ia que se cerrara j a noite!. . . Um& boa e tranqila noite, aps todos os dias cheios de rudos e de luz. .. "Quem me dera dormir at fartar, pelo menoS doze horas por dia, repousar completamente !" O guarda-chuva foi embater no muro dum armazm.
 330 A AVENTURA EM BUDAPESTE  Afastou-se assustado. Enxergavam-se, no alto, os lampa- drios do Corso e, mais acima ainda, as casas desponta- das de luzes. L muito no a]to, via-se uma janela magni- ficamente iluminada, num atelier de pintor ou de escul- tor, sem dvida. Os pontos luminosos da ponte tremelu- 3& ziam a custo na ntmosfera mida e brumosa. Inesperada- mente, acabou ali o alinhamento do tapume do entreposto e le encontrou-se ao p da escada que descia para o em- barcadoiro. Sentou-se a, num banco, defronte da sala de espera, e manteve-se com o guarda-chuva em punho, mas pendido para o lado, mal Ihe resguardando a cabea. Ten- tou levantar-se, ir-se embora. Nisto, uma espcie de inr- cia paralizou-lhe o brao e fz-lhe largar o guarda-chuva, que bateu no cho com um rudo frouxo e rolou um pou- co para diante, antes de ficar imobilizado, com a parte interior para o cu, como qualquer animal negro que para ali tivesse rebentado. "Santo Deus ! . . . estou doente, de- via ir para casa, Santo Deus ! vou desfalecer. Santo Deus I preciso de apanhar aqule guarda-chuva... Que vim aqui fazer?. . . Porque  que no subi para o "elctrico&?. . .
 Meus Deus ! faz tanto frio, chove, eu precisava de sol.
 Santo Deus les vo pr nos jornais: "Em Paks, o rio lanou  margem o cadver dum desconhecido&. No, no  verdade,  o corpo de Andr Kelemen, morador em Bu- dapeste. . . Meus Deus ! Tenho de me ir embora imedia tamente . . No me deixo ir abaixo. .. No me deixo it abaixo...& E neste instante, uma luz pura e fria acen- deu-se-lhe no crebro, a calma pura e serena da compre- enso aboluta das coisas... Ergueu-se, avanou at  borda da muralha, desceu dois dos degraus ai escavados, "No. . . j nada tenho a fazer. Sou incapaz de recomear tda esta vida intil.  preciso acabar de-pressa, bem, sem torpeza...) Desceu outros dois degraus. "A minha vida est liqui dada, cai por terra, melhor fra ter morrido durante a guerra.. . Melhor fra. . . Desejaria viver doutra forma...
 mas  tarde demais,  muito tarde j. Senhor ! Perdoai-me, eu preferiria que isto fsse doutro modo... Nunca supus  AVENTURA EM BUDAPESTE 331  que a degraa se encarniasse contra mim... No sabia que no era apto para criar coisas ou para manter-me, no sabia que no servia seno para dar cabo de mim...
 nem mesmo isso... que no servia seno para estragar tudo ! A nossa gerao no nasceu para... ela no pode...
 j voltar ao principio... Eu pelo menos, no posso, no...

 Eu no queria isso, Senhor!..." Brucamente o p direito, que a gua molhava j at ao artelho, teve uma caimbra. Deixou-se cair sbre um dos degraus: "Como est frio... Que bela cura pela gua fria !& O rio apresentava-se sombrio, inquieto, rpido; onda- zinhas espumosas erguiam as suas cristas, arremessan- do-as depois para trs... A gua j Ihe abraava os joe- lhos... a umidade enregou-lhe imediatamente as pernas, entorpeceu-lhe o pensamento. " extrordinrio, no est gelada de todo, est qusi morna. . . E depois, eu sei na- dar . . . & O rosto dle tinha uma expresso infantil, amargurada.
 Estava tudo escuro; smente algumas luzes vagas e lon- ginquas Ihe passavam diante dos olhos... mas, dentro de si prprio, havia uma luz deslumbrante e pura, um claro suave, bom, doce e apaziguador. Subitamente, ex-.
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 perimentou uma sensao igual quela por que passava outrora, na vspera do Natal, quando era rapazinho, quan- do a rvore do Natal tda ornamentada, cheia de presentes dos pais, se encontrava j pronta na sala de jantar e a porta desta ainda se mantinha cerrada. . . Sabia que ia ter um combiozinho, um castelo, assim como uma lanterna mgica, brinquedos que mostrara desejos de possuir... e o que unicamente ignorava era como seriam o combio- zinho, o castelo e a lanterna mgica.. . Sensao agrad- vel, cheia de esperana, de felicidade e de pressentimen- tos... Ento, docemente, deixou-se descair no seio da gua.
 Durou isto apenas um momento. Afundou-se logo. Um turbilho tomou conta dle e arrastou-o para a distancia dalguns metros de ali. Em seguida, a gua restiluiu-o .
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 332 A AVENTURA EM BuDApEsTll&  superfcie: a sua cabea amergiu. Neste instante sotou` um grande e horrvel grito, com o desespro daquele que a morte j embebeda ou que o instinto de conservao acaba de despertardumdelirio: "So... cor...or...ro!...> O esfro exigido por aqule grito fz-lhe deitar gua pela bca e pelas narinas, mas as roupas molhadas arrasta- ram-no para o fundo. Desapareceu. Agitando furiosamente os braos e 8S pernas, conseguiu ainds vir  tona de gua uma vez mais, emergir entre as vagas at meio-corpo; mas reafundou-se logo. O instintivo terror da morte, o ltimo sobressalto da sua conscincia prestes a extinguir- -se, fizeram com que expedisse um derradeiro aplo, que soou com um uivo: &So . . . cor . . . or. . . ro . . . " Neste ins- tante, a gua sorveu a voz com um chapinhar cioso e voraz. Acabou-se tudo.
 O eco do seu grito deslizou sbre a superficie da gus, foi embater nos armazns da margem e penetrou numa casinhota em que dois guardas da alfandega fumavam de cachimbo,  luz mortia e avermelhada duma lampada elctrica.
 --Esto a bradar por socorro--disse um.
 E logo ambos sairam fora. O grito repetiu-se-lhes de novo nos ouvidos e, iludidos pelo eco, puseram-se a cor- rer na direco oposta Estava escuro como breu. Para- ram hesitantes.
 Tu vs alguma coisa, Jos?...
 --No, e tu ?. . .
 Ambos olharam para a gua negra.
 --Contudo, gritaram, e at por duas vezes.
 --Sim, no re&ta dvida.

 Um vento'frio, incomodativo, fustigou-lhes o rosto.
 --Mas eu no vi passar ningum por aqui.
 --Nem eu tampouco.
 Um silncio. A gua chapinhava docemente de encon- tro  pedra da muralha.
 --Mas eu ouvi qualquer pessoa gritar por duas ve- zes.
 --Sim. Eu tambm ouvi.
  A AVENTURA EM BUDAPESTE  Ento, o mais alto dos dois hornens encolheu os om& bros e desviou-se da gua: -- Santo nome de D. . .I Mas um ! assim como assim, j no h nada a fazer.
 --Sim, j no h nada a fazer.
 Depois, debaixo da chuva lenta e midinha, recolherarn ambos  barraca.
 s  PREFACIO  PRIMEII&.A PARTE &fO e5pa&eiro..34 SEGUNDA PARTE --  TERCEIRA PARTE -- &4  QUARTA PhRTE -- a.
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